Jane Eyre

Esse livro me escravizou por um mês. Comecei a ler Jane Eyre, de Charlotte Brontë, porque estava fazendo uma matéria (frustrante) sobre literatura feminina em inglês. Acabou que eu comecei a ler o livro e não consegui mais largar. Quando eu disse à Melissa que estava lendo Jane Eyre, ela me contou que esse livro é aparentemente a grande obra feminista da época, e no começo eu não tinha essa impressão. Só o que eu sabia era que sempre que eu tinha tempo livre, eu lia. Sacudindo no ônibus, quando tinha tempo livre no trabalho, às vezes até lendo à luz de velas tarde da noite, bem dramaticamente.

Vamos aos spoilers: Jane Eyre nos é apresentada no começo como uma órfã vivendo de favor com a tia rica e seus três filhos mimados e patéticos. Ela sofre bullying na mão do filho mais velho até revidar, bater nele até ele correr no melhor estilo Draco Malfoy (“ela está me mataaaaando!”). Acusada de ser irrascível e violenta, Jane é mandada pra uma escola, longe dos parentes, onde ela tem um começo difícil e faz poucas amizades, entre elas Helen Burns, que acaba morrendo tristemente de febre tifóide numa epidemia que deixa Jane intacta. Helen é uma personagem importante porque ela é que vai iniciar Jane em idéias de religião. À beira da morte, ela não demonstra medo, mas diz a Jane que está em paz, porque vai conhecer seu criador muito em breve.

Depois da morte de Helen, a narradora em primeira pessoa que é ninguém menos que a própria Jane explica como ali seria necessário dar um pulo na narrativa, porque depois da morte da amiga tudo que se seguiu foi a adaptação dela à escola, junto da descoberta de desvio de fundos pelo pároco que era responsável pela contabilidade. Jane estuda até se tornar a primeira aluna, e se torna professora aos dezesseis. Continua trabalhando na escola até os 18, quando sua mentora se casa e ela percebe que está livre para fazer o que quiser com sua vida. Desejosa de uma existência mais interessante do que a de um colégio interno pra meninas, Jane põe um anúncio no jornal procurando uma família onde pudesse ser governanta.

Quem responde é a Sra. Fairfax. É bonito ver a empolgação de Jane com a vida nova, temendo que essa Sra. Fairfax fosse tão perversa quanto sua tia. Ela aceita a proposta, e ao chegar em Thornfield Hall, descobre que a Sra. Fairfax não é apenas muito simpática, como também não é a dona da coisa toda. Quem é dono é o (delicioso) Sr. Rochester, que sempre fica longe, mas precisava de alguém pra educar uma menina que ele tinha adotado, Adele.

Bem, quando finalmente Rochester aparece na propriedade, ele e Jane se apaixonam. Mas aí começa a quebra de paradigma. Quem já leu pelo menos uma Jane Austen aprendeu mais ou menos o padrão de comportamento das pessoas da Inglaterra do século XVIII, e meio que já espera que certas coisas aconteçam. Pois é. Jane salva Rochester de um incêndio, o naquele momento eu tive certeza que ele já estava apaixonado por ela! Mas por que, logo em seguida, ele desaparece e volta com um mundo de gente rica como hóspedes, e fica flertando com uma menina, descaradamente, sem sequer olhar pra Jane?

Veja bem, se eu como leitora fiquei incomodada, imagine a personagem. Aí é que a história começa a virar de forma muito incomum pra literatura da época: chega uma cigana que deseja ver a sorte dos hóspedes de Rochester, separadamente. Por último, ela pede pra ver Jane, e depois de fazer algumas perguntas a Jane muito acertadas, inclusive se ela não nutria qualquer sentimento especial por seu mestre, Jane fica confusa, treme e disfarça, quando a cigana desmonta a fantasia… E era Rochester o tempo todo! Em nenhum livro da época, ou mesmo antes, você vê um homem se dar a tal trabalho. E a coisa não pára por aí. Tudo continua dando a entender que Rochester vai se casar com uma moça chamada Ingram, ele até mesmo chega a perguntar a Jane o que ela acha de sua noiva. Tudo isso ferve na cabeça da personagem, que então só tem 18 ou 19 anos, até que ela explode, declara o seu amor por ele e afirma que assim que ele se casar, ela irá embora da casa e ainda pede que Adele seja colocada numa escola, porque Ingram trata a menina muito mal.

Rochester ri e simplesmente revela que ele planejou todos os rumores de casamento para provocar ciúme em Jane.

Quer dizer, OI? Numa cena maravilhosa, ele revela todo o plano que ele arquitetou pra ver Jane se afetar com ele tanto quanto ele era constantemente afetado por ela, e a pede em casamento. Depois do choque, é claro, ela aceita, e a gente fica se sentindo muito bem de finalmente ver as coisas dando certo pra Jane. Em seguida, ele tenta comprar jóias e vestidos pra ela, ao que Jane se recusa, dizendo que não só preferia continuar com seus vestidos, como depois do casamento ainda gostaria de trabalhar como governanta de Adele.

Se eu contar toda a história eu vou pirar de escrever aqui, mas pelo menos até esse pedaço eu acho importante contar, primeiro porque todos os livros da época sempre terminam no pedido de casamento, enquanto aqui nós continuamos acompanhando uma Jane muito teimosa, com um desejo de independência completamente novo para qualquer leitor desse período. Quando um impedimento fatal para o casamento aparece, ela é forte a um ponto que nem eu seria, nessa sociedade nossa que, ainda que seja muito machista, é melhor do que na Inglaterra do século XVIII. Jane vai embora sozinha de Thornfield Hall, vai pra longe com suas últimas moedas, passa fome, desconforto e frio, dorme ao relento, e é salva por uma pequena família, os Rivers, aos quais ela se nega a dar seu nome verdadeiro e apenas pede emprego e uma chance de se sustentar.

Eu sinceramente, no lugar da Jane, teria ignorado completamente os impedimentos para o casamento. Teria ouvido quando Rochester implora que ela ignore umas meras leis dos homens pelo amor deles, que era real. Não consegui acreditar na teimosia dela, mas quando é revelado que um tio de Jane, residente em Madeira que mal sabia que ela existia, tinha deixado todo o seu dinheiro pra ela, não tem como não se chocar com como as coisas se encaixam. Não só ela herda vinte mil libras, como ela descobre que aquela família que a acolheu é também a família dela, primos de primeiro grau!

Charlotte Brontë expõe todas essas reviravoltas com uma linguagem brilhante, linda, e comovente. É difícil não se apaixonar por Jane Eyre, especialmente pra mim, que sinto que tenho tanto em comum com ela. O desejo constante de aprender, a falta de vaidade, mas principalmente, o valor maior da vida sendo a independência. Quando ela finalmente volta pra Rochester, – e aqui eu estou ocultando alguns fatos vitais, então não pense que estou resumindo o livro todo – ela volta como uma mulher educada, com seu próprio dinheiro e sem a necessidade de ser amante de ninguém. Ela é um indivíduo e não uma mera extensão de seu marido.

Jane Eyre é um livro que inverte tudo, e mesmo assim é romântico, emocionante e cativante. Eu me lembro de carregar ele no ônibus, e quando não conseguia mais ler por causa da tremedeira, ficar olhando pra capa com cara de apaixonada. Esse livro sem dúvida é um dos melhores que eu já li e me fez pensar em muita coisa.

LOL

Também assisti o filme, por curiosidade lançado esse ano. Eu acho engraçado assistir filme inglês, porque eles parecem ter mais ou menos o mesmo número de atores da Globo, então são sempre os mesmos atores fazendo papéis parecidos ou similares. Por exemplo, a atriz principal, Mia Wasikowska é a atriz principal do remake de Alice no País das Maravilhas do Tim Burton (que eu acho só mais ou menos bom), a prima dela é a mesma atriz que faz a Georgiana em Orgulho e Preconceito, etc, etc. O filme é legal, como a maioria das adaptações dos livros daquela época, ele é só ilustrativo e perde a força se você não leu o livro. A cena do Rochester fantasiado de cigana não existe, e nem é relevado no filme que Jane é prima de primeiro grau dos Rivers. Mas a essência do casal é capturada, ainda que não haja modo possível de representar as longuíssimas conversas entre Jane e Rochester, que criam toda a tensão romântica e fazem a gente gostar tanto de Rochester, por ser também um par romântico tão diferente dos que compartilham o gênero literário com ele.

Próximo livro a ser lido: Duna!

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2 opiniões sobre “Jane Eyre

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