Camafeu

“Pierre e Aretha finalmente chegaram ao lugar combinado para ficarem escondidos, até voltarem para a Corte; os fundos de uma casa de atividades suspeitas, a julgar pelos risos jovens e o som. Dali podiam ouvir a música, de modo que não seria totalmente ruim ficarem escondidos.

Ele estava sentado nos degraus logo abaixo da porta dos fundos, sem se importar em sujar as roupas. Já Aretha tateava o cabelo, à procura dos grampos para poder desfazer o penteado. Até o momento, ao invés de encontrar, constatou a perda de três ou quatro presilhas. Todo o volume do penteado diminuíra durante o trajeto a cavalo; Pierre olhou de relance para os cordões soltos do colete, cortados.

-Está uma figura e tanto, Princesa. O cabelo desarrumado, o colete cortado, essa espada na cintura… E ainda os sapatos nas mãos. – acrescentou, ao vê-la tirando os sapatos.

-Estou me sentindo ótima agora. Poderia passar dias assim. – suspirou ela, satisfeita.

Dizendo isso, ela juntou as saias do lado de trás e sentou-se sobre elas. Respirou fundo e desembainhou a espada, lentamente.

-Você provavelmente me deu a pior arma que tinham na Corte. – reclamou ela. – É pesada demais para mim, está toda enferrujada.

-Então coloque-a de novo no cinto e a carregue de enfeite. Depois torça para que não precise usá-la.

-Ei, moleque – ouviram uma voz rústica arranhar sob a sombra da esquina. – Acho que é muito tarde para torcer por qualquer coisa.”

Nessas férias, eu reencontrei alguns dos milhares de cadernos que eu enchi durante infância e adolescência. O trecho acima é do capítulo dois da minha história favorita acima de todas as outras, que tem o título provisório de Camafeu.

Quando eu tinha 13 anos, tive o sonho mais legal e talvez mais vívido de toda a minha vida. Eu estava num vestido de festa enorme, numa festa em um castelo, e as pessoas estavam se curvando a mim por algum motivo. Um criado me serviu, mas me tratava muito bem, eu o convenci a se sentar comigo e conversamos durante uma refeição. Eu não me lembro exatamente sobre o quê conversamos, mas quando ele foi tirado por uma tia pra dançar com ela, me disse que se chamava Pierre. Depois de algum tempo, apontaram pra mim do trono, e no momento em que eu entendia que estavam me confundindo com a princesa, a verdadeira aparecia, e éramos iguais.

Com essa cena em mente, construí uma história em volta. Nada além disso, uma história. Mas não na época. Cozinhei a idéia e quando eu tinha uns 15, 16 anos finalmente a escrevi. Nesse trecho participam o moço do meu sonho e a verdadeira princesa.

Quando reencontrei os meus cadernos, reli tudo vorazmente e decidi fazer o que já planejava há algum tempo: revisar a história, fechar o enredo, tirar os exageros românticos ao longo da história (bom, eu era adolescente quando escrevi!) e talvez concluir o que tinha sido idealizado para três “livros”. Nesse tempo aqui em Palmeiras eu só revisei dois capítulos, mas repensei coisas e enfim… Tenho passado grande parte dos meus dias pensando nessa história – que está toda manuscrita, ou seja, passá-la para o computador é ainda outro desafio.

Eu sempre escrevi histórias de fantasia. Passei muito tempo lendo Harry Potter, Senhor dos Anéis, Nárnia (apesar de não gostar muito), Crônicas de Prydein, Artemis Fowl, entre outras séries, e quando eu fosse escrever teria que ser isso. Recentemente eu parei de querer me forçar a escrever algo “pós moderno, fragmentado e sem utopia”, como diria um amigo muito querido, e mantive em mente uma idéia da Toni Morrison. Ela é uma escritora afro-americana e falou:

“Stop thinking about saving your face. Think of our lives and tell us your particularized world. Make up a story. Narrative is radical, creating us at the very moment it is being created. We will not blame you if your reach exceeds your grasp; if love so ignites your words they go down in flames and nothing is left but their scald. Or if, with the reticence of a surgeon’s hands, your words suture only the places where blood might flow. We know you can never do it properly – once and for all. Passion is never enough; neither is skill. But try. For our sake and yours forget your name in the street; tell us what the world has been to you in the dark places and in the light. Don’t tell us what to believe, what to fear.” Fonte

Numa tradução minha e quase improvisada, “Pare de pensar em livrar a sua cara. Pensem nas nossas vidas e nos fale do seu mundo particular. Invente uma história. A narrativa é radical, nos criando no exato momento em que é criada. Nós não te culparemos de seu alcance for menor do que sua ambição; se o amor insuflar suas palavras de tal forma que elas caiam em chamas e nada reste além da sua ferida. Ou se com a reticência das mãos de um cirurgião, suas palavras apenas costurem os lugares onde o sangue possa correr. Nós sabemos que você nunca poderá fazê-lo adequadamente – de uma vez por todas. A paixão nunca é suficiente; tampouco a habilidade. Mas tente. Pelo nosso bem e pelo seu esqueça seu nome pelas ruas; diga-nos o como o mundo te tratou nos lugares sombrios e nos iluminados. Não nos diga em quê devemos acreditar, ou o que temer.”

Então quando penso, bem, como o mundo me trata? Agora é difícil, mas há alguns anos me tratava como se a melhor idéia que eu pudesse ter era virar fumaça e desaparecer numa outra existência. Coincidentemente, tema principal da minha pequena história de fantasia… Então foda-se, devo a mim mesma concluir aquilo.

Só uma observação: semestre passado eu fiz uma matéria sobre prêmio Nobel em Literatura, e esse discurso foi a coisa mais bonita e inspiradora que eu li. =]

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4 opiniões sobre “Camafeu

  1. Eu tenho medo dessa conexão bizarra que parece existir entre nós mesmo que estejamos a quilômetros de distância. E digo isso porque hoje mesmo eu ia escrever um post praticamente idêntico a esse comentando a minha história que também escrevo há anos e pior, eu também resolvi revisá-la nessas férias! Outra coisa assustadora: esse fim de semana inteiro eu fiquei pensando em Camafeu e em como seria bom finalmente ler o final.

    Freak.

  2. sério, digita, revisa, tenta publicar e dá um jeito de por isso ao alcance de pessoas tipo eu, q ficaram curiosas e agora querem ler isso… hahahahaha

    eu tb tenho histórias, várias, q escrevia qdo era adolescente. alguams até nem tao adolescente. mas sei lá, ficam lá escritas e guardadas, não animei de mexer… um dia, quem sabe. por enquanto não… hahahaha

  3. Pingback: Pílulas de abril « ThePavania

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