Diário de Férias #1

Eu me transformo em outra pessoa quando estou desconfortável. Desconfio que isso aconteça com todo mundo, mas comigo acontece de tal forma que eu não me reconheço, mas também me vejo incapaz de fazer qualquer coisa a respeito.

Por exemplo, toda vez que vou a um salão de beleza cortar o cabelo é a mesma coisa. Falo previamente com a minha mãe. Ela liga para o cabelereiro onde vou desde os treze, catorze anos, e quando eu chego lá, mal consigo mandar um ‘oi, tudo bem’, pras pessoas. E sei lá, normalmente eu sou descrita como uma pessoa difícil ou de opiniões fortes – o que é diferente de curtir um conflito, que eu detesto; mas no salão de beleza eu desapareço. Não sei o que é. Talvez o excesso ridículo de espelhos sob a pior iluminação possível, talvez a aparência das pessoas em volta de mim, porque apesar de ver na tv e até na vida real, mulheres com unha feita, cabelo alisado e tingido, sobrancelhas, maquiagem, salto alto… bem, é suficiente dizer que a coisa toda me assusta.

A moça vai lavar meu cabelo, pergunta se estou confortável no assento de lavagem, e apesar de estar horrível eu sempre digo que sim. Daí eu sou posta na cadeira do cara lá, que usa um reflexo loiro e espetado ridículo. Toda vez que olho praquilo penso se quero mesmo colocar meu cabelo na mão dele… Daí ele penteia o cabelo pingando com o pente fino e me pergunta o que eu quero e eu nunca consigo responder de primeira. Ele sempre franze a testa enquanto explico e acaba fazendo uma coisa que tem a ver só vagamente com minha idéia original.

Ou quando conheci os pais do meu namorado. Aí já é mais do que suficiente dizer que de puro nervosismo, pra mim é difícil me sentir confortável em qualquer lugar da casa; tudo que eles falam de brincadeira eu acho que é verdade, tudo me deixa na defensiva, mas eu fico lá parada, só matutando, super consciente dos pelos de gato na minha roupa e de como eu devia, sei lá, ter retocado o desodorante antes de sair de casa. Eu não consigo dar opiniões, e fico desesperadamente buscando reações nos rostos deles, ainda que pequenas, qualquer coisa que acuse a profunda reprovação que eles devem ter de mim. Eu sou paranóica sem ter motivo, estou plenamente ciente disso – mas sabe de uma coisa? Saber que se tem um problema não o resolve. Eu não sei quem inventou isso, mas é mentira.

Hoje eu fui andar pela cidade com a minha mãe e ela me levou a uma joalheria. A moça pedia minha opinião e, antes que eu pudesse me controlar, falei: “não sei, eu não me importo com jóias”. Não agressivamente, não em voz alta, bem baixinho e tentando ser educada, mas saiu. Depois me peguei comentando com minha mãe sobre como gosto de fazer compras online. E corrigi, acrescentando: mas roupas!, sendo que atrás de mim havia uma arara cheia de vestidos e várias prateleiras com esses sapatos ridículos que chamam de meia pata e só me fazem pensar em mulheres que por algum motivo pensam em vacas como símbolo de elegância. Minha falta de jeito não tem limites.

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