Comentário: The Perks of Being a Wallflower

Aviso: como todos os meus comentários, temos spoilers aqui.

 

“Why do I and the people I love always pick people who make us feel like we’re nothing?”

A pergunta de Sam, personagem da Emma Watson foi o que mais ressoou na minha cabeça. Não dá pra negar: por quê? Eu conheço e convivo com tantas pessoas cuja inteligência é imensurável, cujo talento é indiscutível, além da boa companhia de copo e de badtrips. E ainda assim, por que eu as vejo, todos os dias, andando com pessoas que as deixam pra baixo?

A resposta que o filme oferece é: “nós aceitamos o amor que acreditamos merecer”. Apesar de ter certa significação, eu acredito que a resposta seja sim muito simplista. O primeiro questionamento de The Perks of Being a Wallflower (2012) é esse: por que procuramos companhias que nos diminuem? Estamos apenas espelhando o pouco de pensamos de nós próprios? Estamos nivelando por baixo? Mas onde fica esse limite? Como saber se estou com alguém que me deixa pra baixo ou se realmente eu não conseguiria coisa melhor? É claro que no enredo adolescente e cheio de reviravoltas instigantes do filme fica bem claro como Sam namora um babaca. Quero dizer, que tipo de pessoa responde “Você escreve poesia?” com um floreio e “A poesia é que me escreve”? Não dá pra não virar os olhos nessa cena.

Outra coisa: pra quem é fã de John Green, é impossível ignorar como a história do filme (que é uma adaptação de um romance) é parecida demais com Looking for Alaska. Os ingredientes básicos estão todos lá: um personagem principal calado, sem habilidades sociais, com apego incomum por leitura, que são inseridos numa escola nova, com pouca ou nenhuma interferência da família. É claro que os problemas mentais de Charlie nem se comparam à falta de jeito de Miles, mas os dois se comportam de formas surpreendentemente semelhantes. Mas é claro que eu não vou cometer o erro clichê de acusar uma das duas histórias de plágio. Primeiro, porque nenhum deles inventou a idéia de um menino tímido e deslocado numa escola nova, especialmente nos últimos, digamos, vinte anos, em que filmes e livros vem retratando muito as vítimas de bullying, às vezes até romantizando tudo.

Além disso, a personagem de Emma Watson, com seu sotaque americano bem fingido, é uma Alaska mais rasa. Os traumas que Charlie tem no filme, Alaska tem no livro, até certo nível. Ela é o que alguns estudiosos chamam de estereótipo da “pixie girl”. O que é a Pixie girl? Bem, são personagens como Alaska, Sam, Kate Winslet em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, etc. Mulheres estranhas, quase mágicas, muito bonitas, muito traumatizadas, que iluminam a vida do personagem principal, mas que muitas vezes foram traumatizadas além do nível em que se pode ajudá-las. Como eu disse, Sam é uma pixie girl bem rasa, considerando suas colegas; ela apenas teve um passado de má reputação e pegação com o chefe do pai, e só precisa dar uma estudadinha pra outro SAT’s. É claro que ela é adorável, e simpática, e não tem como não torcer por ela. Como é o primeiro filme em que eu a vejo depois da série Harry Potter, eu diria que, do trio, ela é a única que tem chances de fazer uma carreira duradoura além de Hermione Granger. Desculpem, Dan e Rupert, mas é a verdade.

E finalmente, o meio irmão de Sam, Patrick, o equivalente ao Colonel no meu paralelo com Looking for Alaska. Aquele personagem masculino, amigo da pixie girl, que é o guia do personagem principal. Alguém imprevisível e divertido, com suas próprias dificuldades, mas com muito potencial. Patrick e Colonel precisam existir, porque senão nem o Perks nem Looking for Alaska iriam para frente – ambos provavelmente seriam histórias sobre meninos estudiosos tomando refrigerante na cara e se masturbando pra pixie girl no dormitório.

Previsivelmente, Charlie tem um começo difícil na escola, e sabemos desde o princípio que ele tem algum problema estranho, e que fica se lembrando de uma tal tia Helen que morreu em um acidente. Mas eis que encontramos aqui a grande reviravolta do filme – eu não imaginava nem em um milhão de anos. Nos últimos minutos de filme, Charlie tem um ataque muito tenso, em que ele quase se mata; as memórias que lhe passam pela cabeça revelam ao expectador que a tal tia não era apenas próxima do menino: ela abusava sexualmente dele. E quando ela morre em um acidente, ele tem crises de culpa, porque o acidente teria ocorrido quando ela ia buscar um presente para ele – e não só isso, ele confessa não saber se teria desejado a morte dela.

Em aspectos de cinema, não há nada de muito especial com a fotografia, ou com a música – além da boa escolha de Heroes para ambientar as cenas no túnel.

O filme é do tipo que faz você se sentir bem ao final, que te faz pensar e refletir sobre os anos de adolescência e sobre como eles são mesmo uma merda pra (quase) todo mundo. Eu com certeza recomendo. E também aconselho a tentar desligar o botão de comparações com Looking for Alaska, porque há de fato muitas semelhanças e isso pode diminuir a sua diversão.

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Comentário: The Hunger Games

Disclaimer: como na maioria dos meus comentários, este post terá vários spoilers. Então saiba que vou falar da história do primeiro livro e filme sem restrições.

É difícil achar algo que eu não goste em Hunger Games. Gosto do título, da protagonista, do estilo, do ritmo, da história, da adaptação para filme, das emoções, e as críticas mais comuns à série.

Em primeiro lugar, eu queria mencionar um dos principais argumentos dos anti-Hunger Games, que dizem que a série é apenas uma cópia de Battle Royale, um filme japonês de 2000 adaptado de um livro publicado em 1999.  Antes de mais nada, eu não sou ninguém pra descartar essa hipótese completamente, porém, honestamente, eu acho que dois autores tiveram duas idéias semelhantes que foram bem sucedidas. Pelo que o namorado (que precisou assistir Hunger Games quase amarrado) disse, Battle Royale tem muito mais porradaria – os jogos são mostrados com muito mais detalhes, ao passo que Hunger Games gasta mais da metade do seu tempo no cinema para mostrar a preparação de Katniss para a arena, além de todas as alegorias inconfundíveis com a história dos Estados Unidos.

Ah, Katniss. Ela é uma excelente personagem. Francamente, ela é um modelo de humanidade. Pra mim é até difícil falar dela, porque eu atingi um grau de identificação muito alto com a personagem: ela sustenta a família desde a morte precoce do pai, um trabalhor das minas do Distrito 12, o mais pobre de todos que servem à Capitol. Esta é o centro do governo e a grande responsável pela criação e manutenção dos Hunger Games por 73 anos.

Na 74a edição, Katniss enfrenta a possibilidade – ínfima – de que Primrose, sua irmãzinha, torna-se uma possível candidata a tributo do distrito 12, no jogo em que crianças e adolescentes devem lutar até a morte. Em entrevista, a autora alega que teve a idéia central da série enquanto mudava de canal entre um reality show e um documentário desses de animais caçando na selva.

Ainda me lembro de que quando comecei a ler, subestimei a minha impressão da história só por causa da narração em primeira pessoa. Lembro de pensar: “ai, mais uma narração derivada de Crepúsculo, com essa coisa adocicada e pseudo sofrida”… Mas bem, eu não poderia estar mais errada.

Tudo começa com o dia da colheita, em que se sorteiam as crianças a serem doadas por cada distrito para os Hunger Games. Pra mim é difícil não prender a respiração com a Katniss enquanto ela observa o nome de Prim ser retirado no sorteio. Por impulso, ela faz a única coisa ao seu alcance para proteger a irmã: ela se voluntaria para ir no lugar dela. Effie, a responsável pela cerimônia até mesmo comenta que Katniss era a primeira voluntária da história do distrito.

Ela é imersa num ambiente absurdo, de opulência e espetáculo, em que seu corpo é polido, esfregado e preparado pela exibições, entrevistas, medidas… Enfim, ela é explorada ao extremo, bem como Peeta (o tributo menino que é sorteado com ela), antes de ser enviada para os jogos.

Outra crítica comum à serie é que ela seria levemente homofóbica na sua caracterização da capital, porque as pessoas são descritas por usarem roupas coloridas, cabelos extravagantes, além de maquiagens e interferências corporais que lembram muito os conceitos tipicamente associados a gays; dessa forma, os “vilões”, por assim dizer, seriam associados de maneira subsconciente a gays.

Acho que essa crítica não é completamente errada, mas acho que o exagero físico da moda da capital não é apenas gay; acho pessoalmente que ela tem muito a ver com a norma hetero para mulheres; cabelos, pinturas e afins, além das imagens da adaptação fílmica que envolvem pai e mãe dando de presente ao filho uma espada, que começa a correr atrás da filha  que segura uma boneca.

Finalmente, outra crítica, a melhor fundamentada na minha opinião, é sobre como a moralidade, ou mesmo o senso de culpa de Katniss é flutuante. Antes dos jogos, ela demonstra desejo nulo de matar crianças inocentes, mas isso se faz necessário, não há hesitação. Vale a pena lembrar que seu primeiro assassinato é indireto – ela corta o galho de um ninho de jabberjays nos inimigos, que matam com o veneno – porém logo ela mata frente a frente, especialmente ao encontrar o corpo de sua aliada, Rue, na cena mais tocante do filme. Ela dispara a flecha contra o tributo do Distrito 1 que a matara e não pensa nele mais do que duas ou três vezes por todo o resto da série.

Sim, as lágrimas de desespero dela por Rue e por outros são verdadeiras e de partir o coração, mas ela não pensa nunca mais em Cato, ou em outros tributos que ela mata ou que observa morrer. A narrativa sugere que os traumas incomparáveis derivados da experiência a levariam a tentar bloquear ao máximo as memórias, mas é difícil negar que Katniss, por mais sensacional que seja, não sofre igualmente pelos personagens que mata.

Sou grande fã do filme lançado em março do ano passado; contudo, fico profundamente incomodada com os posteres que divulgaram o filme: quase todos mostram uma Katniss centralizada, com Peeta e Gale, seu melhor amigo, de cada lado, num eco evidente do primeiro poster de Crepúsculo, com aquela sombra de ego-personagem e seus pretendentes. Além disso dar a impressão errônea de que o filme é um romance e não uma aventura distópica, dá uma dor de cabeça ficar explicando que não existe uma tensão “ui, com quem ela vai ficar”, porque o tempo todo tem algo bem mais interessante acontecendo do que qualquer romance.

Esta série me surpreendeu demais. Fazia anos que eu não virava a noite inteira lendo um livro. Fazia anos que uma história não me tocava em níveis tão básicos e tão essenciais. A narradora de Susanne Collins me fez chorar desesperadamente, e em determinados momentos até me fez largar o livro de pura raiva com alguma reviravolta que eu não imaginava nem nos meus piores pesadelos. Ah, os pesadelos… Foram pelo menos duas semanas de pesados agitados em que eu estava nos Hunger Games tentando salvar a minha pele.

Não dá pra não recomendar.

Diário de Férias #3

Hoje eu estava vendo um programa da National Geographic sobre alterações corporais. Todo tipo de loucura: mulheres que injetam azeite no rosto pra ter uma pele mais bonita, mulheres que quebram as duas pernas pra tentar ganhar 3 centímetros de altura, anoréxicas, brasileiras com síndrome de dismorfia corporal que buscam aumentar os peitos desesperadamente.

Bem, pra mim esse assunto sempre foi um pouco coisa de outro planeta. Crescendo mulher, não é que ninguém me tenha exposto a maquiagem, dietas, cirurgias e etc, ou os ideais de beleza feminina que eu devo seguir. Contudo, até hoje eu tenho certa dificuldade em me maquiar sem imaginar um voice over de documentário na minha cabeça: “As fêmeas da tribo ocidental do início do séc. XXI costumavam pintar o rosto em um ritual de preparação para o acasalamento”. Nos momentos em que me sinto menos crítica, ao invés de comparar as nossas práticas com as de pavões ou macacos, penso em rituais sagrados indígenas, nos quais, pelo pouquíssimo que admito saber, as pessoas pintam o rosto para rituais sagrados, ou pra qualquer coisa mais significativa do que auto intoxicação via álcool.

Enfim, dá pra entender a idéia por trás da metáfora estereotípica. O ritual de beleza que nós seguimos poderia perfeitamente ser narrado com voice over. Um daqueles bem graves, com aquele peso de verdade absoluta.

E por causa dessa consciência, eu tento cotidianamente ignorar esses padrões que nos apresentam: essa magreza misturada com anos na academia; esse cabelo liso a proporções ridículas, que ninguém tem naturalmente; essas roupas desconfortáveis, essa constante observação, esse esforço diário que eu vejo em muitas colegas de gênero para se tornar algo agradável aos olhos.

Normalmente eu sinto pena. Não porque a natureza tenha me dado dons de beleza caralhística que fazem homens caírem aos meus pés por todos os lados. Eu tenho um zilhão de problemas com a minha aparência, um padrão feminino do qual não consigo escapar; porém, uma consciência me resta: se eu deixasse de comer tudo o que gosto, se alisasse meu cabelo, de o pintasse de loiro ou ruivo, se comprasse silicone ou se consertasse meu nariz, sei lá, eu não acho que me sentiria mais bonita. Acho que a sensação seria parecida com a de comprar um vestido novo.

Tem vezes que eu compro um vestido, e por milagre da vida, na primeira vez em que o visto, eu me sinto perfeita. O vestido pega nos lugares certos, me emagrece, ah, finalmente estão fazendo roupas pra gente de corpo esquisito que nem eu!, mas aí acordo, de ressaca, e na próxima saída em que ponho o vestido eu já começo a perceber como ele expõe as pelancas dos meus braços ou como ele me faz parecer um colchão amarrado.

Pra resumir: eu vou acabar achando outros defeitos que me deixarão igualmente chateada comigo.

Por causa disso tudo, eu sempre sinto como se essas meninas que dedicam tanto tempo à aparência fossem um pouco aliens. Quer dizer, toda aquela produção leva tempo, dinheiro e disposição. Será que vale o retorno que ele traz?, e pergunto isso na maior das inocências, porque sinceramente não sei. No final das contas, acaba que eu nunca alisei meu cabelo, e ele já cresceu todo de novo depois da última vez em que o colori, sigo comendo igual uma louca e tudo o mais, mas constantemente me pergunto se vale o esforço que vejo nas moças à minha volta. Quero dizer. Imagino que seja legal entrar numa loja de roupas e qualquer coisa ficar bem em você. Mas será que isso é mais legal que contra filé com fritas, queijo e bacon, regado a cerveja?

 

Diário de Férias #2

Estou sofrendo com a tentação de criar um diário de náufraga, porque não consigo passar tempo demais no interior. A verdade é que eu quase nunca venho pra cá, e sendo professora acabo podendo passar boa parte dos feriados de fim de ano aqui. Uma confissão: com mais de duas semanas vai ficando bem difícil.

Acordar, tomar café, ver friends, almoçar, ler, jogar minecraft, brincar com o Lucky, brincar com os gatos, alimentar todos eles, depois mais internet, depois mais friends, mais comida… Enfim.  É bem bom, mas tem uma hora que você se pega planejando aula mentalmente com cenas de seriados.

Pelo menos uma coisa boa aconteceu: a Rádio Rock voltou! Ela é grande responsável pela minha educação em rock da adolescência, e até hoje reconheço de leve muita coisa por causa das longas horas que eu passava com o rádio ligado.

Rádio foi uma parte bem grande da minha pré adolescência e adolescência propriamente dita, apesar de já estar consideravelmente obsoleta. Num tempo de clipes na band, na mtv e com o nascimento do kazaa, o pessoal começou a ter acesso à sua própria música, o que acabou afastando muita gente das rádios pra se livrar dos anúncios, vinhetas, comentários e afins.

Mas pra falar a verdade, eu gosto muito da presença humana do rádio. É legal porque te permite fazer várias coisas ao mesmo tempo, diferente da tv. É besta dizer isso, né, mas as pessoas esquecem. Assistir coisas exige tempo demais. O rádio te entretém, mas deixa espaço o suficiente pra você pensar no ex namorado chorando, pra lembrar que não pagou a fatura do cartão e que precisa comprar as passagens pra capital. Você pode ouvir música boa e ler um livro ao mesmo tempo, o que considero excelente aproveitamento de tempo: o regime principal da minha vida extra escolar desde os onze anos.

Mas eu não conseguia ouvir Jovem Pam, a mais popular entre meus coleguinhas, porque tinha muita música eletrônica lá e desde nova eu tenho um duradouro preconceito e desconforto com música eletrônica, sem falar do pop. Mas antes da Rádio Rock houve a Band FM, acreditem se quiser, onde eu até aceitava ouvir Marlon e Maicon (sim!), pagode, Ivete Sangalo, entre outros, só pela companhia dos radialistas, de quem eu gostava muito. Particularmente o radialista da madrugada, um tal Marcelo Baptista – uma notícia que tive foi dele num programa de manhã numa tal Rádio Metropolitana.

Rádio é muito confortável e ajuda na solidão. Quem aí continua no regime da foreveralonice, fikdik.