Terceira coluna

Estudar como?

 

Os franceses não são conhecidos pela sua educação, nós todos sabemos disso. Eles gostam de se afirmar e ridicularizar com especial crueldade o Brasil, ainda mais depois de vencerem a nossa seleção, de novo, no sábado passado. O autor do gol, Therry Henry, fez questão de chamar 180 milhões de pessoas de ignorantes. De acordo com ele, o tempo que eles gastam estudando na França é justamente o tempo que se gasta jogando futebol por aqui; sendo assim, não é de se surpreender que a nossa seleção seja tão temida. Em 2002, ele perdeu outra boa oportunidade de permanecer calado e disse que o Brasil era um time decadente (sendo que a própria seleção era tão boa que nem chegou a passar da primeira fase na época).

Eu sempre reclamo que os jogadores de futebol nunca dizem nada de interessante nas entrevistas, e afinal começo a descobrir o motivo. Se for para abrir a boca, que seja dito algo pensado! O que mais dói é ver como as pessoas concordam com a afirmação dele. Mas não, senhores, Thierry Henry NÃO está certo!

Quando não se tem o que comer, quando a fome é maior do que o desejo de comprar um caderno, é claro que fica difícil estudar. Quando se mora em um país no qual é necessário pagar duas escolas para que o seu filho tenha uma educação satisfatória – os impostos do ensino público e a mensalidade do colégio particular –, com o perigo também de estar se pagando apenas por um diploma, e não por um aprendizado, chega o momento de perguntar, quem tem culpa se o brasileiro não estuda?

Francamente! O nosso próprio presidente é tudo, menos estudado. O povo nunca aclamou pessoas conhecidas pelo seu nível de estudo – ele aparenta gostar mais de quem se dá bem sem o esforço de estudar… É toda uma troca de valores e de interesses. O ensino público nem mesmo ilude seus alunos, dizendo que eles poderiam sim conseguir entrar em uma faculdade pública. Se perguntados, eles não têm esperança de verdade. Acabam denunciando um desejo de conseguir um curso superior… Mas sabem que, lidando com professores que cochilam em aula, sentam-se à mesa e lixam as unhas, apenas para cumprir tempo, as suas chances são praticamente nulas.

Não digo que é impossível; mas não é provável, assumamos. O vestibular é cruel com qualquer aluno; no ano passado mesmo, a Fuvest foi acusada de cobrar conteúdo superior em Geografia e mesmo em uma pergunta que envolvia a leitura de “Dom Quixote de La Mancha”, que não é passado em qualquer Ensino Médio do país.

É muito fácil nascer e crescer na França, dona de um dos maiores índices de desenvolvimento do mundo, ter seu ensino público de qualidade e entrar para a seleção de futebol do país, para depois apontar o dedo para um povo tão judiado quanto o nosso e nos acusar de não estudar. Com uma afirmação como essa, ele só demonstra uma ignorância maior do que a dos analfabetos, que pelo menos têm o benefício da humildade.

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