A última semana

Bem… quarta-feira começou minha contagem regressiva. Daqui três dias vou pra Heathrow pegar meu voo! Todo mundo que me conhece sabe como eu estou imensamente feliz em voltar. Eu já falei muito sobre como apesar de Londres ser um lugar muito sensacional e tudo o mais, eu prefiro a vida que eu levo no Brasil. Mas veja bem, por mais que eu prefira o Brasil, é claro que tem coisas daqui que farão falta. Me perguntam muito aqui se não me bate um desespero quando eu penso que nunca mais verei as pessoas daqui, e se ver não será mais a mesma coisa, e etc.

Gente, eu não nasci ontem! Eu sabia que isso tudo ia acontecer. Sabia que ia passar oito meses construindo uma vida no exterior pra depois simplesmente deixá-la pra trás, quase como se nunca tivesse aparecido. Os amigos, o emprego, a vida acadêmica; tudo. Eu até achava que ia sofrer mais pra deixar tudo pra trás. A bem da verdade é que eu fiz três amigos de verdade aqui, um deles uma brasileira, então pra mim tá tudo certo. De qualquer forma, vou listar as coisas que me vêm à cabeça logo de cara quando penso em sair de Londres. Vou sentir falta de:

  • um transporte público eficiente. Que é horrivelmente caro, verdade, mas o do Brasil também é caro e vive deixando a gente na mão. Isso inclui segurança, poder mexer em dinheiro e eletrônicos no ônibus, o letreiro que fala o próximo ponto, mas mais importante, todo mundo ouve música com fone de ouvido.
  • tem um ponto de ônibus em Waterloo, no caminho pra faculdade, de onde dá pra ver o que acho que é a visão mais bonita de Londres: o Big Ben atrás do London Eye.
  • a função de self-checkout no supermercado, quando você mesmo passa o código de barra dos seus produtos, você mesmo paga, e pronto.
  • lugares de fast food que servem combos de frango a noite inteira
  • ouvir o sotaque português super gracinha do meu amigo português
  • o preço e a facilidade de comprar celulares, computadores, ipods, etc.
  • não ter que pagar por alguns remédios básicos, se você tiver receita.
  • a temperatura da primavera, que fica entre 10º e 18º. Só a da primavera que vai fazer falta, aliás.
  • como quase todos os problemas da sua vida são resolvíveis por telefone e imediatamente, mesmo os que você espera que tenham muita burocracia.
  • como todos os brasileiros aqui se tratam entre si com alegria extra, e os gringos ficam olhando feito bobos como a gente tá sempre extremamente feliz de se falar
  • meu quarto, que tem uma cama de verdade, mesa de verdade, espaço de verdade, ao contrário do quarto da moradia da UFMG
  • a facilidade de viajar pra outros países da Europa, incluindo preço e proximidade.
  • Donnut de chocolate.
  • Como só escurece depois das nove da noite agora na primavera
  • Como as folhas realmente caem no outono.
  • Como aqui a gente vê de verdade uma diferença de uma estação pra outra.
Enfim, é mais ou menos isso. Agora dá licença que eu vou ali no show do Belle e Sebastian. ❤
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Boates – ou clube, balada, lugar chato de dançar

Eu te peço um favor como ser humano que potencialmente vive perto de mim: não me chame pra “dançar”.

Tenho horror de lugar com música eletrônica alta e luzes piscando. Não gosto da sensação de estar numa vitrine de gente. Parece que eu tô esperando um macho vir me pegar do nada. Pra mim, é quando você vai dançar que você é mais confrontado com a merda do padrão de beleza. Pelo menos comigo. Não faz nem meia hora que eu saí de casa, minha maquiagem ainda não derreteu, mas o primeiro impulso é de voltar em casa e trocar de roupa, porque todo mundo tá melhor vestido. Daí você paga pra entrar num lugar cujo único diferencial é a música. Eu não lido bem com pagar pra entrar em lugares onde eu vou apenas respirar. Pra teatro, cinema, musical, eu fico mais do que feliz em pagar. Mas o absurdo é que na boate eu vou pagar pra… pagar mais! Como se não bastasse, beber lá dentro é mais caro do que beber em casa, mais caro do que beber num buteco (meu ambiente favorito). Sempre que insisto e vou, compro um ou no máximo dois drinks.

Agora, veja bem: já estou dentro, segurando um drink fraco e caro, olhando em volta. Finalmente, chega a hora de dançar! Meu grupo de amigos forma um círculo, que me lembra horrorosamente das “boatinhas” que começavam às oito e meia e acabavam dez da noite quando eu tinha treze anos. O círculo é um formato estratégico, porque as meninas precisam colocar as bolsas no centro, pra não gastar ainda mais com o porta volumes. As meninas todas insistem que estão ali pra dançar – até que o primeiro random apareça pra chegar na amiga mais bonita. É só uma questão de tempo até a roda ir diminuindo ou ser acrescida dos sujeitos e sujeitas random atracados com meus amigos.

Mas antes que tudo isso aconteça, a música. Um padrão bem repetitivo, que me força a ficar mudando a perna de apoio como se estivesse dançando. Absurdamente alto, de forma que seja impossível falar com alguém sem berrar no ouvido da pessoa. Fico lá, bebendo e olhando em volta por cerca de meia hora, vendo gente muito bonita passar, sendo bonita, enquanto dois creepers – esses caras tensos, mais velhos, sozinhos, de camisa mais ou menos aberta, que param atrás de você – se posicionam se modo a poder te seguir pra onde você for. Daí, de repente, PÁ! Uma música que você conhece! Uma Lady GaGa das primeiras. Sei lá, Poker Face, pode ser. Aí você, que sabe a letra, pula com seus amigos que estão se divertindo há um tempão, e sacode os braços, faz de tudo. A música acaba, começa qualquer coisa que parece com Black Eyed Peas, embora eu não tenha muita certeza de como é Black Eyed Peas, os ombros murcham e eu volto a beber e olhar em volta.

Acaba o dinheiro do álcool, e a pior parte chega: contar duas idas ao banheiro antes de ir embora pra ter certeza que não vou passar aperto bexigal no ônibus, seja o 2004 na Savassi, seja o 176 no Soho. Os dois trajetos são longos como a vida. Sem mencionar o tempão que leva pra explicar pros seus amigos que você já está indo embora – afinal, tá tão bom! -; um artifício desesperado que eu uso até demais é a saída à francesa, ir no banheiro e ir pela parede até a saída, mandar uma mensagem de dentro do ônibus avisando pra ninguém se preocupar.

Olha como eu me divirto.

Igualdade é possível?

Essa semana um dos melhores vlogueiros do Youtube, o AmazingAtheist, está fazendo uma série de vídeos chamada “Hate Week”. O primeiro vídeo tem argumento central que ficou na minha cabeça durante essa semana. Pra falantes de inglês, o vídeo abaixo:

A idéia básica: igualdade é uma ilusão, porque por princípio todos nós somos diferentes. E por mais que seja cabível que perante a lei devamos receber o mesmo tratamento, é um absurdo esperar isso no dia a dia.

Essa idéia foi somada com um post da Redd que eu demorei demais pra ler, que coloca exatamente o modo como eu me senti a vida toda a respeito do feminismo: simplesmente ir lá e exercer os direitos. Não lutar por eles, não protestar, simplesmente ir lá e fazer o que eu queria. Bem, antes de expor a minha humilde conclusão eu quero descrever o cenário aparentemente misturadíssimo de Londres.

Eu moro no dormitório da universidade – só por mais duas semanas!!!! – e tem esse salão onde servem refeições duas vezes por dia. Desde o primeiro dia tive uma forte sensação de refeitório de High School americana. E as coisas seguem um padrão. Os brancos ingleses andam juntos, os internacionais – tipo eu – tendem a se agrupar com pessoas que tem culturas parecidas. Em questão de duas semanas as panelinhas estão formadas e você dificilmente conhece alguém novo depois dos dois primeiros meses. Por isso, hoje eu fiquei chocada de tal forma quando uma francesa e um italiano random sentaram na minha mesa hoje e começaram a puxar assunto. Eles NÃO SÃO do meu grupo, como podem só ir sentando?

Dois: hoje, de dentro do ônibus, passei por dois policiais algemando um suposto criminoso na frente de um mercado. Tive dois pensamentos: a polícia daqui realmente PEGA os ladrões, o que pra mim é uma grande novidade, e dois, por que sempre que eu vejo gente sendo algemada essa pessoa é negra? Afinal, aqui não tem miséria, né. Ninguém “precisa” roubar. Né?

A sensação que eu tenho da miscigenação suposta de Londres é que na verdade todo mundo só dá conta de viver assim, misturado, porque na verdade ninguém se mistura coisa nenhuma. Eu vejo igrejas onde só vão negros, escolas onde só vão negros ou só vão brancos. A idéia não é de um apartheid, não, como se os negros sentissem que não podem ir nas áreas mais “brancas”. O que eu sinto é que existe uma certa auto segregação.

A maioria da população negra aqui, pelo menos até onde eu sei, descende ou nasceu na Nigéria. Eles tem um sotaque bastante marcado, um jeito de andar e de interagir entre si. Uma amiga minha me disse que na semana passada, um motorista de ônibus estava dando anúncios pras pessoas no andar de cima pararem de beber ou coisa assim (aqui é ilegal beber nas ruas ou dentro do transporte público), quando um inglês bêbado (e branco, claro), berrou de volta: “Sorry, I don’t speak Nigerian!” com risos imbecis dos amigos dele.

Não preciso explicar o quão ofensivo isso é, lembrando que a língua oficial da Nigéria é o próprio inglês, ainda que quase toda a população tenha como língua materna alguma língua africana. Aqui nunca se fala em sofrer por preconceito. Você não ouve nem frases que generalizam uma nacionalidade, o que vai a extremos meio estranhos. Por exemplo, me desculpem, mas eu acho o sotaque indiano em inglês uma coisa lamentável. Feio de se ouvir. Não implico que, sei lá, os indianos sejam burros ou qualquer coisa. Mas sei que não posso dizer isso pra alguém. Parece que se a gente não fala sobre as nossas diferenças elas não existem. É… esquisito. E totalmente diferente do Brasil, porque no Brasil as pessoas se misturam mais, e tem menos medo de falar das diferenças, e dizer ‘feio’, ‘bonito’, ‘legal’, ‘chato’, etc. Eu não discordo quando você diz que julgamentos como esses muitas vezes só refletem os tais padrões de beleza inatingíveis. Mas sabe? Nem sempre. Tem gente eu acho feia e pronto. E eu quero poder dizer isso. Tem gente que eu acho bonita e eu quero poder dizer isso. Não gosto de ter que fingir que todo mundo é igual, com essa auto segregação daqui. A atitude londrina é racional e educada, mas é fria de humanidade e isso me estressa.

Ao mesmo tempo, com relação à opinião do AmazingAtheist, eu concordo que nós somos todos diferentes e nos tratamos de forma diferente. Mas porque esse tratamento, diria eu, diferenciado, precisa corresponder justamente com o estereótipo do preconceito? Por exemplo, os negros vêem claramente quando uma mulher segura a bolsa com mais força ao vê-lo. Ela o está tratando de forma diferente de um cara branco, mas é porque ele é negro simplesmente ou por que ela foi constantemente bombardeada com imagens que associam negros a criminosos?

É muita inocência de um cara que normalmente tem opiniões muito bem fundamentadas. O modo como tratamos pessoas diferentes quase sempre é diferente porque estamos reagindo de acordo com um estereótipo que temos internalizado. Se eu resolver aprender a dirigir, por exemplo, já dá pra imaginar o número infinito de piadas do nível Rafinha Bastos que eu vou ter que ouvir, porque sou uma mulher. Aliás, o problema principal do feminismo na contemporaneidade, acredito eu, nem é que não tenhamos os mesmos direitos ou as mesmas chances de fazer as mesmas coisas que os homens. Como a Redd diz, a gente pode ir lá simplesmente e resolver voltar da festa sozinha, pegar ônibus e descer o morro do 2004 até onde eu moro. Mas eu enfrento consequências muito diferentes pelos mesmos atos. Além de ser, ao menos em tese, um alvo mais fácil pra assaltantes, quem vê uma mulher andando sozinha na rua de noite aprendeu a pensar que ela é vagabunda.

Então eu diria que quando a gente busca um tratamento igualitário, pode até ser que estejamos buscando um padrão tão impossível quanto o de beleza da mídia. Mas é um que vale muito mais a pena. Não um que finja que todo mundo é igual pra aflorar quando o magnânimo branco nacional heterossexual fica bêbado num ônibus. Mas um que nos permita mover-se com flexibilidade entre as desgraçadas panelinhas.

Politicamente correto/Escolhas lexicais

Essa semana, a revista Rolling Stone publicou uma matéria com o Rafinha Bastos, do CQC, na qual ele faz uma piada que é no mínimo infeliz. Pra quem tem preguiça de abrir o link, ele disse num show de stand up comedy, pra resumir, que mulher feia tem é muita sorte de ser estuprada, e que o homem (“herói”) que a estupra merece um abraço.

Vou fazer força pra não chover no molhado com relação a esse assunto. O absurdo do que foi dito é auto explicativo. Gosto muito do programa do CQC  e resisto a declarações de que o humor do programa é baseado em misoginias e outras piadas de mau gosto. Pelo menos nas matérias que eu assisto, o humor geralmente vem da pressão nos políticos do Brasil, o que muito me interessa. Já sei que no passado outro integrante, o Danilo Gentili, já falou merda também. Falou algo racista, não me lembro direito. Então antes de mais nada eu quero isolar o comportamento desses dois da equipe do programa como um todo.

Acontece que li sobre o ocorrido em dois blogs feministas, o da Lola e o Groselha News. Ambos, além de colocarem o que qualquer pessoa de bom senso pensa ao ouvir uma “piada” como essa, levantam uma discussão sobre o que é mesmo politicamente correto, até quando e mesmo SE ele deveria ser transgredido. Concordo que tem gente emergindo com um humor baseado na ofensa alheia gratuita, e concordo sem sombra de dúvida que confundir estupro com sexo é um imenso, enorme, intergalático ato de ignorância. A piada e os argumentos em seu favor me fizeram lembrar de um dia, quando uma coisa dessas não disparava um alarme feminista na minha cabeça: eu estava com uns amigos num bar e me lembro desse cara, com quem até então já tinha bebido, e conversado, e rido, que começou a falar sobre como as mulheres que são estupradas mereceram o que tiveram. Devido à cerveja e ao fato da conversa não estar sendo transmitida via twitcam pro mundo inteiro, os argumentos ficaram muito pessoais e tal, mas o que é mais triste é que existe gente pensando esse tipo de coisa à nossa volta. Não é mito.

Sobre corretismo, eu sempre vi um quê de atraente no termo politicamente incorreto, porque sempre associei o corretismo no uso de uma série de palavras vazias criadas tão artificialmente quanto o aroma de guaraná do Dolly. Sempre associei os termos indicados pelo corretismo a eufemismos. Sempre falei negros (ainda que não falasse ‘pretos’, porque minha vó sempre falou “pretos” com um certo nojo na voz, e eu evitava), gays, paralíticos, etc. Hoje, quando me deparei com o comentário da Lola sobre como se auto educar nesses termos exige esforço. Bem, eu não sou uma naturalista. Acho que os grupos têm o direito de serem chamados pelo que quiserem. Mas acho que muito mais do que serem chamados de homossexuais, as bichas querem ser tratadas como seres humanos. Isso vale pra maioria dos termos. As palavras que eu chamo de “novas” – visually impaired, pra cegos, em inglês, afro-brasileiros-americanos-insira-uma-nacionalidade-aqui, são uma tentativa válida de renovar a linguagem e o modo como a gente trata essas porções da população, mas o uso do termo não deve vir antes da aquisição do respeito, e sim como um resultado. É que nem colocar aluno que teve um ensino defasado pra fazer gramática tradicional e oficina de texto quando chega na faculdade, ao invés de garantir que ele tenha aprendido isso no ensino médio, como está no programa de educação nacional.

Eu sempre dou exemplos de homossexuais, porque são os mais próximos de mim nessa miscelânea. Não é qualquer pessoa que pode chamar um gay de viado ou de bicha. Quando eles percebem que estão sendo respeitados pelos outros, eles mesmos colocam estes à vontade pra chamá-los assim.

O que eu acho é que o respeito deve vir antes do uso de palavras que frequentemente não são práticas. O fato de eu chamar um cego de “visually impaired” não faz ele enxergar melhor. Por outro lado, se os falantes próprios, os magos da língua de verdade, se pusessem a reinventar as palavras, não seria tão necessário que a gente vivesse pisando em ovos, e babaquices decepcionantes como a do Rafinha Bastos seriam cada vez menos vistas.

Fazer as escolhas certas

Quem me conhece na vida real sabe: meu humor é baseado na auto depreciação.

Às vezes sobre meu peso aumentando ou caindo; sobre a minha capacidade quase sobre humana de comer, ou, principalmente, sobre as estratégias peculiares que os homens que eu amei usaram pra se livrar de mim, geralmente com alto grau de humilhação pública ou através de deleção total de auto estima da que vos escreve. Viu? Se você riu não tem problema, eu conto é pra isso mesmo.

O que eu quero dizer é que apesar do meu humor ter base no negativismo, se você me perguntar na honestidade, eu vou ser forçada a te dizer que me acho uma pessoa profundamente sortuda.

Quase ninguém consegue, com dezoito anos ou mesmo, dizer pra si próprio “Eu quero fazer a coisa X da minha vida”. Até porque idealmente, ninguém deveria ter que tomar uma decisão dessa magnitude tão cedo. É claro que achar que a decisão do que estudar na universidade ser um fator fatal e determinante do seu futuro é coisa de quem cresceu, bem… no mesmo ambiente que eu! Ah, como esquecer daqueles intervalos durante as aulas no Colégio Objetivo, quando todo mundo falava sobre os cursos e as cidades que iria fazer, classificando as profissões por salário, cidade com vida social mais agitada e por último… interesse.

Muito bem, quem me conhece sabe também que eu sou uma traidora do São Paulo way of life.

Hoje, eu não nego, aquelas meninas do Colégio Objetivo estão de formando em conceituadas faculdades particulares perto da cidade dos pais, arrumando um emprego na maior empresa do ramo em sua cidade, ou talvez até cresceram socialmente de forma impressionante – moram, acreditem, em Ribeirão Preto!

Claramente, tais prospectos de glória e sucesso eram demais pra mim.

Falando sério agora. Já perto de formar, pensando em monografia e talvez num mestrado, eu ouço as pessoas falando das respectivas faculdades, e da vida que levam. E pensando também na conversa que se desdobrou durante minha prova oral de italiano. Percebo que muito pouca gente, mas muito pouca gente mesmo, pode dizer o que eu digo:

“Eu amo o que estudo e amo a vida que construí pra mim nesses últimos anos. Sinto que acertei na minha escolha”.

Quero dizer, todos os romances pós modernos e todos os dramas da modernidade são sobre como você podia ter feito algo certo no passado e mesmo assim pisou no tomate. É tão errado assim que eu sempre me lembre de vinte e oito de janeiro de dois mil e sete? Se eu penso por dois segundos, consigo sentir a emoção de novo, de ver o meu nome na lista. É claro que me lembro também de quando fui aprovada na UEL e na UNESP, mas a mágica foi auto explicativa quando o resultado da UFMG saiu. Me lembro de ligar pra Melissa (nossa senhora do interurbano!) e assim que ela falou “alô”, eu berrei, “VOCÊ FICOU EM OITAVO, SUA FILHA DA PUTA!”, ao qual se seguiram gritos de “PASSAMOS!” e “vamos estudar juntas!”.

A Faculdade de Letras da UFMG é minha Hogwarts; eu me sinto à vontade. Por mais que eu odeie ter que fazer gramática tradicional antes de formar, e por mais que eu me preocupe com as novas gerações de calouros, ah, tem algo naquele lugar que me faz sentir em casa! É como se eu pudesse esticar as minhas asas, ser o que eu quero. Quando eu me pronuncio assim, desse jeito loucamente positivo, sempre tem alguém pra sacudir a cabeça, dizer que não tem essa relação com a faculdade. Estou ciente que quase ninguém na FALE se sente assim também. Mas recentemente eu resolvi que quando eu escrevo sobre o que eu amo, ao invés de escrever sobre o que eu odeio, não só perco dezenas de acessos – leitores querem polêmica, fodam-se vocês! – mas também durmo melhor, vivo melhor. Eu aconselho!

Brega é, sem dúvida, uma parte da gente!

Parabéns pras bee!!

Antes de ir pro assunto, eu queria dizer que acabei de ver os termos buscados que vieram parar no meu blog. O primeiro item da lista, curiosamente, é “chupando pau”.

Depois dessa introdução singela, lhes escrevo ao vivo durante a fala do último dos dez ministros do STF pra concluir um julgamento de duas medidas que, na minha opinião, marcam a História do Brasil com um capítulo de orgulho e respeito e que só colabora para que o país seja a cada dia mais reconhecido pela sua atitude civil e ajuizada.

AS BEE VIRARAM GENTCHIIIIIIIIIIIIII!!!

Sim! Finalmente! O Judiciário brasileiro resolveu uniformizar uma bagunça que o Legislativo adiava há anos: algumas uniões homossexuais já foram reconhecidas em vários estados pelo país, mas como casos isolados. Finalmente o STF resolveu se reunir para interpretar a Constituição e por votação unânime, 10 a 0, a união estável entre pessoas do mesmo sexo agora é reconhecida na lei brasileira! O casal homossexual agora constitui família perante a lei da mesma forma que o casal heterossexual.

Só de terminar de escrever esse parágrafo, sem querer ser brega mas já sendo, meu olho encheu d’água. Faz um bom tempo que eu ouço comentários horríveis sobre meus amigos. Faz tempo que eu ouço pessoas dizerem “tudo bem ser gay, mas não pode aparecer”. Depois de tempo demais condenados à invisibilidade, meus amigos podem se unir às pessoas que amam quase (nada é perfeito) como eu posso. Esse julgamento abre portas para a adoção por casais homossexuais, para que eles possam deixar heranças e incluir decididamente os parceiros como dependentes na declaração do imposto de renda.

E eis que enquanto eu escrevo, é proclamado o resultado! “Julgou procedente todas as ações unanimemente com efeito imediato”.

Sério.

Eu estou sem palavras.

Eis que a sessão foi encerrada.

O passo é enorme. É ainda mais vital do que criminalizar a homofobia. Mais vital que só conceder o casamento. Os homossexuais são GENTE. Estou orgulhosa e feliz. Meio emocionada e sem palavras. Parabéns!

Aprender idiomas

Adoro estudar idiomas. É uma das coisas mais legais de se estudar, e um dos vários motivos que me empolgaram em fazer Letras. Lembro de olhar pra oferta de matérias da FALE e dizer pros meus pais, super empolgada, que eu ia aprender todos os idiomas que eles ensinam. #caloura

Às vezes me perguntam aqui como eu aprendi inglês, e eu não sei explicar lá muito bem, porque minha primeira exposição ao inglês foi quando eu era bem pequena, nove anos (sorte!) e depois larguei as aulas de inglês porque eram chatas demais. Eu sei que você acha um absurdo eu dar aula de inglês quando eu própria tinha ódio disso. Depois eu só estudei a gramática do inglês na escola mesmo, e quando tava quase formando, percebi que meio que falava o idioma já, me virava bem. Na altura que entrei pra faculdade, entretanto, meu inglês era loucamente uniforme, porque eu tinha desenvolvido as minhas habilidades de forma irregular.

Pra quem não é muito familiar com teorias de ensino de línguas estrangeiras – ninguém tem que ser, né? – a gente costuma dizer que tem que desenvolver quatro habilidades quando aprende um idioma novo: fala, escrita, escuta e leitura. Com 18 anos, eu escrevia bastante, lia bastante, mas a minha fala era bem estranha, especialmente porque eu nunca tinha aprendido alguns sons particulares da língua, como o som de TH em “think”, por exemplo. Nos meus três primeiros anos de curso eu solidifiquei minha gramática e corrigi a pronúncia, e na altura em que cheguei em Londres eu já tinha uma ótima base. Minha coordenadora tinha me dito, no Brasil, que só o que me faltava pra dominar o idioma era sair do Brasil. Eis que estou aqui, e quase voltando já!

Assimilar inglês não é muito desafiador, porque tem músicas e filmes em todo lugar. Sem falar que as flexões dos verbos são poucas e fáceis. O que é difícil no inglês é quando você chega no intermediário mesmo, porque aí você percebe que a dificuldade do inglês está praticamente toda escondida nas preposições e no que a gente chama de colocações. Estas se referem ao uso da língua: a quais palavras normalmente são faladas/escritas perto de outras. Por exemplo, “defesa intransigente” é um jargão muito usado pelos políticos brasileiros, ao passo que “defesa insistente”, por sua vez, não é tão comum e a gente estranha.

O problema vira outro quando você resolve passar pro terceiro idioma. Faz quase dois anos que eu comecei a estudar italiano. Mesmo antes de fazer a escolha, eu sempre me lembrei dum comentário nojento de uma menina da minha faculdade: “Ai, mas eu até pensei em escolher minha habilitação em italiano, mas pra quê? Só tem o Calvino e o Umberto Eco, não faço questão de lê-los no original”. Então antes de eu falar sobre como é esquisito desenvolver o terceiro idioma, eu queria aproveitar pra dizer aqui que não acredito em aprender uma língua por obrigação. Isso é uma coisa meio idealista minha, porque simplesmente não dá pra passar sem saber um mínimo de inglês. Mas tem gente aí que odeia a língua e eu não os culpo por isso. Acredito que todo mundo tem potencialmente uma língua que vai amar estudar, como se fosse sua alma gêmea. Haha. Curioso eu não acreditar em alma gêmea mas acreditar numa língua com a qual você magicamente tenha empatia. Pra concluir, se você não gosta do idioma que você estuda, eu sugiro que você saia mesmo, e descubra um outro idioma que te interesse. Claro que se esse idioma for japonês, como já aconteceu comigo, você tem que estar preparado pra enfiar a mão no bolso.

Aprender um idioma estrangeiro é pra mim um pouco parecido com desenvolver algum tipo de esquizofrenia. Quando você se comunica através de outro idioma, você usa não só a gramática, mas a linguagem gestual, um tom de voz e mesmo um vocabulário que é construído de acordo com a visão de mundo representada naquela língua. Claro que a minha referência aqui é ao clássico da Letras, o Saussure, que mostrou como as diferentes línguas não são só códigos de sentido, mas também um modo de ver o mundo. Simples: no inglês os sentidos de ‘estar’ e de ‘ser’ são representados pelo mesmo significante. O que isso diz sobre o modo de ver o mundo? Enquanto em algumas línguas necessariamente a gente tem que escolher um dos sentidos antes de abrir a boca, no inglês a gente pode só usar aquele verbo.

Com tudo isso em mente, comecei a estudar italiano. De um modo totalmente diferente de como eu fiz com o inglês: em primeiro lugar, eu já era bem mais velha, 20 anos; passei a aprender italiano do jeito que hoje ensino inglês, com o método comunicativo. Frequentei aulas regularmente, o que não fazia com inglês muito bem. A única dificuldade era que agora o aprendizado da gramática estava diluído na prática das outras habilidades (senti falta de mais gramática, me mata. Eu adoro uma tabelinha de declinações pra decorar, sou doente). O que me fez questionar o comportamento das línguas na cabeça da gente foi o meu episódio de hoje indo pra prova oral de italiano.

Idealmente, eu sempre quis enxergar os outros idiomas como independentes da língua nativa, como variações da minha pessoa se comunicando com instrumentos que são diferentes. Mas ao longo desse último ano estudar italiano foi um pouco mais desafiador, porque, bem, o inglês ficava entrando no caminho todo o tempo. Percebi que a minha aquisição do italiano estava diretamente relacionada ao português. Não tem como. Eu relacionava todas as estruturas com o português. Como as estruturas do italiano são um pouco mais afastadas do inglês, muitas vezes durante as aulas eu tinha que fazer a transferência pro inglês e depois pro português.

Isso só dentro da sala de aula; daí eu saio e todo mundo em volta tá falando comigo em inglês. É difícil de descrever a confusão. Mas quando você tá numa aula de idioma, você pensa naquele idioma e pronto. Sabe quando você sai da aula de inglês e estranha um pouco o português uns vinte segundos depois de sair da sala de aula? Pois é. No ônibus no caminho pra prova eu tentei fazer de conta que o mundo não estava falando inglês à minha volta, porque aí eu via o italiano ir escorrendo pelas minhas orelhas, esquecendo tudo no último momento! Um desespero, criançada.

Enfim. Escrevi tudo isso e agora estou com vergonha porque não amarrei o assunto com nada. Eu percebi no final das contas que as línguas anteriores podem ser escadas pro aprendizado de uma língua, igual quando usei “to remain” pra entender “rimanere”, ou elas podem se colocar no seu caminho, especialmente se você tiver uma segunda língua que está em todo o lugar, parece que a terceira literalmente escorre.