Diário de Férias #3

Hoje eu estava vendo um programa da National Geographic sobre alterações corporais. Todo tipo de loucura: mulheres que injetam azeite no rosto pra ter uma pele mais bonita, mulheres que quebram as duas pernas pra tentar ganhar 3 centímetros de altura, anoréxicas, brasileiras com síndrome de dismorfia corporal que buscam aumentar os peitos desesperadamente.

Bem, pra mim esse assunto sempre foi um pouco coisa de outro planeta. Crescendo mulher, não é que ninguém me tenha exposto a maquiagem, dietas, cirurgias e etc, ou os ideais de beleza feminina que eu devo seguir. Contudo, até hoje eu tenho certa dificuldade em me maquiar sem imaginar um voice over de documentário na minha cabeça: “As fêmeas da tribo ocidental do início do séc. XXI costumavam pintar o rosto em um ritual de preparação para o acasalamento”. Nos momentos em que me sinto menos crítica, ao invés de comparar as nossas práticas com as de pavões ou macacos, penso em rituais sagrados indígenas, nos quais, pelo pouquíssimo que admito saber, as pessoas pintam o rosto para rituais sagrados, ou pra qualquer coisa mais significativa do que auto intoxicação via álcool.

Enfim, dá pra entender a idéia por trás da metáfora estereotípica. O ritual de beleza que nós seguimos poderia perfeitamente ser narrado com voice over. Um daqueles bem graves, com aquele peso de verdade absoluta.

E por causa dessa consciência, eu tento cotidianamente ignorar esses padrões que nos apresentam: essa magreza misturada com anos na academia; esse cabelo liso a proporções ridículas, que ninguém tem naturalmente; essas roupas desconfortáveis, essa constante observação, esse esforço diário que eu vejo em muitas colegas de gênero para se tornar algo agradável aos olhos.

Normalmente eu sinto pena. Não porque a natureza tenha me dado dons de beleza caralhística que fazem homens caírem aos meus pés por todos os lados. Eu tenho um zilhão de problemas com a minha aparência, um padrão feminino do qual não consigo escapar; porém, uma consciência me resta: se eu deixasse de comer tudo o que gosto, se alisasse meu cabelo, de o pintasse de loiro ou ruivo, se comprasse silicone ou se consertasse meu nariz, sei lá, eu não acho que me sentiria mais bonita. Acho que a sensação seria parecida com a de comprar um vestido novo.

Tem vezes que eu compro um vestido, e por milagre da vida, na primeira vez em que o visto, eu me sinto perfeita. O vestido pega nos lugares certos, me emagrece, ah, finalmente estão fazendo roupas pra gente de corpo esquisito que nem eu!, mas aí acordo, de ressaca, e na próxima saída em que ponho o vestido eu já começo a perceber como ele expõe as pelancas dos meus braços ou como ele me faz parecer um colchão amarrado.

Pra resumir: eu vou acabar achando outros defeitos que me deixarão igualmente chateada comigo.

Por causa disso tudo, eu sempre sinto como se essas meninas que dedicam tanto tempo à aparência fossem um pouco aliens. Quer dizer, toda aquela produção leva tempo, dinheiro e disposição. Será que vale o retorno que ele traz?, e pergunto isso na maior das inocências, porque sinceramente não sei. No final das contas, acaba que eu nunca alisei meu cabelo, e ele já cresceu todo de novo depois da última vez em que o colori, sigo comendo igual uma louca e tudo o mais, mas constantemente me pergunto se vale o esforço que vejo nas moças à minha volta. Quero dizer. Imagino que seja legal entrar numa loja de roupas e qualquer coisa ficar bem em você. Mas será que isso é mais legal que contra filé com fritas, queijo e bacon, regado a cerveja?

 

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2 opiniões sobre “Diário de Férias #3

  1. Eu já tive uma fase de não fazer nada, absolutamente nada com a aparência pq achava artificial tb, não era eu. (tirando o cabelo, q não é vaidade, é problema psicológico mesmo pq eu acho q devia ter nascido ruiva e não consigo pintar de outra cor – já tentei) Mas um dia, olhando no espelho e pensando no q eu não gostava na minha aparência, eu meio q percebi q maquiagem e algumas alterações não precisam ser nossas “inimigas”, vazias, mudarem a gente e tal. Isso aí é coisa de gente que perde a noção e tenta ser quem não é. É isso: essas pessoas não se conhecem. Quando a gente se conhece, a gente sabe usar a maquiagem (e outras coisas) a nosso favor. Tem coisa q não funciona no nosso rosto, mas tem uma outra coisinha q pode disfarçar uma manchinha, ou ressaltar um olho q já é bonito (e aí desvia a atenção do nariz, ou algo q a gente não gosta, sei lá). Negócio é saber usar – tanto é q eu fiz 2 cursos de maquiagem com essa finalidade, aprender o q funciona em mim sem me deixar ridiculamente artificial. Muitas vezes o vestido não deixa a gente com cara de colchão, pode ser neura. Muitas vezes a gente pode acabar perdendo kilinhos mudando a dieta pra ser saudável, ao invés de pra emagrecer. Enfim, negócio é achar um equilíbrio pra gente. Da mesma forma que tenho pena de quem vira vítima dessas alterações do próprio corpo, tb acho q faz mal ter aversão completa (pq não usar nem sempre é desprendimento, as vezes é mais neura…)

    Meu comentário virou um testamento, pqp! hahahah

  2. Não vejo problema em a pessoa gostar de se maquiar para o trabalho ou para sair, por exemplo. Todos nós usamos esses ou tantos outros artifícios para construir uma identidade visual para o mundo. E a vaidade é meio igual para diferentes formas de autoexibição. Também não vejo problema em quem frequenta academia ou se preocupa com o que come, porque saúde e bem-estar são valores insubestimáveis, e sabemos os benefícios da prática de exercícios físicos e de uma dieta saudável para o corpo e para a mente. Além do que muita gente ganha a vida com a aparência e/o com o corpo, e isso não é automaticamente ruim ou errado. O foda é quando a pessoa coloca na sua aparência e no seu “encaixe” a um padrão de beleza absurdo e nada natural muito do seu valor como ser humano e muita da expectativa que ela tem da vida. E o triste é que pessoas que dão muita importância à aparência jamais se sentirão satisfeitas, porque o padrão de beleza a que estamos expostos e que nos dias diariamente que somos feias, gordas e desleixadas é um poço sem fundo.

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