Comentário: Grey’s Anatomy

Grey’s Anatomy, vou resumir aqui, é uma história ruim.

Sendo assim, por que ela é tão viciante?

A minha hipótese, que vou tentar elaborar um pouco aqui, é de que ela se vale de um elemento fácil de conseguir identificação pra que a gente se transfira pros personagens. Feito isso, os responsáveis pelos roteiros colocam os personagens em todo tipo possível de carrossel de emoções, e nós nos deixamos ir, por causa daquele sentimento nostálgico de quando você começou a ver a primeira temporada.

Pra quem não sabe, Grey’s Anatomy é uma série médica, com um subtema que eu gosto de chamar de “putaria”. O nome tem a ver com a personagem principal, Meredith Grey, que termina o curso de medicina e vai fazer internato em um hospital de Seattle, onde sua mãe, também cirurgiã, trabalhou. Como essa mãe é uma lenda, os desafios iniciais se resumem a não fazer merda e não desgraçar o nome da mãe. O problema é que ela não é muito carismática. Ela é meio seca, e dura, e os primeiros episódios são meio desagradáveis porque nós observamos enquanto cada personagem que possui um pênis quer ela loucamente. Entretanto, desde o primeiro episódio ela tem um romance tórrido com um dos médicos atendentes, um neurocirurgião.  Ou seja, na primeira temporada já vemos pessoas se pegando em todo lugar do hospital.

Então você me pergunta, onde está aquele elemento de empatia? No fato de Meredith e outros quatro personagens estarem começando a carreira na medicina. Os outros personagens, a início todos muito mais interessantes do que ela, são George, Cristina, Izzie e Alex. Quando alguém se forma na medicina, é claro que as pessoas não são simplesmente jogadas numa sala de operação pra cortar gente, então eles tem três anos de internato antes de poderem chegar perto dos pacientes. Esse começo, o medo de falhar, e a alegria que a gente compartilha com os personagens, especialmente com o George, quando eles fazem algo certo, é realmente sensacional. No meio tempo, o romance vai ficando bagunçado. Na segunda temporada, quando aparece uma das minhas personagens favoritas, Addison Montgomery, você começa a se perguntar se não está na hora de parar de ver aquela pegação disfarçada de série médica. Mas aí aparece Denny Duquete, que cria toda a tensão da segunda temporada. Antes que você perceba, aqueles internos estão fazendo coisas muito loucas e eticamente questionáveis. Os cliffhangers às vezes são óbvios, mas mesmo assim você se percebe correndo pra baixar o próximo episódio.

Christina e Meredith

No começo da terceira você ainda está sem fôlego por causa do final da segunda. É quando o foco muda mais pra questão Cristina e Burke… Estou tentando não dar spoilers, mas comece a ver como a história começa a deixar de ser sobre a carreira médica deles, e sobre as estripulias de uma galerinha da pesada num hospital pra lá de maluco. O problema é que a essa altura do campeonato, já é difícil não querer saber se a Meredith e o Derek vão ficar juntos, se a Cristina vai se casar ou não, depois você fica torcendo pelo casório… Nessa série, você acaba interessado nos personagens, e acaba que o enredo é ruim, mas mesmo assim você assiste. É que o personagem te prendeu. A história é péssima, mas aquele personagem te tem nas mãos. No caso de Grey’s Anatomy, vários personagens te tem nas mãos. Eu particularmente sempre fui entusiasta da Bailey, da Addison e da Cristina. Quando mexiam com elas eram os momentos de maior vício. Você continua se perguntando por quê, afinal, a série leva o nome da Meredith…

A terceira temporada termina, com oh-meu-deus-drama-drama-drama. E a quarta, mais curta, tenta repuxar a simpatia original, porque aqueles médicos agora são residentes! Mandam em novos internos, sobem na cadeira alimentar, e começam a pôr a mão na massa. Além disso, agora os personagens já tem muita bagagem emocional, o que significa que o expectador tem uma idéia muito mais clara de como eles vão reagir a determinadas situações, o que transfere pra gente uma nítida sensação de que aquele personagem realmente existe, está ali no nosso dia a dia. Não num nível Goku de ser, eles não precisam que você erga as mãos para o céu nem nada, mas vocês entendem o que eu quero dizer.

Depois da quarta temporada as coisas melhoram. O enredo não fica mais criativo, mas os personagens já atingiram um nível bem avançado de profundidade… Alguns deles. Por isso o drama fica mais intenso, o que com certeza era a idéia inicial, mas o melhor de tudo é que eles podem ser vistos crescendo como seres humanos. Entre a quinta e a oitava temporada, temos casamentos (eu consigo pensar em uns 4…), filhos, perda de filhos, gente morando junto…

Sem dúvida a melhor season finale é a da sexta pra sétima, porque simplesmente você não enxerga uma forma daquelas coisas darem certo. A tensão é grande e eu gosto das atuações, especialmente da atriz da Meredith. Inclusive, a essa altura você gosta dela. Porque ela já cometeu muitos erros, e ela se torna mais humana, mas mesmo assim continua competente, e o número de homens interessados nela acaba caindo de  36458369456834 pra um. O contraste com o subtema “putaria” das primeiras temporadas se consolida como “relacionamentos”. Ou seja, gente tentando viver junto, lidando com família e trabalho, tendo filhos, tendo problemas sérios, e ocasionalmente sendo super heróis com os pacientes.

Só pra concluir esse comentário, eu sempre escolho um personagem favorito e pra mim é Miranda Bailey, sem dúvida. Ela começa como uma residente, chefe dos internos que estrelam a série. Durona, super competente, se faz ouvir, mas mais importante, não se mete em rolos sexuais pelo hospital. Ela é focada no trabalho, mas luta o tempo todo pra manter a sua família. E putz, ela é engraçadíssima.

Desculpa, mas só mais uma coisinha: o que foi aquele episódio HORROROSO, que parece que saiu do Glee, na sétima temporada, com todos os personagens cantando? A vergonha alheia foi tão grande que eu precisei pular, e olha que naquele episódio a Addison vinha de Los Angeles.

Vou deixar vocês com essa entrevista da Sandra Oh, que faz a Cristina:

E da Bailey:

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3 opiniões sobre “Comentário: Grey’s Anatomy

  1. Putz, OITO TEMPORADAS?????????????????

    Putz, achei demais pra mim. E com tanto drama…

    Mas tem umas séries que pegam a gente né? É ruim mas vc assiste assiste assiste… e fica pensando quando não está assistindo.

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