Guerra dos Sexos

Desde 2007, quando fui num Seminário de Política e Feminismo pela primeira vez, decidi pra mim mesma que achava o feminismo no século XXI o movimento mais descabido e anacrônico de todos os movimentos de minorias. Quando fiz na Letras uma matéria sobre poesia do século XX – ensinada por uma professora feminista – , peguei verdadeiro ódio do feminismo, primeiro porque toda interpretação de poema era a mesma merda, a representação do falo oprimindo a representação do feminino tralalalalalalalala, e segundo porque eu pensava nas mulheres da segunda metade do século passado queimando sutiã e tocando o terror no meio da rua – e até ali, nos meus dezoito anos, eu dizia a quem quisesse ouvir que não me senti nunca discriminada por ser mulher, e que diferentemente de outras minorias, eu tinha voz e podia bater de frente caso eu me sentisse discriminada.

Eu mudei de opinião bastante desde então, mas estava parcialmente certa com relação a uma coisa: entre todas as minorias, acho que nós mulheres temos mais espaço pra armar o barraco quando somos discriminadas. Não digo que acontece menos, mas eu sinto que mulheres são muito mais ouvidas do que gays ou negros, pelo grande público. Mas duas coisas devem ser levadas em consideração: primeiro, traços que causam discriminação não são exclusivos: você não é só gay, ou só mulher, ou só negro. E outra, como agora, de acordo com a idéia do politicamente correto não se pode – ou não se poderia – discriminar alguém pelo gênero, acaba que muitas mulheres acabam se vendo encarceradas no estereótipo do feminino. Muita gente já tem blogs a respeito, então só vou resumir o assunto colocando que as feministas contemporâneas acabam sofrendo preconceito por serem mulheres E por serem feministas, como se estivessem reclamando de boca cheia.

Quando eu estava indo pro metrô hoje peguei um jornal. A maior manchete tinha esta notícia.

Poucas coisas me deixam mais irada do que um boçal que chega dizendo: “ai, mas e o preconceito contra homens, brancos e heterossexuais?”. Dá vontade de sair correndo com uma serra elétrica atrás da pessoa. Eu não acho que alguém que diz isso entende o que quer dizer discriminação. A grosso modo, meus caros, é quando você é tratado como inferior por não ser de uma determinada forma que por acaso detém todo o poder político, ou econômico ou social, geralmente os três. Ou seja, ser tratado como inferior por não ser homem branco heterossexual! Não consigo explicar com mais simplicidade que isso. Sem mencionar quando o infeliz diz que homens não se sentem atraídos por mulheres que são mais bem sucedidas do que eles próprios. Não sei quem fica mais ofendido com essa, se a mulher dele, se a síndrome de pau pequeno do cidadão.

Sabe o que é mais preocupante? Isso foi dito por um membro do Parlamento Inglês. Não é o Zé do buteco. Não é nem um deputado estadual analfabeto funcional dalgum cantinho do Brasil que tem uma mulher e quinze crianças. Isso veio de um homem que provavelmente teve a melhor educação que o dinheiro pode fornecer, que teoricamente leu todos os livros que se deve ler, que representa os cidadãos do Reino Unido. Não há limites para a resistência da ignorância, é só o que eu penso. Deu tristeza.

Pois muito bem. Eu viro uma página, e o que vejo? Essa outra notícia.

Esses caras que falaram que acham um absurdo uma mulher trabalhar como lateral são tipo o Galvão Bueno e o Casa Grande daqui. Faz vinte anos que eles comentam todos os jogos principais daqui. Quando um comentário descaradamente machista como esse vem desse tipo de gente, só dá vontade de sentar no chão e chorar, porque é como se o mundo estivesse acontecendo à volta deles – e sabe-se lá de quem mais, que insiste em ignorar coisas tão simples? – e… e nada. E eles acham que não tem problema alimentar em rede nacional o estereótipo da mulher que é burra demais pra entender o que é um impedimento.

Eu normalmente não postaria sobre feminismo, apesar de ler alguns blogs e ser até simpatizante. Mas meio que me senti no dever de mostrar que esses pensamentos imbecis não estão confinados a países como o Brasil, muito pelo contrário. Foi da Europa que saiu boa parte dos preconceitos dos quais ainda tentamos nos livrar, mas não deixa de chocar como eles insistem.

 

 

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2 opiniões sobre “Guerra dos Sexos

  1. Também tinha uma certa birrinha de feministo e seus exageros em interpretação literária, mas ironicamente, estudo agora uma autora considerada feminista com uma orientadora também considerada feminista. Bem, fazer o quê?

    Não gosto de levantar bandeiras. Sei lá, o lance é respeito. Isso resume tudo. Se todos tivessem o mínimo de respeito – e respeito não é amor, não é ser o melhor amigo, é simplesmente não discriminar – não seria necessário ter um orgulho gay, ou o 100% Negro, ou Lei Maria da Penha. Todo mundo viveria me paz e com igualdade.

    O problema é que existem pessoas idiotas como essas que ainda acham que um ser humano é inferior ao outro por motivos de gênero, cor, etc. A vontade é de bater nessa criatura.

    Acredito que existam diferenças entre gêneros. Biológicas, psicológicas. Óbvio. Mas isso não limita capacidade. Acho que é isso que as pessoas não entendem. E sinceramente, mulher sofre preconceito SIM e isso é uma vergonha. É ridículo. E isso está em coisas pequenas como levar seu carro na oficina, comprar um computador, ir reclamar numa loja… affe!

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