Bom dia

E agora é só você que me faz cantar.

As palavras já não dão o apoio de antes… A verdade é uma só e é muitas, minhas mãos estão secas. Toda a minha infância, minha mão esquerda esperou uma chance pra brincar de escrever também. Era ela que me arrastava pra máquina de escrever, depois pro computador; tudo culpa da mão esquerda. Inveja. Coisa feia.

A minha avó materna morreu há pouco menos de uma semana. Queria ter estado aqui. Quero dizer, queria, mas não fazia questão. Hoje ouvi a coisa mais desagradável da minha vizinha possível: "chegou e não encontrou sua vó, né? Eu falo isso pro meu neto, vocês ficam viajando e um dia não encontram mais a gente vivo…".  Será que o meu sorriso amarelo deu uma idéia da grande chance que ela perdeu de calar a boca? Improvável.

Agora eu ando meio solta. Meio abandonada. Foda-se não ter sido a intenção, é como eu estou. Agora que voltei de novo… Senti que não tinha mais o amor que tinha antes. Daí o que eu faço com o meu?

Enfio no cú?

Ah, eu peço paciência. Sinto raiva como qualquer pessoa. E não estou lá muito afim de ouvir que é tudo normal. Que os finais fazem parte da vida da gente, que a nossa sociedade nunca esteve preparada pra a morte de pessoas que amam. Daí sempre vem alguém e me fala de uma cultura alternativa na puta-que-pariu e me diz que as pessoas vestem branco e festejam a morte de quem amam. Tá. E daí? Vou pro Japão e talvez lá me digam algo melhor, em japonês. E que eu não entenda uma palavra.

Tem uma coisa que eu gosto aqui: tenho a nítida sensação de invisibilidade. Ninguém mais tem muito tempo à toa na internet, pra ler blog alheio. Conferimos e-mails, respondemos recados, colocamos fotos novas no orkut. Daí pronto. Isso me encoraja a colaborar cinicamente com o individualismo da internet; escrevo sobre mim de forma que isso não importe a mais ninguém, a mais nenhuma ínfima pessoa no universo todinho, e leio sozinha. Às vezes visito a página, olho, acho legal e desconecto.

Às vezes eu choro, também. Já nem sei o motivo. Quem sabe seja por inércia, que nem eu falei mais cedo. Se eu ligar o foda-se, vai fazer diferença?
Improvável, não?
Se eu escrevesse isso num diário, ou num rolo de papel higiênico, eu ficaria igualmente satisfeita?
Não, claro que não. Não sejamos inocentes, porque eu não escrevo pra ninguém, nem mesmo no meu diário. Escrevo aqui por alguma esperança infantil. Li uma frase boa disso no meu Saramago: ter esperança de quê? Ter esperança já basta, ainda que pra nada. Ela pode existir sozinha, e só lá pra frente a gente vai saber porque ela continuou existindo.

E agora é só você que me faz cantar.

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