Carta aos pedreiros-espírito de porco

Não pra todos os pedreiros que erguem casas e prédios. Mas pra todos aqueles pedreiros, às vezes almas torturadas escondidas dentro de um playboy bombado, que insistem em falar gracinhas no meio da rua pra qualquer pessoa portadora de vagina. Pra quem foi ensinado desde pequeno que a mulher gosta de ouvir “elogios” de estranhos. Pra quem acha bonito gritar coisas pra uma mulher de dentro de um carro.

Quando eu estava voltando pra BH com meu pai há duas semanas, eu perguntei pra ele o que ele achava desses homens que gritam na rua quando uma mulher está passando sozinha, ou que chamam uma desavisada de gostosa, não importa a idade, não importa o real fator gostosura, não importa nada. Bem, ele me respondeu: “quem faz isso não é homem, é moleque”.

Vamos pegar essa máxima de sabedoria do meu pai e aplicar na vida real. Eu comecei a ouvir essas “gracinhas” na rua desde os doze anos. Hoje quando me lembro disso confesso que me assusta ainda mais. Com doze anos eu mal tinha começado a me desenvolver. Ainda não tinha seios, ainda não tinha nada. Era uma criança. Hoje, quando eu dou aula pra uma menina de doze anos, percebo como elas são pequenas. Vou repetir, são crianças. Agora, imagine que já faz um bom tempo que crianças são chamadas indiscriminadamente de “gostosa”, “princesa”, “ah lá em casa”, etc. Você pede pra sua filha comprar um pão ali a dois quarteirões de distância e isso acontece. Eu queria dizer que é exagero, mas é real e eu sou só um exemplo disso.

Bem, estou prestes a completar 23 anos, então veja bem, já são mais de dez anos disso. Já faz mais de dez anos que, não importa aonde eu vá e o que eu esteja vestindo, se eu estiver na rua e for passar pela mesma calçada onde um homem – geralmente mais velho – estiver, vou ter que ouvir julgamentos gratuitos sobre a minha aparência e sobre como eu provavelmente sou na cama. Ouvi isso por sete anos inteiros antes mesmo de perder a virgindade. Muitas mulheres podem te contar uma história parecida.

Acho que ninguém ainda acredita sinceramente no mito de que as mulheres gostam desse tipo de tratamento. Eu nunca conheci nenhuma. E também não tem efeito nenhum sobre a auto estima. Se você está indo pra casa à noite depois de um bar, vai pro ponto de ônibus e os carros começam a passar, buzinando e gritando – repito, não importa a roupa – a sensação não é “nossa, como eu sou gostosa”. É de medo. Como é que eu não sei que aqueles palhaços não vão fazer alguma coisa comigo? Afinal, eu estou ali, completamente indefesa, não é?

Não quero falar dos mesmos fatores que a Lola falou no post dela sobre esse hábito horrível do espírito de porco pedreiro style, mas sobre como agir nesse tipo de situação. A atitude da mulher quase 100% das vezes é ignorar. E é isso mesmo que meu pai me disse que eu deveria fazer nessas situações. Mas veja bem. Já faz dez anos que eu faço isso. E não parou. Nem vai parar. Isso de “se dar ao respeito” não tem nada a ver com ficar em silêncio.

Oras, caros pedreiros-espírito de porco, se eu ficar calada todas as vezes que vocês gratuitamente avaliarem a minha aparência, como vocês vão saber que não só eu, mas ninguém aprecia o seu julgamento? Como o meu silêncio vai ser mais eficaz do que toda uma vida ouvindo que a gente gosta disso?

Pois bem. Como eu não posso e nem quero sempre parar para dar uma aula sobre direitos humanos pra todo pedreiro-espírito de porco que encontro – ou que me encontra, né – e como não recebo pra dar uma lição tão detalhada quanto as lições de inglês que dou diariamente, mantenho um tratamento de choque: mandar tomar no cu. Seja falando, seja com gesto. Algumas vezes, senhores pedreiros-espírito de porco, vocês me chamam de mal-educada. Ora, respondo às vezes (só quando tenho paciência), eu preciso de educação? Sou eu que estou incomodando gente na rua que só está passando? Bem, então acho que só respondi à sua má educação com má educação, não? Se você tivesse me deixado passar em paz e em segurança, todo mundo estaria feliz.

Então, veja bem, ninguém gosta disso. Você não afirma sua macheza me chamando, ou qualquer outra, de gostosa. Você só prova que tem dois neurônios com dificuldades de comunicação entre si. Seus colegas não vão te achar viado se você me deixar em paz. Afinal de contas, você não está trabalhando? Vê se eu fico chamando aluno meu de gostoso. Por que eu deveria ser demitida por justa causa caso faça isso e você toma uns tapinhas nas costas dos seus colegas?  Essa história está mal contada, não acha? Pois é.

O pacto que fica: você me respeita, eu te respeito. Falou?

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5 opiniões sobre “Carta aos pedreiros-espírito de porco

  1. Lembrei dos lixeiros aquele dia que a gente tava de carro…

    Ow, esse é o tipo de coisa que me deixa super estressada. E eu aguento isso toda quarta-feira, que é o dia em que o horário de lanche de uns caras de uma madereira coincide com o horário em que estou a caminho do trabalho. Só posso dizer que é uma situação humilhante e que várias vezes fui mais cedo pro trabalho para evitar ter 10 caras falando da minha bunda.

    Agora eu pergunto: cadê o meu direito de ir e vir?

  2. Isso é só uma brincadeira, eu como homem já estava caminhando na lagoa quando um carro cheio de mulheres pararam do meu lado e mexeram comigo: “Nossa seu gostoso.”

    Eu só ri e entrei na brincadeira: “Vocês nem provaram pra saber!!!”.

    Ninguém fala gostosa de verdade, é só uma brincadeira e deve ser tratada como. fikdik

    • Thomas,

      eu gostaria muito que você tivesse razão. Infelizmente, como todo o texto argumenta, esses desrespeitos constantes no meio da rua não são só uma brincadeira. Não eram quando eu tinha doze anos, não é agora. Quando as mulheres mexem com você, o ambiente é bastante diferente. Que homem espera que as mulheres desçam do carro pra bater nele? Que homem tem medo de carros cheios de mulheres quando ele está andando na rua de madrugada? Pois é. Todas as mulheres sentem isso. É por isso que “mulher não pode andar na rua sozinha à noite”. “É mais perigoso pra mulher lá fora a essa hora”. Às vezes pode ser brincadeira. Mas nem sempre é, e não tem como a mulher saber. Quem vai pagar pra ver? Sempre que eu respondo, como me orgulho de responder, amigas minhas me dizem: “você não tem medo de ele voltar e te bater?”, sempre.

      Você está tentando tratar como iguais duas situações que não são iguais.
      fikdik.

  3. Nossa, com vocês falando assim esse tipo de coisa parece ser muito mais comum do que eu podia supor. Eu mesmo presenciei situações desse tipo raríssimas vezes na vida, no máximo gritarias random em carros entupidos de machos. Mas talvez seja porque eu costumo escolher bem com quem convivo hehe.

    É complicado, mulher andando sozinha tem que tomar cuidado porque é mais visada para assaltos e etc. Mas eu concordo em partes com o que o inventor da lâmpada disse ai, se é que ele quis dizer isso, como diz o ditado “cão que ladra não morde”, ou seja, se o cara ou grupo tiverem falando alto sobre uma mulher e etc, as chances de que façam algo violento é menor do que se só estivessem parados e observando. Tipo, se eu to andando sozinho à noite e vejo um grupo de pessoas vindo em minha direção, vou me sentir mais seguro se tiverem tagarelando qualquer coisa do que se tiverem olhando em minha direção e calados. Mas por via das dúvidas o melhor seria tentar se afastar de qualquer jeito.

    Mas essa discussão toda me lembrou de outra coisa que esses “pedreiros” costumam fazem e sempre me incomodou. É o seguinte, o cara ta andando, vem uma mulher da direção oposta, enquanto eles estão de frente ele olha pro céu, pro relógio, pra tudo. A partir do momento que eles se cruzam, o cara precisa virar e dar uma checada na bunda da vítima, mas bem rápido porque logo à frente vem outra e o show tem que continuar. Ok, sou homem e concordo que dependendo do caso uma virada é justa, mas não entendo esses espécimes que tem que fazer isso para TODA mulher que passa, fica uma coisa ridícula, vira, vira, vira. As vezes penso que só precisaria o cara dar uma gusparada no chão a cada virada pra manter sua fama de machão onde estiver, o que muitos fazem aliás.

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