Eu sou agnóstica

Mais uma na linha visão-particular-de-assuntos-universais.

Engraçada a naturalidade com a qual as pessoas à minha volta tem falado de religião ultimamente. Eu estava acostumava a viver num ambiente em que todo mundo tem mais ou menos a minha visão, então as piadas com religião estavam liberadas. Mas quando piadas de religião se tornam algo super normal, que se faz até no papo mais ou menos antes de aula de italiano, não tem como não achar meio estranho.

Não sei muito bem há quanto tempo eu sou agnóstica, mas acho que desde que tenho 16 anos comecei a me afastar gradualmente das religiões institucionalizadas. Essa semana eu descobri que as pessoas em geral não sabem muito bem qual é a diferença entre um ateu e um agnóstico, o que pra mim foi bastante surpreendente. Ou vai ver eu sempre só espero demais de todo mundo com quem eu convivo.

Sim, o agnóstico cobre aquele lapso entre os religiosos e os ateus, é aquela área cinzenta, e por isso esses dias escutei que o agnóstico é covarde porque “fica em cima do muro”. Falando assim, fica parecendo que a gente pegou os dois extremos – porque aparentemente TEM que ser um ou outro – mediu e percebeu que nenhum era uma “escolha segura”.

Eu honestamente acho que a sua religião – ou falta dela – está tão fora do nosso poder de escolha racional quanto as nossas preferências sexuais, literárias, de hobbies ou qualquer outra coisa. Acho que não tem nada mais triste do que se sentir forçado a “fazer uma escolha”, já que ser agnóstico é ficar de bem com todo mundo, pelo que eu ouvi. Assim como nos nossos hábitos sexuais, como nas músicas que a gente gosta, pra quem e se a gente reza não é algo escolhido conscientemente. É como dizer ao bissexual que ele está sendo covarde e que tem que escolher homem ou mulher. Eu sinto muito, universo, mas eu não tenho QUE nada. Escolher uma religião ou resolver sair dizendo que deus não existe só pra não confessar a minha profunda ignorância sobre esse assunto é pra mim imbecil e falsa. Se tem algo em que eu acredito – não, não é deus, haha – é que eu não tenho que ser nada que eu não quiser.

Pelo bem ou pelo mal, no meu ver o ateu tem tanta ou mais fé do que o religioso: em primeiro lugar porque pra negar um fato que não se pode provar exige a mesma certeza que afirmar sua existência. Não digo que quem afirma qualquer uma das duas coisas está errado e vou ilustrar isso com algo que um ateu me disse uma vez: “Eu simplesmente não consigo aceitar a idéia da existência de um deus. Pra mim não faz sentido.” Tem outro problema com os ateus, e olha que uns 70% dos meus amigos são ateus: por causa dessa certeza que eles sentem, muitas vezes eles fazem piada com religiosos de jeito maldoso e preconceituoso. Dizer que “a ciência está do seu lado” não faz a pessoa que tem uma religião mais burra do que você. Sua capacidade de raciocínio é exatamente igual, mas provavelmente ela acredita em algo que você não. E quando se trata de divindade, é isso mesmo: acreditar é algo particular. É diferente de crer que o Sarney é um filho da puta, porque temos evidências concretas e até porque o desgraçado é humano como a gente. Mas crer em algo maior – ou não – é realmente um traço individual.

Eu pessoalmente não acredito na Bíblia, e já falei isso antes aqui. Não respeito um livro que se diz sagrado e prega que o amor homossexual é errado e pecaminoso. Amor é amor, e se for pra ir pro inferno achando bonito que dois homens ou duas mulheres se amam, que carimbem a nossa passagem. Mas já vi a religião fazer coisas boas pelas pessoas – ok, mais coisas ruins do que boas, mas… – então acho que um pouco mais de respeito pelas opiniões alheias cai bem.

Alguns agnósticos pendem mais pra um lado do que pra outro. Alguns agnósticos não pendem pra lado nenhum, alguns até mesmo tem o que dá pra chamar de religiões individuais. Hoje eu fiquei sabendo que no último censo daqui constou que tem cerca de 9 milhões de Jedi no Reino Unido, meramente porque a opção “ateu” não estava presente no formulário. Como todo mundo que já teve a infelicidade de ver o Datena abrir a boca, eu sei que a discriminação contra os ateus é significativa e nem é protegida por lei porque a pluralidade de credo é discriminação, mas não pregar o ódio a quem simplesmente não tem credo.

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5 opiniões sobre “Eu sou agnóstica

  1. Desde que vc se sinta bem consigo mesma, o Deus que há em você se sentirá bem por você.

    Não sou santa, nem minha religião cria santos. A religião é criada por homens. Mesmo seguindo a Bíblia, terei meus questionamentos e meu livre arbítrio pra concordar ou discordar das passagens dela. Afinal, ela foi escrita por homens.

    As piadas me incomodam, fato. Não sou carola, nem acompanho os esteriótipos religiosos, mas acho de extremo mal gosto os rótulos de acéfalos e imbecis para quem segue uma relgião, por mais que uma pessoa tenha a visão limitada do mundo além da sua crença – mesmo que seja a crença da mera existência de Deus.

    Mas enfim, o livre arbítrio existe, não faço ninguém calar a boca por isso, não é meu direito. O duro é perceber a aversão das pessoas aos assuntos relacionados a qualquer religião, mesmo nao sendo pregação propriamente dita, apenas um testemunho. Acho que aí também entra o respeito que vc falou.

  2. Olá Menina Pavani

    Liberdade existe pra isso, pra expressar. Peço licença no seu blog para deixar transcrito um texto que revela como a minha cabeça pensa um pouco o tema-como-vc-abordou, belê?

    Para mim Deus não existe. Para mim Deus é. O que existe vem do que é. Deus é. Eu é que existo.

    O que existe e sabe que existe, deveria saber que vem Daquele que é. De fato, deveria pelo menos intuir que Dele se deriva.

    Entretanto, não tem como provar para outros que Aquele que é, existe; visto que Aquele que é, só é porque não existe como existente entre os que existem; pois, se assim fosse, Ele não seria, mas apenas existiria; e por isso, apenas seria.

    O que existe – primeiro se torna existente, para então ser. O que é, porque é, é; e cria o que existe. Assim, o que existe sabe de si e pode conhecer Aquele é, mas não tem como prová-Lo a outros que apenas existem, pois, Aquele que é não habita a existência como objeto de prova.

    Então, discutir a existência de Deus seria algo tão fútil e pálido quanto discutir se você existe.

    Quem olha para você e diz que você não existe, equivale àquele que olha para a Criação, para si mesmo, e para tudo o que a Existência implica, e não vê Deus.

    Deus é, mas a criação existe. E existe maior do que qualquer indivíduo existente. Portanto, aquele que olha para o Existente Criado (Cosmos) e nada vê e nada sente, é como aquele que fica diante de você e convoca uma conferência para decidir se você existe ou não.

    É loucura? Sim! É! Tanto num caso como no outro!

    Ora, em tal caso, quem assim o fizesse, não estaria de fato discutindo a sua (tua) existência, mas sim a sua (tua) aceitação ou não como existente por esse (o individuo discutidor) que se julga o validador do que existe ou não existe.

    Nesse sentido a gente vê o sentimento que gera o tanto o ateísmo (certeza de “não-Deus”) quanto o agnosticismo (a certeza de que a questão da existência ou não deDeus não foi nem nunca será resolvida)

    e tem gente que não usa a inteligência (humildade) e a simplicidade que você usa, mas sentindo-se “mais inteligentes (arrogantes) que os religiosos, trazem seus discursos vestindo-se de antipatia, implicância, raiva, revolta, amargura, arrogância, vaidade, soberba (ou seja: de supremas burrices!) — no trato com o próximo. Sim! Há ateus de Deus e há os ateus de homens — nós os chamaríamos de a-homens?!

    Negar que o próximo exista e seja, é equivalente a dizer: Deus não é; Deus não existe! — e ainda assim se desviar do individuo que não existe como se ele existisse.

    Sim! Porque nunca vi um ateu viver até o fim as implicações filosóficas do ateísmo ou um agnóstico viver até o fim as
    implicações filosóficas de seu agnosticismo…

    Um ateu ou agnóstico que se satisfaz com filosofias é um ateu/agnóstico querente, um ateu/agnóstico crente, e crente do tipo obscurantista, posto que ainda é capaz de se satisfazer com as lendas de existência da Filosofia.

    Geralmente estão revoltados com alguma contradição (no sentido que DIGA CONTRA algo que para a pessoa é algo que esteja na essência do seu ser – homossexualidade seria um exemplo de contradição – nesse sentido – ok?)

    Até mesmo Friedrich Nietzsche não levou seu ateísmo até às últimas conseqüências, posto serviu-se de todas as possibilidades que somente num mundo com Deus se poderia ter.

    Mas vejo que vc se posiciona como agnótica…

    Ora, o que vejo em suas palavras?

    De cara um inconformismo com o Cristianismo Instituído,
    isso é, A CRISTANDADE.

    Daí vc disparar contra a Bíblia… (o “Livro” deles, os cristãos…)

    E pelas ênfases no seu texto (só li esse) vc dispara como quem vive nos poros ou a militância pró-homossexualismo (devido a amigos/as queridos/as) ou pelo menos o vc mesma já ter experimentado/estar experimentando alguém do mesmo sexo (é a impressão cravada no seu texto e exalada enquanto te lia, ok? vc fala, fala, fala em religião, mas várias vezes vc faz uso de exemplos sexuais – pulsão talvez incosciente na motivação do texto, mas que “pulou pra fora” na sua escrita)

    Ora, qualquer código moral escrito há milênios, fosse Bíblia, escritos sumérios, código de hamurabi, Direito Romano, Alcorão, filosofia estóica, gnóstica, whatever! Qualquer uma traria um tom anti-homossexualismo e anti-homossexualidade! O que vc espera de qualquer código moral escrito há milhares de anos? Um Kama Sutra? tsc…

    Eleger a Bíblia como a “grande inimiga religiosa” de um monte de coisas que, pelos seus olhos, são coisas boas, sãs, seguras, palatáveis, degustáveis, etc. é facinho aqui no ocidente católico, mas eu não vou me deter ao seu tema central (que não é agnosticismo, mas homossexualismo) te perguntando: você já leu tão somente os Evangelhos?

    Por que a pergunta? Ora! Cristianismo é uma coisa, Evangelho segundo Jesus e Jesus segundo os Evangelhos é outra. Daí seu argumento recorrente seria: mas evangelhos também são livros… tá, mas foram livros contundentes com todo o establishment da época de sua escrita.

    Leia SÓ os Evangelhos e tente pensar a questão “homossexualismo” só a partir da leitura feita, pode ser?

    O que se diz que Jesus falou é anti-tudo de sua época, detona a promiscuidade com a mesma força motriz que detona a religiosidade vazia, hipócrita.

    Ora, ao se definir agnóstica, acho que vc pulou umas etapas
    e pra mim vc deveria ler os evangelhos da Bíblia primeiro (só os evangelhos, não leia mais nada lá…).

    Assim, sugiro que vc “arrisque” ler os 4 evangelhos bíblicos e depois a gente trocaria umas figurinhas, ah, e parta do princípio que, quanto à religião de sua época, e pensando em “agnosticismo” ao menos conforme Kant e Hume propuseram, Jesus também teria sido um agnóstico antagonizando “aquele Deus” que já tava na cabecinha dos religiosos de sua época.

    Assim, é que acho que vc pode ter aí dentro da sua cabecinha muito mais desse Jesus do que vc mesma saiba codificar linguisticamente, e talvez, na sinceridade agnóstica devota do seu coração exista muito mais de divino do que vc conceitua (e isso só digo pq repito q para mim sua baliza é o cristianismo – a hidra politico-religiosa que engoliu o Ocidente – e não os Evangelhos conforme Jesus ou Jesus conforme os Evangelhos… pense nisso DEPOIS DE LÊ-LOS!)

    Quase todo ateu ou agnóstico tem grande vocação religiosa, frustrada ou traumatizada — mas quase sempre tem.

    Assim, digo:

    Não se preocupe em provar Deus (ou sua não-existência – ou a impossibilidade agnóstica de “resolver” Deus) para ninguém nem para si mesma. Seu único discurso sobre Deus (questão q para vc hoje não está e vc HOJE acha que nunca estará resolvida) é reconhecer que talvez VOCÊ não tenha se munido de todas as fontes, pois talvez se nascesse em vc uma busca pelo divino talvez isso fosse EXPERIENCIAL, e não filosofável… e fosse do mesmo modo que você não perde tempo provando sua existência para ninguém que vendo não aceite o que vê: você.

    Se eu tiver razão e se, assim, Deus é, ele se entenderá com os crentes, ateus e agnósticos…

    É isto que penso!

    Ah, em tempo: religião faz coisas boas, mais ruins que boas (CONCORDOOO!), mas tire o foco de religião, pois eu tentei te jogar um foco para Jesus e não para religião, repense seus valores após a LEITURA PURA de somente os evangelhos bíblicos (Mateus, Marcos, Lucas e João)

    Se Jesus falou a verdade sobre si mesmo, então ele é o CONTRÁRIO da religião, pois religião seria o esforço humano de se chegar ao divino, mas religião também é a confusão desse esforço com alianças políticas/financeiras sacanas, já Jesus – se for verdade o que ele disse de si mesmo! – seria o OPOSTO de religião, pois seria Deus vindo aos homens… Leia os Evangelhos nessa lente e depois, se vc quiser, a gente conversa… Por que ler Jesus? Comecemos com ele, depois a gente conversa o “problema-Deus-resolve-se-ou-não”…

    • Bom. Em primeiro lugar, sim, eu já li os Evangelhos. Não saí da religião porque achei bonito. Saí porque não estava satisfeita com o que ela dizia e com o que me oferecia.

      Queria deixar bem claro que essa velha falácia “leia X e depois a gente pode conversar” é uma tentativa falha (e triste) de se colocar numa hierarquia textual elevada com relação à pessoa que emitiu a primeira opinião – no caso eu – sendo também nada construtiva e partindo de um triste pressuposto que eu teria minha opinião porque não li tanto quanto você. Não faça isso, pois desencoraja uma resposta que te respeite.

      A minha “pulsão”, no seu inocente ver “insconciente” é a minha escolha de exemplo mais absurdo do tipo de coisas que as religiões fazem a gente achar que é errado. Eu podia mencionar algo mais polêmico, como aborto, mas acho o homossexualismo algo mais simples. Supor coisas sobre a minha vida pessoal também contribui pouco para a discussão racional.

      O ateu e o agnóstico não é gerado a partir da negação. Você tem essa impressão porque a maioria dos ateus e agnósticos foi criada num ambiente religioso, o qual precisou abandonar durante o crescimento. Buscar uma divindade além não é um ímpeto comum de toda a humanidade. Buscar respostas pro motivo da nossa existência sim; mas não acreditar num ser maior. Isso é exclusivo de uma parcela. Portanto, é mais uma inocência achar que ateus e agnósticos são “frustrados”, quando eles apenas estão sendo eles próprios. Não crer ou duvidar é, para nós, o ponto zero, não o -1.

      Minha visão pessoal de Jesus sempre foi de um cara progressista e que usava a cabeça mais do que a maior parte das pessoas com quem convivia. Acho que a gente perde achando que ele é um enviado ou qualquer coisa, porque isso nos faz pensar que nunca seríamos capazes de fazer o que ele fez. Como ele, somos humanos. Se ele condenava promiscuidade, continuo não gostando, porque o modo como a gente usa o próprio corpo só nos diz respeito a nós mesmos e a mais ninguém.

      Religião não é um pacote que você compra a prestação. Se você não se afilia a nenhuma denominação religiosa, mas ainda assim acredita num ser maior, eu sinto informar, mas essa é a forma teísta de agnosticismo. Ou você aceita os preceitos da sua instituição escolhida ou pula fora.

  3. QUERIDA! DEUS NÃO PRECISA PROVAR QUE ELE EXISTE! A EXISTÊNCIA DO ATEU, CONSTITUI-SE NUM FORTE INDICADOR! SE DEUS NÃO EXISTISSE, PARA QUE SERVIRIA OU EXISTIRIA O ATEU? É UM DESSERVIÇO!!! AINDA SOBRE O CRIACIONISMO OU EVULOCIONISMO (teoria de darvin) CRER QUE TUDO PASSOU A EXISTIR APÓS UMA EXPLOSÃO, É O MESMO QUE DEIXAR NUM TERRENO BALDIO UM MONTE DE AREIA, DE PEDRA BRITA, FERRAGENS, TIJOLOS, CAL E SACOS DE CIMENTO, E AMANHECER UM LINDO EDIFICIO!!! PARAPENSAR, REFLETIR E TOMAR ATITUDES!!!

    UM GRANDE ABRAÇO, E QUE DEUS (na sua infinita bondade e misericórda) CONTINUE TE ABENÇOANDO!

    Osmário de Andrade
    Teólogo Capelão-Mestrando em Ciência da Religião

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