Naked e Nude

Hoje, como boa brasileira, fui ler o texto pra aula de amanhã; vale lembrar que eu tive uma semana inteira pra fazer SÓ isso.

O primeiro era a carta do Pero Vaz de Caminha descrevendo o descobrimento do Brasil, beleza. O segundo era um texto refletindo sobre nuances entre os termos “naked” e “nude”. Acho feio traduzir o “naked” pra “pelado” e “nude” pra “nu”, até porque meio que não cabe no contexto. Eu sei que paráfrases são uma coisa maldita, mas…

O texto coloca que mulheres sempre tiveram dois tipos de visão de si próprias, porque em muitas civilizações, em especial a européia, toda a vida da mulher consistia em obter aprovação e obedecer a um homem (calma, o post não é feminista). Por causa disso, desde muito cedo a mulher era pressionada a saber não só como ela era, mas principalmente como os homens a viam. Dizia-se mesmo que a mulher tinha algum tipo de aura, que “emanava”, ou comunicava, como ela queria ser tratada pelos homens e que tipos de liberdade ela tinha. Essa aura, da perspectiva masculina, era constituída por cada detalhe, desde o temperamento até o modo de se vestir. Já do seu lado, a mulher devia coordenar esses detalhes ciente do impacto que eles tinham sobre a visão que os homens desenvolveriam dela. Pra aparecer pra eles como numa pintura, do jeito que eles gostariam que ela aparecesse. Assim, ela personificaria o conceito do “nude”, no qual o feminino se expõe propositalmente para o masculino, como numa vitrine.

Por outro lado, em dados momentos ela continua sendo ela mesma, e tem que manter consciência do que ela é, mantendo-se ainda do lado de dentro. Essa visão crua do ser próprio é que está ligada ao “naked”, livre das máscaras e das poses, não necessariamente indesejável seja pelo masculino ou pelo feminino, mas mais sendo uma força neutra.

Pra quê eu contei tudo isso? Bom, primeiro porque eu nunca tinha pensado nisso e achei as idéias extremamente interessantes (pedindo perdão por eventuais erros meus, né, já que eu tô mais é passando o que ficou pra mim do texto). Segundo porque no mesmo dia percebi claramente como isso funciona.

A maior parte das noites aqui eu tenho ficado em casa. Com exceção de uma festa horrível pra intercambistas e uma noitada com o povo da Brazilian Society, geralmente vou jantar, onde encontro meus candidatos a amigos e a gente geralmente vai fazer alguma qualquer coisa morna, ficar no FuBar ou no quarto de alguém falando de nada, ou jogando cartas na sala comum (sou um às do pôquer entre os calouros, HA). Mas eu sou um ser que PRECISA sair com uma regularidade meio alta, ainda que seja pra pouca coisa – aquela UMA cerveja no fim do dia. Depois de convidar pessoas aqui e ganhar NÃOs com uma frequência meio abaladora, fiz a independente: saí sozinha.

Foi ótimo. Mandei música e peguei o ônibus que é a coisa mais cute cute do mundo e fui feliz até Strand St. Vaguei por ali, me sentindo a pessoa mais livre do mundo. Passei por um café e tinha um loiro super bonito lá, e ele olhou pra mim, Ê! Tá, é meio lama eu comemorar que finalmente alguém aqui olhou pra mim. Mas enfim. Andei até encontrar um pub do jeito que eu queria, pedi uma pint e fiquei de boa ali observando as pessoas.

Eu cheguei até ali dizendo a mim mesma que adorava o anonimato da cidade grande, pois ele me permite simplesmente ir num bar e observar ingleses bebendo e interagindo. Quando estava na metade da minha bebida, me percebi da minha inocência: oras, eu não sou invisível. Eu não fui lá só pra ver pessoas, fui pra ser vista também. Pra mudar um pouco os ares, sim, mas principalmente, pra ver e ser vista. É nessa hora que a gente percebe que estava de pernas cruzadas quando é mais simples e confortável apoiar os pés no banquinho, e está puxando o cabelo pra cobrir uma espinha. Eu estava ali também tentando me ver aos olhos dos outros, tentando mostrar o que quer que fosse que eles quisessem ver. Se eu fosse de verdade invisível, é evidente que teria me posicionado diferente, agido diferente. Claro que o comportamento não é igual ao da antiguidade, eu não estava tentando me adequar desesperadamente ao “nude”. Só não queria estar totalmente “naked” e desprotegida. Dá pra entender? Não sei. Essas coisas são viajadas mesmo.

Resta dormir, que amanhã tem aula sobre o texto!

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3 opiniões sobre “Naked e Nude

  1. Amanda num momento paquera generalizada em um pub londrino… essa eu pagava pra ver! É isso que dá abandonar os velhos amigos do JB, do Siri, eventualmente do Cabrals. Mas pelo menos agora vc vai em pubs de verdade, e carinhas bonitos de verdade te olham. Ê!
    Saudade docê, Amanda. Tá triste ficar com 2 lugares vazios na mesa, o seu e o do Quito.
    Ah, vc já foi ver a tumba do Tutancâmon??????

  2. Gostei de aprender isso do naked e do nude… interessante! E mais interessante foi a sua ‘epifania’ do nude moderno aí… Parei pra pensar… e não é que a gente faz isso o tempo todo?

  3. Eu acho que todo mundo vive no “nude” mais tempo que gostaria. Quem é que nunca se olhou no espelho e tentou aquela visão neutra de “como é que eu fico parecendo se…?”.

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