Cada um na sua ilha

Já faz um ano que eu não hesito quando me perguntam se os gringos são frios, e se os brasileiros são pessoas mais calorosas quando o assunto é interação social. Veja bem, eu não mudei de opinião; continuo achando que, a julgar pela minha experiência pessoal, o que vi dos gringos é que era muito, muito difícil, fazer com que alguém se abrisse.

E quando eu falo de uma pessoa se abrir estou sendo subjetiva de propósito, porque isso pode abranger muitos conceitos. Quando eu penso nisso, as primeiras coisas que me ocorrem são simples, até: você se abre quando conta alguma coisa significativa. Pode começar pequeno, como quando, em sala de aula, eu pergunto pros meus alunos qual o melhor ano da vida deles (sutilmente ensinando superlativos, HÁ!) e eles me respondem com coisas bem pessoais, como nascimento de um filho, decisão de se mudar pra algum lugar, etc etc. Isso já é algo que, por exemplo, eu não sei das pessoas com quem eu convivia.

Porém, abrir-se de verdade abrange muitas outras coisas. Quando as pessoas sentem-se confortáveis para contar sobre experiências ruins, por exemplo. Quando falam sobre como a infância ou a adolescência foram ruins, mas não como elas sofreram bullying, porque isso hoje já virou relato de guerra pra quem quer receber atenção. Não, hoje todo mundo é o primeiro a dizer que era super perseguido nos anos de escola. Agora isso é cool. Não… Estou falando de coisas chatas mesmo. Quando eu tinha catorze anos, eu tinha uma paixonite, platônica como todas as minhas até os 18, por um cara que era um ano mais velho. Ele não tinha nenhum interesse em mim. Nenhum. Não estou exagerando. A minha impopularidade e o mito generalisado de que eu era lésbica (lá venho eu com meus contos de sofrimento da escola! Não leve essa parte a sério.) não me ajudavam, mas nada disso é a chave da história. A chave da história é que eu um dia fiz o absurdo de calcular a que horas ele passaria por determinada esquina voltando da escola (sempre tive um talento stalker nato), e falei com ele que gostava dele. Claro que ele ficou quieto, querendo rir por dentro, enquanto eu dizia pra ele não se preocupar que eu sabia que ele não gostava de mim, mas que eu só queria dizer, ok, obrigada, beleza, a gente se vê.

Claro que no dia seguinte a sala dele estava rindo de mim às gargalhadas, mas além de você saber que eu era muito juninho, agora sabe que eu pratico suicídio emocional desde muito jovem.

Eu tenho um padrão de não esconder quando tenho interesse nas pessoas; tem muita gente que se diverte jogando joguinhos de ciúme e calculando o que é aceitável fazer; essas pessoas são mais bem sucedidas em suas relações pessoais, ouso dizer. Quando percebi que eu não tinha aprendido essa técnica muito útil, resolvi me assumir como uma pessoa interessada! E quem se assustar com meu interesse que se assuste.

Aí é que entra o assunto do qual eu estava falando antes: eu sempre falo sobre como é difícil fazer amizade de verdade com algum gringo, mas conhecer pessoas aqui em Belo Horizonte não tem sido exatamente fácil. Acho meio cansativo como qualquer movimentação sua é interpretada como interesse romântico ou sexual – o romântico, óbvio, assusta mais os outros – e como também eu de repente me percebi um tanto quanto impermeabilizada no meu círculo de amigos da recém-finita graduação. É muito confortável sair sempre com as mesmas pessoas, ou nem mesmo sair – cerveja no supermercado é mais barato! – dizendo a mim mesma que as únicas pessoas que eu preciso e quero conhecer, eu já conheço.

Bem, já faz um tempo que eu percebi que isso não é verdade. Nem um pouco! Mas eu poderia encher um outro post com os nomes dos caras com quem eu puxei assunto desde o começo desse ano – estamos em julho ainda, lembremo-nos – e que se assustaram pelo meu excesso de mensagens, conectividade, interesse, papo furado. Eu admito que mando mensagens demais. Adoro me comunicar! Isso não tenho nem argumento pra negar. O problema é que o meu interesse – nem sempre romântico, às vezes nem sexual – assusta muito os outros. Imagino que a minha impulsividade em me comunicar incomode e gere conclusões que nem sempre são verdadeiras. 

Pessoas aí do mundo, será que a gente já se machucou tanto assim? Será que a gente tem argumento pra sentir tanto medo? Claro que não descarto a grande possibilidade de que eu só seja desinteressante, e nesse caso, desconsidere toda essa reclamação num blog que ninguém acessa, mas será que a gente não está meio jovem pra achar que tudo sempre vai dar errado? Provavelmente vai dar errado sim. Mas será que já fomos tão pisados assim pra achar que não tem outro jeito de ser? Quero crer que estamos (porque eu também ajo, às vezes, com esse reflexo de me afastar de quem se mostra interessado em mim) jovens demais pra estarmos tão velhos por dentro.

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Mulheres em tradução de notícias

No mês passado, terminei a Letras. Falar isso parece inacreditável, especialmente se você viu meu post sobre o que sinto toda vez que penso em me formar, mas não é esse o assunto de hoje – especialmente porque antes da colação de grau, a gente meio que se sente mentindo falando que formou.

A minha monografia foi defendida no mês passado, e o tema dela, creio eu, vale pelo menos um post de blog, não é? Hahaha.

Basicamente, um dia eu encontrei uma notícia sobre a Casey Anthony na BBC, e depois vi sua tradução na BBC Brasil. O texto em inglês exibia uma parte dizendo “Anthony, wearing a pink button-down shirt and her hair tied back in a pony-tail, wept when the not guilty verdict was read”, enquanto a versão em português dizia “Ao ser inocentada das acusações de assassinato e abuso, Casey chorou.” Estranho, não? Vale lembrar que ambos artigos tinham uma imagem dela, com o look descrito, mas essa parte da frase simplesmente não aparecia no texto em português.

Isso gera inúmeras perguntas, não é? Será que notícias em inglês objetificam mais as mulheres? Será que a aparência delas é mais importante lá do que aqui? Será que o tradutor achou irrelevante? Será que isso não se faz? Como as notícias lidam com essas marcas de gênero em notícias?

Bem, isso gerou meu projeto de pesquisa. Feito isso, resolvi coletar amostras, formar o que a gente chama de corpus: textos de notícias, em inglês e traduzidos para o português brasileiro, para ver se esse tipo de coisa acontecia, ou se o par que eu tinha encontrado era apenas uma exceção. Como a monografia leva apenas um ano e o período para coletar os textos foi de apenas três meses, só consegui 22 pares de textos, e também porque é mais difícil do que parece achar notícias que tenham no seu centro de informação uma mulher, ou mulheres como coletividade.

Vale lembrar, antes de eu dizer o que encontrei, que tradução de notícias é uma coisa muito complicada no mercado de hoje. Não existe regulamentação para isso; muito frequentemente, quem traduz essas notícias são os próprios jornalistas, e o intervalo de tempo entre texto em inglês pra texto em português varia entre três horas e um dia. Por causa das infinitas variáveis que podem envolver a produção essas traduções, a gente só pode especular os motivos, mas mesmo assim temos resultados.

Vejam bem: esses 22 pares acabaram estabelecendo dois padrões muito curiosos. Uma parte deles, a maior parte (14) foram traduzidos de um jeito quase engraçado: frase a frase. Tipo assim:

Source text: “It’s bad,” Erin M. Carr-Jordan said, swab in hand, as she collected samples from a surface that she would later deliver to a lab for microbial testing.

Translated text: “Está ruim”, disse Erin M. Carr-Jordan, com um cotonete na mão, enquanto coletava amostras da superfície para entregar a um laboratório que realiza testes microbianos.

Meio esquisito, né? Dá pra ver que a pessoa simplesmente foi olhando, palavra por palavra, e digitando traduções. A maioria dessas traduções era meio esquisita de ler, porque tinha construções que deixavam bem claro que aquele texto tinha sido escrito em outra língua – idéia essa que a gente aprende a tentar evitar ao traduzir.

Porém, o que é mais interessante nem é isso: é que esse tipo de tradução era mais frequente em tipos específicos de notícias – o que chamam na área de hard news: política, economia e crime.

Por outro lado, ainda que menos ocorrente nos meus dados, houve um número de traduções que eu chamei, pra tentar não dar julgamento de valor, de tradução a nível textual. Aí que é fica o centro das bizarrices:

Source text: Tributes are coming in from around the world.
On Twitter, Tinchy Stryder said: “My thoughts go out to her family and friends. RIP Amy Winehouse.”
Katy B said: “So sad. Such an incredibly talented woman. R.I.P Amy such an inspiration, my heart hurts.”
Jessie J said: “The way tears are streaming down my face – such a loss – RIP Amy.”
Lily Allen, who rose to fame around the same time as Amy Winehouse said the death is “just beyond sad”.
She added: “There’s nothing else to say. She was such a lost soul, may she rest in peace.”

Translated text: O crítico de música do jornal Daily Telegraph se disse chocado pela morte da artista. “É o mais trágico desperdício de talento que consigo lembrar.”
Sua última aparição foi na noite de quarta-feira, quando se apresentou ao lado da cantora de soul Dionne Bromfield, na The Roundhouse, uma casa de shows em Camden.
Ela havia sido liberado havia pouco de um programa de reabilitação e estava sob regras severas para não beber.”

E sim, esse par é sobre a morte da Amy Winehouse. Eu peguei o final do artigo pra vocês verem que loucura. Os pares que foram traduzidos dessa forma até desafiam, na minha humilde opinião, o conceito de tradução; porém, aceitei como tradução esses textos porque apesar de diferirem loucamente em partes como essa, compartilhavam as informações centrais, como data, evento, horário, etc etc, sem mencionar o fator prático de que esses textos tinham grande proximidade cronológica com a publicação do artigo fonte.

O problema é: por onde começar? hahaha

A gente aprende na faculdade que a tradução a nível textual é ideal, porque considera fatores extratextuais: contexto, público alvo, possíveis diferenças culturais, adaptações, etc. Porém, (e no blog eu posso dar juízo de valor e que tudo se exploda), nas notícias a gente vê uma prática completamente irresponsável desse método de tradução. Frases e parágrafos muitas vezes foram omitidos, as informações trocadas de lugar, sem mencionar esse exemplo acima, que ilustra bem claramente o que acontece quando você traduz uma notícia de forma irresponsável: quando você lê o texto fonte, sabe que uma cantora muito talentosa foi encontrada morta, que não se sabe o motivo e que outros artistas estavam mandando mensagens de luto; ao passo que no texto brasileiro, Amy poderia perfeitamente ser mais uma celebridade decadente, que já não cantava ou mostrava talento há tempos – se você olha os artigos inteiros, a menção de seu Grammy é estrategicamente movida – , sem mencionar que provavelmente não passava de uma bêbada.

O problema das notícias é que elas não precisam dizer essas coisas explicitamente para que elas causem essa impressão nas pessoas. Na verdade, se elas dessem sua opinião de forma óbvia, a chance dos leitores chegarem às mesmas conclusões poderia até ser menor. Nos meus pares de textos, isso aconteceu várias vezes. Casey Anthony, a mulher que foi inocentada de matar a filha, em inglês foi liberada por “dúvida razoável”, ou falta de provas. Em português, a insistência em falar de sua vida de festas acaba dando a clara impressão de que, em português, Casey só se deu bem.

Idealmente, é claro, as notícias não deveriam nos passar essas opiniões, não é? Pois é, mas passam. O contraste facilita que isso seja visto. E existe muito mais gente do que gosto de admitir que lê as notícias sem questionar a escolha de assuntos ou o tratamento deles. E isso acontece todos os dias. Vemos a polícia invadindo comunidades, expulsando gente pobre das suas casas, funcionários em greve de diversas categorias, enquanto as grandes mídias apenas falam do trânsito, porque é isso que sociedade do deus Carro pagando estacionamento no deus Shopping quer ouvir.

Mas calma, não terminou: essas traduções foram mais frequentes com outro tipo de notícia, soft news, que compreende artes, vida dos famosos e estilo de vida.

Muitas outras perguntas surgem desse resultado. Existe hierarquia entre os tipos de notícias? Soft news não precisam tanto que as informações tenham a mesma ordem do texto fonte? Será que porque soft news são estereotipicamente femininos, elas importam menos e qualquer bricolagem resolve o problema? E por que hard news é consistentemente traduzida por uma versão cafeinada do google tradutor?

Infelizmente, os dados da minha monografia não são suficientes pra responder a essas perguntas, e se valeram pra alguma coisa, foi pra gerar mais perguntas ainda. Agora o que resta é criar um projeto de mestrado que olhe tudo isso mais a fundo.

No meio tempo, vocês deveriam ver esse documentário, MissRepresentation, que fala sobre a exploração da figura da mulher na mídia dos Estados Unidos. Vocês ficarão surpresos – e deprimidos – com o volume de informações dele.

Minha monografia foi escrita em inglês, porque me formei em inglês. Quem tiver interesse no pdf, é só falar comigo.