Politicamente correto/Escolhas lexicais

Essa semana, a revista Rolling Stone publicou uma matéria com o Rafinha Bastos, do CQC, na qual ele faz uma piada que é no mínimo infeliz. Pra quem tem preguiça de abrir o link, ele disse num show de stand up comedy, pra resumir, que mulher feia tem é muita sorte de ser estuprada, e que o homem (“herói”) que a estupra merece um abraço.

Vou fazer força pra não chover no molhado com relação a esse assunto. O absurdo do que foi dito é auto explicativo. Gosto muito do programa do CQC  e resisto a declarações de que o humor do programa é baseado em misoginias e outras piadas de mau gosto. Pelo menos nas matérias que eu assisto, o humor geralmente vem da pressão nos políticos do Brasil, o que muito me interessa. Já sei que no passado outro integrante, o Danilo Gentili, já falou merda também. Falou algo racista, não me lembro direito. Então antes de mais nada eu quero isolar o comportamento desses dois da equipe do programa como um todo.

Acontece que li sobre o ocorrido em dois blogs feministas, o da Lola e o Groselha News. Ambos, além de colocarem o que qualquer pessoa de bom senso pensa ao ouvir uma “piada” como essa, levantam uma discussão sobre o que é mesmo politicamente correto, até quando e mesmo SE ele deveria ser transgredido. Concordo que tem gente emergindo com um humor baseado na ofensa alheia gratuita, e concordo sem sombra de dúvida que confundir estupro com sexo é um imenso, enorme, intergalático ato de ignorância. A piada e os argumentos em seu favor me fizeram lembrar de um dia, quando uma coisa dessas não disparava um alarme feminista na minha cabeça: eu estava com uns amigos num bar e me lembro desse cara, com quem até então já tinha bebido, e conversado, e rido, que começou a falar sobre como as mulheres que são estupradas mereceram o que tiveram. Devido à cerveja e ao fato da conversa não estar sendo transmitida via twitcam pro mundo inteiro, os argumentos ficaram muito pessoais e tal, mas o que é mais triste é que existe gente pensando esse tipo de coisa à nossa volta. Não é mito.

Sobre corretismo, eu sempre vi um quê de atraente no termo politicamente incorreto, porque sempre associei o corretismo no uso de uma série de palavras vazias criadas tão artificialmente quanto o aroma de guaraná do Dolly. Sempre associei os termos indicados pelo corretismo a eufemismos. Sempre falei negros (ainda que não falasse ‘pretos’, porque minha vó sempre falou “pretos” com um certo nojo na voz, e eu evitava), gays, paralíticos, etc. Hoje, quando me deparei com o comentário da Lola sobre como se auto educar nesses termos exige esforço. Bem, eu não sou uma naturalista. Acho que os grupos têm o direito de serem chamados pelo que quiserem. Mas acho que muito mais do que serem chamados de homossexuais, as bichas querem ser tratadas como seres humanos. Isso vale pra maioria dos termos. As palavras que eu chamo de “novas” – visually impaired, pra cegos, em inglês, afro-brasileiros-americanos-insira-uma-nacionalidade-aqui, são uma tentativa válida de renovar a linguagem e o modo como a gente trata essas porções da população, mas o uso do termo não deve vir antes da aquisição do respeito, e sim como um resultado. É que nem colocar aluno que teve um ensino defasado pra fazer gramática tradicional e oficina de texto quando chega na faculdade, ao invés de garantir que ele tenha aprendido isso no ensino médio, como está no programa de educação nacional.

Eu sempre dou exemplos de homossexuais, porque são os mais próximos de mim nessa miscelânea. Não é qualquer pessoa que pode chamar um gay de viado ou de bicha. Quando eles percebem que estão sendo respeitados pelos outros, eles mesmos colocam estes à vontade pra chamá-los assim.

O que eu acho é que o respeito deve vir antes do uso de palavras que frequentemente não são práticas. O fato de eu chamar um cego de “visually impaired” não faz ele enxergar melhor. Por outro lado, se os falantes próprios, os magos da língua de verdade, se pusessem a reinventar as palavras, não seria tão necessário que a gente vivesse pisando em ovos, e babaquices decepcionantes como a do Rafinha Bastos seriam cada vez menos vistas.

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5 opiniões sobre “Politicamente correto/Escolhas lexicais

  1. Amanda, quando vc escreve “O fato de eu chamar um cego de ‘visually impaired’ não faz ele enxergar melhor”, vc demonstra que está errando o foco. Não se trata de fazer um cego enxergar, de “curar” um homossexual, e sim de respeitar a pessoa, o grupo, através da linguagem. Desculpe, mas o jeito que vc descreve sua amizade com gays, como se vc estivesse testando o terreno pra ver quando será aceita e finalmente puder usar termos como viado e bicha (porque eles usam esses termos entre eles, então vc quer usar tb!), ahn, não sei como continuar essa frase. Mas não me parece legal.
    Fico feliz que a discussão te levou a uma reflexão, embora eu não concorde com parte do que vc concluiu. Abraços!

    • Lola! é uma honra ter um comentário seu. =]
      Então, a cura que eu tive em mente não era do indivíduo, não, mas da palavra. A gente vê más conotações mas está em plenos poderes de mudá-las. O exemplo foi com os termos dos gays justamente porque dá pra ver a reinvenção das palavras que seriam ofensivas, mas claro que isso só acontece quando eles sentem o respeito antes.

  2. Só posso dizer que o Rafinha bastos é um idiota. E de marca maior. Sinceramente, eu queria muito ser uma pessoa politicamente correta que respeita os outros e trata todo mundo igual gente. Eu queria mesmo. Mas é difícil pacas.

    Ow, aquela reportagem da Rolling Stone é um lixo. O cara se acha alguma espécie de deus. Que nojo.

  3. Olha, eu não acho que usar linguagem politicamente correta seja sinal de respeito, nem o contrário seja desrespeitoso.No máximo serve de guia para saber onde é apropriado dizer certas coisas. Acho que todos já tivemos a experiência de contar uma história para um amigo próximo, e pela intimidade poder usar quantos palavrões quiser para temperar e dar graça, e depois contar a mesma história para uma pessoa com quem não tenha tanta intimidade ou que não seja apropriado usar palavrões (tipo avó, um colega de trabalho, etc). Nesse caso o uso do politicamente correto é útil, mas é um sinal de respeito para o interlocutor, e não em relação à história em si ou seus envolvidos.

    Então dizer homossexual ou afro-brasileiro não é de maneira nenhuma por si só mais respeitoso do que bicha ou preto. Tentar impor isso me soa como ditadura de linguagem. E dá mais importância à aparência (palavras ou gestos) do que à essência (opiniões e preconceitos).Enfim, queria falar outras coisas mas não quero matar todos de tédio.

  4. Oi Amanda! 😀 Acho o seguinte: toda língua tem uma história, tem uma ideologia, tem um significado, e tem contexto. O bonito é que a gente tem a liberdade de escolher as palavras de acordo com o nosso conhecimento e nosso sentimento sobre elas, sobre o que elas podem significar para os terceiros, para as pessoas com quem a gente quer se comunicar. É como a Lola escreveu no texto dela: ou a gente se educa e tenta falar de modo a respeitar as pessoas, ou… Tá vendo? São escolhas políticas! Se você quer continuar usando os termos que a comunidade aponta como inapropriados daí eu lhe pergunto: por que? Qual é o problema de usar tais palavras? Eu só vejo problema no politicamente correto quando quem usa os termos os usa como ironia, deboche, ou quem os usa à contra-gosto, sem concordar com o conteúdo histórico/social/político que eles carregam. Só sou contra os termos politicamente corretos quando são usados de maneira hipócrita, mas de outra forma eu acho que é um sinal de respeito, entendimento, civilidade. É igual bullying, pra que vc vai chamar o fulano de gordo, se ele diz que isso soa ofensivo pra ele? E daí que ele é gordo e não quer esse apelido? Só quem pode dizer se é ou não ofensivo é ele, e não quem o chama. Bem, eu escrevi demais, mas acho que você entendeu meu ponto, né? Abraços e continue escrevendo.

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