Comentário: O Fantasma da Ópera (DVD)

É claro que eu já vi esse DVD várias vezes. Sempre gostei muito, desde a adolescência. O apelo que a história desse musical tem para adolescentes é bem claro: um cara esquisito e sozinho se apaixona por uma moça n, capaz de se tornar uma diva da ópera? Bom, se eu não me engano tem uma galera “gótica” da onda Radiohead/Creep que carregou esse estigma até bem depois de quando seria aconselhável.

Aliás, eu queria avisar que tudo que eu vou falar a respeito da história de dos personagens está baseado no novo DVD – eu não vi nada da versão com a Sarah Brightman além de algumas cenas, assustadoras o suficiente pra eu saber que não queria ver mais.

De todas as vezes que eu vi, só hoje eu enxerguei uma interpretação, que é tristemente meio feminista. Mas como eu achei bases na história pra ela, explico e aí vocês me dizem o que acham.

O Fantasma da Ópera é uma história sobre solidão, música e amor. Pelo menos são as três palavras que eu colocaria como mais importantes. A Christine cresce na escola de ballet da casa de ópera, meio que adotada pela professora das bailarinas, depois que seu pai morre com ela ainda muito jovem. Durante o amadurecimento dela, uma voz estranha fala com ela quando vai rezar pro pai. Essa voz se intitula o Anjo da Música, que ela acredita ter sido mandado por seu pai, e assim ele a ensina a cantar ao longo dos anos. Com a mudança de administração da casa de ópera, as exigências antes atendidas são negadas pelos novos donos; com eles entra em cena Raoul, um jovem (convenientemente) rico e muito bonito, que tinha sido namoradinho de infância de Christine, quando ela ainda morava com o pai. Enquanto eles se aproximam, o Fantasma se vê ameaçado e também entra em cena, exigindo que Christine tenha os melhores papéis.

A cena em que ele a leva pras masmorras onde mora, embaixo da casa de ópera, é uma das mais famosas de todos os tempos, sem mencionar o refrão (The phaaaaaamtom of the opera is theeeeere… Inside my miiiiiind…). É uma cena ricamente construída em cima de um homem querendo uma mulher, pura e simples. Só que a gente entende que o amor do Fantasma pela Christine se origina do talento dela, curiosamente. O que você entende é que a união dos dois seria o ideal para a música (Your spirit and my voice, a Christine canta enquanto é levada). Ele criaria, ela cantaria. Eles nem deveriam subir de volta ao mundo das outras pessoas; bastariam um ao outro, vivendo com a música. Mas, mais importante, o Fantasma teria uma companheira e uma igual – apesar de ela não ser um gênio criativo como ele, ele resolve vê-la como igual.

Por outro lado, quando volta ao “mundo real” e percebe as aproximações de Raoul, Christine começa a ficar confusa. Sua confusão aparentemente se resolve quando o Fantasma mata um homem e joga o enforcado em pleno palco durante uma apresentação – Raoul e Christine protagonizam outra cena clássica, “All I ask of you”. Na letra, em oposição à cena do encontro dela com o Fantasma, você vê que as duas situações se opõem como Raoul sendo luz e o Fantasma a escuridão, dia e noite, liberdade e prisão; o Fantasma está dentro da cabeça de Christine e é como se a perseguisse em todos os lugares. Raoul e Christine cantam ao mesmo tempo  “Anywhere you go, let me go,too. Love, that’s all I ask of you.”

Bom, segue-se a cena de profundo sofrimento do Fantasma, que acompanhava a cena escondido – putaquepariu, o que é chorar nessa hora? Aqui está a identificação do típico adolescente rejeitado, haha. Pelo menos comigo isso rolou, e meio que ainda rola sempre que vejo essa cena. Ele sofre, e depois ameaça vingança.

A partir daí as coisas ficam tensas, os eventos se desencadeiam de maneira que por mais que Christine fique noiva secretamente de Raoul, o Fantasma é sempre um tipo de tentação pra ela. Sempre que ele usa uma voz mais cuidadosa, ela se rende e quase volta. A parte em que isso mais chega perto de acontecer é na cena do cemitério, dueto da Christine com o Fantasma, Angel of Music, I denied you.

Pulando direto pro ápice do filme, quando o Fantasma dá o ultimato a Christine, exige que ela escolha entre ficar com o Fantasma pra sempre e liberar Raoul ou negar o Fantasma uma última vez, ao custo da morte de seu noivo. Depois de um suspense de praxe, ela se aproxima e beija o Fantasma, sem a máscara. Aparentemente, o beijo dela causa uma dor que ele não tinha esperado sentir – afinal, ele a amava e ela não o beijou pelo mesmo motivo – e resolve deixá-los ir. Na minha opinião, essa atitude já descarta as teorias de que o personagem é louco, como afirmam muitos ao longo do filme. Não acho que alguém desequilibrado tomasse uma atitude similar. [/opiniãopessoal]

Final feliz pro filme, com um arremate de tristeza porque todo o musical é perpassado por um flash forward do Raoul comprando a caixinha de música do Fantasma num leilão e levando ao túmulo da Christine. Ao contrário do que é normalmente feito, o futuro é mostrado em preto e branco, e não o passado, mas também como estratégia pra mostrar a tristeza do personagem em ser viúvo, talvez.

Bom, eu prometi uma visão feminista. Lá vai. Se você enxerga o Fantasma como um inspirador do talento artístico da Christine e o Raoul como o chamado para a vida normal de esposa (e Viscondessa, mas enfim), na verdade os dilemas da Christine não são entre apenas dois homens, mas dois estilos de vida. Aquele oferecido pelo fantasma não é nada tradicional, e assusta – daí o desconhecido do futuro com ele ganhando significação com a cor escura. E o oposto pro Raoul: a vida que qualquer moça ia querer, se não tivesse talvez a opção do talento.

Aí você diz, bom, mas o Raoul nunca deu a entender que a Christine não cantaria mais uma vez casada com ele. A minha evidência disso está num dos últimos quadros do filme, pertencente ao flash forward: Raoul coloca a caixinha de música do Fantasma sobre o túmulo dela, nós vemos uma foto envelhecida da Christine, e na lápide está escrito: “Vicomtesse de Chagny – Beloved wife and mother“. Também não tem nenhum sinal de amor dos fãs, ou de qualquer sinal de que ela foi uma cantora de ópera, ou mesmo uma bailarina. Isso indica que sim, depois daqueles eventos ela realmente não cantou mais. É possível, então, ver que O Fantasma da Ópera é também uma história entre uma mulher dividida entre o seu talento e uma vida tradicional, além de outras coisas. Se eu tivesse paciência, escreveria também sobre o Fantasma – mas não sobre o Raoul, ele é muito óbvio e chato! – , mas esse post já está grande demais.

Independente de quaisquer juízos de valor de gênero ou mimimis do gênero, essa é uma linda história e eu devo ainda rever muitas vezes! =]

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Mais uma da Amanda

Eu jurei que não postaria mais histórias das minhas humilhações públicas, mas essa merece… Tá, eu sempre digo isso, paciência.

Aniversário de pessoa querida no Mulan. Pra quem não é tão íntimo de BH, restaurante oriental com rodízio liberado e, mais importante, karaokê a noite toda. A coleguinha aqui tinha se vestido bonitinha, maquiagem e tudo… Arrumou um bolerinho das antigas pra esconder que tava com preguiça de usar sutiã normal por baixo do vestido tomara-que-caia.

Bom, sabe o nome do vestido, né? Pois então, José.

Estávamos no palco eu e três amigos, cantando apaixonadamente “Man, I Feel Like a Woman” – sim, a música dá todo um contexto, eu concordo – e estou eu lá… Best thing about being a womaaaaaaan… E quando vejo a cara de um amigo meu meio espantado, olhei pra baixo…

OI SUTIÃ.

Lá estava ele, feliz e pequeno, o vestido todo pra baixo. Bem que as pessoas tavam aplaudindo demais.

Bom, fiz a diva, conjurei uma cara de pin-up, fiz “OH!” dramático e puxei o vestido pra cima sem cerimônia. Antes que a pergunta venha, sim, não havia uma só cadeira vazia naquele maldito Mulan.

Posta no seu blog, tá.

Essa história veio da @Laraspagnol numa feliz mesa de buteco ao longo da semana. Como quem conta um conto aumenta um ponto, se eu errar detalhes, ela é livre pra me corrigir.

Na Faculdade de Letras, existem pessoas inteligentíssimas, algumas tão fantásticas que não dá pra entender o motivo de não passarem do vestibular direto para uma cadeira de professor associado 3. Forçadas a conviver com mentes normais inferiores como a minha em sala de aula, tudo que lhes resta é destilar seu humor afiado e seus conhecimentos universais fantásticos em sala, mostrando aos professores como eles fariam muito melhor ofertando a matéria X.

Eis que nessa matéria X, minha amiga está na presença de uma dessas mentes superiores. Enquanto a professora falava sobre o léxico limitado dos adolescentes, e sobre como isso acontece, a colega brilhante percebe que aquele é um momento para seu intelecto brilhar. Em cinco fascinantes minutos, ela discorre sobre como na verdade o léxico adolescente é surpreendentemente variável e rico, de acordo com o registro e ainda por cima influenciado pelos maravilhosos processos de aprendizagem de linguas estrangeiras aos quais são submetidos nossos pobres adolescentes.

Vira a professora, depois de um suspiro, “Tá, publica isso no seu blog.”

Ela não publicou, mas eu achei que mereceu! Adoro quando pseudo intelectuais aprendem o seu lugar depois de uma incursão de chatice pra quem não quer ouvir.

Sobre se expor na internet

Esse post foi idealizado há muito tempo, antes mesmo do Videopost. Sendo eu alguém que passa um tempo preocupantemente alto online, é de se esperar que volta e meia eu tome uns sustos com pessoas sabendo de mim bem mais do que eu gostaria de soubessem.

Por exemplo, não tem coisa mais fácil do que descobrir se eu te bloqueei no msn – o que eu faço sem dó, e provavelmente nunca mais desbloqueio – , porque eu nunca tenho a inteligência de bloquear a pessoa em todas as redes sociais que eu compartilho com a pessoa. Ou seja, se eu não apareço no msn mas apareço no orkut, facebook, pode ver.

Claro que isso não me chateia exatamente, porque o fato de eu bloquear a pessoa é só um jeito de eu dizer que não gosto de conversar com ele ou com ela, e nunca há nada a perder – só a ganhar, na verdade – em alguém com quem você não gosta de conversar saber disso. Afinal, na pior das hipóteses… a pessoa vai parar de falar com você! E não era esse o objetivo quando você a bloqueou? … Eu sei, você tem vergonha de mostrar que não gosta de alguém. Sei que a maioria das pessoas não faz isso. Mas os benefícios desse tipo de pequena honestidade são muito melhores do que a chatice de deixar aquela pessoa forçar presença na sua vida.

De qualquer maneira, o assunto principal não era esse – eu sempre faço isso…

Tenho orkut, formspring (não uso), twitter, facebook, flickr, msn, gmail, youtube, etc, etc etc… E já mais de uma vez, aconteceu de um cara com quem eu posso ter ficado em uma festa descobrir basicamente tudo sobre mim só com meu nome e meu primeiro sobrenome. Assusta um pouco no começo. Dá pra ler toda e qualquer opinião que eu poste aqui, dá pra ver meu rosto no album destrancado do meu orkut, não sei o que dá pra ver no facebook, porque eu nunca aprendi a mexer direito naquilo. Enfim. Isso assusta um pouco? Sim. É um risco que a gente corre quando participa de comunidades virtuais.

Uma vez vi uma entrevista de um cara no Roda Viva sobre isso: sobre a exposição na internet, sobre a ascenção (com sc e cedilha!haha) das redes sociais como uma forma de ter dinheiro. A gente enxergou uma tendência clara no orkut quando ele surgiu, acho que em 2004. Era estupidamente exclusivo, só pra convidados, etc, e ter um convite do orkut era uma grande honra. Isso foi revisitado de leve no começo do novo orkut, mas a certa altura do campeonato, claro, todos já têm acesso (sim, eu me nego a tirar o circunflexo do tem plural). Depois que essas coisas foram escancaradas para o público, tivemos uma correria sem lei pra se mostrar como o mais interessante, o mais isso, o mais aquilo.

Foi quando entraram em cena os filtros de segurança: ninguém vê seu scrapbook, ninguém vê suas fotos, mimimi mimimi mimimi. A gente ainda tá numa fase pra mim faz tão pouco sentido quanto mostrar tudo nos seus perfis sociais: não mostrar nada. Mais de uma vez pra mim foi impossível dizer se eu conhecia a pessoa naquela página, tão poucas eram as informações. Tem gente pra quem eu não consigo mandar scrap de jeito nenhum – o orkut cisma que tudo é spam, por mais que eu digite cuidadosamente a mensagem. Não dou conta de quem tranca tweets, por exemplo, acho besta; o propósito não é justamente divulgar pequenas frases de você, dos seus pensamentos, do seu dia?

É aí que entra o argumento pra um futuro do compatilhamento de informações na internet, de acordo com o cara do Roda Vida cujo nome eu não lembro: uma hora vai chegar em que terá que haver uma troca de informações – você usufrurá de alguns benefícios – músicas, filmes, conteúdos – conforme você permitir que as pessoas e empresas alcancem informações sobre os seus gostos e hábitos online. É muita inocência achar que a internet é só um lugar de retirar. Esses usuários que sugam informações, músicas, contatos, sem nem mesmo serem identificados, tendem a passar por uma maior dificuldade em acessar conteúdo – já que para muitas empresas hoje, as informações disponíveis em redes sociais e coisas parecidas correspondem a uma aproximação muito mais bem sucedida do seu público.

É claro que isso que eu falei é um rascunho bem grosseiro do que ele disse. Aconselho que sigam o link acima e assistam, é muito enriquecedor.

meu gráfico claríssimo.De qualquer maneira, eu já tendo a achar que a exposição na internet só é tão complexa porque ela é uma superevolução da comunicação em massa. Antes você só recebia conteúdo pela tv, depois a gente passou a trocar mensagens pela internet, notícias, etc, por e-mails e outras mensagens diretas simplificadas. Com o surgimento das redes sociais, a coisa fica mais maluca, porque não satisfeita em ser uma via de mão dupla em produção de conteúdo – todo mundo pode fazer – sempre existem terceiros vendo e interagindo silenciosamente com o que você divulga. Um exemplo bem fácil: sua página de scrap. As mensagens ali são pra você, e as que você manda só pra pessoa, mas ali – e em todas as redes sociais – você está também fazendo aquilo pra uma plateía. Tudo que você faz é observado pelos seus outros contatos – isso quando você não interage com a pessoa X e Y só para todos os seus contatos TE VEREM interagindo com essas pessoas. Então toda a interação que é aparentemente bilateral está na realidade enclausurada no crivo de qualquer pessoa aleatória, talvez de nenhum interesse no assunto.

Outro exemplo que povoou as cabecinhas daqueles acompanhando a nova onda do YouTube, o vlog (aliás, agradeço aos mais de 300 inscritos no Videoblog da Belzinha, de verdade!): a comunidade online cresceu com a popularização do PC Siqueira, do Felipe Neto e outros vloggers. De repente todo mundo tem muitos views, todo mundo troca informações e conteúdos maravilhosamente, fizeram parcerias. Estava tudo cor de rosa demais, até o incidente entre dois vloggueiros que costumavam postar no mesmo canal. Pra quem quer a fofoca, leia aqui.

Achei muito surpreendente que tenha demorado esse tempo pra algo acontecer, mas acho compreensível. Exposição no youtube traz algo que as outras redes não trazem: ainda que editado, mixado, aquele na tela falando é você, seu rosto, seus tiques. Você mostra a cara mesmo. E em qualquer ambiente, quando você mostra a cara, está assumindo o risco de ser reprovado ou aprovado – ou solenemente ignorado, claro, o que é mais triste. Outra coisa que se forma é a sua persona pró-internet. Você expectador, não seja inocente em achar que você realmente conhece quem está ali falando no vlog. Não. Aquele é um lado, talvez até uma persona. O contato gerado ali é ilusório. Daí entra a possibilidade de acontecer um perigoso jogo de egos. O ego da sua persona virtual é alimentado pelos inscritos, pelos amigos, pelos comentários, pelo AdSense do Google. Por isso, gente, CUIDADO. Aquele que você assiste é uma parte de alguém que existe. Esses que comentam te adorando não te adoram merda nenhuma. Deu uma opinião? Você também detesta maconha e está de saco cheio de ter que fingir que tá de boa? Pois é, mostre o rosto, não tem nada errado com isso. Mas você assume riscos.