Princesas

Numa dessas noites de derreter em butecos brasileiros, uns ótimos amigos meus discutiam o que mais legal: ser princesa ou ser rockstar?

Foi simplesmente impossível fazer os meninos entenderem a nossa escolha por ser princesa: a verdade é, pra que diabos serve uma princesa? Quase não existem mais princesas. Os meninos argumentaram que a princesa tinha que fazer uma infinidade de coisa que não gostava e seguir um monte de regras estúpidas – na verdade, ela não pode fazer o que quer. Ela pode fazer é bem pouco, quando você pensa.

Ainda assim, tem algo de glamouroso em ser princesa que simplesmente não envelhece, né? Afinal de contas, o que colocou essa idéia de princesa tão forte na nossa cabeça? A Disney, claro.

Ontem eu revi A Pequena Sereia, depois de muitos anos. Confesso que fiquei tanto tempo assim sem rever o desenho não porque eu não gostasse da história, mas porque tinha pavor da Úrsula! Blog é pra essas coisas mesmo, confessar porcaria. Eu tinha pavor da hora que a Úrsula vira gigante e quase mata todo mundo, e tinha medo da cena que ela toma a voz da Ariel.

AHH não estou falando disso pra dizer que tenho medo da vilã. É pra dizer que eu me vi ficando contra a Ariel em todas as situações. Ela não tem noção das obrigações, não tem noção da realidade e não dá o menor valor à vida que ela tem. Ela é a caçula de sete princesas, e o rei… Cadê a mãe das princesas? Por que princesa da Disney não tem mãe?

Princesas sem mãe: Branca de Neve, Cinderella, Aurora, Anastasia, Ariel, Jasmin… Você pode tentar dizer que a Aurora tem mãe, mas ela cresce sem e só conhece a mãe no final do desenho.  Sinceramente não faço idéia do motivo das princesas não terem mãe. Acho que é porque se elas tiverem um modelo feminino pra seguir e pra protegê-las a vida das princesas não seria tão trágica.

Agora, eu sei que a gente sempre usa a expressão príncipe encantado pra se referir a um homem perfeito – mas revendo os desenhos eu fiquei com vergonha pelas figuras masculinas dos desenhos! Os príncipes tem nome, mas ninguém lembra. Por exemplo, qual dos príncipes se chama Felipe? São figuras inexistentes, que por algum motivo estão doidinhos pra sair da vida de solteiro disputado e se casar imediatamente. São tipos surpreendentemente fáceis de conquistar – antes de terem que salvar a princesa no clímax geralmente só as encontram uma vez, falam de sentimentos na maior tranquilidade, cantam e dançam. Não falam muito. É esquisito: por um lado movem o mundo no fim do desenho pra salvar a princesa, mas durante o desenho todo é a princesa que sofre, que enfrenta dificuldades…

Fiquei preocupada com uns detalhes que eu percebi nas princesas: quase todas tem dezesseis anos. Quase caí da cama ontem quando vi a Ariel abraçando a estátua do príncipe na frente do pai e dizendo “mas eu o AMO!”.

Imagina que você tem uma filha de 16 anos rebelde, que acha que é adulta. Ela de repente some, volta e diz que ama um cara de OUTRA ESPÉCIE. Sério, como você reagiria?

Outra coisa: o que faz uma boa princesa? No começo da Bela Adormecida fica a dica: Aurora ganha os dons da beleza e o dom de cantar. Ariel tem que dar a voz pra ganhar pernas, e nós ouvimos uma música de ideologia preocupante da Úrsula sobre como homem não gosta de mulher que fala. Na Cinderella, o fato dela ter o menor pé do reino é um charme. Então vamos tentar colocar tudo junto: uma princesa deve ter dimensões pequenas – pés pequenos, cinturinha, baixinha… – deve usar a voz só pra cantar, mas principalmente, tem que ser muito bonita. Isso invariavelmente inclui cabelo liso, pele branca, olhos azuis e lábios naturalmente vermelhos que ninguém tem.

Tá bom, nós crescemos vendo nos desenhos de princesas que tínhamos que ser que nem elas. Bom, quando você é criança ainda há esperança! Você ainda pode emagrecer na puberdade, o cabelo de muita gente muda, os peitos crescem… Ou não. A certa altura do desenvolvimento você percebe que não vai ser aquele modelo de graça e se sente uma merda. Mas… ainda assim, depois de tudo isso, eu continuo querendo escrever histórias sobre princesas.

Por quê?

A princesa, filha do rei, está diretamente relacionada com o que acontece com o Estado – digo isso na ficção, sei lá como rola hoje a política dessas coisas. Quem se casar com ela será rei, ooohhh! Mas, se parar pra pensar, quais são as responsabilidades de uma princesa?

Eu pensei isso outro dia e assisti hoje no Mulan 2: as princesas dizem que a própria vida não lhes pertence, que elas devem fazer o que for melhor para o seu país. É uma obrigação pela qual elas não pedem, pra qual elas não são preparadas, mas ainda assim tá lá.

Aliás, na minha opinião Mulan é a princesa mais sensacional de todas, apesar de ser a única que… bem, não é uma princesa e nem se torna uma princesa depois de se casar. Ela tem pai e mãe – ooohh – ela se passa por homem no desenho todo, e tem um momento em que a Disney parece que brinca com os padrões que ela própria estabeleceu no passado: durante uma música em que os homens falam que gostam de pensar que tem uma mulher em casa pra quem voltar, descrevem a mulher ideal. Aí Mulan sem jeito adiciona na música, “e se a mulher usar o… cérebro?” e os homens: “naaaaaah”.

Bom, as princesas mudam de acordo com os costumes, né? Mas uma coisa elas não perdem: o charme. Sempre tem alguém lutando por elas.

Anúncios

Do que nós somos feitos

Hoje eu saí na rua, dei uns passos, não senti frio. Fiquei confortável. Depois de cinco minutos, eu tava positivamente sentindo calor. Calor mesmo, de se abanar. Olhei no celular: a temperatura em Londres estava em 14 graus. Ergui a cabeça pra perceber que uma boa parte das folhas já caiu. Lembrei do Quito comentando que a Europa no outono dá a impressão de que a gente tá pra sempre preso num clipe de Sandy e Júnior.

E veja bem, eu nem tenho pra quem transmitir essa piada. Quem aqui riria se eu falasse isso? Quem aqui riria, mesmo que eu mostrasse pra um gringo aqui o clipe no youtube? Bom, eu não riria no lugar de qualquer dos amigos que eu fiz aqui nesse começo de Inglaterra.

Mesmo antes de sair do Brasil, eu sabia que uma coisa aconteceria: eu aprenderia o que é, de verdade, ser brasileira. Parece irônico à primeira vista. Da mesma maneira, é irônico que eu me gradue em Inglês no Brasil e faça matérias do Português na Inglaterra. Eu faço piada com isso toda hora. Mas uma pergunta sempre martelou na minha cabeça: o que é mesmo ser brasileiro? O que é mesmo ter nascido naquele determinado território, com aquela determinada língua? É fácil imaginar uma realidade alternativa na qual o Brasil não existe, na qual os países são totalmente diferentes… Qual é o resultado das coisas serem como são?

A História do Brasil pra mim sempre pareceu deprimente na escola; nós nunca tivemos grandes guerras pra vencer, fomos essencialmente formados de ladrões e prostitutas expulsos da Europa há pouco menos de quinhentos anos. Na sua origem, o Brasil, como outras terras descobertas na época, tinha um status de paraíso perdido, uma chance de começar a humanidade do zero, uma terra onde os nativos não tinham medo nem vergonha dos seus corpos. Bom, não é mais assim. Nós nos vestimos como os europeus, assistimos os mesmos filmes, estudamos os mesmos filósofos. Eu tendia a acreditar que a nação brasileira era uma mera noção criada pelas mesmas mídias que tentaram com tanto afinco eleger o Serra. Sempre achei que era só uma ilusão. Sempre achei que estavam tentando criar uma sensação de unidade brega numa mistura irreconciliável, igual quando recortaram a África em quadradinhos. Era pessimista igual essa galera que fica falando que as pessoas empolgadas com coisas feito futebol e carnaval era só o povo burro do pão e circo.

Veja bem, todo mundo cita a Canção do Exílio do Gonçalves Dias quando se refere a passar tempo no exterior. Antes de eu sair do Brasil, aquela era toda a realidade que eu conhecia. A minha variedade regional do Português moldava a minha noção de realidade, minhas gírias, até o modo de flertar, o modo de participar numa sala de aula, o tipo de questões que a gente faz por aí. Como eu não conhecia nenhuma outra realidade, nunca consegui bem definir o que é ser brasileira.

Não se iluda de achar que com tão pouco tempo eu já encontrei uma resposta; mas muita coisa me faz refletir.

Antes de mais nada, tenham orgulho aí de terem nascido no sul. Ser brasileiro está na moda! Em todo santo lugar que eu vou, sou muito bem recebida. Muita gente até tenta falar português, e sai um espanhol desengonçado. Tem quem brinque perguntando se eu moro perto da floresta aí, pra consertar em seguida. Tem três reações mais frequentes logo depois de eu dizer que sou brasileira:

1. Nóóóóóóóóóóó! Eu tenho amigos brasileiros/Já fui lá! Foi ótimo, é um lugar do caralho!

2.Mas você é branca!?

3.Você gosta do Lula?

Focando na segunda reação, depois de um tempo eu reforcei outra coisa que já tinha imaginado antes de vir pra cá: não se espera que eu seja brasileira. Afinal, eu não sei dançar, não tenho ritmo, não sou negra, não sou do Rio de Janeiro, não gosto de forró e muito menos de… bem, cultura pop brasileira no que toca à música. E, claro, não sou gostosona de peito e bunda enorme. Not at all. Tento ver isso de forma positiva, pra mim e pros outros. É bom que eles desconfiem que em 180 milhões de pessoas, nem todo mundo é passista do carnaval.

Por outro lado, tem brasileiro aqui em todo lugar. Seria fácil falar português todo dia. Eles estão no banco, no ônibus, tirando foto perto do BigBen. Eles se abraçam, gritam, se misturam. Não andam em grupos fechados e homogêneos, como os asiáticos. Estão aí, onde a gente menos espera.

Brahma não é uma cerveja tão boa; a Globo é decididamente uma merda; fazia mil anos que eu não escutava Los Hermanos. Ainda assim, por que fiquei rindo feito uma besta quando um dia sem querer, assisti cinco minutos de Globo? Por que o primeiro gole da Brahma foi tão fantástico? Por que coloquei Los Hermanos de novo no MP3? É quando a gente volta pro Gonçalves Dias: uma hipótese ser que de repente tudo que é de casa pareça muito melhor porque está muito longe.

Eu sinceramente acho isso muito simplista. Depois de todas aquelas tardes de bar do Cabral, não dá pra ser igualmente receptivo com uma pint de Ale, que parece uma cerveja escura quente em volta desse povo tão exageramente civilizado?

Começo a concluir que, no fim das contas, aquela mentira da nação tem uma boa parte de verdade. Nós compartilhamos muita coisa. Essas coisas estão tão entremeadas com nossa maneira de pensar! Como visualizar a importância de facilitar a mobilidade social quando você sempre morou no centro de Londres, no máximo vendo um documentário sobre a Venezuela na BBC? O Brasil é, afinal de contas, um país muito jovem; tudo nele é novo. História, economia, literatura… Parece que só agora se ergue a cabeça, de uma certa forma.

De uma forma meio retardada, sinto muito orgulho das coisas brasileiras. Fico ensinando pra todo mundo como nossa política funciona, a mecânica das novelas horríveis da TV… E pensando agorinha, nós estamos de certa forma acostumados com um grau de tosqueira na nossa vida, né? Lembro de quando a Melissa me contou duma louca levando uma reprodução em tamanho original do Aécio pra casa. O mundo explode em purpurina antes de alguém, não importa a nacionalidade, fazer isso em Londres. Eu diria que, em termos de socialização, nós temos menos medo de nos abrir. Até mesmo eu! ahahah. A maneira como às vezes só ignoramos as regras parece horrível à primeira vista. Mas aqui existem tantas regras desnecessárias! E que povo calmo! Um trânsito de uma hora e meia e o cara lá, assoviando na frente do volante! O estacionamento do supermercado vazio de madrugada e ele dando a volta pra não passar na CONTRA MÃO! Ter que provar que eu sou maior de dezoito anos pra comprar nem álcool, mas uma TESOURA no supermercado!

Acabou que eu não consegui concluir nada, mas… Já me peguei pensando, esses europeus tem muito a aprender com a gente!