Aprender idiomas

Adoro estudar idiomas. É uma das coisas mais legais de se estudar, e um dos vários motivos que me empolgaram em fazer Letras. Lembro de olhar pra oferta de matérias da FALE e dizer pros meus pais, super empolgada, que eu ia aprender todos os idiomas que eles ensinam. #caloura

Às vezes me perguntam aqui como eu aprendi inglês, e eu não sei explicar lá muito bem, porque minha primeira exposição ao inglês foi quando eu era bem pequena, nove anos (sorte!) e depois larguei as aulas de inglês porque eram chatas demais. Eu sei que você acha um absurdo eu dar aula de inglês quando eu própria tinha ódio disso. Depois eu só estudei a gramática do inglês na escola mesmo, e quando tava quase formando, percebi que meio que falava o idioma já, me virava bem. Na altura que entrei pra faculdade, entretanto, meu inglês era loucamente uniforme, porque eu tinha desenvolvido as minhas habilidades de forma irregular.

Pra quem não é muito familiar com teorias de ensino de línguas estrangeiras – ninguém tem que ser, né? – a gente costuma dizer que tem que desenvolver quatro habilidades quando aprende um idioma novo: fala, escrita, escuta e leitura. Com 18 anos, eu escrevia bastante, lia bastante, mas a minha fala era bem estranha, especialmente porque eu nunca tinha aprendido alguns sons particulares da língua, como o som de TH em “think”, por exemplo. Nos meus três primeiros anos de curso eu solidifiquei minha gramática e corrigi a pronúncia, e na altura em que cheguei em Londres eu já tinha uma ótima base. Minha coordenadora tinha me dito, no Brasil, que só o que me faltava pra dominar o idioma era sair do Brasil. Eis que estou aqui, e quase voltando já!

Assimilar inglês não é muito desafiador, porque tem músicas e filmes em todo lugar. Sem falar que as flexões dos verbos são poucas e fáceis. O que é difícil no inglês é quando você chega no intermediário mesmo, porque aí você percebe que a dificuldade do inglês está praticamente toda escondida nas preposições e no que a gente chama de colocações. Estas se referem ao uso da língua: a quais palavras normalmente são faladas/escritas perto de outras. Por exemplo, “defesa intransigente” é um jargão muito usado pelos políticos brasileiros, ao passo que “defesa insistente”, por sua vez, não é tão comum e a gente estranha.

O problema vira outro quando você resolve passar pro terceiro idioma. Faz quase dois anos que eu comecei a estudar italiano. Mesmo antes de fazer a escolha, eu sempre me lembrei dum comentário nojento de uma menina da minha faculdade: “Ai, mas eu até pensei em escolher minha habilitação em italiano, mas pra quê? Só tem o Calvino e o Umberto Eco, não faço questão de lê-los no original”. Então antes de eu falar sobre como é esquisito desenvolver o terceiro idioma, eu queria aproveitar pra dizer aqui que não acredito em aprender uma língua por obrigação. Isso é uma coisa meio idealista minha, porque simplesmente não dá pra passar sem saber um mínimo de inglês. Mas tem gente aí que odeia a língua e eu não os culpo por isso. Acredito que todo mundo tem potencialmente uma língua que vai amar estudar, como se fosse sua alma gêmea. Haha. Curioso eu não acreditar em alma gêmea mas acreditar numa língua com a qual você magicamente tenha empatia. Pra concluir, se você não gosta do idioma que você estuda, eu sugiro que você saia mesmo, e descubra um outro idioma que te interesse. Claro que se esse idioma for japonês, como já aconteceu comigo, você tem que estar preparado pra enfiar a mão no bolso.

Aprender um idioma estrangeiro é pra mim um pouco parecido com desenvolver algum tipo de esquizofrenia. Quando você se comunica através de outro idioma, você usa não só a gramática, mas a linguagem gestual, um tom de voz e mesmo um vocabulário que é construído de acordo com a visão de mundo representada naquela língua. Claro que a minha referência aqui é ao clássico da Letras, o Saussure, que mostrou como as diferentes línguas não são só códigos de sentido, mas também um modo de ver o mundo. Simples: no inglês os sentidos de ‘estar’ e de ‘ser’ são representados pelo mesmo significante. O que isso diz sobre o modo de ver o mundo? Enquanto em algumas línguas necessariamente a gente tem que escolher um dos sentidos antes de abrir a boca, no inglês a gente pode só usar aquele verbo.

Com tudo isso em mente, comecei a estudar italiano. De um modo totalmente diferente de como eu fiz com o inglês: em primeiro lugar, eu já era bem mais velha, 20 anos; passei a aprender italiano do jeito que hoje ensino inglês, com o método comunicativo. Frequentei aulas regularmente, o que não fazia com inglês muito bem. A única dificuldade era que agora o aprendizado da gramática estava diluído na prática das outras habilidades (senti falta de mais gramática, me mata. Eu adoro uma tabelinha de declinações pra decorar, sou doente). O que me fez questionar o comportamento das línguas na cabeça da gente foi o meu episódio de hoje indo pra prova oral de italiano.

Idealmente, eu sempre quis enxergar os outros idiomas como independentes da língua nativa, como variações da minha pessoa se comunicando com instrumentos que são diferentes. Mas ao longo desse último ano estudar italiano foi um pouco mais desafiador, porque, bem, o inglês ficava entrando no caminho todo o tempo. Percebi que a minha aquisição do italiano estava diretamente relacionada ao português. Não tem como. Eu relacionava todas as estruturas com o português. Como as estruturas do italiano são um pouco mais afastadas do inglês, muitas vezes durante as aulas eu tinha que fazer a transferência pro inglês e depois pro português.

Isso só dentro da sala de aula; daí eu saio e todo mundo em volta tá falando comigo em inglês. É difícil de descrever a confusão. Mas quando você tá numa aula de idioma, você pensa naquele idioma e pronto. Sabe quando você sai da aula de inglês e estranha um pouco o português uns vinte segundos depois de sair da sala de aula? Pois é. No ônibus no caminho pra prova eu tentei fazer de conta que o mundo não estava falando inglês à minha volta, porque aí eu via o italiano ir escorrendo pelas minhas orelhas, esquecendo tudo no último momento! Um desespero, criançada.

Enfim. Escrevi tudo isso e agora estou com vergonha porque não amarrei o assunto com nada. Eu percebi no final das contas que as línguas anteriores podem ser escadas pro aprendizado de uma língua, igual quando usei “to remain” pra entender “rimanere”, ou elas podem se colocar no seu caminho, especialmente se você tiver uma segunda língua que está em todo o lugar, parece que a terceira literalmente escorre.

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3 opiniões sobre “Aprender idiomas

  1. Engraçado mesmo essas coisas que dá na cabeça quando se aprende outras línguas. Nem imagino como deve ser pra quem mora em outro país, mas eu com certeza me embolaria bastante no começo. Sempre acontece quando fico muito tempo lendo ou ouvindo coisas em inglês, e logo em seguida vou conversar com alguém, de esquecer como se diz as coisas em português! Já tive algumas vezes que perguntar pra pessoa com que estou falando “Como se fala tal coisa em português mesmo?” hahaha, incomoda na hora mas é engraçado.
    Enfim, também sempre gostei da idéia de ser poliglota e tal, pena que nunca consegui levar adiante o aprendizado de outras línguas que não o inglês, mas um dia hei de conseguir hehe. Só acho ruim mesmo, no caso do Brasil, a pouca variedade de cursos de línguas. São sempre os mesmos: inglês, francês, espanhol, alemão e italiano. De vez em nunca se acha lugar pra japonês e mais recentemente mandarim, mas acaba ai. Po um país tão heterogêneo como o nosso deveria ter cursos de outras línguas mais facilmente, seria tão legal aprender árabe, russo, persa, turco, hindi e etc… Mas tirando alguns departamentos de letras de universidades mais renomadas, só é possível aprender línguas “exóticas” por métodos mais hardcore como autodidata, ou indo morar no país mesmo, talvez ai em Londres seja diferente, mas sei lá.

  2. Inglês é minha língua gêmea! hahahaha

    Mas eu eu ADORO francês e acho que jamais me daria bem com italiano. Não enrolo com espanhol, acho alemão coisa de outro mundo. Talvez eu me daria bem aprenedendo russo. Quem sabe.

    Língua é uma coisa de empatia também.

  3. As minhas aulas essa semana com uma argentina de Buenos Aires muito fodástica fizeram com que eu tivesse uma paixão súbita pelo espanhol. Já estou até ensaiando algumas palavrinhas, imaginando como será a pronúncia correta. No entanto, já tive interesse por outras línguas, inglês, francês, alemão, e cheguei a estudá-las mais ou menos, mas não é algo por que eu seja de fato apaixonada, ou melhor, a paixão não dura muito tempo, e o que fica é um interesse misturado a preguicinha. Por sorte nunca cheguei a sentir repulsa por nenhuma delas, e considero a possibilidade de em breve voltar a estudar alguma delas, mas não me vejo ensinando nenhuma.
    Acho que o interesse pela língua estrangeira passa também pela forma como ela entra na sua vida – desenho japonês, cinema francês, literatura russa, música alemã und so weiter…
    Agora, a relação entre as línguas estrangeiras é muito interessante. No contato com o inglês, que, como no seu caso, foi de forma meio intuitiva, procurava uma referência no português. Quando comecei a estudar alemão, recorria muitas vezes ao inglês. Quando comecei no francês, recorria vez ou outra ao alemão (principalmente para ensaiar o ü e o ö e os erres), e ao português. Agora que estou ouvindo muito espanhol fico vendo o que ele tem de semelhança com o francês, e as diferenças com o português. É muita doidera!

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