Zangief Kid: “Escola não é pra sempre”

Se você mora embaixo de uma pedra, talvez você ainda não tenha ouvido falar do Zangief Kid. Pra entrar no clima do meu assunto de hoje, vale a pena ver essa matéria sobre quem esse menino é e o que aconteceu com ele:

A frase que mais ficou pra mim da matéria foi essa sobre a escola não ser eterna. Quando você é uma criança/adolescente, a escola é a base da sua existência. Tudo de interessante que porventura possa te acontecer com certeza vai vir de lá.

Eu tento entender às vezes os mecanismos do bullying, que não é simples, pois veja bem, eu sofri bullying, mas ao me lembrar da sétima série até o terceiro ano muita gente sofreu bullying e eu não só ignorei, como às vezes achei engraçado. Naquela idade eu estava, como a maioria dos adolescentes, tristemente distraída pensando em mim o tempo todo; por consequência, quando algo acontecia comigo era o fim do mundo, mas quando era com outras pessoas, ah, aí era até engraçado.

Eu estava há dois anos na escola particular e eu ainda estava tendo muitos problemas de adaptação. As outras crianças eram muito diferentes, e ao mesmo tempo que eu achava difícil fazer amigos, eu enxergava uma hierarquia. No meu diário da época eu até fiz um diagrama de quem era mais popular, as duas meninas que estavam na zona de transição, quem era lama… Não era surpresa novatos e bolsistas serem meio excluídos, porque simplesmente não tínhamos como falar do que tinha passado na tv a cabo, do jogo novo de computador, nem de nada. Até aí, bastante normal. Eu só ficava um pouco aborrecida nas aulas de Educação Física, porque as meninas da escola particular era muito moles, tinham medo da bola, atitude totalmente contrária das minhas aulas da mesma matéria na escola pública, onde todas as meninas eram fortes e muito competitivas. Dá pra imaginar que eu era vista como alguém particularmente agressiva. (ainda sou, né? Só que de um jeito mais doido agora. haha)

Em um dia normal em sala de aula eu estava conversando com umas meninas na sala, e sabe quando você dá tipo um soquinho, um toque no ombro de alguém quando algo é engraçado? Pois é. Eu não me lembro da menina reclamando particularmente de dor, talvez algo pequeno, normal. Minha próxima lembrança desse dia é da sala inteira fechada lá dentro reclamando de mim pra professora de geografia e pra coordenadora. Eu podia ouvir eles de fora da sala, dizendo que eu era lésbica e que eu ficava me esfregando nas meninas durante a aula de Educação Física. Em outras ocasiões, elas perguntavam pra única amiga que eu tinha feito ali se ela não tinha medo de eu “atacá-la”. Sei lá. Na cabeça delas eu ia estuprar a minha amiga. Crianças não são sutis. Eu podia ouvir tudo, eu estava só do lado de fora da sala, que não era isolada acusticamente.

Eu não gosto de lembrar desse dia, mas vou continuar tentando reproduzir o que eu lembro sem poder consultar meu diário, que ficou em casa.

A certa altura, a porta foi aberta. Me colocaram na minha carteira, e a coordenadora começou a descrever pra mim todas as coisas que tinham acabado de dizer de mim, só que de forma politicamente correta. A professora de geografia, fui saber depois que se compadecia de mim, estava atrás, com uma cara séria, e eu não conseguia entender aquelas acusações. Como eu ia explicar que aquelas menininhas ricas e moles eram frescas demais? Quando você tem treze anos, você não tem confiança pra dizer que elas são imbecis e que nunca teriam a sorte de serem “atacadas” por mim, fosse eu lésbica ou não. Na época eu só fiquei lá, sentada no meio da sala, sem entender por que as pessoas me detestavam tanto, até que certo ponto eu interrompi a coordenadora quando ela dizia que “pedir desculpas era algo muito difícil”. Eu falei bem alto, “Não, não é difícil”, e comecei a pedir desculpas. Eu não sabia pelo quê, mas parecia que era o que elas queriam. Falei sem jeito, como naquelas vezes que a gente fala desembestado. O final, tão patético quanto o começo da história, envolve a coordenadora ficando quieta uns segundos e depois com um papo retardado de estava orgulhosa de mim.

Honestamente? Eu não devo desculpas a ninguém por ser diferente. Mas a gente nunca consegue falar a coisa certa no momento certo, mesmo depois de adulto…

Depois daquele dia o bullying continuou de maneira mais branda, com outras piadas. No ano seguinte as coisas melhoraram porque acho que alguém algum concurso de conto, poesia, não sei direito. Eu queria muito ter tido alguém que me dissesse exatamente o que o Zangief Kid diz no fim dessa entrevista: “escola não é pra sempre”. A gente faz escolhas próprias, leva a si próprio pra presença das pessoas que gosta e essas pessoas te dão a certeza de que você não deve se desculpar por quem você é.

No ano seguinte, a rainha má da minha classe – porque toda classe tem uma rainha má, não é? – foi desmascarada num a clássica intriga de escola, e o bullying se voltou contra ela. Caricaturas na lousa, musiquinhas parodiadas que a classe cantava em uníssono, mas o mais maluco foi voltar com ela da escola um dia e ficar ouvindo que “se eles achavam que iam ser convidados pra festa de aniversário na piscina dela, estavam muito enganados…”

Eu realmente fico feliz quando a internet serve a um propósito bom, como mostrar pra esse menino que ele fez bem em mostrar aos bullies que ele é gente. Que chega. Brincadeiras infelizes de escola que levam uma criança a pensar em se matar? Porra, né, gente.

Bullying não tem graça. Fica como um fantasma na adolescência da gente.

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2 opiniões sobre “Zangief Kid: “Escola não é pra sempre”

  1. Até hoje sofro por conta de coisas do passado. Tenho altos complexos, isso tudo por conta de comentários maldosos na escola. E graças a Deus, acaba. Conheci pessoas ótimas na escola, mas também sofri momentos muito difíceis. Um deles foi ser chamada de “samambaia” por conta do meu cabelo cheio. Não é de se estranhar o quanto eu me apeguei ao fato de a Hermione ser assim.

  2. Gostei do post. Criança n presta mesmo, nunca prestou. Tem um filme brasileiro (“muito gelo e dois dedos dagua”) no qual a personagem principal pergunta algo mais ou menos assim: “vc é daqueles que atiravam bolinhas de papel, ou que levavam?”. Tenho pra mim que é um pouco difícil n fazer parte de nenhum dos dois grupos e hoje eu fico feliz por n ter feito parte do primeiro. Esse assunto é bem chato de lembrar, vc tem coragem pra mexer com esse tipo de lembrança.

    Gostei do blog. vou terminar me limitando a dizer q me identifiquei com muita coisa (sim, teve os posts q eu torci o nariz tb, mas e daí?). E mais: n sou muito de comentar blogs, mas queria que vc soubesse que eu gostei e (me corrija se eu estiver errado, pq sei q n t conheço tao bem) acho q se deixasse pra falar isso por outro meio que n um comentário, vc ia soltar logo um: “pq n comentou, porra?!”, hehe.

    Abraço!

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