Sobre os managers

Quando eu fiz o treinamento, teve muitas poucas coisas que eu não levei a sério. Toda empresa tem, eu imagino, aquele papo besta sobre o tanto que eles são relevantes na atividade que performam, e sobre como têm clientes importantes, tudo pra fazer você se sentir importante no fundinho do seu coração, como parte de alguma coisa importante, mesmo que você não ganhe nem um terço por hora do que aquela pessoa na sua frente. Mesmo que muitas vezes você vai ter que trabalhar usando sapatos cuja sola já descolou (parcialmente pela porcaria do material, parcialmente por tanto andar), mesmo que você muita vezes acabe encalhado em setores de eventos que nem mesmo tem aquecimento – eu sei, parece absurdo, mas aqui é crucial – você se sente parte do funcionamento tranquilo de algo maior. Então, quando no meu treinamento de garçonete, em dezembro, me disseram que eu estaria trabalhando muitas vezes pra pessoas importantes, ou em lugares icônicos e mimimi, eu imaginei que isso não chegaria a acontecer comigo porque só ia trabalhar seis meses.

Acabou que não, e mesmo sendo iniciante, já estive em alguns lugares de certo prestígio, reconhecimento, fama, sei lá, chame o que quiser. Lugares que você não precisa dizer perto de qual estação que é. Tipo Westminster Abbey, é, issaí. Mas por causa de ontem, a figura que mais me intrigou foi a do manager.

Eu não queria usar o termo em inglês, e veja bem, não quero usá-lo aqui por pretensão. É só que, muitas vezes, equivalentes textuais de tradução são carregados de outros significados. Então não dá pra chamar de chefe – porque pelo menos eu quando digo chefe penso no dono da merda toda – e não dá pra chamar de, erm, administrador, porque essa palavra em português tem outra conotação. Pra resumir, quando você está na base da cadeia alimentar da área de hospitalidade, o manager é o cara com quem você fala. Ele é quem vai dizer qual a sua função aquela noite, o que pode e o que não pode. O manager está alto o suficiente pra ter respeito por todas as gradações de organizadores e baixo o suficiente para que a gente possa falar com ele diretamente.

Como quase todo dia que eu trabalho, conheço um manager diferente, em dois meses deu pra perceber os dois extremos. Um extremamente companheiro, raríssimo, procura eliminar a distância hierárquica entre ele e você. Te dá liberdade de fazer piadinhas, enquanto o evento não começa pergunta da sua vida, talvez até de onde você é. No fim do evento come as sobras dos canapés com a gente, passa pra galera as garrafas de vinho que foram abertas e iriam pro ralo de qualquer jeito. Tem um particularmente que abriu uma garrafa de prosecco e adora ficar batendo papo sobre religião – ateu – , ou música – eletrônica – ou sobre diferentes tipos de vinho. Mais importante do que escutar as nossas sugestões, ele se mostra disposto a ouvi-las, o que não acontece com tanta frequência.

Bom, com essa descrição já dá pra imaginar o extremo oposto; quando você chega, ele te olha de cima a baixo, diz que seu sapato não tá brilhando e que você esqueceu de tirar os brincos. Geralmente são a personificação do estresse. Alguns pra mim são tão caricatas que você se percebe espiando eles pelo canto do olho procurando qualquer sinal de humanidade. Essa semana trabalhei pra um que só faltou matar um cara que pediu pra não ficar no caixa, e sim lidando com o estoque num jogo de futebol. Sério. Ele começou a gritar na frente da gente, perguntando por que o cara queria trocar e se ele não desconfiava que muita gente tinha planejado aquilo pra ele sair pedindo pra mudar no último instante. Me considerei feliz por ele ter fingido que eu era invisível, até porque eu era a única mulher ali, e confesso que por isso acabei me extra esforçando – a atmosfera não estava muito positiva. Ah, e esses caras sempre tem um radinho com fone de ouvido, pregado na calça, então do nada faz um RRRR e ele começa a falar sozinho muito rápido.

Ainda entre os estressados, tem os que fingem fazer piadas. Mas piada de manager estressado é sempre variação do mesmo tema. “E esse cabelo mal amarrado, hein?hahahaha brincadeira”. “E essas mãos no bolsos, tá achando que é caubói?hahahah”, com aquela risadinha que ecoa no fundo da sua orelha, te trazendo o verdadeiro significado da piadinha. “Estou te lembrando que mando em você, mas olha só como eu sou bem humorado!”

Algo que todos eles têm em comum, estressados ou não, é que mais de uma vez por dia eu percebo os managers manageando gente sobre a qual eles não têm poder. Acho que é o hábito. Muitas vezes é engraçado, você só ri do estresse da pessoa, ou da mania, mas ontem teve um incidente que me deixou muito envergonhada do meu manager e me fez pensar um pouco mais afundo sobre essa posição intermediária deles na empresa.

O evento no qual eu trabalhei ontem acabou às duas da manhã e era no meio do nada, o que resultou na companhia nos dando um táxi. Seis pessoas moravam bem mais ou menos na mesma área, então fomos colocados no mesmo carro. Ouvimos que a viagem ia ficar 75 libras. O manager, por coincidência geográfica, ficou no meu táxi. Acontece que o motorista era mais perdido que cego em tiroteio, falava um inglês muito ruim e ainda por cima tinha um bafo que eu conseguia sentir do banco de trás. Percebi que aqui em Londres eles podem colocar qualquer um pra dirigir táxi, porque o GPS fala exatamente o que ele tem que fazer pra chegar a todos os lugares, então acabou aquela idéia minha dos taxistas de BH que conhecem a cidade onde estão dirigindo.

Bem, como o cara deu bem umas duas voltas no bairro de Greenwich – estávamos no norte, fomos parar no sul, e quando vimos, tinha placa pro lugar do evento na pista de novo – o manager foi ficando nervoso porque primeiro o taxista tentou convencer a gente de que o táxi ia na verdade custar 80. Já de cara o manager: “eu reservei 75. Vocês taxistas de madrugada tentam sempre se aproveitar. Eu vou ligar na sua agência e dizer pra eles que vou pagar 75. Qual o número da sua agência?”

Eu e meus outros três colegas prendemos a respiração, mas era só o começo; deixamos a primeira em casa, a segunda, a terceira; quando era finalmente a vez do meu endereço ir pro GPS, eis que o manager tem um rompante de ódio: “olha aqui, você vai fazer o que eu tô dizendo. pode colocar o meu cep aí e não fale mais comigo, que eu não aguento mais esse bafo, vê se escova os dentes, pelamor”.

Congelei no meu banco de trás. O meu último colega fez o favor de inventar q morava naquele pedaço pra descer logo e eu fui no trem da alegria até o endereço do manager, chocada com o tratamento que ele estava dando ao taxista, que, apesar de fedido e meio incompetente, estava só tentando fazer o trabalho dele, e em nenhum momento encorajou o manager a falar com ele naquele tom de voz. Se a gente entende o tanto que isso é uma quebra de, sei lá, respeito e costume social, imagina por aqui, onde todo mundo é duro e apegado a essas regras distantes de tratamento pessoal.

Quando o taxista saiu pra abrir a porta pro último dos meus colegas, o manager soltou um “odeio esse cara”. Eu, que já tava cansada daquela atmosfera, respirei fundo, e falei, em português (pois eis que o manager dessa noite era brasileiro): “você acha que isso era realmente necessário?” e fechei o olho, esperando ele me destruir, mas sabe! Tem horas que não dá. Que você tem que correr o risco e se posicionar. Pra minha surpresa, ele não disse nada. O taxista voltou, sentou, continuou dirigindo. Quando chegamos no endereço do manager, ele usou “por favor” e “com licença” pra dizer qual era a casa dele certinha. Não sei se ele tinha usado a última MEIA HORA em silêncio no táxi pra se acalmar ou se eu realmente o chamei à razão, mas pro meu próprio conforto gosto de pensar que ele me ouviu, seja verdade ou não.

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6 opiniões sobre “Sobre os managers

  1. Tenso, hein, a que ponto essa pessoas chegam… fico imaginando se caras assim têm esposas e filhos, e se os têm, como os tratam.
    Bacana a sua atitude!

  2. Quase todos têm família. Não faço idéia de como funciona. Teve uma coisa que eu esqueci de adicionar no post, que é a palavra que os managers tão sempre repetindo: excelência. Eu acho sinceramente meio patológico esse desespero por perfeição.

  3. Eu acredito que o seu manager ficou com vergonha dele mesmo porque viu que pegou pesado. Ele teve um dia ruim (e/ou uma trepada ruim na noite anterior) e descontou em outra pessoa. Fato. E eles pisam sem perceber, é um horror.

    Fora isso, se eles exigem perfeição de vcs, eles vão exigir de terceiros e que se dane o mundo. Esse aí só esqueceu que ele não é perfeito, principalmente se trata os outros como capacho. Fala sério.

    Aliás, vc poderia chamá-lo de coordenador, acho que é o tipo de função que ele exerce aí. o.o (eu diria gerente, mas não parece encaixar no pefil da figura).

    bjos

  4. Eu chamaria ele de filho da puta. Mas acho que não é uma boa tradução pra manager… Mas às vezes ele não é sempre assim. Um dos problemas de trabalhar cada dia sob a autoridade de uma pessoa diferente é que um dia uma dessas pessoas vai estar num mal dia, e pode ser você que vai estar lá. Já parou pra pensar que o cara que foi super legal e abriu o proseco pode ser tão tosco quanto esse outro aí num mal dia??? É óbvio que a atitude do caboclo é reprovável em qualquer hipótese, mas acho um pouco temerário pensar que ele é sempre assim. (pra sorte de quem tem que viver com ele, tomara que não, né?)

    Mas, por fim, sou sua fã de ter chamado ele à razão. Às vezes pessoas boas que estão em maus momentos precisam de alguém pra lembrá-las que elas são legais… E pode ser que seja isso que você fez. Se não legal, pelo menos você lembrou que ele tem educação em algum lugar dentro dele! 😉

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