A Mídia Brasileira, a Síndrome de Bolha

Faltam 45 dias pra eu voltar pro Brasil. Em uma coisa eu estava bem certa nas minhas previsões sobre essa estadia no exterior: minha cabeça agora tem idéias muito diferentes. Na minha ausência, muitas coisas aconteceram no meu país. Teve a troca de presidentes, teve a invasão da polícia no Morro do Alemão, desastres naturais, cheias, bolsonarismos, a tragédia em Realengo. Tive a bênção de não ter que assistir os jornais sangrentos da Record, a paz de espírito de não querer atirar coisas na tv toda vez que assisto o Jornal Nacional, ou qualquer dos programas cheios de ódio do Datena. Pra mim só chegaram relatos do cenário de intolerância que cresce aí, por links do igualmente lamentável jornal da Folha ou por blogs independentes sensacionais.

A cada dia que passa eu fico mais impressionada com o tanto que as minhas opiniões mudaram e o tanto que eu passei a suspeitar mais das notícias uma vez que passei a ler notícias na internet. Fui criada no interior de São Paulo, vocês sabem, estudando em escola particular. Fui criada ouvindo que morava no melhor estado do Brasil – ou melhor dizendo, que o resto é irrelevante -, fui criada na igreja ouvindo que eu tinha que respeitar as outras religiões, mas manter em mente “que nós é que vamos pro céu, eles estão errados”. Por isso, quando eu tinha treze anos e o Lula foi eleito, eu fiquei bem horrorizada, não recebi bem os pacotes sociais.  Eu estava inundada naquela nuvem paulista católica de condescendência. Eu nem mesmo sabia que era condescendente. Achava que respeitava os outros. Achava que não tinha preconceitos. Eu tinha uma mentalidade extremamente classe média e, o que é mais absurdo, nem mesmo pertencia à classe média.

Depois que eu tirei a cabeça da bolha e fui morar em Minas Gerais, comecei a perceber como a mídia é poderosa na hora de modelar os nossos pensamentos. Vi protestos estudantis na rua, participei de coisas, e de repente o Estado de Minas estava lá, nos chamando de vagabundos e nos mostrando como rebeldes maconheiros vagabundos sem causa. Quando o choque passou, comecei a entender porque ninguém nunca se movimenta politicamente na universidade: o medo de ser um vagabundo maconheiro aos olhos de todos.

Mas muita gente fica a vida toda dentro da bolha da classe média. Eles crescem, fazem Direito na USP, ou Economia, e reclamam sobre como a vida é difícil para os homens heterossexuais, brancos e ricos, porque eles não tem nenhum privilégio. É. ELES NÃO TEM NENHUM PRIVILÉGIO.

É a galera que se sente representada por pessoas como Bolsonaro. Gente que acha que a Dilma é uma terrorista, gente que não desconfia das intenções dos jornais.

A minha intenção era sentar e destrinchar o horrível trabalho que a mídia brasileira tem feito com tarefas simples como reportar os fatos do dia. Mas ver um documentário como esse da Globo, claramente imprimindo suas opiniões a cada minuto, a cada frase falada nesse vídeo… Me tira a vontade.

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2 opiniões sobre “A Mídia Brasileira, a Síndrome de Bolha

  1. Então… por onde começar? Que é que você fala quando vive cercado de pessoas que falam coisas do tipo “Olha as merdas que a Dilma anda fazendo…” aí você pergunta “Que merdas?” e a pessoa diz “Não sei, umas merdas aí…”. A vontade que se tem é de jogar seu sapato na cabeça da pessoa ou simplesmente entrar pra um quarto e chorar porque parece que não tem mais jeito.

  2. Muito bom o post! Eu também cresci em ambiente semelhante de classe média paulista que se vê como “Locomotiva do Brasil” e logo aprendi a rejeitar o pensamento dominante dessa faixa da população.
    Acho que o problema central pelo qual estamos passando é em torno da decadência relativa da classe média tradicional (ou B) no plano nacional. Pois em quanto os ricos estão cada vez enriquecendo mais, muitos dos antigos pobres também estão melhorando seus níveis de vida e renda (a tão falada nova classe média C). E no meio disso tudo temos a classe B estagnada e envelhecida, vendo sua antiga relevância como estruturante da vida política e econômica nacional perdendo rapidamente espaço para as novas forças. É por isso que essas pessoas tem tantas opniões catastróficas sobre o futuro do país, são tão contrárias a cotas, bolsas e tudo mais. “Maldita inclusão digital”, “Maldito pc do milhão”, lembram? Esses são um dos sinais do ressentimento dos antes certos de sua posição como “Locomotiva do Brasil” frente aos novos atores. Enfim, se eu tivesse que dizer como penso que será o futuro político do país no médio prazo diria que veremos um fortalecimento do movimento conservador, alimentado não só pelos ricos, mas pela classe média tradicional.

    Espero que o texto não tenha ficado muito longo e aborrecedor hehe, mas é um tema que a algum tempo tenho pensado sobre e acho que aqui seria um espaço bom para me expressar. Parabéns pelo blog e vlog, é um dos meus preferidos entre os “underground”.

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