Do que nós somos feitos

Hoje eu saí na rua, dei uns passos, não senti frio. Fiquei confortável. Depois de cinco minutos, eu tava positivamente sentindo calor. Calor mesmo, de se abanar. Olhei no celular: a temperatura em Londres estava em 14 graus. Ergui a cabeça pra perceber que uma boa parte das folhas já caiu. Lembrei do Quito comentando que a Europa no outono dá a impressão de que a gente tá pra sempre preso num clipe de Sandy e Júnior.

E veja bem, eu nem tenho pra quem transmitir essa piada. Quem aqui riria se eu falasse isso? Quem aqui riria, mesmo que eu mostrasse pra um gringo aqui o clipe no youtube? Bom, eu não riria no lugar de qualquer dos amigos que eu fiz aqui nesse começo de Inglaterra.

Mesmo antes de sair do Brasil, eu sabia que uma coisa aconteceria: eu aprenderia o que é, de verdade, ser brasileira. Parece irônico à primeira vista. Da mesma maneira, é irônico que eu me gradue em Inglês no Brasil e faça matérias do Português na Inglaterra. Eu faço piada com isso toda hora. Mas uma pergunta sempre martelou na minha cabeça: o que é mesmo ser brasileiro? O que é mesmo ter nascido naquele determinado território, com aquela determinada língua? É fácil imaginar uma realidade alternativa na qual o Brasil não existe, na qual os países são totalmente diferentes… Qual é o resultado das coisas serem como são?

A História do Brasil pra mim sempre pareceu deprimente na escola; nós nunca tivemos grandes guerras pra vencer, fomos essencialmente formados de ladrões e prostitutas expulsos da Europa há pouco menos de quinhentos anos. Na sua origem, o Brasil, como outras terras descobertas na época, tinha um status de paraíso perdido, uma chance de começar a humanidade do zero, uma terra onde os nativos não tinham medo nem vergonha dos seus corpos. Bom, não é mais assim. Nós nos vestimos como os europeus, assistimos os mesmos filmes, estudamos os mesmos filósofos. Eu tendia a acreditar que a nação brasileira era uma mera noção criada pelas mesmas mídias que tentaram com tanto afinco eleger o Serra. Sempre achei que era só uma ilusão. Sempre achei que estavam tentando criar uma sensação de unidade brega numa mistura irreconciliável, igual quando recortaram a África em quadradinhos. Era pessimista igual essa galera que fica falando que as pessoas empolgadas com coisas feito futebol e carnaval era só o povo burro do pão e circo.

Veja bem, todo mundo cita a Canção do Exílio do Gonçalves Dias quando se refere a passar tempo no exterior. Antes de eu sair do Brasil, aquela era toda a realidade que eu conhecia. A minha variedade regional do Português moldava a minha noção de realidade, minhas gírias, até o modo de flertar, o modo de participar numa sala de aula, o tipo de questões que a gente faz por aí. Como eu não conhecia nenhuma outra realidade, nunca consegui bem definir o que é ser brasileira.

Não se iluda de achar que com tão pouco tempo eu já encontrei uma resposta; mas muita coisa me faz refletir.

Antes de mais nada, tenham orgulho aí de terem nascido no sul. Ser brasileiro está na moda! Em todo santo lugar que eu vou, sou muito bem recebida. Muita gente até tenta falar português, e sai um espanhol desengonçado. Tem quem brinque perguntando se eu moro perto da floresta aí, pra consertar em seguida. Tem três reações mais frequentes logo depois de eu dizer que sou brasileira:

1. Nóóóóóóóóóóó! Eu tenho amigos brasileiros/Já fui lá! Foi ótimo, é um lugar do caralho!

2.Mas você é branca!?

3.Você gosta do Lula?

Focando na segunda reação, depois de um tempo eu reforcei outra coisa que já tinha imaginado antes de vir pra cá: não se espera que eu seja brasileira. Afinal, eu não sei dançar, não tenho ritmo, não sou negra, não sou do Rio de Janeiro, não gosto de forró e muito menos de… bem, cultura pop brasileira no que toca à música. E, claro, não sou gostosona de peito e bunda enorme. Not at all. Tento ver isso de forma positiva, pra mim e pros outros. É bom que eles desconfiem que em 180 milhões de pessoas, nem todo mundo é passista do carnaval.

Por outro lado, tem brasileiro aqui em todo lugar. Seria fácil falar português todo dia. Eles estão no banco, no ônibus, tirando foto perto do BigBen. Eles se abraçam, gritam, se misturam. Não andam em grupos fechados e homogêneos, como os asiáticos. Estão aí, onde a gente menos espera.

Brahma não é uma cerveja tão boa; a Globo é decididamente uma merda; fazia mil anos que eu não escutava Los Hermanos. Ainda assim, por que fiquei rindo feito uma besta quando um dia sem querer, assisti cinco minutos de Globo? Por que o primeiro gole da Brahma foi tão fantástico? Por que coloquei Los Hermanos de novo no MP3? É quando a gente volta pro Gonçalves Dias: uma hipótese ser que de repente tudo que é de casa pareça muito melhor porque está muito longe.

Eu sinceramente acho isso muito simplista. Depois de todas aquelas tardes de bar do Cabral, não dá pra ser igualmente receptivo com uma pint de Ale, que parece uma cerveja escura quente em volta desse povo tão exageramente civilizado?

Começo a concluir que, no fim das contas, aquela mentira da nação tem uma boa parte de verdade. Nós compartilhamos muita coisa. Essas coisas estão tão entremeadas com nossa maneira de pensar! Como visualizar a importância de facilitar a mobilidade social quando você sempre morou no centro de Londres, no máximo vendo um documentário sobre a Venezuela na BBC? O Brasil é, afinal de contas, um país muito jovem; tudo nele é novo. História, economia, literatura… Parece que só agora se ergue a cabeça, de uma certa forma.

De uma forma meio retardada, sinto muito orgulho das coisas brasileiras. Fico ensinando pra todo mundo como nossa política funciona, a mecânica das novelas horríveis da TV… E pensando agorinha, nós estamos de certa forma acostumados com um grau de tosqueira na nossa vida, né? Lembro de quando a Melissa me contou duma louca levando uma reprodução em tamanho original do Aécio pra casa. O mundo explode em purpurina antes de alguém, não importa a nacionalidade, fazer isso em Londres. Eu diria que, em termos de socialização, nós temos menos medo de nos abrir. Até mesmo eu! ahahah. A maneira como às vezes só ignoramos as regras parece horrível à primeira vista. Mas aqui existem tantas regras desnecessárias! E que povo calmo! Um trânsito de uma hora e meia e o cara lá, assoviando na frente do volante! O estacionamento do supermercado vazio de madrugada e ele dando a volta pra não passar na CONTRA MÃO! Ter que provar que eu sou maior de dezoito anos pra comprar nem álcool, mas uma TESOURA no supermercado!

Acabou que eu não consegui concluir nada, mas… Já me peguei pensando, esses europeus tem muito a aprender com a gente!

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6 opiniões sobre “Do que nós somos feitos

  1. gostei muito do texto. no meu caso, sinto que aqui me sei muito mais brasileira – muito mais mineira, especificamente. de longe, percebo muito mais o que me apaixona na minha origem, e também o que não me apetece nela.

    mas permita-me dizer que parei na parte de estar constantemente em um clipe de sandy e júnior (e, sim, eu ri da piada!) e comecei a me lembrar d’as quatro estações e aquilo é um erro, cara! olha que eu já gostei bem de s&j (e você que tá lendo isso também, confesse), mas olha a organização temporal da sandy: inverno-verão-primavera-outono.

    e mais: “a noite cai, o frio desce (…) a noite cai, a chuva traz…” – sério, queria o cara que escreveu essa música (alguma dúvida de que não foi nenhum dos dois?) com o nariz dele sangrando com a falta de umidade do inverno que todo brasileiro que não mora no litoral é obrigado a passar.

    (é, são 4:32, e ter abandonado meus estudos caóticos de literatura pra vir espiar seu blog não fez bem aos meus miolos)

  2. Que texto bonito , Amanda !
    Tenho certeza que compartilharei algum dia essa sensação com você . É uma coisa estranha sempre achar um saco quando escutamos aquele pagodinho por aqui mas tenho certeza que ao partir pra terras estrangeiras , ao menor toque do molejo, eu já estarei sambando de saudades !

    E saudade de vc =)

  3. “Outono é sempre igual, as folhas caem no quintal…”
    Rashey de rir, sério, principalmente pq imaginei a performance do Quito. Daí também reforcei a minha imensa saudade de vcs 2… E, é claro, minha vontade de conhecer o outono europeu! 😀
    Acho que essa experiência de se conhecer é algo por que precisamos passar algumas vezes na vida. Eu sempre quis essa experiência e creio que vou ter um aperitivo no mês que passarei sozinha em Florianópolis. O dia da minha viagem tá chegando e tô começando a sentir o peso disso, tô começando a ter certeza de que será uma grande experiência. Principalmente pq vou ficar totalmente sozinha sem telefone nem internet em casa numa cidade estranha. Ou seja, vou ter que lidar comigo mesma por muito mais tempo, e ainda aprender a me movimentar numa cidade nova.
    Bom, Amanda, o mais importante pra gente é que vc é uma de nós! We’re a happy family!
    Volte logo!!!

  4. Poxa, Amanda… gostei de verdade do seu post! Gosto tanto quando você fala mais de você do que de política!! Engraçado que mesmo não sendo um post do tipo “Como são as coisas aqui na inglaterra”, você acabou contando um pouco de como são… E, porra, mostrar identidade pra comprar tesoura é SACANAGEM! Aqui no Brasil, nem pra entrar no motel com um vovô precisa de identidade, o que se dirá de comprar tesouras!!

  5. Que texto “Classe A” fiquei Amarradão com ele, retrata exatamente o que eu pude sentir em Londres e Paris, são lugares geograficamente especiais, mas nada como o Brasil, um País Simples de se viver em relação à Europa. Nessas situações vc aprende a dar mais valor à sua PÁTRIA, APESAR DA FALTA DE CULTURA DA MAIORIA DAS PESSOAS em atitudes básicas de convivência no Brasil que ainda deixa muito à desejar, mas enfim tive muita saudade do Brasil qdo estava longe, só não senti saudades das músicas bregas da bahia,samba,forró, pagode, sertanejo e afins, no mais seu texto tem tudo à ver…

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