O gay da novela da Globo

Faz dias, semanas, meses, que eu ouço os homofóbicos bradarem, na defensiva: “A tv quer que todo mundo seja gay!”

Vamos conversar sobre isso. Eu costumo ilustrar minhas opiniões com histórias da minha vida real, né? Pois é. Eu nasci e cresci numa cidade pequena, com menos de dez gays assumidos. Nenhum deles cruzou meu caminho nos dezoito anos que passei aqui, então cheguei verde na cidade grande. Em 2007, não tinha gay nem no Big Brother, que dirá em novela.  Hoje eu me considero outra pessoa em termos de atitude, opiniões, etc. Mas às vezes alguém daqui conhece algum dos meus amigos gays em Belo Horizonte, e a conversa quando meu amigo se afasta é quase sempre a mesma.

“Amanda, aquela pessoa é… é… GAY?”

“Aham…”

“Nossa, mas nem parece. Ele é tão sério! Nem dá pra dizer de olhar pra ele”.

Quem só assiste tv e vive em ambientes estritamente heterossexuais acaba tendo uma dificuldade quase engraçada de contemplar quando conhece um gay “discreto”. Mas me faltava entendimento dos motivos até voltar pra roça e assistir um pouco de tv.

De fato, os gays estão na tv o tempo todo. Tem gay em todas as novelas (menos nas de época, claro, porque gay é uma invenção do século XXI), no TV Fama, nos programas de comédia, no, han, “programa” da Luciana Gimenez. Os gays de televisão, percebo eu, tem uma função muito parecida com as mulheres ornamentais de cenário: o entretenimento, lógico. Todo e qualquer homossexual mostrado é sempre um pavão, alguém batendo cabelo, alguém fazendo em geral o papel de bobo da corte. É claro que essa exposição tem um lado benéfico, porque as pessoas têm sim que se acostumar a ver travestis, drag queens e etc. na rua sem gritar insultos. O problema é quando essa representação nunca ultrapassa a caricatura.

O gay nunca é representado como uma pessoa, simplesmente. Nunca é alguém que trabalha, que estuda. É sempre uma loca-loca-loca que faria qualquer coisa pra, sei lá, “pegar um bofe” (oi, gíria dos anos 90?), só usa rosa nas novelas, é cabelereiro, etc. Aí a gente vai assistir e observa os apresentadores, jornalistas, analistas (todos o quê? ah, hetero, né?) abordando questões como a Marcha da Liberdade, a Marcha das Vagabundas, a Parada Gay, como se fossem apenas festas em que todo mundo se joga na putaria, fuma maconha e vai pra casa. O expectador concorda, porque só o que ele sabe se homossexualidade é aquele carnaval.

O expectador não está com o amigo gay quando você está andando na rua e o carros passam gritando insultos, ou quando puxam briga numa festa. Não está lá pra ver toda a merda que eles passam diariamente, pra realmente entender porque as manifestações são em forma de festa. Porque é crucial pra eles comemorar a sua causa, pra afirmar a sua própria existência, como quem diz “você não quer, mas eu estou aqui, estou vivo e tenho que ter tantos direitos quanto você”.

Como a mídia – não só a Globo, quem dera se fosse só uma emissora! – mostra os homossexuais e o seu movimento como atividade de quem não tem o que fazer além de procurar alguém pra fazer sexo, o expectador está anestesiado com relação à verdadeira desigualdade. Como ele vê o Christian Pior o tempo todo, ele não pensa que gostar de gente do mesmo sexo possa ser um traço que vem sem a parte de “causar”, e portanto não entende como os homossexuais podem continuar reclamando de falta de espaço quando estão na mídia o tempo todo! Certamente a mídia do mal só quer que todo mundo seja gay!

Não, meu amigo, muito pelo contrário. Esse gay sem variável que lhe é apresentado via novela das sete (que é geralmente a que tem o marcos pasquim sem camisa fazendo o macho alfa, também) é um bobo da corte, que só serve pra te fazer rir, nunca pra realmente marcar presença e ser aceito com a mesma seriedade de um heterossexual. É igual colocar mulher negra em novela, mas sempre no papel de empregada. É sempre aquele personagem com uma função, fazer rir, servir, inspirar pena.

Você não vê o Jean Wyllys, por exemplo, que é um dos deputados mais importantes na causa homossexual. Você não vê a Marta Suplicy, hoje milhões de vezes mais importante politicamente do que o ex marido, militando pelas mulheres e pelos homossexuais. Não vê jornalistas, professores, nem mesmo recebendo  espaço pra falar num jornal. É sempre a imagem deles e um voice over do apresentador.

Tem gente, que, quando me ouve reclamar dessas coisas, só diz: então não assista televisão, é uma merda, não tem jeito. De fato, a tv é horrível, mas desligá-la não vai fazer com que ela pare de propagar preconceitos.

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Mais um post emocional

Sou uma pessoa horrível por demorar tanto tempo pra dar sinais na blogosfera, né?

Faz mais de uma semana que eu cheguei no Brasil. Ou seja, mais de uma semana cheia de coisas acontecendo, pessoas que eu reencontrei. Eu pensei em milhares de assuntos pro primeiro post em terras brasileiras: pensei em falar dos amigos maravilhosos que me buscaram em Confins, pensei em falar do que eu senti quando olhei pra Faculdade de Letras na sexta feira passada e como aquele momento foi inesquecível e maravilhosamente, unicamente eu, pensei em falar sobre o Palocci e como estava decepcionada com a Dilma dando pra trás com o kit escolar anti homofobia (tem desculpa mais deslavada do que ‘não quero fazer propaganda de uma sexualidade’? É quase um insulto à inteligência humana!), daí eu quis me posicionar sobre a queda que o CQC sofreu no meu conceito, sobre como eu cheguei pra encontrar o feminismo disseminado entre pessoas, eu inclusa, que sempre acharam que feminismo era uma coisa anacrônica, daí eu quis postar sobre a carta que a Melissa me deu quando eu fui embora, dizendo que felicidade não era estar em Londres, mas um dia estar sentada na calçada em Santa Cruz das Palmeiras e ser feliz porque um dia eu estive em Londres (essa frase ecoa tanto na minha cabeça), outros posts gerais sobre o meu tema mais recorrente, o tema de pertencer a algum lugar e fazer o que você ama…

…mas veja bem, hoje o meu cachorro, Lucky, ficou doente.

Desde sexta ele estava esquisito, com diarréia, mas hoje ele realmente ficou ruim, estava claramente com dores, e triste. Minha mãe e eu demos todos os remédios, levamos ele pra passear mil vezes pra ver se ele punha tudo pra fora, minha mãe foi ficando ansiosa e desesperada. Não temos carro e era domingo à noite, farmácias fechadas numa cidade minúscula e o veterinário do Lucky, que mora na cidade vizinha, inventou de não atender o celular. A ansiedade da minha mãe foi crescendo, eu entrei em modo emergência e a gente virou a cidade de ponta cabeça: ligou pra amiga da minha mãe que tem carro, ligou em todos os números do veterinário até ele atender, pegamos a moça da única farmácia de plantão já em cima da moto pra ir embora e compramos remédio, tiramos o dono da purina da cama pra dar injeção pra que o bebê pudesse dormir direito. Mesmo depois de todo esse faroeste, ainda tivemos que vir pra casa e esperar o remédio fazer efeito no cachorro e o leite quente fazer efeito na minha mãe, que estava uma pilha de nervos.

Tá, Amanda, pra quê você tá me contando tudo isso?

Eu me peguei pensando como essa situação teria se desenrolado se eu não estivesse em casa, foi isso.

Sempre escrevo sobre como é importante fazer da sua vida o que você quer. Sobre como não é possível, mas natural que a gente vença adversidades que se apresentem diante dos nossos objetivos, e sobre como não podermos ser nada além de nós mesmos (bem, isso e sobre política, é claro). Mas nunca tomei tempo pra abrir uma página e falar sobre o medo que eu tenho, muitas vezes, de faltar à minha família.

Faço parte de uma família pequena. Todo mundo me conta histórias de grandes almoços e jantares em determinados feriados, sobre brigas e coisas engraçadas, e fotos cheias de pessoas que são variações de uma mesma aparência com outras idades e gêneros. Mas e quando você só tem um, no máximo dois parentes? Bem, a necessidade de se manter próximo é ainda maior. Mas às vezes a gente não está lá quando é necessário. Muita gente não está lá quando é necessária nem pelos meus motivos, que são viagens e estudos e trabalho, mas porque simplesmente não entendem o quanto são necessárias. Eu fico feliz de hoje ter estado aqui pra acalmar a minha mãe, pra gritar com ela que abraçar o cachorro não vai fazer ele parar de sentir dor, e sim ligar pro veterinário, e feliz que ela tenha gritado comigo quando… bem, quem conhece a minha mãe já imagina que ela gritou comigo o tempo todo… Porque bem, somos poucos, né? Eu estou feliz também de estar de volta, porque de agora em diante eu estou a uma emergência de distância ou menos. Quando as coisas aconteceram antes – e acredite, aconteceram – o máximo que eu podia fazer era contar as horas de diferença e ligar a câmera. Hoje eu posso estar aqui com a minha família, e devolver um mínimo do que eu devo a eles.

Olha só, eu avisei que ia ser um post emocional. Foda-se.