Boletim Londres – expectativas indesejáveis

Eu queria falar o mínimo possível do fato de eu agora estar em Londres, mas é meio impossível, né… Muda tudo, assuntos, pensamentos, visões e tal. Mas esse post é especialmente sobre algo que tem me incomodado particularmente desde que eu viajei.

“Aproveita pela gente agora que você tá aí”

“O que você tá fazendo online? Vai viver!”

Eu ouvi essas frases algumas vezes, e as duas causam o mesmo tipo de desconforto. Vamos à primeira.

O problema dela é: tá, que bom que eu estou aqui, que bom que deu tudo certo e estou tendo uma oportunidade foda que muita gente não tem… Mas ow, tem dias SIM que eu não quero sair, e NÃO, eu não vi o museu tralalala de não sei das quantas, e NÃO, não estou fazendo orgias internacionais todas as noites. E quando eu estou num momento desses, me vem um infeliz e fica dizendo que eu tenho a obrigação de aproveitar essa cidade (que sim, é muito doida) por todo mundo que tá lá! POR CENTO E OITENTA FUCKING MILHÕES DE PESSOAS.

O que nos leva à segunda frase. Aqui onde eu moro, tem uma wireless no quarto muito foda. E além do mais, estou quatro horas à frente do horário brasileiro. Ou seja: se estou online agora, oito da noite do sábado no Brasil, aqui são meia noite e tantas, o que quer dizer que eu já saí e já morri de tédio por hoje! Já tive minha fração do que chamam “viver”. Viver também é estar triste, também é atualizar o blog, também é dormir. E pronto! Por favor, por melhor que seja a sua intenção, não me mande “viver”. Vá tomar no cú por antecipação. Fazer coisas emocionantes vinte e quatro horas por dia só porque tem uma galera na minha terra natal esperando que eu faça isso não faz sentido nenhum.

Resultado do bombardeio dessas duas frases: eu fico me sentindo culpada de estar online, de dar notícias, de fazer coisas que eu gosto muito como a internet porque eu tenho que “estar curtindo o tempo todo”. Ow, de verdade, que canseira. Aqui é só um lugar diferente. Tem muita coisa doida e tal, mas ai!

Desculpa a crise. É só que tava pesando mesmo.

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Sobre a terra natal

Comece a ler esse post ouvindo esta música: Family Tree, Belle e Sebastian

I’ve been feeling down

I’ve looking around the town

For somebody just like me

But the only ones I see

Are the dummies in the window, they spend their money on clothes,

It saddens me to think

That the only ones I see are manequins

Looking stupid, being used and being thin

And I don’t know why I hang around with them

Como você sabe que não pertence à algum lugar? Algumas coisas a gente tem que sentir. Eu passei muito tempo querendo sair daqui. Desde criança, quando eu escrevia/lia histórias de fantasia, as minhas favoritas eram aquelas em que o personagem principal escapava para um mundo novo, totalmente diferente, mas, principalmente, um outro mundo num qual ele era aceito e tinha até companheiros semelhantes.

Eu não me encaixava muito bem. Talvez isso seja racionalmente devido a eu ter mudado pra escola particular no finzinho da infância, mas independente das análises psicológicas, cá estou eu, incapaz mesmo de convencer ex colegas de colégio a tomar uma comigo quando estou prestes a viajar para a Inglaterra. E como a gente cresce – graças! – não foi importante, na verdade, porque de qualquer maneira estou completando o que eu chamaria de um ritual de encerramento.

Essa primeira estrofe me encheu de identificação, logo na primeira vez em que ouvi. Palmeiras sempre foi uma espécie de entreposto, meu armário embaixo da escada. A metáfora termina quando cortam o meu cabelo errado e eu não consigo crescer ele da noite pro dia.

De qualquer forma, com ou sem armário embaixo da escada, em exatos sete dias eu já estarei (com sorte) no meu novo quarto da Inglaterra, ou melhor dizendo, talvez até num bar, conhecendo pessoas loucamente!

Ao mesmo tempo, nesses momentos fica muito mais evidente o que está ficando pra trás. Já faz três anos que eu não moro mais com os meus pais, mas ainda até hoje sempre foi pra cá que eu corri quando alguma coisa grave acontecia, quando eu precisava recarregar as baterias, quando eu não conseguia mais suportar a solidão. Quando eu precisava que alguém soubesse que eu estava mal sem eu ter que falar, ou mesmo pra coisas banais… Ter um motivo pra acordar antes de uma da tarde – pra almoçar com os meus pais, no horário de almoço do trabalho deles. Pra ver o Lucky ficar doidão quando eu gritava do portão, pra buscar pão com meu pai imediatamente depois de chegar em Palmeiras e comer pão com manteiga falando desesperadamente até minha mãe gritar e me mandar calar a boca, falando que eu tava fedendo e que não ia dormir sem tomar banho antes.

De tudo que eu faço quando venho pra Palmeiras, o meu momento favorito sempre foi a chegada, afinal é o único lugar onde eu sou “recebida”, ou mesmo, onde eu sou esperada de qualquer forma. Já fiquei, no máximo, dois meses sem vir pra cá… E agora, de uma só porrada, vão-se dez meses, do outro lado do mundo, falando outro idioma com gente que nunca me viu nem nunca pensou que fosse me conhecer.

Eu sinto muito medo. Tá misturado com a emoção de pensar que vou pro coração da Europa, que referências de livros de história e literatura de repente vão se tornar concretos, e, principalmente, com a dificuldade enorme que foi conseguir realmente concretizar essa viagem. Afinal, Santa Cruz das Palmeiras não é o único lugar que estou deixando pra trás. Belo Horizonte me acolheu como poucos lugares.

Teve um momento em que parecia que eu não ia conseguir verba da assistência pra viajar, e sem ela estaria tudo cancelado. Eu me lembro do apoio da Gil, da Fabiana, da Renata. Lembro do meu medo louco de contar pro Cléber que eu não ia mais pra não ver a cara de decepção dele. E da correria, e da papelada, das infinitas reuniões com o Lucas, a Adriana e o Daniel pra todos os quatrocentos mil problemas que a coisa toda deu. Da festa de despedida do Quito, agora matando a gente de saudade lá dá Alemanha, da despedida do Douglas e do Igor, ambos agora lá em Portugal, e de todo o pessoal que também viajou e já está lá. Parece que eu já corri tanto, e mais do que isso, parece inacreditável que os meus planos estejam de fato se concretizando.

Aqui a trilha sonora já tem que mudar:

É gente demais pra sentir saudade, então a gente engole em seco e segue o caminho. Tchau Palmeiras, e até ano que vem.

(foda-se de ficou um texto melado, tô no meu direito! Fuck yeah!)

Depois de muito tempo

Aqui estou eu de novo. Essa semana lembrei que essa página existia e fiquei chocada com o tanto de intimidade minha que estava aqui. Pensei: "nossa, mas que horror, como eu me expus na internet!", e depois lembrei que ninguém sabe que essa página existe, além de mim. Isso me relaxa.


Daqui a uma semana exatamente, eu espero estar bêbada pelos cantos da moradia de gin, enquanto muitas pessoas comemoram comigo a minha ida pra Inglaterra. Esse ano foi muito difícil. Tive que ficar sozinha na marra. Não passei perto de me apaixonar muitas vezes – duas? É, acho que duas, mas sempre lembrei que não queria entrar naquela bad trip de novo, me apegar, depois sofrer, ter uma quebra na confiança e tudo ir indo por água abaixo, dessa vez com o agravante de eu estar prestes a ficar longe muito tempo.

Como eu ia me afastar do país, fiz o máximo pra deixar aqui o mínimo de laços, e olha que ainda são muitos. Passei por muitas dificuldades. Conseguir financiamento da FUMP, passar na seleção pro intercâmbio, lidar com um mundo infinito de papel, consertar as burradas da DRI da UFMG, depois tirar o visto de estudante e gastar um dinheiro violento pra tudo que eu fazia – sem mencionar os seis quilos ganhos. 

Ainda assim, é 11 de setembro, aquela data histórica, e no dia 18 estarei voando. Eu me sinto anestesiada.

Quem é a piada: o Tiririca ou você?

O assunto é recorrente, eu sei. Mas acho que tem merda demais jogada no ventilador pra eu não tentar me orientar escrevendo aqui.

Nas eleições desse ano, vislumbramos de novo o mesmo cenário de basicamente todas as eleições: todos os candidatos, a todos os cargos, são escolhas lamentáveis pra se votar. Os defeitos deles passam pela mais variada gama lexical.

Que os políticos se divertem ganhando votos nossos com atitudes como essas não é novidade:

O que pra mim é novidade, mais do que nos outros anos, é o apoio massivo e inexplicável que esses candidatos acabam ganhando. Eu ouvi uma variedade de comentários acerca, por exemplo, do candidato mais famoso, o Tiririca:

-Vou votar nele pra saber o que faz, afinal, um deputado federal.

MEU FILHO, NA ERA DO GOOGLE VOCÊ VAI VOTAR NUM IMBECIL PRA SABER SOBRE O TRABALHO DELE? EM PLENA ERA DO GOOGLE????

-Vou votar nele pra protestar, pra ver se as pessoas percebem que os humoristas (BURROS) tomam o lugar dos políticos. Revoluçãããããão! *gritos histéricos*

Já que mencionei as eras acima, gostaria de apontar outra característica dessa era nossa: todo mundo quer protestar do jeito mais sedentário possível. A gente faz uma pesquisa de opinião da internet pra dizer depois que a nossa participação motivou uma empresa a plantar não sei quantas árvores. A gente coloca nosso nome e identidade nos abaixo-assinados virtuais da vida, passando por e-mail. E o cúmulo: a gente tuita um tema até ele chegar aos Trending Topics no Twitter. De novo, QUE MERDA É ESSA?

Não tô te dizendo pra protestar com tochas incendiárias, palavras de ordem e pulão do bandejão, esporte favorito dos comunistas retrógrados da UFMG. Quer uma demonstração do que é um protesto organizado, não violento e presente? Olha aqui o movimento Praça BH. Pelo amor, postar #contraacorrupção não manda o Maluf pra cadeia se chegar no Trending Topics Worldwide!

A próxima foi de verdade.

-Meu voto é do Tiririca, pior que tá num fica, e vou votar nulo em tudo o mais, porque ninguém presta e porque eu detesto política.

Esse tipo de frase de mentalidade eu-leio-a-veja-e-daí me faz querer dar um tiro na cabeça e me mudar pra Terra Média, onde as coisas são resolvidas do jeito certo: jornadas por um anel envolvendo magos e anões e hobbits.

Dois vídeos de dois vlogueiros de quem eu gosto já abarcaram os meus principais argumentos: o Felipe Neto e o Francis Leech, ambos já citados aqui no meu post sobre brigas e vida alheia.

O voto só não tem valor se você o trata como um direito sem valor. O voto só não presta se você vota no Tiririca, se vota nulo, se vota em branco. Não pense que você não tem culpa, por exemplo, do Mensalão, (lembra?) só porque VOCÊ não votou naqueles caras. Porque votou em branco, nulo, ou porque votou no Ey-Ey-Eymael, o democrata cristão de zueira. Quem fez a merda foram eles sim, mas a população insistentemente treinada pra não gostar de política continua abrindo mão de um direito secular. A galera da classe média não quer votar porque é revoltizinha. Você que é pai ou mãe de classe média, que trabalhou tanto pra educar o seu filho numa escola particular, deveria pedir o dinheiro de todas as aulas de História de volta. Os modos de governo sofreram drásticas mudanças nos últimos anos pra abarcar a democracia. Não digo que democracia é necessariamente a melhor maneira, mas é a melhor idéia que deu pra concretizar até agora. Não faz nem 60 que mulheres podem votar no Brasil. Desde os velhos tempos nas aulas sobre civilizações antigas, a gente via que quem votava era o HOMEM, maior de 21 anos, dono de terras. Não foi fácil fazer com que qualquer pessoa pudesse votar. É uma arma poderosa demais pra você jogar fora com o Tiririca, o Romário ou a Mulher Pera.

Eu sei, você continua reclamando que não tem em quem votar. Será que não tem mesmo? A cada mil palavras da candidata do PSTU ao governo de Minas, Vanessa Portugal, novecentas são babaquices vermelhas revolucionárias, mas uma coisa é verdade: nós não temos acesso igual a todas as propostas de governo. E imagina só, nem é necessário fazer um movimento bem estruturado e presente. De novo, o Google a seu favor! Toda a informação que você precisa está aí, pra quem busca.

Cuidado com outra armadilha, já apontada pelo Francis: ninguém mais tem pressa em falar do plano de governo. De repente todo mundo nasceu no interior, trabalhou na adolescência, lutou na ditadura, tralalalalalala. Busque informações e opiniões concretas. Algumas perguntas pra mim, pessoalmente, são vitais: como o candidato pretende se movimentar pra auxiliar a educação? E com relação à inclusão das pessoas na universidade, número ou qualidade, como harmonizar os dois? E os direitos gays, e a lei do aborto, cadê?

Votar não dói não.

Só pra concluir: é claro que o voto forçado no Brasil é triste. Mas essa configuração só favorece a vida de quem acha que um trabalho de administração de um fucking PAÍS é brincadeira, veja o que pode acontecer se mesmo depois disso tudo você ainda vê o Tiririca e os amigos dele como opções viáveis de voto: Aqui.