A Vergonha Hetero

Apesar desse assunto me dar bastante raiva, hoje eu quero fazer um post bastante didático, porque se eu não escrever vou acabar tendo que ir dormir e tal.

Desde que o mais novo absurdo da sociedade brasileira veio à tona, muita gente tenta defender o tal projeto sobre o dia do “orgulho hetero”, os trolls da internet ganharam mais esse alimento para atacarem blogs de esquerda e de minorias sociais. Por mais que os trolls ocasionalmente me intriguem, eu quero começar falando da forma mais simplista que eu puder sobre datas comemorativas.

Há vários motivos para os diferentes feriados ao longo do calendário brasileiro. O mais comum é o motivo religioso; mais especificamente, os feriados da igreja católica, que ainda que perca fiéis todos os dias para o ateísmo, o espiritismo e as seitas pentecostais, continua sendo a maior força religiosa do país. Esses feriados não são votados em lei; meio que estiveram sempre lá e nem quem não é religioso reclama porque, afinal de contas, é um final de semana prolongado. A mídia sempre aborda esses feriados, ano após ano, da mesma forma: passam todos os filmes de Jesus já feitos, colocam decorações nos seus programas para donas de casa, e no fim do ano a Globo liga pro Roberto Carlos.

Existem outros feriados, os comerciais: dia dos pais, das mães, das crianças, dos namorados – claro que dá pra colocar a Páscoa e o Natal nessa conta, mas vocês sabem do que eu estou falando: dias sem nenhum motivo relevante pra sociedade atual, que dificilmente podem ser chamados de celebrações, porque quando chegam só se ouve uma reclamação enlouquecida sobre dinheiro gasto com presentes (e com motel, no caso do dia dos namorados). Nesses feriados, a mídia cai em cima mais com propaganda. Perfumes, brinquedos, roupas, jóias, etc, etc.

Na terceira categoria que vou marcar aqui vou colocar os feriados novos, nos quais não tem nenhuma paralisação em trabalho ou mesmo na programação de filmes da tv. Temos aí o dia do índio, dia da consciência negra, dia de combate à aids, dia da mulher (que é explorado pelo mercado, também), etc. etc. A disseminação desses feriados tem dois mecanismos: nas agendas escolares, e na matéria de fundo do jornal local sobre a minoria representada naquele dia.

Essa terceira categoria não envolve presentes, não envolve nem mesmo algo alegre. Essas datas estão aí pra nos lembrar de coisas ruins. Pra nos lembrar da situação encurralada dos índios no Brasil, pro constante tratamento diferente que negros recebem na nossa sociedade, etc. etc. São feriados criados para tentar preservar a memória da população e para causar reflexão sobre alguns temas. Essa reflexão, por sua vez, teria mais dificuldade de ser internalizada se não fosse revisitada todos os anos – porque envolve as dificuldades ou a tragédia de um grupo ou indivíduo que de alguma forma represente uma minoria na sociedade.

Vale lembrar que quando falamos em minoria, não estamos falando de números absolutos. Afinal, os negros e pardos são mais numerosos no Brasil, assim como (se não me engano) temos mais mulheres do que homens. Essa disparidade que permite que chamemos grupos como negros e mulheres de minorias está relacionada ao seu alcance político, econômico e social.

Não existe motivo para que separemos datas no nosso ano já bem apertado para os segmentos que já tem seus interesses representados em 95% dos telejornais. Não existe motivo racional para um dia da consciência heterossexual simplesmente porque todas as instituições possíveis e imagináveis pensam primeiro no hetero. Ele é maioria. Ele tem todos os dias do ano já de começo.

Aqui eu vou inserir um pequeno causo. A certa altura do meu intercâmbio eu comprei uma bandeira do Brasil e deixei no meu quarto. Contei o caso animada, e uma espanhola me contou sobre como eles tem pouco ou nenhum apego à bandeira da Espanha, pelo que aconteceu durante a era Franco e também porque não existia, na opinião dela, uma identidade nacional espanhola. O mesmo valia para o hino. Um inglês me disse que eles tinham sérios problemas pra se afirmarem como nação, não porque não tivessem um sentimento de unidade, mas porque muitos achavam difícil se orgulhar de um país que massacrou e dominou tantos outros povos no desespero cego de continuar sendo uma hegemonia. Quando tanta gente foi assassinada sob uma determinada bandeira, fica difícil ter orgulho dela.

Agora vamos transferir esse raciocínio do inglês. Digamos que você olhe no espelho e diga pra si mesmo: eu sou branco/a. Sinceramente, que tipo de pensamentos vêm à sua cabeça? Vou aqui fazer um brainstorm pessoal, já que pros nossos padrões, eu tenho pele branca (lembrando que essas tonalidades são relativas dependendo do lugar).

Quando penso que sou branca, imediatamente me lembro que o mundo me trata melhor do que muita gente. Claro que isso faz a minha vida boa, mas como pensar que sou tratada “melhor” sem me lembrar de que existe alguém na outra ponta dessa comparação? Como sentir orgulho de ser branca sendo que pessoas com a mesma identidade racial minha durante milênios escravizaram e assassinaram pessoas que tinham outras opções de vida? A atitude dos brancos através da história com outras etnias pra mim é resumível na carta de Pero Vaz de Caminha. Ele fala algo parecido com “mas acredito que os selvagens sejam dóceis e completamente vazios. Não parecem ter nenhum conhecimento de deus e nenhuma cultura. Não teremos problemas para catequisá-los.” Os brancos sempre partiram do pressuposto que, porque outras etnias não tinham a mesma cultura, isso era sinal de que não tinham nenhuma.

Isso sem nem mencionar o evento histórico mais citado da vida: o nazismo. Como ter orgulho de ser branco? Não dá. No máximo a gente consegue concluir que não teve nenhum poder de escolha sobre o fato de ter nascido branco.

Assim como ninguém escolhe nascer negro, gay, mulher, índio, pobre… Mas mesmo sem ninguém ter feito nenhuma escolha, o branco tem inúmeras vantagens procurando emprego, tendo acesso à educação, só pra não dar exemplos demais.

Fica a lição de casa. É só dizer em voz alta: “eu sou heterossexual”. O que te passa pela cabeça?

Hoje em dia, eu sinto vergonha.

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7 opiniões sobre “A Vergonha Hetero

  1. Muito bom, Amanda! E é necessário um post didático pq tem muito imbecil por ai que fica vomitando “orgulho hétero” sem ter a mínima noção do que está implícito nisso. Falando asneiras do tipo “se eles tem orgulho de serem gays, pq eu não posso ter orgulho de ser hétero?” Simples, sua mula, pq vc sempre fez parte de uma maioria privilegiada. AFFE. Excelente texto. Eu não tenho paciência pra explicar. Prefiro oferecer um belo fardo de capim.

  2. eu concordo com tudo que você disse, Amanda. Apenas acho que a questão do orgulho gay tem menos a ver com ter orgulho no sentido literal do termo e mais com ter orgulho de, sei lá, por exemplo, resistir. quem é chamado de bichinha ou maria homem a vida inteira, leva lampadada na rua e é escurraçado de mil formas tem orgulho sobre todas essas coisas. o orgulho hétero, colocado como uma contrapartida, é essa besteira toda que você falou, sim e, exatamente por isso, é ilógico. mas não acho que seu contrário, pelo menos prá mim, seja a vergonha. eu não tenho vergonha de ser hétero porque os heterossexuais estereotipados não me representam. nenhuma opção sexual, inclusive, ou cor de pele me representa. portanto não é isso que me dá orgulho ou vergonha de ser eu mesma. eu tenho orgulho de mim quando consigo as coisas que quero e tenho vergonha de mim quando acordo de ressaca moral. mas, quanto a me relacionar com homens ou mulheres, isso não me suscita nenhum sentimento. (muito provavelmente porque as minhas orientações nunca me fizeram alvo de preconceito, como é o caso do ser branca. mas,sobre isso, só posso falar do meu local de discurso, afinal.)

  3. Concordo com o que disseram ai em cima, acho que orgulho ou vergonha estão ambos equivocados. Não faz sentido se orgulhar ou se envergonhar por algo que você é sem que possa escolher, e isso inclui raça, nacionalidade, sexualidade, etc. Já que você é assim e não pode mudar, deve se aceitar e no máximo tentar se distanciar dos estereótipos.

    Acho que o orgulho ou vergonha só se justifica para as coisas que podemos escolher. Assim, faz mais sentido sentir orgulho por ser corinthiano do que gay ou hétero. Na verdade, se eu fosse cristão moderado estaria sentindo imensa vergonha por causa das aberrações feitas pelos “irmãos de fé” nesses ultimos tempos.

    Agora, isso não quer dizer que desaprovo o dia do índio, negro, homossexual ou mulher. São minorias e ações afirmativas são bem-vindas, é um bom jeito de incentivar o debate (tudo pode começar com um “Ei, você viu que hoje é dia do índio?”) e assim ajudar a combater os preconceitos. Por isso que não faz sentido a maioria querer realizar ações afirmativas, por isso que sempre me irrito quando alguém vem com papo mole e manjado reclamando por exemplo de um negro poder usar uma camisa “100% negro” mas um branco não poder usar uma “100% branco”. Mas claro, a camisa do negro passa a mensagem que ele não é menos gente do que os outros e que merece respeito. E qual seria a mensagem da do branco?

    Mas enfim, nesse caso do Dia do Orgulho Hétero não me senti diretamente atingido e envergonhado por ser hétero, mas sim por ser paulistano. Tudo bem que vai parecer esquizofrenia dizer sentir vergonha disso quando afirmei poucas linhas acima que isso não faz sentido. Mas CLARO, onde mais nesse país uma lei dessa poderia ser cogitada e aprovada senão no farol do Bible Belt nacional?!

  4. Eu sinto vergonha pelo que os héteros fizeram durante anos com os homossexuais? Vocês não? Quer dizer, durante séculos os gays foram presos, torturados, privados da sociedade simplesmente por serem gays. E quem fez isso? Os héteros. Isso dá vergonha sim. Vergonha social, cultural… Não quer dizer que você esta questionando a sua sexualidade e se envergonhando dela e sim que você está reconhecendo uma injustiça cultura decorrente dela. Nada disso tem a ver com o nível pessoal e sim com o social.

  5. Pingback: Um pouco de sensatez não faz mal a ninguém « Coisas que eu postaria no feice

    • o texto parece, digo, “parece” ser bom, mas vejamos que existem contradições ao seu largo exemplificar…dá pra se perceber claramente que a pessoa se não é homo, no mínimo é bisexual, se não é atéia, no mínimo tem alguma religião enraizada em culturas que não do Cristianismo e sim de culturas orientais que trazem consigo o ônus de “viva…viva…viva…você vive…então viva e cultue algo…assim chegará ao pleno explendor espiritual da vida…(nada mais que isso)…

      Se sou branco, hétero, trabalhador e respeito as outras etnias e classes, porque sentir vergonha, porque me ajoelhar por coisas que não fiz, poque aceitar que a cada dia uma classe de “minorias”, como a própria disse, que não são minorias, me joguem pro resto da vida que não presto e que já fui assim, sem o ter o sido….estão se esquecendo que o perdão é pra ser utilizado e não lembrado tal fato como forma de nova culpa, pois se já fomos perdoados (não eu, mais meus ancestrais), porque sempre deveremos ser cobrados novamente…

      tenho colegas de trabalho gays, negros, brancos e outros, porém, trato a todos com a mesma atenção que trataria a um irmão meu (de sangue), sou hétero, filho de negro com branco, mas com pele branca e alguns traços negros e também de indígena por parte de uma avó….vou entrar em qual classe então…espero ser reconhecido pelo que faço, pelo que sou, pelo que serei e não pelo que as pessoas achem ou pensem de mim….em qual cota eu teria que entrar em “madamezinha” de blog??” me parece que cultua aqui a vida fácil, nada mais que isso, e quanto a questão da sexualidade, mesmo respeitanto, como “Cristão” de verdade, tenho a dizer que Cristo não ama o pecado mas ama o “pecador”, e ele sempre quis e veio a esse mundo pra mudá-lo, pra ensiná-lo e não pra aceitar o pecado que nele existe, tanto é, que morreu crucificado por não concordar com a maioria …pense bem…..(a maioria)

      • Lobys,
        eu aceitei seu comentário. Mas não creio que mereça resposta, pelo menos não de mim, pela lição de moral triste e pela tentativa patética de supor coisas sobre a minha vida. Por favor, aprenda a diferença entre texto e autor.

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