Igualdade é possível?

Essa semana um dos melhores vlogueiros do Youtube, o AmazingAtheist, está fazendo uma série de vídeos chamada “Hate Week”. O primeiro vídeo tem argumento central que ficou na minha cabeça durante essa semana. Pra falantes de inglês, o vídeo abaixo:

A idéia básica: igualdade é uma ilusão, porque por princípio todos nós somos diferentes. E por mais que seja cabível que perante a lei devamos receber o mesmo tratamento, é um absurdo esperar isso no dia a dia.

Essa idéia foi somada com um post da Redd que eu demorei demais pra ler, que coloca exatamente o modo como eu me senti a vida toda a respeito do feminismo: simplesmente ir lá e exercer os direitos. Não lutar por eles, não protestar, simplesmente ir lá e fazer o que eu queria. Bem, antes de expor a minha humilde conclusão eu quero descrever o cenário aparentemente misturadíssimo de Londres.

Eu moro no dormitório da universidade – só por mais duas semanas!!!! – e tem esse salão onde servem refeições duas vezes por dia. Desde o primeiro dia tive uma forte sensação de refeitório de High School americana. E as coisas seguem um padrão. Os brancos ingleses andam juntos, os internacionais – tipo eu – tendem a se agrupar com pessoas que tem culturas parecidas. Em questão de duas semanas as panelinhas estão formadas e você dificilmente conhece alguém novo depois dos dois primeiros meses. Por isso, hoje eu fiquei chocada de tal forma quando uma francesa e um italiano random sentaram na minha mesa hoje e começaram a puxar assunto. Eles NÃO SÃO do meu grupo, como podem só ir sentando?

Dois: hoje, de dentro do ônibus, passei por dois policiais algemando um suposto criminoso na frente de um mercado. Tive dois pensamentos: a polícia daqui realmente PEGA os ladrões, o que pra mim é uma grande novidade, e dois, por que sempre que eu vejo gente sendo algemada essa pessoa é negra? Afinal, aqui não tem miséria, né. Ninguém “precisa” roubar. Né?

A sensação que eu tenho da miscigenação suposta de Londres é que na verdade todo mundo só dá conta de viver assim, misturado, porque na verdade ninguém se mistura coisa nenhuma. Eu vejo igrejas onde só vão negros, escolas onde só vão negros ou só vão brancos. A idéia não é de um apartheid, não, como se os negros sentissem que não podem ir nas áreas mais “brancas”. O que eu sinto é que existe uma certa auto segregação.

A maioria da população negra aqui, pelo menos até onde eu sei, descende ou nasceu na Nigéria. Eles tem um sotaque bastante marcado, um jeito de andar e de interagir entre si. Uma amiga minha me disse que na semana passada, um motorista de ônibus estava dando anúncios pras pessoas no andar de cima pararem de beber ou coisa assim (aqui é ilegal beber nas ruas ou dentro do transporte público), quando um inglês bêbado (e branco, claro), berrou de volta: “Sorry, I don’t speak Nigerian!” com risos imbecis dos amigos dele.

Não preciso explicar o quão ofensivo isso é, lembrando que a língua oficial da Nigéria é o próprio inglês, ainda que quase toda a população tenha como língua materna alguma língua africana. Aqui nunca se fala em sofrer por preconceito. Você não ouve nem frases que generalizam uma nacionalidade, o que vai a extremos meio estranhos. Por exemplo, me desculpem, mas eu acho o sotaque indiano em inglês uma coisa lamentável. Feio de se ouvir. Não implico que, sei lá, os indianos sejam burros ou qualquer coisa. Mas sei que não posso dizer isso pra alguém. Parece que se a gente não fala sobre as nossas diferenças elas não existem. É… esquisito. E totalmente diferente do Brasil, porque no Brasil as pessoas se misturam mais, e tem menos medo de falar das diferenças, e dizer ‘feio’, ‘bonito’, ‘legal’, ‘chato’, etc. Eu não discordo quando você diz que julgamentos como esses muitas vezes só refletem os tais padrões de beleza inatingíveis. Mas sabe? Nem sempre. Tem gente eu acho feia e pronto. E eu quero poder dizer isso. Tem gente que eu acho bonita e eu quero poder dizer isso. Não gosto de ter que fingir que todo mundo é igual, com essa auto segregação daqui. A atitude londrina é racional e educada, mas é fria de humanidade e isso me estressa.

Ao mesmo tempo, com relação à opinião do AmazingAtheist, eu concordo que nós somos todos diferentes e nos tratamos de forma diferente. Mas porque esse tratamento, diria eu, diferenciado, precisa corresponder justamente com o estereótipo do preconceito? Por exemplo, os negros vêem claramente quando uma mulher segura a bolsa com mais força ao vê-lo. Ela o está tratando de forma diferente de um cara branco, mas é porque ele é negro simplesmente ou por que ela foi constantemente bombardeada com imagens que associam negros a criminosos?

É muita inocência de um cara que normalmente tem opiniões muito bem fundamentadas. O modo como tratamos pessoas diferentes quase sempre é diferente porque estamos reagindo de acordo com um estereótipo que temos internalizado. Se eu resolver aprender a dirigir, por exemplo, já dá pra imaginar o número infinito de piadas do nível Rafinha Bastos que eu vou ter que ouvir, porque sou uma mulher. Aliás, o problema principal do feminismo na contemporaneidade, acredito eu, nem é que não tenhamos os mesmos direitos ou as mesmas chances de fazer as mesmas coisas que os homens. Como a Redd diz, a gente pode ir lá simplesmente e resolver voltar da festa sozinha, pegar ônibus e descer o morro do 2004 até onde eu moro. Mas eu enfrento consequências muito diferentes pelos mesmos atos. Além de ser, ao menos em tese, um alvo mais fácil pra assaltantes, quem vê uma mulher andando sozinha na rua de noite aprendeu a pensar que ela é vagabunda.

Então eu diria que quando a gente busca um tratamento igualitário, pode até ser que estejamos buscando um padrão tão impossível quanto o de beleza da mídia. Mas é um que vale muito mais a pena. Não um que finja que todo mundo é igual pra aflorar quando o magnânimo branco nacional heterossexual fica bêbado num ônibus. Mas um que nos permita mover-se com flexibilidade entre as desgraçadas panelinhas.

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Uma opinião sobre “Igualdade é possível?

  1. É uma discussão interessante. Acho que provavelmente o preconceito é instintivo aos animais, é o medo do novo, do desconhecido, do diferente. Tem sua importância na vida selvagem, natural ou como queira chamar. A coisa se complica quando se transpõe esse sentimento a seres culturais, sociais e racionais como os humanos. Ai não se restringe simplesmente ao medo, mas se mistura com outras emoções e idéias que podem chegar, por exemplo, ao racismo.

    Como os animais, nós temos prencoceito com o que não conhecemos. Assim, como você disse, entre os ingleses é comum uma certa auto-segregação entre grupos, baseado entre outros na origem dos indivíduos. Assim, pessoas de origens diferentes não se confraternizam, ou muito pouco, portanto não se conhecem uns aos outros, o que gera o preconceito nesse caso racial, mesmo que velado. Por outro lado, no Brasil, esse tipo de preconceito racial é menos comum (ok, nem tanto) simplesmente porque há uma maior convivência entre grupos de origens diferentes, o que faz os indivíduos se conhecerem mais e etc. Mas isso não torna o Brasil um país livre de preconceitos obviamente, para não falar dos sempre citados, tem o caso dos crentes, protestantes em grande crescimento numérico nas últimas décadas. Quem cresceu em família pertencente à maioria católica sabe que há muito preconceito para com os crentes, mesmo que velado devido à própria cultura nacional. Mas, a medida que a convivência entre crenças diferentes aumenta, o preconceito tende a diminuir, o que acho que já acontece.

    Enfim, acho que se houver uma “guerra ao preconceito” ela está fadada ao fracasso, porque simplesmente vai contra com a natureza humana, podemos utilizar a razão para lutar contra ele, mas nunca conseguiríamos vencê-lo. O preconceito é algo que existe para coisas que estão ao alcance da vista, mas não próximas o suficiente para que possamos vê-las com clareza, o racista inglês que odeia nigerianos, jamaicanos ou indianos, provavelmente não sente o mesmo em relação a tibetanos ou uzbeques.

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