Wikileaks e a informação como instrumento de mudança

Já fazia uns dias que eu ouvia falar disso em alguns lugares, alguns tweets mencionando… Assisti um vídeo do TheAmazingAtheist falando sobre como os americanos frouxos tão querendo chamar o que aconteceu no WikiLeaks como infoterrorismo (‘afinal de contas, terrorismo ainda significa alguma coisa a essa altura do campeonato?’, ele pergunta). Mas eis que ontem um amigo meu aqui me pergunta na mesa assim o que nós achávamos do Wikileaks. Bom, no meu desespero que construir uma opinião, fui ler umas coisas.

Algo que eu recomendo enormemente é a entrevista com o próprio Julian Assange, o dono do site, hospedada em outro site sensacional que tem o objetivo de divulgar opiniões e disseminar um debate maduro sobre diversos assuntos globais. Assistam, é extremamente recomendado!

Entrevista Julian Assange

Depois de ver a entrevista, fiquei positivamente impressionada com o trabalho do homem e comecei a me perguntar por que exatamente as pessoas encaram a atividade dele como uma coisa perigosa para a sociedade. A Folha de São Paulo já divulga notícias nas quais Assange é considerado o inimigo número dois dos Estados Unidos.

Vamos comparar o inimigo número um com o número dois?

Bin Laden é o líder simbólico de uma rede terrorista.

Assange é o dono factual de um website.

Bin Laden tem como objetivo destruir ‘os infiéis’, o que quer basicamente dizer qualquer pessoa que não compartilhe os seus valores.

Assange tem como objetivo disseminar o máximo de informações possível para o maior número possível de pessoas.

Bin Laden enxerga nos Estados Unidos a personificação do mal, e por isso o país seria seu principal alvo.

Assange recentemente focou seus esforços em desmascarar as relações dos Estados Unidos com alguns países do mundo; li que alguns dos primeiros colaboradores abandonaram o projeto porque dizem que ele teria se voltado demais para o ataque aos Estados Unidos e se esquecido dos objetivos originais do projeto.

Bin Laden é procurado por arquitetar o atentado ao World Trade Center de 2001, que matou milhares de pessoas, traumatizou uma nação e marcou tragicamente o começo do século XXI.

Assange é procurado por divulgar informações governamentais que eram sigilosas e comprometem grandemente os governos responsáveis por essas informações. Como dá pra ver na entrevista, isso aconteceu principalmente no Quênia, onde ele na verdade conseguiu virar a balança de uma eleição.

Eu não sei vocês, mas pra mim os Estados Unidos tão com dificuldade em manter uma coerência quando escolhe seus procurados mais procurados.

Antes que você pergunte, não, eu não encontrei nada na WikiLeaks que falasse do Brasil. Não se sabe se porque as informações ainda não foram vazadas, ou (improvável) porque não existam. O mais perto que chega é um medinho americano – de novo! – de existirem facções terroristas escondidas na tríplice fronteira de Brasil, Argentina e Paraguai. ADENDO: Agora que procurei de novo achei coisas sobre o Brasil, mas é tudo uma chatice.

Eu acho justificável, é claro, que o governo americano fique preocupado. Afinal, a merda deles tá no ventilador e a gente sabe que eles são rápidos e diligentes na fabricação de merda. O vídeo dos soldados atirando nos civis em plena rua e achando graça é no mínimo doloroso de ver, e ultrajante; foi como o escândalo começou, afinal. Agora, o que eu não acho nem um pouco justificável é que os cidadãos americanos se sintam ultrajados. Os últimos meses tem sido, hm, delicados lá, a gente já sabe. Tomar umas pegadas nas partes ou passar pelado num scanner pra andar de avião não é seguramente uma atividade relaxante. Mas eu acho que ao invés de se preocuparem com um australiano revelando os tais dos “segredos nacionais”, por que diabos eles não estão focando no conteúdo desses segredos? Acho que poucas coisas são tão vergonhosas quanto ter uma prova assim concreta dos seus soldados agindo como monstros. Tá que soldados já não são seres humanos exemplares, mas vocês entendem que estamos diante dum exemplo extremo.

Como, sei lá, habitante desse planeta, eu fico a princípio bem puta de ver os Estados Unidos mais uma vez agindo como dono da porra toda; emendar as duas Coréias de novo? De boa, caboclo, cuida do seu país! Acho impressionante como eles acham tempo pra dar pitaco na estrutura de uma nação do outro lado do mundo sentado em cima do próprio rabo. E mesmo quando dão pitaco, não é pra derrubar um ditador filho da puta igual o cidadão lá na Coréia do Norte, que fala pra galerê que é filho de deus e que o pai dele criou o mundo e todas as coisas nele. Não é pra desarmar o Irã, como a Arábia Saudita pede desesperadamente. É pra… sei lá. Ser o neto da puta, que é duas vezes filhadaputagem.

Eu coloquei no título do post “informação como instrumento de mudança”. É. A verdade é que a gente sempre soube do modo como os EUA lidam com a sua política externa, isso não foi novidade. A gente sabe que os árabes querem se explodir mutuamente há pelo menos uns 100 anos. Por outro lado, especular é uma coisa, vê-la provada com documentos oficiais é outra. Acho que se isso não motiva um mínimo de consciência a respeito do modo como os governos se relacionam, a gente merece tomar no cú dos Estados Unidos e de outras organizações que só querem nos enrabar. Se pelo menos um projeto de arriscar a vida como WikiLeaks não causa debate, não causa um ínfimo abrir de olhos, a gente está é sendo condescendente.

Não me restam muitas ideologias ultimamente. Tem muita coisa na qual eu deixei de acreditar. Mas eu ainda não tive provas contra o poder de mudança da informação, muito pelo contrário. E uma última vez sobre os dois mais procurados pelos EUA, muitas vezes penso comigo mesma que existem leis e leis. Tem lei contra matar milhares de pessoas, e também tem lei contra vazar informações secretas. Simplesmente não dá pra colocar as duas no mesmo saco, foi mal.

 

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4 opiniões sobre “Wikileaks e a informação como instrumento de mudança

  1. Não adianta, eles sempre vão pensar que são maiores, mais inteligentes e melhores que todo o resto do mundo, então vão ficar ultrajados com o vazamento de informações e talz e ainda vão se achar no direito de continuar cuidando das nações alheias. u_u

    Mudança radical de assunto: Amanda, te dei um selo de qualidade! vai no meu blog dar uma olhada.

    bjos

  2. Ow, EUA é uma merda mesmo. Eles acham que são os donos do mundo. Engraçado porque eles ficam horrorizados com o tal vazamento de informações, mas ninguém fica horrorizado com o conteúdo dessas informações. Como assim pedir o histórico psiquiátrico de uma presidente? Pra fazer o que????? Com certeza eles não estão querendo tratar os traumas de infância da mulher.

    Eu também acho que informação é tudo e governos grandes sabem disso. Por que é que não abrem os arquivos da ditadura no Brasil? Porque lá tem informação que vai ferrar com muita, mas muita gente. Gente famosa, gente poderosa, gente com dinheiro. Quem não deve não teme, né não?

    E agora prenderam o cara por acusação de violência à mulher! Nem parece que foi arranjado…

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