Comentário: The Hunger Games

Disclaimer: como na maioria dos meus comentários, este post terá vários spoilers. Então saiba que vou falar da história do primeiro livro e filme sem restrições.

É difícil achar algo que eu não goste em Hunger Games. Gosto do título, da protagonista, do estilo, do ritmo, da história, da adaptação para filme, das emoções, e as críticas mais comuns à série.

Em primeiro lugar, eu queria mencionar um dos principais argumentos dos anti-Hunger Games, que dizem que a série é apenas uma cópia de Battle Royale, um filme japonês de 2000 adaptado de um livro publicado em 1999.  Antes de mais nada, eu não sou ninguém pra descartar essa hipótese completamente, porém, honestamente, eu acho que dois autores tiveram duas idéias semelhantes que foram bem sucedidas. Pelo que o namorado (que precisou assistir Hunger Games quase amarrado) disse, Battle Royale tem muito mais porradaria – os jogos são mostrados com muito mais detalhes, ao passo que Hunger Games gasta mais da metade do seu tempo no cinema para mostrar a preparação de Katniss para a arena, além de todas as alegorias inconfundíveis com a história dos Estados Unidos.

Ah, Katniss. Ela é uma excelente personagem. Francamente, ela é um modelo de humanidade. Pra mim é até difícil falar dela, porque eu atingi um grau de identificação muito alto com a personagem: ela sustenta a família desde a morte precoce do pai, um trabalhor das minas do Distrito 12, o mais pobre de todos que servem à Capitol. Esta é o centro do governo e a grande responsável pela criação e manutenção dos Hunger Games por 73 anos.

Na 74a edição, Katniss enfrenta a possibilidade – ínfima – de que Primrose, sua irmãzinha, torna-se uma possível candidata a tributo do distrito 12, no jogo em que crianças e adolescentes devem lutar até a morte. Em entrevista, a autora alega que teve a idéia central da série enquanto mudava de canal entre um reality show e um documentário desses de animais caçando na selva.

Ainda me lembro de que quando comecei a ler, subestimei a minha impressão da história só por causa da narração em primeira pessoa. Lembro de pensar: “ai, mais uma narração derivada de Crepúsculo, com essa coisa adocicada e pseudo sofrida”… Mas bem, eu não poderia estar mais errada.

Tudo começa com o dia da colheita, em que se sorteiam as crianças a serem doadas por cada distrito para os Hunger Games. Pra mim é difícil não prender a respiração com a Katniss enquanto ela observa o nome de Prim ser retirado no sorteio. Por impulso, ela faz a única coisa ao seu alcance para proteger a irmã: ela se voluntaria para ir no lugar dela. Effie, a responsável pela cerimônia até mesmo comenta que Katniss era a primeira voluntária da história do distrito.

Ela é imersa num ambiente absurdo, de opulência e espetáculo, em que seu corpo é polido, esfregado e preparado pela exibições, entrevistas, medidas… Enfim, ela é explorada ao extremo, bem como Peeta (o tributo menino que é sorteado com ela), antes de ser enviada para os jogos.

Outra crítica comum à serie é que ela seria levemente homofóbica na sua caracterização da capital, porque as pessoas são descritas por usarem roupas coloridas, cabelos extravagantes, além de maquiagens e interferências corporais que lembram muito os conceitos tipicamente associados a gays; dessa forma, os “vilões”, por assim dizer, seriam associados de maneira subsconciente a gays.

Acho que essa crítica não é completamente errada, mas acho que o exagero físico da moda da capital não é apenas gay; acho pessoalmente que ela tem muito a ver com a norma hetero para mulheres; cabelos, pinturas e afins, além das imagens da adaptação fílmica que envolvem pai e mãe dando de presente ao filho uma espada, que começa a correr atrás da filha  que segura uma boneca.

Finalmente, outra crítica, a melhor fundamentada na minha opinião, é sobre como a moralidade, ou mesmo o senso de culpa de Katniss é flutuante. Antes dos jogos, ela demonstra desejo nulo de matar crianças inocentes, mas isso se faz necessário, não há hesitação. Vale a pena lembrar que seu primeiro assassinato é indireto – ela corta o galho de um ninho de jabberjays nos inimigos, que matam com o veneno – porém logo ela mata frente a frente, especialmente ao encontrar o corpo de sua aliada, Rue, na cena mais tocante do filme. Ela dispara a flecha contra o tributo do Distrito 1 que a matara e não pensa nele mais do que duas ou três vezes por todo o resto da série.

Sim, as lágrimas de desespero dela por Rue e por outros são verdadeiras e de partir o coração, mas ela não pensa nunca mais em Cato, ou em outros tributos que ela mata ou que observa morrer. A narrativa sugere que os traumas incomparáveis derivados da experiência a levariam a tentar bloquear ao máximo as memórias, mas é difícil negar que Katniss, por mais sensacional que seja, não sofre igualmente pelos personagens que mata.

Sou grande fã do filme lançado em março do ano passado; contudo, fico profundamente incomodada com os posteres que divulgaram o filme: quase todos mostram uma Katniss centralizada, com Peeta e Gale, seu melhor amigo, de cada lado, num eco evidente do primeiro poster de Crepúsculo, com aquela sombra de ego-personagem e seus pretendentes. Além disso dar a impressão errônea de que o filme é um romance e não uma aventura distópica, dá uma dor de cabeça ficar explicando que não existe uma tensão “ui, com quem ela vai ficar”, porque o tempo todo tem algo bem mais interessante acontecendo do que qualquer romance.

Esta série me surpreendeu demais. Fazia anos que eu não virava a noite inteira lendo um livro. Fazia anos que uma história não me tocava em níveis tão básicos e tão essenciais. A narradora de Susanne Collins me fez chorar desesperadamente, e em determinados momentos até me fez largar o livro de pura raiva com alguma reviravolta que eu não imaginava nem nos meus piores pesadelos. Ah, os pesadelos… Foram pelo menos duas semanas de pesados agitados em que eu estava nos Hunger Games tentando salvar a minha pele.

Não dá pra não recomendar.

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