Sobre estar de volta

OK, finalmente! Vou escrever sobre o retorno ao Brasil! Mais esperado que esse post, só a crítica dos dois últimos filmes de Harry Potter. Mas cada coisa a seu tempo. Este domingo já foi de grande conquistas pra mim, visto que limpei meu quarto. Então, baby steps.

É mais confortável dizer isso agora, porque as pessoas da minha rotina já se acostumaram a me ter por perto de novo, e eu não respondo mais àquelas perguntas incessantes e às vezes inocentemente vagas do tipo “e aí…” pausa dramática, em que a pessoa tenta pensar em algo interessante pra perguntar, logo desistindo, “como foi lá?” Com variações aproximadas de “aproveitou bem?”, “viajou bastante?”, “tá triste de ter voltado?”

Quase todas se chocam quando eu respondo não! Minha amiga Cinthia sempre dizia que quando eu voltasse pro Brasil ia me arrepender de ter voltado tão cedo, quando eu podia ficar só trabalhando e fazendo coisas que eu queria por quase que mais um mês inteiro. Na verdade, adiantar meu retorno pro Brasil está no meu ranking de cinco melhores escolhas que eu já fiz na vida. Tá, eu sei que é meio doente, mas eu tenho um ranking de cinco melhores escolhas. É que eu me considero boa em tomar decisões de forma geral.

Eu me lembro dos dois grandes eventos antes de eu ir embora, assistir ao musical do Fantasma da Ópera e ir ao show do Belle and Sebastian, onde fiquei na grade. Me lembro da sensação de ouvir Fox in the Snow cantada ao vivo, enquanto eu pensava em tudo que tinha me acontecido naquele último ano. Houve momentos tão difíceis, tão difíceis, em que eu fui enganada, em que caí em esquemas que quase me causaram complicações com a polícia, horas em que me senti sozinha como nunca antes, e enquanto eu estava ali, a dois dias dos meus amigos e desse calor senegalês, eu me senti a pessoa mais sortuda e mais vitoriosa sobre o planeta.

No dia primeiro de junho, dia do meu voo, eu recebi um tipo de festa surpresa de despedida: vários amigos meus, Noella, Sharmila, Ben, Mercy, Cinthia, Maria, Gil, etc etc etc vieram ao meu quarto com refrigerante e cheesecake. A Cinthia riu de mim quando eu falei mais tarde, “e não é que eles gostam de mim? Sempre achei que tinha só você!” Gil, o português, e Cinthia, a brasileira, resolveram me acompanhar em um trajeto bem lusófono até a King’s Cross Station (fãs de Harry Potter, que tal a referência, huh?), onde eu pegaria a Piccaddilly Line até o Aeroporto de Heathrow. Pegamos o trem em Denmark Hill com a minha vida em malas. Cinthia dizendo que não ia chorar, e se fosse ela estaria em bugalhos. Lembro de conseguir ver o Big Ben uma última vez, pouco antes de chegar em Blackfriars (que AINDA está em obras, ao contrário dos planos). Eles me ajudaram a carregar minhas malas até o lugar de passar o oyster.

Lá de repente me bateu a realização de que eu ia perder aqueles amigos. A chance de rever a Cinthia é longe, né, ela está ali em São Paulo, mas quando vou rever o Gil? A Mercy? A Noella? O Ben, meu primeiro amigo em Londres? Sem a cidade eu conseguia ficar. Mas saber que dificilmente vou ver essas pessoas de novo pelo resto da minha vida realmente me derrubou. Me despedi dos dois chorando feito criança e bati meu oyster na maquininha. A cancela se abriu e lá estava eu, com meu peso em malas, e sozinha mais uma vez.

A idéia de pegar o metrô em King’s Cross foi genial, mas demorada. Fiquei muito tempo no aeroporto. Lembro que minha última compra em libras foi no Caffè Nero, minha cafeteria favorita (suck it, Starbucks!), um regular mochaccino e um sanduíche de queijo. Quando me sentei na poltrona minúscula do avião, as pessoas já estavam falando português à minha volta. Era quase como se eu já tivesse voltado. Quando o avião começou a se movimentar, não teve jeito, caí no choro de novo. Só conseguia pensar nos meus pais e mal conseguia acreditar que ia ver a Melissa, o Cléber e a Aline, logo no dia seguinte. Fiquei imaginando o momento em que eu sairia em Confins e acabei tentando ver filmes pra me acalmar.

Depois de uma longa e confusa conexão em São Paulo, na qual consegui gritar um oi maluco pra Nádia, que miraculosamente voltou pro Brasil da França no mesmo dia, eu entrei em outro avião com destino a Belo Horizonte. E, adivinha? Outro banho de lágrimas! Quando o avião começou a circular a cidade. Tudo foi se abaixando, ficando próximo. Lá estava a Lagoa da Pampulha. A estrada pra Confins.

Na verdade eu tive muito tempo pra me acalmar, porque demorei uma eternidade pra pegar minhas malas (e o medo de terem perdido alguma coisa? Fui uma das últimas! Passei na imigração muuuito devagar e acabei assim atrasando mais de meia hora. E lá estava o momento mágico: foi quando eu emergi no desembarque internacional e ali estavam Cléber, sua senhora Lígia e Aline. Esperando por mim com pão de queijo na mão!

Desde então, foi só alegria. A Melissa chegou, atrasada, e nós tivemos um abraço cinematográfico, que foi inclusive filmado. Eu postaria aqui, se não tivesse acabado de descobrir que o wordpress agora quer cobrar pra upar vídeos. My ass.

(se eu tiver saco, upo no youtube e linko aqui.)

Enfim. Todos os meus problemas se resolveram em sucessão rápida. Meus amigos me encontraram no bar, eu arrumei uma quantidade de empregos tão louca que precisei abandonar algumas matérias, comecei a fazer monografia e a lidar com outro prospecto assustador: a formatura, que deve ser no meio do ano que vem.

Foi tudo tão maluco, e como minha rotina aqui no Brasil é bastante intensa, eu tenho muito pouco tempo pro meu blog. Não que falte assunto, como eu já mencionei anteriormente. Mas acho que antes de prosseguir e falar sobre a greve dos professores estaduais em minas, sobre certos posts que fiz em outros blogs, sobre minha recente e assustadora entrada no mercado de trabalho – chega de viver de bolsa acadêmica…? – acho que preciso dar um fechamento nesse processo todo.

Honestamente, não sinto saudades de Londres. Sinto saudade de algumas pessoas que conheci lá. Sinto saudade, digamos, do transporte público e dos preços das roupas. Mas nada paga pela vida que eu levo aqui, cheia de amigos, estudando o que eu gosto, com trabalhos dignos, estimulantes e com muita cerveja de 600 nos copos lagoinha.

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2 opiniões sobre “Sobre estar de volta

  1. Putz, 3 anos depois, mas acho que ainda vale um comentário né? Só queria dizer que foi um privilégio poder acompanhar essa sua aventura quase desde o começo. Obrigado e boa sorte nas batalhas daqui pra frente. Bom, pra quem enfrentou tantos perregues numa cidade estrangeira, passar pela formatura vai ser fichinha, pode ter certeza.

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