Ao Pé da Letras

Eu tenho poucos leitores regulares aqui, mas esses poucos sabem o quanto eu já me envolvi com movimento estudantil na UFMG. Desde que eu sou caloura, já participei de DCE, de eleição pra Congresso da UNE, de gestão de D.A., de comissão eleitoral pra eleição da diretoria da Letras, de representação estudantil na Câmara de Extensão da FALE e na Congregação. Ou seja, ao longo desses quatro anos de Letras, eu já mexi com bastante coisa.

Principalmente, eu sempre tive uma relação muito pessoal com o D.A. Em 2007, quando me mudei pra cá, naquela salinha laranja com tocador de vinil, eu encontrei amigos que até hoje fazem a minha vida em BH ótima. Lá eu encontrei apoio nos meus momentos mais difíceis. Quando me mudei, quando minha avó morreu, quando me vi sem um real pra ir pra Inglaterra. Por causa disso, sempre me mantive a par das gestões, participei de uma, a Gestão 42, 2007/2008, e mesmo que depois eu tenha perdido a eleição seguinte, nunca consegui deixar de me importar.

Por isso, depois de muitos acontecimentos lamentáveis no D.A. Letras desse ano, algo muito singular aconteceu: devido ao absurdo dos acontecimentos, pessoas com quem eu discordei não uma, mas várias vezes no passado, se juntaram comigo pra construir uma chapa que se preocupe primariamente com o D.A. e com a Letras, ao invés dos favores do seu partido, sem a prolixidade patética do que está lá no momento, e sem as risadas sarcásticas diante das críticas. Quanto você ocupa um cargo público – e a gestão de um simples D.A. se encaixa nessa categoria, você deve satisfações e deve respeito a quem te critica, porque você trabalha pra eles. Eu não quero gastar muito tempo falando da decepção que eu tive com a gestão atual, mas só vou deixar bem claro que ela foi suficiente pra que eu me juntasse com outras pessoas que se sentiram tão ultrajadas quanto eu na chapa que leva o nome desse post.

Nessa terça-feira, teremos dois debates, e eu vou estar lá pra responder a perguntas durante a manhã, mas à noite eu trabalho. Vou colocar aqui a carta-programa, e peço que vocês leiam com calma, me tragam perguntas na terça, e me ajudem a colocar uma chapa no D.A. que não recebe dinheiro de nenhum partido e que é feita de uma miscelânea de pessoas novas e antigas na FALE.

“Olá, estudante de Letras!
É chegada a hora de mais uma eleição para o Diretório Acadêmico Carlos Drummond de Andrade, o DA-Letras. Esse é um momento em que refletimos muito sobre nossa faculdade: qual modelo de educação nós defendemos? Quais problemas sentimos em nossa unidade e quais são seus motivos? Como devem nos representar aqueles que elegemos e o que eles devem defender? Como deve se organizar o movimento estudantil da Letras?
Nós somos uma chapa que defende um novo modelo para o DA: queremos construir uma relação Ao Pé da Letras – aproximar cada estudante na sala de aula, construir um DA com democracia, interesse pelo debate e respeito à diversidade. Somos estudantes de ambos os turnos e diversas habilitações, que achamos necessário ter um DA aberto e democrático para poder responder a todas as demandas que tanto sentimos na Letras.

Qual é a FALE que queremos? 

Estudamos em uma faculdade que é uma referência nacional, numa das maiores Universidades federais do país. Porém, sabemos que nem tudo são rosas na FALE. Todos temos muito orgulho de estar aqui e, por isso, achamos que temos que defender com unhas e dentes o nosso curso. Viemos de um processo de expansão que não veio acompanhado de investimentos adequados. Assim, nossos calouros se deparam com salas lotadas e todos nós vemos os professores sobrecarregados com muitos orientandos e disciplinas para lidar. A oferta de disciplinas se torna pobre e temos filas cada vez maiores para o acerto de matrícula… E nossa cantina, então? Para os alunos do noturno, a situação beira o insustentável: temos 10 minutos de intervalo para comer – tempo que passamos, normalmente, todo na fila. Os preços aumentam a cada semestre – o pão de queijo com café, que antes custava 1,20, teve um reajuste de 25%! Mas e nossas bolsas, foram reajustadas também? 
Ainda há problemas de estrutura como o nosso elevador, que data da década de 80, o CAD que deveria ter ficado pronto em 2009 ainda está em obras, nosso xerox, cujas filas constantemente nos fazem chegar atrasados na aula… Exemplos não faltam! Cada um de nós sabe bem o que passamos em cada habilitação, em cada sala. 
A Chapa Ao Pé da Letras defende um DA que aponte alternativas e soluções pra esses problemas. Temos que reivindicar mais contratação de professores, a presença de todas as habilitações para os dois turnos, um novo modelo de acerto de matrículas, uma nova grade que respeite a realidade dos estudantes que chegam à Letras… Mas que, principalmente, esteja presente no dia a dia de cada estudante para saber as demandas de cada habilitação. E é com um DA de todos que podemos nos organizar para poder conquistar as melhorias de que tanto precisamos em nossa faculdade.

Cultura e Lazer: o estudante quer seu espaço!
A Letras é famosa por sua pluralidade de ideias, produções e manifestações: temos músicos, poetas, artistas plásticos, esportistas, produtores culturais, editores… Cada vez mais, nossos colegas avançam em esforços de auto-organização para poder se manifestar na faculdade: temos saraus independentes puxados por estudantes, o Drummônios, nosso time de futebol, a proposta de algumas estudantes de conformar o time feminino, estudantes de graduação que organizam mesas de debates acadêmicos sozinhos… Achamos essas iniciativas essenciais; cada vez mais nosso espaço de expressão é tolhido na faculdade. Nossas festas foram proibidas, muito pouco fala-se sobre a produção literária de nossos alunos, o Drummônios se articula praticamente sozinho… A nossa chapa acha que essas iniciativas têm que ter todo o apoio político, financeiro ou organizacional do DA. Queremos que nosso Diretório Acadêmico ajude na construção de Saraus mensais na faculdade, acompanhe e apoie mais de perto o trabalho do Drummônios, impulsione a formação do time feminino… O estudante de Letras deve ocupar o espaço da faculdade para sua livre expressão e desenvolvimento, e achamos que o DA deve ser um grande ator nesse processo!

Damos um viva à diversidade na FALE!
Nossa faculdade foi palco, neste ano, de dois casos lamentáveis de agressão contra homossexuais: no primeiro semestre, numa festa promovida pelo DA-Letras, um casal de lésbicas foi alvo de insultos e agressões verbais por parte de uma pessoa que foi ao evento. Já no segundo semestre, um outro casal foi constrangido pela segurança da faculdade, a pedido da diretoria da Letras, por se beijarem em público dentro da FALE. Sabemos que casos de homofobia como esses acontecem o tempo todo.
Também sabemos que estudantes não raramente dentro e fora da Universidade são alvo de situações constrangedoras pelo simples fato de serem negros. O racismo, por mais que as elites e a mídia digam que está superado, ainda é sentido muito fortemente pelos negros do nosso país. Nosso curso reflete isso: apesar de haver uma lei federal determinando o ensino de literatura afro nas escolas de ensino fundamental e médio, nós, futuros professores, até hoje não temos disciplinas em nossa faculdade voltadas para a herança cultural do povo negro. 
Outra ideologia vastamente difundida na sociedade é o machismo. As mulheres são tratadas como objetos seja nos veículos de comunicação ou em situações bastante comuns nas universidades, como nos trotes machistas em que quase sempre estudantes são expostas a situações opressoras e humilhantes. O machismo se reproduz também na FALE: a nossa graduação é majoritariamente composta por mulheres, mas nossos professores são em sua maioria homens. Muitas de nossas alunas são mães e não têm uma assistência estudantil diferenciada que as permita conciliar seus estudos com a maternidade e por isso muitas abandonam o curso.
Precisamos de um DA que combata cotidianamente as opressões em nossa faculdade. Nós da chapa Ao Pé da Letras nos propomos a atuar no sentido de promover eventos e debates sobre os temas relativos às questões de gênero, raça e sexualidade. Apoiaremos iniciativas acadêmicas, culturais e políticas de combate ao preconceito e desenvolveremos campanhas em defesa dos direitos dos negros, mulheres e LGBTs.

A Educação no Brasil vai mal
Por que temos de estudar em salas lotadas? Por quer sofremos com falta de professores, ofertas de disciplinas ruins, um elevador que sempre estraga e um CAD que nunca fica pronto? A verdade é que falta investimento em nossa faculdade. Porém o problema não se restringe ao curso de Letras: todos sabemos que a educação no Brasil não é prioridade. Acompanhamos esse ano em nosso estado a heroica luta dos professores Estaduais em greve, reivindicando o simples cumprimento de uma lei nacional que determinava o piso salarial; greve esta que foi duramente reprimida pelo governador Anastasia, mas que, ainda assim, durou 112 dias, sendo a maior greve de professores da história de Minas. Mas por que não se investe em educação? Se olharmos os dados do orçamento da União de 2010, vemos que apenas 2,89% foram destinados à educação, enquanto 44,93% são destinados aos juros e amortização da dívida, além dos bilhões de reais de dinheiro público que são perdidos todos os anos em escândalos de corrupção. A Chapa Ao Pé da Letras acha necessário defender a educação como prioridade, e por isso escolhemos construir a campanha e o plebiscito nacional em defesa do investimento de 10% do PIB para a Educação Pública Já! A Educação não pode esperar!

Democracia e abertura para construir um novo DA Letras
Só é possível construir um movimento estudantil na Letras que represente e inclua os estudantes se tivermos democracia interna e abertura ao debate. 
Infelizmente, não foi o que vimos nesses últimos dois anos de gestão Travessia. Não podemos tomar as principais decisões em reuniões secretas e de portas fechadas. Não podemos decidir sozinhos para onde vai todo o dinheiro e não prestar contas aos estudantes! Para estar ao pé da Letras, nós defendemos:
– Que TODAS as reuniões sejam abertas e divulgadas, para que qualquer estudante possa participar e opinar no cotidiano do D.A.
– Gestão democrática e horizontal, na qual a divisão de cargos não determine nenhum poder maior. 
– Boletins periódicos (impressos ou virtuais) para criar um ambiente de comunicação e troca
– Conselho de representantes de cada habilitação, para fortalecer a representação estudantil
– Eleição aberta para nossos representantes nos órgãos colegiados para que qualquer um possa se candidatar e para que todos conheçam quem nos representa 
– Prestação de contas periódicas para que todo estudante saiba para onde vai o dinheiro
– Revisão do estatuto do D.A., por meio de uma assembleia estudantil. 

Enfim, somos uma chapa que defende abertura e democracia no nosso DA-Letras para conseguirmos as mudanças que defendemos e conquistarmos a FALE que queremos!

Estão ao Pé da Letras:
Aline Sobreira, Amanda Barbosa, Amanda Bruno, Amanda Pavani, Ana Beatriz Fonseca, Bruno Reis, Carolina Arantes, Cristiano Vieira, Daniela França Chagas, Daniel Dalsecco, Érico Colen, Fábio Castro, Francisco Danilo (Chicão), Franz Galvão, Gabriel Gil, Gabriel Prado, George Vallestero, Isadora Manna, Lais Alves, Lívia de Melo, Mara Silva, Mariah Mello, Melina Rocha, Moisés Borges, Paula Tamiris, Rayana Almeida, Rebeca Buarque, Ricardo Malagoli, Stela Ferreira, Tavos Mata Machado”

Essa é a versão mais recente. Uma mais afinada deve sair amanhã, ou antes dos debates de qualquer forma. Peço que vocês analisem nossas propostas, conversem com a gente e façam todas as perguntas que desejarem, e também que, por favor, divulguem pra todos os colegas letreros.

Eu disse que a chapa é apartidária, mas quero lembrar que nela tem pessoas pertencentes a partidos. Isso não significa que os interesses partidários serão em qualquer momento colocados acima dos interesses dos alunos da FALE e da UFMG em geral. Peço apoio e ajuda para que a representação dos alunos seja de fato representativa, o que quase nunca acontece, já que todo ano é o mesmo sofrimento para atingir o número mínimo de votos.

Não temos também a intenção de cortar quaisquer que sejam as práticas que foram acertadas da gestão atual, e não queremos animosidade. Só cuidar do D.A. e fazer com que ele volte a ser um lugar receptivo como já foi, sem puritanismo e sem julgamentos, aberto ao diálogo.

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