Maratona: A Ordem da Fênix

You are a fool, Harry. And you will lose everything.

Um pouco antes do quinto livro ser lançado, eu já escrevia fanfics e ocasionalmente publicava colunas na Edwiges Homepage. Numa dessas colunas, eu me fazia a pergunta que nenhum livro ainda tinha respondido: por que, afinal de contas, Voldemort queria tanto matar Harry?

Quer dizer, o moleque tinha um ano, nem tinha tido chance de fazer alguma coisa que aborrecesse Voldemort. E não dá também pra dizer que Voldemort queria destruir toda a família. Desde o começo da série, J.K. tinha deixado bem claro que Voldemort dissera a Lily Potter pra sair da frente, e que ela não precisava morrer – o que ele queria era o menino. Uma vez morto, ele parecia ser indiferente ao destino de Lily. Ainda assim, ela não saiu da frente do filho, e enfrentou Voldemort sozinha e desarmada – por culpa da teimosia e da coragem da mãe de Harry, nós tivemos essa história toda. Sabemos que ele foi protegido pelo sacrifício de Lily, mas não sabemos por que ele foi necessário. Depois de ponderar todas essas coisas, acabei chegando à conclusão de que a única explicação era que Harry fosse alguma espécie de “predestinado”, como eu argumentei na época.

Desnecessário dizer que eu me orgulho muito dessa coluna, porque eu estava certa.

Harry Potter e a Ordem da Fênix, lançado em 2007 (quase que ao mesmo tempo do sétimo livro – 2007 foi um ano e tanto) é minha segunda adaptação favorita. Digo segunda porque até agora a parte um do sétimo livro continua sendo a melhor… Veremos como será domingo. Dirigido por David Yates, que ficou na mesma posição durante os filmes seis, sete parte um e parte dois, A Ordem da Fênix tem uma vantagem astronômica sobre todos os outros filmes da franquia: seu roteiro não foi escrito por Steve Kloves. Isso significa que Hermione voltou a falar apenas o que lhe cabia, que as informações mais importantes foram passadas. Inclusive, Michael Goldenberg até consertou erros do Kloves: lembram-se que ontem eu reclamei que Cálice de Fogo não menciona o fato dos pais de Neville serem heróis que resistiram à tortura? Pois é; no meio do quinto filme ele coloca Neville pra confessar a história a Harry, num momento muito oportuno, visto que Bellatrix Lestrange, a mulher que torturara seus pais, tinha acabado de escapar de Azkaban.  Esse roteiro, claro, é forçado a cortar fatos, mas diferente de Kloves, sempre tenta explicar as coisas de uma forma ou outra.

Outro exemplo mais claro desse bom amarramento é que duas cenas fantásticas do livro são misturadas em uma só no filme: ao mesmo tempo que Fred e Jorge Weasley fazem a façanha de envergonhar Umbridge e fazer o maior espetáculo de quebra de regras que Hogwarts já viu, Harry tem a visão de Sirius sendo torturado por Voldemort, durante os exames.

As visões que Harry passa o ano todo tendo das atividades de Voldemort o atormentam, culminando no momento em que Arthur Weasley é quase morto e de forma meio irracional, ele se sente culpado por ter visto a coisa toda. Aqui o filme podia ter mantido uma das poucas cenas boas de Gina Weasley: quando ela diz que Harry não podia estar sendo controlado por Voldemort simplesmente porque não tinha nenhum dos sintomas. E acrescenta que se ele não ficasse se martirizando e fugindo de todo mundo, se ele simplesmente tivesse ido até ela, a única pessoa que ele conhecia que já fora controlada por Voldemort, e perguntado, ele saberia logo a resposta e não ficaria naquele sofrimento. Essa cena poderia ter ajudado o expectador a ver melhor a Gina, ao invés de só focar nela quando ela faz algum feitiço poderoso ou quando ela faz uma cara de ciúme de Cho Chang. Assim quem sabe a gente não acharia TÃO esquisito o súbito aumento de importância dela no filme seguinte.

Uma vez estabelecido que Harry não pode ser assim tão vulnerável à mente de Voldemort, ele começa a ter aulas de Oclumência com Snape. Isso é particularmente problemático, porque Harry é em essência uma pessoa muito aberta e óbvia com seus sentimentos. Isso é uma das coisas mais bonitas em Harry e é algo que eu, Amanda, gosto muito nas pessoas: quando você sabe o que aquela pessoa está sentindo, quando ela é incapaz de jogar com os sentimentos ou com as impressões dos outros. Sendo assim, Harry enfrenta longas horas de Snape fuçando em suas memórias mais valiosas, até que finalmente ele revida.

E há! Toda a imagem de Tiago/James Potter como um santo virtuoso que Harry tinha cai por terra. Seu pai era na verdade um valentão imbecil. Não só isso, como ele humilhava Snape em Hogwarts exatamente como Draco ou Duda humilhavam Harry. Ele se sente profundamente traído – essa, como todas as consequências psicológicas nos filmes, não é muito explorada, mas pelo menos é mostrada. Aquela cena é importantíssima não só para a inversão de papéis de James e Sirius, mas também de Snape. Infelizmente a cena não foi completamente adaptada, não temos Lily impedindo James ou Snape a chamando em seguida de Sangue-Ruim, mas ao menos temos dessa vez a idéia geral.

As duas personagens de hoje são muito bem construídas.

Luna Lovegood é uma excluída. Todos em Hogwarts estão convencidos de que ela é meio maluca, então desde sua entrada em Hogwarts um ano depois de Harry, as outras crianças se divertem às custas dela, escondendo seus objetos. A única amiga que Luna parece ter na altura em que Harry a conhece é Gina. O comportamento de Luna frente à adversidade não é só chocante para Harry, mas como também o faz ter vergonha de si mesmo: Luna não reage. Não briga, não revida. Ela apenas trata as pessoas bem e age com uma sinceridade muita vezes pouco benéfica à socialização. Ela explica a Harry o que são os novos animais mágicos, os testrálios, visíveis apenas para quem conhece a morte – para aqueles que já viram alguém morrer. Devido à morte de Cedric, Harry agora podia vê-los.

Não é segredo pra ninguém que no fim Harry acaba namorando Gina, eles até se casam e têm filhos, mas desde a primeira vez em que Luna aparece, eu quis sinceramente que Harry acabasse ficando com ela. Nem tanto por Harry ser um dos meus personagens favoritos, ele não é. Acho que eu queria que a série fosse Harry/Luna porque eu queria que pelo menos na ficção o herói ficasse com a esquisita no final. E, aparentemente, Goldenberg compartilha dos meus sentimentos: Luna tem muito mais falas no filme do que no livro, ao fim do filme até segura a mão de Harry de um modo neutro – mal interpretado por mentes poluídas como a minha. Ela se torna um dos principais membros da Armada de Dumbledore; do círculo mais importante, ela é a personagem mais recente.

A Armada de Dumbledore é o símbolo do teor político de Ordem da Fênix, que é outro elemento que me faz adorar essa parte da série. Parece loucura que o governo não admitisse o retorno de Voldemort, não é? Mas ainda assim, o Ministro da Magia se nega terminantemente a admitir que a sociedade bruxa está de novo em risco, porque isso o prejudicaria politicamente; assim, segue com uma campanha para desacreditar Harry e Dumbledore, vistos então como loucos ou mentirosos. Sinceramente? Eu acho esse tema do livro/filme quase educativo. J.K. está mostrando a pessoas como o poder cega e como a política pode facilmente distorcer a verdade através dos meios de comunicação. Qualquer pessoa com dois neurônios no mundo mágico sabe que o Profeta Diário está sendo manipulado, assim como qualquer pessoa com dois neurônios sabe que a Folha de São Paulo exerce uma manipulação descarada sobre a veiculação das notícias – e é aí que cheamos à triste percepção de que muito menos gente do que nós imaginamos tem mais de dois neurônios.

It’s revolution, baby!

Frustrados com a censura e com a injustiça, o trio resolve criar um grupo para praticar mágica secretamente, afim de se prepararem para lutar contra as Artes das Trevas. O filme mostra isso magnificamente: as sequências de feitiços praticados, Filch tentando encurralá-los, Ron perdendo feio pra Hermione, Luna conjurando um patrono, Gina reduzindo a pedaços o que quer que fosse aquele objeto antes, todas essas coisas são lindamente representadas no filme.

A Armada de Dumbledore é a versão mirim da Ordem da Fênix, que batiza o livro/filme, pouco mencionada até aqui porque é só o renascimento do grupo de resistência da guerra, antes da morte dos Potter. A Armada é estendida, no livro sete, à própria personificação da resistência, o que eu acho muito bonito.

Com uma exposição tão heróica, não é de surpreender que Harry finalmente dê seu primeiro beijo, com Cho Chang, a tal apanhadora bonitinha da Corvinal. No filme a coisa não vai pra frente porque ela supostamente trai a Ordem da Fênix, mas no livro nós sabemos que foi a amiga dela, e que eles terminam porque – pasmem! – Cho tinha muitos ciúmes de Hermione. Louca.

A segunda personagem (não paro nunca mais de escrever, socorro) é Umbridge. Apontada pelo Ministério para manipular ensinar Defesa Contra as Artes das Trevas, Umbridge proíbe o uso de varinhas, a afirmação da verdade, o contato entre meninos e meninas, as agremiações, os professores esquisitos, a respiração, até a lei da gravidade ela tenta proibir. O modo dissimulado de punir, o seu desespero por controle, seu preconceito e, mais horrível do que tudo, sua preferência doentia pelo rosa fazem com que ela sem dúvida seja a personagem mais odiosa de toda a série. Pouca coisa traz mais satisfação do que a despedida dos gêmeos de Hogwarts, ou do que ver os centauros arrastando a louca Miriam Rios Umbridge floresta adentro. Ela retornará no sétimo filme parte um, como veremos sábado.

Finalmente, temos a primeira grande morte da série. Enganado por Voldemort, Harry sai pra salvar um Sirius que estava em segurança dentro da Mansão Black. Tudo se desenrola horrivelmente, com Bellatrix matando Sirius. Nesse momento do filme eu precisei acalmar o meu desespero que sempre se repete nessa parte pra perceber como o silêncio é usado muito bem nessa adaptação como trilha sonora. Silêncio como trilha sonora? É. Yates entendeu que certas dores são tão horríveis, tão inexplicáveis e tão injustas, que nada transmite o sentimento melhor do que o silêncio. Harry entra em desespero (numa ótima atuação de Daniel Radcliffe, que continua melhorando desde o quarto filme) e Lupin imediatamente o segura, impedindo que ele tente seguir o padrinho. A única pessoa que significava uma família para Harry agora está morta, simples assim, e seu sonho está mais uma vez arruinado.

Talvez por isso o efeito da conclusão seja tão grandioso. Voldemort, depois de duelar com Dumbledore, tenta explorar esse ódio em Harry possuindo-o. Pouco tempo depois fica claro que ele seria incapaz de controlar Harry, justamente pelo motivo que não o deixa aprender Oclumência: ele se importa demais. Ele ama demais – e Voldemort é incapaz de entender esse tipo de laço. Nesse ponto o filme fica muito clichê, com Harry dizendo que sente pena de Voldemort, mas eu perdôo; todos temos direito a um bom clichê de vez em quando.

O Ministério da Magia é então forçado a admitir o retorno de Voldemort, porque todo esse faroeste que descrevi nos últimos parágrafos foi dentro do próprio ministério. O filme termina com muita tristeza, e com aquela sensação que a gente as vezes sente na vida, resumível em uma simples palavra:

fudeu!

Ah, e sabendo que hoje era o dia do filme cinco, eis o que fiquei cantando o dia inteiro:

WE’RE DUMBLEDORE’S ARMY!

E amanhã *suspirando* o filme seis, Half Blood Prince, ou aquele-que-não-deve-ser-assistido.

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Uma opinião sobre “Maratona: A Ordem da Fênix

  1. Então, esse filme é lindo! De verdade, ele é muito bem feito, o roteiro é incrível… quer dizer, o roteiro é um roteiro. Kloves morre. Enfim…

    eu adoro a trilha sonora desse filme, as cenas de ação, as cenas tocantes… e o silêncio. O silêncio não só na trilha sonora, mas mesmo nas cenas em que o Harry fica olhando… O kloves não sabe fazer silêncio. toda hora alguem fala alguma coisa nos filmes… Mas nesse o silêncio é tão lindo.

    E a Umbridge é a personagem mais horrível de todas. Porque você vê como alguém com idéias perigosas e preconceituosas pode sair de simplesmente fazer uma coisa chata até a realmente perseguir pessoas e matar pessoas (vide a trama do livro 7). Realmente, se tem uma coisa bonita em HP5 é esse teor político revolucionário. Dumbledore´s Army!!!!!

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