ENEM e Vestibular

Uma das coisas que eu faço na faculdade já faz bastante tempo é a representação discente. Desde 2007, 2008, participo de reuniões administrativas na FALE. Isso inclui a Congregação, que é o órgão deliberativo mais alto do curso. Nele sempre houve quatro vagas para alunos; no entanto, durante muito tempo só fomos eu e o André, amigo meu. Essas reuniões são muito ocasionais, sempre às sextas-feiras, e raramente tem mais de uma por mês, que dirá duas em duas semanas.

No entanto, anteontem os representantes dos funcionários, alunos e professores foram chamados a outra reunião, depois de ter tido uma na sexta anterior. Na pauta, apenas um item: adoção do ENEM no Vestibular da UFMG.

O pedido havia chegado da reitoria – cuja nova gestão começou há cerca de um mês – e pedia um parecer das unidades até dia 28 de abril. Como nessa próxima semana a UFMG não vai funcionar em plena forma por conta da Mostra das Profissões, lá estávamos nós.

Havia duas propostas na mesa. A primeira vinha da COPEVE (a comissão organizadora do vestibular da UFMG, pra quem não conhece): a nota da primeira etapa seria dividida meio a meio: metade do peso viria da própria prova que nós já temos, a outra metade viria do ENEM. A segunda etapa continuaria a cargo total da UFMG. O candidato, nesse formato, não tem a opção de não fazer o ENEM, e contar só com a nota do vestibular elaborado pela COPEVE: teria sim que fazer os dois, pra sua nota não cair pela metade.

A segunda proposta foi elaborada durante uma reunião realizada ainda mais às pressas que a reunião da Congregação na qual eu estive: os diretores de unidades de toda a universidade elaboraram uma idéia na qual a primeira etapa toda ficaria a cargo do ENEM, enquanto a segunda etapa ficaria a cargo das unidades, e cada uma então estabeleceria como filtraria os alunos aprovados para a segunda etapa.

Vou disponibilizar em anexo uma carta que nós recebemos levantando muitos contras sobre o uso do ENEM, mas ainda assim sendo favorável à adoção da prova. Ela cobre a maioria dos pontos levantados durante a discussão, que levou uma hora e vinte minutos, regados a Guaraná Antarctica quente e salgadinhos de queijo, daqueles que não dá pra mastigar com dignidade na frente de outros professores.

Disseram que usar o ENEM fortaleceria a seleção para o vestibular como um processo nacional. A prova é aplicada num número altíssimo de municípios no país todo. Dessa maneira, um aluno em qualquer lugar do país teria acesso ao vestibular da UFMG, que é conhecida como a melhor universidade federal do país, só com a sua notinha e com uns cliques de internet pra selecionar a universidade desejada. Bom, pra todo mundo que já passou em vestibular na vida fica bem claro que ser aprovado em uma prova acaba sendo o mais simples. É lógico que a satisfação de passar num vestibular fudido te dá força e ânimo pra muita coisa, mas não faz milagres. No caso específico da UFMG, a assistência estudantil já está enfraquecida desde a “brilhante” vitória do DCE ao derrubar uma muito questionável taxa de matrícula que todo aluno pagava quando fazia matrícula na UFMG, e depois todo o semestre. Perder duzentos reais semestrais de 80% dos alunos matriculados – porque os assistidos não pagam, claramente – foi um golpe severo à assistência feita por fundação, que já tinha seus problemas quando não tinha o número aumentado de alunos pra cuidar, graças ao REUNI. Mas o REUNI não é assunto de hoje. Recapitulando, já está foda do jeito que está. É muito bonito dizer que tem muita gente procurando a UFMG do país todo, mas não adianta se só vai vir filho de burguês, porque filho de pobre não vai dar conta de se virar por aqui – salvas as exceções, que sempre existem pra alimentar o contra argumento. Outro efeito horroroso disso: isso acabaria elitizando a UFMG muito mais do que democratizando. Deixar passar um aluno não garante em absolutamente nada a permanência dele na universidade. Teríamos, além da fantástica nata mineira de filhos de diplomatas, engenheiros e advogados, a nata de filhos de diplomatas, engenheiros e advogados e todo o país. Como diz uma amiga, rico paga cursinho, paga escola particular, mas não paga universidade. Não interessa se é na federal da Bota do Judas, mas ainda federal.

Houve também quem dissesse na reunião que o ENEM não devia ser visto como vestibular, já que há uma tendência de que ele se transforme em um exame exigido para ser aprovado no Ensino Médio. Bom, não dá pra não tratar ele como vestibular se você nos propõe usar a nota dele pra colocar o cidadão na universidade, né? Não sei se quem aguentou ler até aqui já fez ENEM – eu fiz em 2005 e 2006, segundo e terceiro ano. Sinceramente? Isso até falei lá. Aquilo não testa seu ensino básico, porque o ensino básico está séculos atrás do que é exigido lá. Também não é um vestibular, porque não seleciona de forma imparcial: ENEM não passa de uma prova de resistência, especialmente se você considerar o novo formato. Muito lindo você ter uma prova interdisciplinar, organizada em áreas. Mas que ser humano normal vai fazer 200 questões em dois dias, mais uma redação, com seis horas diárias? Isso só factível pra quem teve treinamento apropriado, não adianta. O engraçado dos argumentos contra cursinhos pré vestibulares é que adotar o ENEM só faria a coisa igualmente triste: não custa nada o Pré-UFMG virar Pré-ENEM. E, ainda por cima, os cursinhos estarão robotizando os alunos de uma maneira muito mais limitada e militar do que já robotizam, ao preparar os alunos pro vestibular elaborado pela COPEVE. Quanto a isso, nenhuma mudança prática existiria na máfia do ensino e ainda por cima seria pior, já que a filosofia de exame da COPEVE permanece mais decente que a do ENEM, questionável, inconsistente e ainda por cima pouquíssimo confiável.

Nisso eu quero inserir um viés pessoal: além dos dois ENEMs que eu fiz, ainda me inscrevi em: duas das três etapas do vestibular seriado da UFU, o PAIES (primeiro e segundo ano), dois vestibulares da USP (um como treineira no segundo ano e um no terceiro, pra Relações Internacionais), uma UNESP e uma UEL no terceiro, junto da UFMG. De todas essas provas, nenhuma me exigiu menos decoreba e mais manipulação lógica de informações do que a UFMG. Simplesmente não consigo entender porque você troca uma prova mais bem feita por uma mais feita, se as alterações práticas no modo de seleção serão pra pior ou nulas.

Se você pensa que o processo particular da UFMG é regionalista e etecetera, que a COPEVE tem vários defeitos sérios, eu concordo plenamente. Mas pense por um momento em todos os processos seletivos que existem. Vestibulares, entrevistas de emprego, exames, SAT’s americanos, análise de currículo pra entrar em Yale ou Harvard. Pense em todas as suas notas da sua vida. Algum desses métodos é 100% confiável e justo? Desistamos da idéia de que vamos chegar a um processo maravilhosamente justo e democrático, por favor. Um pouco de realismo nesse caso pode nos ajudar a encontrar uma opção menos pior. Como uma das professoras colocou na sexta, isso acaba revelando um viés de decisão política: não acatar o ENEM protege sim, os mineiros, se você pensar que manter o fator geográfico (você tem que ir pelo menos até o estado de MG pra fazer o vestibular) já exclui muita gente da seleção, ao passo que acatá-lo seria um empurrão pra tentar estimular um processo unificado. Essa idéia é muito interessante, na verdade, mas é impraticável da maneira como o ENEM é hoje.

Outro viés político, não mencionado por essa professora, mas por vários, foi que houve, sim, uma coação de cima para que a Congregação da FALE acatasse uma das duas sugestões. Isso foi exercido de maneiras sutis, sim, e inclusive nos foi dito em alguns momentos que era estúpido recusar ambas as propostas, pois isso nada acrescentava ao debate. Em certas partes, a impressão de que a nossa hora e meia foi praticamente gasta à toa, já que a decisão final não é das unidades, e sim do Conselho Universitário, do CEPE, etc. Mas, pra meu orgulho do senso de realidade da maioria dos professores da Letras, ambas as propostas foram negadas. Ainda que a longo prazo tudo aquilo não signifique nada, e ainda que acabemos adotando uma prova que não aprovamos pra selecionar os alunos na FALE e em toda universidade, a posição da Congregação da Letras significa alguma coisa: é oficial e tem o direito de ser ouvida, assim como DAs e DCEs.

Bem, é isso. Quero deixar claro que toda a argumentação aqui é tudo menos imparcial: é minha opinião mesmo e dane-se, o blog é meu. Porém, obviamente, opiniões são bem vindas; quanto mais discussão sobre o assunto, melhor.

Carta do Fórum de Processos Seletivos

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2 opiniões sobre “ENEM e Vestibular

  1. Eu acho que o ENEM, assim como o vestibular, não avalia nada que ninguém aprendeu no ensino médio. E, apesar de ser pessimista, eu acho que vai continuar entrando na federal quem tem grana pra pagar o pré vestibular, pré enem, whatever. Infelizmente.

  2. FODA.
    É o que posso dizer. Eu simplesmente não consigo achar uma posição 100%, mas acho a prova do ENEM besta por si só então isso acaba sendo uma posição. Eu não sei, transformar o vestibular em uma coisa unificada e nacional é completamente ilusória. Tenho uma amiga que passou pra Medicina em Mato Grosso do Sul. Ela continua em BH fazendo cursinho porque… ué, tem que explicar alguma coisa? É Mato Grosso do Sul! No interior! Outra coisa. Como o ENEM o risco de fraude é muito maior, como bem foi mostrado no ano passado. Milhões de reais jogados fora porque alguém vendeu a prova pra um jornalista. Não é um processo seguro. E olha que isso não entra no mérito da justiça.

    Particularmente eu gosto da prova da UFMG, pelos motivos que você falou: não tem decoreba e exige raciciocínio. Mas não é perfeita. Claro. Tanto que tem alguns cursinhos aí que ganham rios de dinheiro porque encontraram “falhas” nas provas da COPEVE e ficam por aí robotizando alunos.

    Eu não sei, a situação da universidade tá foda. Tem zilhões de pessoas entrando por causa do programa de bônus. E não é gente de escola fudida da favela não, é de filho de marechal que estudou a vida inteira no Colégio Militar! E aí, como é que fica? A Fump tá se afundando cada vez mais, tem gente que piriga sair da universidade porque não tem grana pra se sustentar… E é mais chance pros filhinhos de papai do Colégio Militar nadarem de braçada nas vagas. Morro de medo da UFMG virar um buraco, que nem aquele buraco lamacento da pseudo construção atrás da FALE.

    Ah, nem sei se isso foi um comentário coerente, mas foi um desabafo.

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