Belo Horizonte

Quando eu passei no vestibular, as pessoas me perguntavam qual opção eu ia escolher e tal. Só que quando eu dizia: vou fazer Letras na UFMG em BH, elas corriam pro carro/rádio/computador e tocavam aquela música tensa duma dupla sertaneja que canta algo como “é aqui que eu mooooooro/é aqui que eu quero ficar/pois não hááááá lugar melhor que BH”.

Ninguém na minha cidade natal entendeu a minha escolha direito até hoje… Mas a questão hoje não é a escolha, e sim o lugar.

Quando eu vim pra cá, nas duas etapas do vestibular da UFMG, teve algo nessa cidade que me capturou, alguma coisa que me identificou de uma maneira muito forte. Como eu só morei aqui e na minha cidade, eu nunca saberia dizer se todas as pessoas sentem isso quando resolvem mudar. No meu processo de vestibular, eu estava considerando morar em algumas cidades bem diferentes entre si: São Paulo (óbvio), Belo Horizonte, Londrina ou Franca (Uberlândia foi considerada também, mas eu acabei descartando). Eu sabia que a escolha da cidade era crucial. Não sabia o quanto, obviamente, tendo mrado a vida toda em uma cidade com cerca de 30 mil habitantes.

Cheguei em BH depois da viagem de ônibus até então mais longa da minha vida. Enquanto passava com a Melissa e o pai dela pela cidade, e especialmente quando ele deu uma voltinha de cortesia no campus e eu vi a FALE pela primeira vez, bateu uma coisa, sabe? Tá, é brega. Mas imediatamente eu gostei da cidade. Minha mãe odiava tudo, hahaha, ela não se dá bem com cidades grandes. Mas quanto mais eu conhecia, mais eu gostava. E minha amiga e o pai dela foram ótimos guias, contando episódios da história belorizontina, me levando pra tomar sorvete e tudo.

Faz três anos que eu moro aqui. Sempre que alguém descobre de onde eu sou, ou melhor, do quão LONGE eu morava, todos perguntam o motivo de eu não ter simplesmente feito Letras na USP mesmo.

Parte da minha formação de personalidade durante a adolescência, eu sempre enxerguei um desespero por eficiência e, mais bizarramente, excelência, no modo paulista de ser. Quando eu ouvia falar da Letras, e quando examinava o currículo, amava tudo. Lembro de dizer pros meus pais que ia me formar em todos os idiomas que a FALE oferecia (até agora só melhorei meu inglês, comecei italiano, latim e japonês, esquecendo completamente os dois últimos).

Nesse ponto, você diz: ah, a coisa não foi só Belo Horizonte, foi a cidade e a universidade. Ué, caboclo, claro que foi, eu tinha dezoito anos e estava avaliando meus prospectos! Sabe… todas as outras cidades no meu horizonte de possibilidades eram escolhas comumente tomadas por pessoas que tinham crescido comigo. Estudar no Paraná tinha os atrativos de ser uma cidade limpa e eficiente, com o plus de que eu tinha passado muito bem lá e o vestibular era fácil. São Paulo é São Paulo, né?

Depois que eu criei a coragem e vim pra cidade mais longe de todas, o processo de identificação só melhorou. Estava eu no 1207, seis e meia da manhã, semi acordada, mas todas as manhãs eu tentava me espremer e ficar do lado direito do ônibus pra ver a Lagoa da Pampulha. Prosseguindo numa cadeia de coisas bregas, aquela visão simbolizava alguma coisa que eu não conseguia expressar direito.

Desde que eu me mudei pra moradia da UFMG e tudo o mais, eu tive menos perrengues, mas fiz amigos – sim, pessoas de Palmeiras, eu tenho amigos aqui! Eu sei, vocês acharam que eu nunca teria amigos, né? -, construí uma vida. Eu me sinto bem recebida aqui, não sei explicar por quê. Acho que eu misteriosamente tenho uma personalidade mineira, mesmo sendo paulista e com toda a minha família imediata sendo paulista ou paulistana (TODO mundo tem um parente em São Paulo). Coisa de turista.

Mas é sério: eu acho simplesmente o máximo passar pela Lagoa, pela Praça da Liberdade, pela Praça Sete, pelo Mineirinho. Tenho muito orgulho de ter escolhido vir pra cá, acho que tive a melhor das idéias. Sinto que eu consegui virar gente, livre dos olhares dos paulistas, que enchem tanto o saco da gente o tempo todo!

Essa semana me peguei zuando um paulistano e imitando o sotaque. Nessas ocasiões, sempre tem um amigo pra me lembrar que eu meio que sou um deles. É engraçado, mas eu não me sinto paulista. Gosto dos mil bares, e me sinto em casa nessa cidade. Gosto, especialmente – vocês vão me achar doida – de andar de ônibus. Quando preciso pegar o 2004 só acho ruim de subir o morro mesmo, porque adoro passar pelo bairro, pela Antônio Carlos, pela João Pinheiro e tal. Gosto de ver a cidade pela janela, os mineiros andando na Afonso Pena. Lembro de quando tudo isso não passava de flashes da tv, e fico me sentindo dentro da tv de um jeito engraçado. Fico me sentindo num lugar onde as coisas acontecem, onde eu posso simplesmente me levantar, pegar um ônibus e sair, pedir um hamburguer, praticamente qualquer coisa. Eu gosto de ter espaço pra existir de qualquer jeito. Belo Horizonte é perfeita pra mim nesse aspecto, eu me sinto livre.

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15 opiniões sobre “Belo Horizonte

  1. Eu lembro de quando vc passou, sobre como vc se sentia em relação à escolha de onde fazer e o que fazer. Eu acho que vc escolheu certo, sabia? Vc queria mto Letras e queria mto a UFMG. Deixe que os outros pensem o que quiserem, só quem passa por esse tipo de escolha sabe o que tá em jogo. ^^

    E eu ainda te devo uma visita, pra vc me mostrar tudo isso.

    bjos bjos!

  2. Eu morro de vontade conhecer BH. Acho que é a cidade brasileira que eu mais tenho vontade conhecer depois de Manaus. E um dia eu ainda vou. ^^
    Eu lembro quando tu entraste na UFMG. Lembro do quanto fiquei orgulhosa de ti e da Melissa pq, puxa, UFMG é A UFMG. É referência. E, como ficou provado no final das contas, foi a escolha certa, não foi?
    Eu sou suspeita para falar sobre o curso de Letras. Se pudesse, faria tudo de novo e melhor desta vez. Eu fiz mestrado e agora, no que passar o turbilhão que se tornou minha vida, vou entrar para o doutorado. E fica a dica pra ti fazer a mesma coisa. Tá quase terminando a graduação, Mandie!!! XD Já tem que estar pensando na pós.
    bjaum

  3. e meu sonho é sair de bh..
    hehehe
    mas eu concordo com vc em uma coisa:
    a pampulha é um xuxu mesmo! eu acho ótimo e lindo qdo eu passo pela lagoa.. infelizmente eu moro longe né? então passo ´lá raramente

    =(

  4. Veeeeeeeeeeeeeeei! Que lindoooooooooooooooooooooo! Eu amo BH também e essa coisa de andar de ônibus Adoro olhar a cidade. Super legal!

  5. é nóis no êxodo rural pós moderno, Amanda. Prá quem viveu uma vida inteira em bh às vezes é difícil esquecer os percalços e capturar o que há de bom na cidade. Mas prá gente que vem de fora é um pequeno encanto novo a cada dia (seguido do ódio de ter que existir na rua às 18 horas no meio daquele tanto de carro), ainda bem.

  6. Lindo post Amanda…Fiquei emocionado de verdade, e vejo que tenho razão quando digo que não tenho vontade de morar em outra cidade. Adoro esta cidade, mesmo com todos os problemas que ela tem, assim como todos os centros urbanos também tem problemas. Mas BH é diferente, tem esse clima interiorano mesmo sendo metrópole. O povo daqui é mais próximo, mesmo não te conhecendo, vc nota isto quando pede informação na rua. Parabéns mesmo pelo post…. Me orgulho de ser belo horizontino.

  7. Acho muito doido vc gostar daqui! Conheço um tanto de belorizontino louca pra se mudar, sair daqui, pq dizem q é um caos. Mas aí eles falam de ir pra SP ou pro Rio, e eu só penso “é, to vendo o qto vcs odeiam caos”…

    eu sou daqui e ADORO bh! e adorei seu texto! (e vou linkar seu blog tb)

  8. Oh, Minas Gerais! Quem te conhece não esquece jamais!

    Engraçado que minha experiência é tipo a sua ao contrário. Nasci em BH, saí de BH pra SP aos 9, nunca gostei realmente de SP, sempre amei BH, voltei pra minha cidade numa crise e não me arrependo nadinha! Até considero um dia mudar, ter outras experiências, mas amo minha cidade, com todo seu provincianismo, seus defeitos, o fedor da lagoa, a fauna da Savassi, etc. É claro q qdo volto a SP sinto aquele fascínio de ter o mundo todo diante dos olhos. A Av. Paulista é uma coisa louca, apaixona e oprime. E ela resume minha relação com SP: um deslumbramento e uma opressão. Só tem uma coisa: não há nada q me faça gostar de pegar ônibus (a não ser em raras circunstâncias em que estou SENTADA e não tem ninguém ouvindo FUNK numa porra de celular sem fone). Experimenta morar no Nova Pampulha pra vc ver se é bom!

  9. Falando sério: odeio bh em vários aspectos: trânsito, lentidão de processamento, censura da imprensa, as burradas estruturais da prefeitura, o sistema de transporte, e por aí vai. No entanto, bh me oferece uma coisa que o Rio não me ofereceu: liberdade. Aqui vc pode ser preto, bicha, macumbeiro, morar na puta que pariu ou ser de onde for: a princípio não sofrerá tanto preconceito ou será atacado física ou verbalmente na rua pela elite branca rica heterossexual da sociedade. Claro que há casos e casos, mas aqui isso acontece bem menos. E quanto a ser bicha, vou te falar: os belzontinos são beeeem mais liberais, viu? rsrsrsrs

    • preto , bicha , macumbeiro……….. do caralho………….essa foi boa……… obrigado por me fazer enxergar alguma coisa de bom em BH, pois como sou daqui já estou de saco cheio, então sempre é bom descobri algo de bom que eu não tinha reparado. É bom lembrar que nem sempre foi assim, ao contrário, BH era uma cidade muito mais reacionária e fascista do que hoje. Mas melhorou e se tornou isso. E tem o fato também de que as outras cidades e o mundo em geral pioraram muito, e o belo horizontino fascista padrão percebeu isso e se tornou mais simpático.

      rs…………..

  10. Sabe o que é bizarro, hoje você conhece BH melhor do que eu! hahahahaha Ai que coisa incrível!

    Tá passando Belo Horizonte na nova novela das 7. E tem casal gay e tudo. rs

  11. ENCONTRAR . essa palavra é tudo pelo que vivemos.
    – uma caverna
    – um emprego
    -uma escola
    -uma pessoa
    – uma cidade…

    e
    principalmente AGENTE MESMO.

    gostei muito de ler o que escreveu, senti a sinceridade, pude perceber a batida de teu coração, e tomara que BELÔ SEJA mais uma escala nessa odisseia que é a nossa propria busca, é para isso que nascemos, para nos encontrarmos…

    ave saudações

    vinicio

  12. se tem uma coisa que eu não encontro em BH é o que você encontrou. Tenho inveja de voc~e, parabéns…………. só estou em BH por uma fatalidade do destino, pois sou a fim de ir embora daqui. As pessoas aqui são fechadas,sarcásticas, egoístas e esnobes. Mas já foi pior. Parabéns pela sua coragem de procurar o seu lugar no mundo. De onde você veio? iraque?! rsrsrsrsrs

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