Religião

Assunto espinhoso, eu sei.
Mas é que hoje eu vi uma coisa que me revoltou.
Não sei se vocês já tiveram a infelicidade de ver na tv a tal da "sensitiva" Márcia Fernandes. Estava eu na sala, hoje de manhã, fazendo um esforço pra ler, porque queria ficar junto com os meus pais mas não queria ouvir as barbaridades daquela mulher. Pois bem.
Ela já tinha falado um série de barbaridades. Já tinha falado quem estava em última encarnação, quem tinha problema x por encosto y, até que perguntaram pra ela sobre morte de crianças, abortos e etc. Ela falou que elas "simplesmente voltam pro universo" ( que já de cara me fez enxergar a Terra como algo MUITO fora do universo, claro…) e que seriam reencarnadas em coisa de dez dias (mais rápido do que você demora pra ir pra outro país de ônibus, mais certo que sedex 10). Contudo, o cúmulo vinha ainda depois: as almas eram remanejadas por computador! E era algo "muito bonitinho"!
Ah, não, aquilo foi demais. Minha mãe ficou revoltada porque eu e o meu pai disparadamos a rir. Nem sei do que eu ria: da falta de noção, do ar de "eu estive lá, só não mandei cartão postal porque o correio tinha fechado" ou dos apresentadores, que levavam tudo tão a sério.
Ela se diz espírita, não é? Pois é, tenho amigos espíritas e nunca vi nenhum deles ter tanta certeza do que acontece no além vida.
Particularmente, acho que ninguém tem condição de saber. Por isso, sou agnóstica… Acho muita prepotência das pessoas querer ter certeza de que existe uma vida além das maneiras z e a. Fico sinceramente revoltada. Quando vi aquele projeto de cartomante soltar uma pérola daquela, senti a minha inteligência ofendida, viu. De boa.  Ainda fomos forçados, eu e meu pai, a calar a boca. Bem típico da tv. Senta aí e escuta, pensa não senão perde a graça!
 
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Bom dia

E agora é só você que me faz cantar.

As palavras já não dão o apoio de antes… A verdade é uma só e é muitas, minhas mãos estão secas. Toda a minha infância, minha mão esquerda esperou uma chance pra brincar de escrever também. Era ela que me arrastava pra máquina de escrever, depois pro computador; tudo culpa da mão esquerda. Inveja. Coisa feia.

A minha avó materna morreu há pouco menos de uma semana. Queria ter estado aqui. Quero dizer, queria, mas não fazia questão. Hoje ouvi a coisa mais desagradável da minha vizinha possível: "chegou e não encontrou sua vó, né? Eu falo isso pro meu neto, vocês ficam viajando e um dia não encontram mais a gente vivo…".  Será que o meu sorriso amarelo deu uma idéia da grande chance que ela perdeu de calar a boca? Improvável.

Agora eu ando meio solta. Meio abandonada. Foda-se não ter sido a intenção, é como eu estou. Agora que voltei de novo… Senti que não tinha mais o amor que tinha antes. Daí o que eu faço com o meu?

Enfio no cú?

Ah, eu peço paciência. Sinto raiva como qualquer pessoa. E não estou lá muito afim de ouvir que é tudo normal. Que os finais fazem parte da vida da gente, que a nossa sociedade nunca esteve preparada pra a morte de pessoas que amam. Daí sempre vem alguém e me fala de uma cultura alternativa na puta-que-pariu e me diz que as pessoas vestem branco e festejam a morte de quem amam. Tá. E daí? Vou pro Japão e talvez lá me digam algo melhor, em japonês. E que eu não entenda uma palavra.

Tem uma coisa que eu gosto aqui: tenho a nítida sensação de invisibilidade. Ninguém mais tem muito tempo à toa na internet, pra ler blog alheio. Conferimos e-mails, respondemos recados, colocamos fotos novas no orkut. Daí pronto. Isso me encoraja a colaborar cinicamente com o individualismo da internet; escrevo sobre mim de forma que isso não importe a mais ninguém, a mais nenhuma ínfima pessoa no universo todinho, e leio sozinha. Às vezes visito a página, olho, acho legal e desconecto.

Às vezes eu choro, também. Já nem sei o motivo. Quem sabe seja por inércia, que nem eu falei mais cedo. Se eu ligar o foda-se, vai fazer diferença?
Improvável, não?
Se eu escrevesse isso num diário, ou num rolo de papel higiênico, eu ficaria igualmente satisfeita?
Não, claro que não. Não sejamos inocentes, porque eu não escrevo pra ninguém, nem mesmo no meu diário. Escrevo aqui por alguma esperança infantil. Li uma frase boa disso no meu Saramago: ter esperança de quê? Ter esperança já basta, ainda que pra nada. Ela pode existir sozinha, e só lá pra frente a gente vai saber porque ela continuou existindo.

E agora é só você que me faz cantar.

Anestesia

Atingi um momento em que eu já não sei dizer o que eu sinto, porque não sei.
De verdade. Já cheguei naquele ponto em que se sofre por inércia.
Queria não ter que me mexer. Quero ficar parada.
Queria consolar as pessoas, mas não consigo. Sinto-me tão longe de tudo, e me sinto fraca.
Sinto que nem a literatura me esconde.

Quero voltar ao Ensino Fundamental e ler Harry Potter pela primeira vez.
Os motivos que me levaram já não são tão fortes pra me manter distante.
Já não tenho balanço próprio e parece que nada nunca se restabelece do jeito que eu preciso. Estou tão cansada de amadurecer.

Estou sentindo muita, mas muita falta mesmo, da minha parede de gelo – que chamaram de orgulho.

Pareço agora um animal fora da casca, que só espera o primeiro predador chegar, com medo e com certa resignação. Se pudesse, resistiria. Mas não quer/quero.
Fico envergonhada. Não tenho mais motivos pra ser fiel; serei então, fiel a mim mesma, ainda que esteja a menos que pela metade.