Maratona: o Cálice de Fogo

Everything is going to change now, isn’t it?

Hermione resume a coisa toda pra gente: o Cálice de Fogo é um divisor de águas em termos de narração. Apesar de ser meu segundo livro favorito, a adaptação lançada em 2005 deixa a desejar, apesar de, claro, não ser tão ruim quando a do que nós discutimos ontem. O livro quatro é o que eu mais reli (oito vezes), então é o que eu mais vou saber pra comparar.

Eu nunca consigo superar bem o fato de que 80% das cenas de quadribol são excluídas dos filmes, pra evitar que todos os filmes tenham sete horas de duração. O Cálice de Fogo é um livro bem mais longo do que os três anteriores, com muito mais detalhes e com uma trama já bastante complexa, então dá pra entender a dificuldade do diretor Mike Newell em terminar o trabalho, que resultou em cerca de duas horas e meia de filme.

Os Dursley são completamente excluídos dessa trama; e pela primeira vez o filme não começa falando de Harry Potter, e sim de Voldemort, agora junto de Peter Pettigrew, tramando mais uma vez o seu retorno, com a ajuda de um personagem novo, interpretado pelo Doctor Who David Tennant.

No quarto filme, os horizontes do expectador se expandem. Harry vai assistir à Copa do Mundo de Quadribol; vê bruxos de diferentes nacionalidades, que serão definitivos no desenvolvimento da trama mais adiante, e percebe que fora muito inocente nunca considerando a existência de outras escolas de magia além de Hogwarts. Em toda a série, as únicas duas escolas mencionadas são Beauxbatons (francesa) e Durmstrang (alemã/búlgara/praqueles lados lá). Essas escolas visitam Hogwarts ao início do ano letivo (no livro isso é só no dia das bruxas) para uma competição legendária, o Torneio Tribruxo; uma série de tarefas mágicas perigosas e espetaculosas para entretenimento e competição entre as academias.

A verdade é que nesse filme tem muitos temas misturados: a entrada mal explicada e misteriosa de Harry no torneio mantém o suspense das próximas tarefas (em tese, apenas alunos de 17 anos ou mais deveriam poder participar), o que causa sua primeira grande briga com Ron, o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, que pela primeira vez elucida como os pais de Harry teriam morrido na aula de Maldições Imperdoáveis… Enfim. Outras informações, periféricas mas relevantes, nos são apresentadas: os pais de Neville foram torturados horrivelmente durante a guerra (mas o filme não diz que eles estão internados no St. Mungus até aquele dia) sendo a principal delas.

Nesse livro/filme, quando importa mais, Harry está sozinho, o que é uma grande diferença com os outros livros. Em todos os outros fins de livro, ele teve ajuda até quase o final. Durante as tarefas do torneio, ele está constantemente sozinho, ainda que tenha ajuda na preparação. Nessa altura, Snape perde o argumento de dizer que Harry é só um moleque sortudo com amigos mais talentosos do que ele. Uma luta com um dragão, um esforço sobrehumano de salvar pessoas que ele não tinha que salvar no fundo de um lago, sem mencionar a ajuda a Cedric Diggory no último momento, o que acabou determinando a morte dele.

O Cálice de Fogo tem muitos choques; e como nosso amado trio está com 14 anos, os hormônios começam a levar a melhor sobre ele. Com a iminência do dito Baile de Inverno, os alunos são forçados a dançar, arrumar roupas chiques e, pior, convidar alguém do sexo oposto como companhia. Isso é particularmente difícil para Harry e Ron, que como descrito por J.K. e transcrito pelo filho do capeta Kloves, percebem que as garotas insistem em andar em bandos, dando risadinhas imbecis e assustando demais qualquer garoto desesperado para chamar alguém. A descrição do comportamento histérico adolescente feminino é real demais pra não ser engraçado; então quando Harry consegue chamar a menina bonitinha pro baile, Cho Chang, percebe que tinha perdido tempo e ela já tinha combinado de ir com outro garoto… ohhh o drama! Paralelamente, Ron também dorme no ponto e um tanto quanto tarde demais volta-se pra Hermione e diz: “Hermione… you’re a girl.”. O drama RH culmina no próprio baile, quando ela aparece para surpresa de todos com o bonitão campeão de Durmstrang e jogador internacional de Quadribol, Viktor Krum. Mais uma vez: oooohh o drama!

O modo como Harry começa a entrar involuntariamente na mente de Voldemort é mostrado pelo filme como um mero detalhe, o que é triste porque é muito necessário que fique claro. Quando finalmente o funcionário do Ministério da Magia, Bartolomeu Crouch é encontrado morto a história finalmente começa a ganhar o tom de seriedade que devia; e o clímax desse filme divide a série em duas partes: antes e depois do retorno de Voldemort.

De um lado, Cedric Diggory, interpretado pelo pobre Robert Pattinson, que depois caiu na besteira de estrelar o que provavelmente é a série mais patética e machista da história, aquela crepúsculo lá. Cedric tem um pai extremamente orgulhoso, mas não é pra menos; o rapaz é bonito, talentoso, popular, inteligente – e humilde! Em nenhum momento ele trata Harry mal ou se exibe por ser o campeão de Hogwarts no Tribruxo. Como o expectador tende a ficar do lado de Harry, a gente meio que quer que o Diggory seja um babaca, pra torcer pro Harry sem remorso. Mas ele é tão bom caráter que mesmo Crouch Jr. pode contar com ele a ponto de carregar o seu esquema contra Harry adiante – sem saber, claro.

Uma vez morto por Voldemort (tecnicamente morto por Pettigrew), Cedric ganha um valor simbólico na série, especialmente depois do discurso de Dumbledore ao encerramento do filme. Torna-se um exemplo de atitude e de caráter. Eu honestamente acho que a cena mais triste de todo o filme é quando Harry consegue retornar a Hogwarts com o corpo de Cedric e seu pai desce da arquibancada pra encontrar o filho morto. O desespero do personagem forma um contraste mórbido com a alegria da multidão que ainda não percebeu o que acabou de acontecer – o efeito é digno de pesadelos, enquando ele grita: “my boy!”

Voldemort, por sua vez, entra em cena. Revive a partir do sangue de Harry (Jesus Cristo feelings), interpretado pelo genial Ralph Fiennes. Mesmo com muitas chances de matar Harry, ele insiste em provar para seus seguidores (apresentados no filme como Comensais da Morte, usuários de máscaras e capas que lembram muito o Ku Klux Klan) que Harry sobreviveu por acidente, e não por poder superior. Uma vez com a chance em um duelo, Harry acaba escapando mais uma vez. Claro que conta um pouco com a sorte, uma vez que nenhum deles podia adivinhar que suas varinhas não poderiam lutar uma contra a outra, mas acima de tudo é habilidade. A performance de Dan inclusive melhora a partir do filme anterior, especialmente quando Voldemort diz que ele não deveria se esconder e fugir dele, e sim lutar como um homem. Com tudo a perder, pouco a ganhar, Harry respira fundo e enfrenta Voldemort de frente.

Mesmo no fim desse filme, apesar de finalmente revelado, Voldemort continua sendo uma interrogação. Harry ainda não entende seus motivos ou sua personalidade, e, principalmente, não sabe por que, afinal de contas, Voldemort estava tão resolvido a matá-lo quando era criança.

Pra terminar, o grande pecado dessa adaptação pra mim é: cadê a cena de Harry escutando a conversa de Snape com Karkaroff no Baile de Inverno? Eu não sei porque a câmera fica indicando que o Karkaroff estava por trás de tudo, quando não só não estava, como também não se esclarece que ele tem pavor de encontrar Voldemort depois de ter dedurado tantos Comensais. Snape perde uma cena importantíssima para que o expectador entenda a complexidade do personagem – pra quem sabe não tomar o puta susto que um “fã” só de filmes vai tomar quando assistir a parte dois esse final de semana. Não dá pra perdoar que o Snape neste filme seja apenas usado para humor.

Bom, continuamos amanhã, com o ótimo Ordem da Fênix. Nox!

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Uma opinião sobre “Maratona: o Cálice de Fogo

  1. Pois é, o Snape é o alívio cômico do filme. É triste. Eu não sei, eu acho que o roteiro deixa de lado as melhores partes do Snape… E essa de ficar tentando incriminar o Karkaroff é tipo idiota porque depois ele simplesmente desaparece e quem só assiste o filme não entende nada.

    Mas sabe que eu até gosto da atuação do Dan nesse filme? Eu acho que ele faz uma boa pegada de comédia além de ter aprendido a fazer cara de medo. E nos extras do filme dá pra ver que ele se esforçou pra fazer todas as cenas de ação, usando menos dublê e talz. Isso é legal.

    E ah, esse filme começa a dar mais destaque pro Neville! Por mais que eu não goste de ver o Dobby de lado, o Neville foi uma boa escolha.

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