As brincadeiras de mau gosto, a ditadura gay e a patrulha do politicamente correto

Queria começar este post dando os parabéns à UFMG, que está nas notícias nacionais desde ontem. Que beleza, hein? Meus parabéns.

Eu acho difícil tratar com qualquer coisa além de ironia e sarcasmo essa história do trote da Escola de Direito. Francamente, é uma decepção difícil de exprimir. Não que não existisse trote quando eu entrei – e olha que eu entrei na Letras. Tinha trote sim. No final de uma quarta-feira, depois da aula de Teoria da Literatura I, uns estranhos chegaram colocando barbante na mão da gente e gritando coisas indistintas. Bem, antes de pensar muito no assunto, eu só tirei o barbante da mão e saí andando.

Muita gente diz que o aluno vai parar no trote não por restrições físicas, mas psicológicas. Eu concordo; ninguém quer virar um pária no seu primeiro semestre em um ambiente estranho onde você deve permanecer por cerca de cinco anos. No meu semestre, um menino apelou e saiu correndo, num momento tragicômico, mas o máximo que aconteceu foi levar o apelido de André Rebelde, em homenagem à novela mexicana da época, e foi só. Eu ainda chamo ele assim mais por hábito (e porque na minha geração tem André até demais, francamente, e eu uso pra diferenciar).

Isso é completamente diferente do que acontece nas faculdades dos cursos mais disputados. Quem diria, você estuda igual um maluco pra entrar em um curso dificílimo e é recebido da forma como a gente lê nos jornais. Então, sim, eu sou contra trotes. Nos meus anos de atuação no Diretório Acadêmico, nós apenas incentivamos a recepção de calouros, com pimentinha barata e vinho mais barato ainda; tinha tinta pros desejosos escreverem na testa, e um grupo separado foi pra Antônio Carlos pedir dinheiro pros motoristas.

Vamos contrastar isso com outra história: eu moro no Bairro Ouro Preto, próximo às entradas de Educação Física e Veterinária da UFMG. Um belo dia, estou eu a caminho do ponto de ônibus pra ir trabalhar e de repente me sobe um cheiro inacreditável de merda. Ergo a cabeça pra perceber a presença de uns 5 ou 10 calouros da Veterinária, e eles estavam – SIM – cobertos em merda.

Por princípio, eu já não dou dinheiro pra calouro, talvez por causa da minha mãe, que, quando eu passei, deu rapidamente os parabéns, mas logo acrescentou que eu não fiz “mais do que a obrigação”, já que ela tinha investido no meu ensino durante mais de uma década, além dela e do meu pai terem trabalhado loucamente pra que eu própria não precisasse sacrificar tempo de estudo trabalhando. Ainda menos quando trata-se de um calouro alto, forte, bonito, branquelo e bem alimentado, com corte de cabelo da moda, me dizendo que passou em Medicina.

A UFMG não está sozinha nas práticas medievais de recepção de calouros. Contudo, saber que isso está acontecendo na instituição onde eu me formei é particularmente doloroso; é como se, como ex-aluna, eu tivesse algum tipo de dever de zelar pela “imagem” da universidade. Isso influencia todos os dias o modo como eu exerço minhas profissões; quando dava aula, e agora quando reviso e traduzo, penso sempre em como o nome da UFMG influenciou minha contratação de forma positiva, e tento atuar de modo a atender a essas expectativas e não decepcionar os professores que investiram tempo me preparando e corrigindo meus trabalhos.

Infelizmente, tenho a impressão que essa noção muito simples falta aos alunos, veteranos ou calouros, de muitos cursos da UFMG. Para eles, ser aceito na UFMG é um mérito por si só, que, no imaginário deles, deve corresponder a algum tipo de escalada num sistema de castas antigo, um escravo alforriado que sai comprando escravos.

Uso essa metáfora e não é por acaso: essa visão de entitlement e superioridade não vem separada de um preconceito enraizado de forma tão profunda que nem é reconhecida. A meritocracia instituída pelo vestibular é apenas parcialmente responsável por isso; existe também essa supervalorização do bom desempenho nos estudos, como se notas e nomes fossem as únicas coisas importantes na sociedade e o único caminho para a felicidade.

Por causa de tudo isso, o que aconteceu na Escola de Direto não tem nada a ver com “uma brincadeira de mau gosto”. Tem a ver, sim, com ignorância, com falta de respeito e empatia.

Contrariamente do que circula nos comentários asquerosos e abissais das matérias que li em jornais online, nós não estamos passando por uma “ditadura gay” ou por uma “patrulha do politicamente correto”. Isso não existe. O que existe são pessoas que finalmente se unem para mostrar o seu desconforto com atitudes desrespeitosas, ou, no máximo, que tratam pessoas preconceituosas do modo como são tratadas por elas. É natural que o esforço pela igualdade de voz cause atrito. E, ainda que este atrito me force a ver o pior que existe na cabeça deturpada de gente acostumada a ter a voz e a vez, eu me vejo forçada a achar isso uma coisa boa, porque eu estou aqui argumentando em contrário, pessoas argumentam em contrário nos ônibus, nas ruas, na internet, na mesa do buteco.

Uma ditadura gay significaria que todo mundo seria obrigado a trocar a norma culta pelo bichês; que héteros não poderiam se beijar em público, assumir relações em público, e caso o fizessem, seriam presos e torturados. Uma patrulha do politicamente correto bateria na sua porta tarde da noite para perguntar por que você contou uma piada machista na empresa, na hora do almoço, ao invés de te olhar feio e sair andando. Uma dose amargurada de revanchismo dentro de mim é forçada a desejar apenas um dia de ditadura gay e patrulha do politicamente correto, apenas para que os termos imbecis parassem de ser usados.

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4 opiniões sobre “As brincadeiras de mau gosto, a ditadura gay e a patrulha do politicamente correto

  1. Estamos numa situação bem complicada mesmo. O pior é que, para cada um que se autodeclara politicamente incorreto (e que na maioria das vezes não passa de um conservador imaturo, preconceituoso e privilegiado), há outro que ignora os parâmetros da Justiça e os Direitos Humanos e acha que toda pessoa que comete um crime ou delito deve ser assassinada, apedrejada, estuprada, exposta em praça pública, etc., numa defesa inconsequente e torta de procedimentos medievais. Nesse caso da UFMG, se me deprimiu ver o tanto de gente defendendo os babacas do trote, também não vi com bons olhos a divulgação irresponsável e a condenação precipitada dos alunos. Em suma, minha amiga: tá tudo errado. Falta bom senso, falta sensibilidade histórica, falta empatia, falta expressão responsável.

  2. Belo texto, Amanda. E belo comentário da Aline também. Me assustaram os dois extremos: quem promoveu caça às bruxas com os realizadores do trote (algumas imagens divulgadas tinham esse teor) e quem defendeu que “foi só uma brincadeira, basta os que deram o trote pedir desculpas em privado e fica tudo bem”.

  3. Sabe o que me assusta? Essas pessoas estão estudando para serem advogados, médicos, ou seja, profissões que lidam diretamente – e muito diretamente – com a vida das pessoas. E são pessoas conservadoras e idiotas. Eu não lido muito com advogados, mas lido bastante com médicos (é eu sei, sou hipocondríaca) e eles refletem muito esse tipo de comportamento idiota. Já deixei um urologista falando sozinho por ele ter insinuado que eu estava com infecção urinária porque “fazia sexo demais”. Oras, duvido que ele dissesse a mesma coisa pra um cara. Ainda mais naquele tom debochadinho. Eu pedi a receita do remédio e fui embora. Óbvio que nunca mais voltei.

    Estudantes babacas dão profissionais piores ainda. Ainda mais se estão em posições de prestígio na sociedade. Eu tenho a mesma postura que você, Amanda. Tento na medida do possível carregar essa responsabilidade do nome UFMG. Porque isso sem dúvida me ajudou muito. Aos 20 anos, no meu primeiro emprego de carteira assinada, eu já ganhava bem trabalhando numa instituição reconhecida. E sei que o que me ajudou foi ter o nome UFMG estampado no meu currículo.

    Eu tento ser “´politicamente correta”. Se um cara negro se sente ofendido por ser chamado de negão, não vou chamá-lo de negão. Afinal, é ele quem está sofrendo o peso cultural desse termo todos os dias e o mínimo que posso fazer é respeitar a decisão dele. Eu, por exemplo, exijo em dizer que sou uma “esposa”, não sou uma “mulher”. Considero esse termo totalmente depreciativo. E já vi gente zoando meu marido só porque ele me apresenta como “esposa” e não como “mulher”. Oras bolas, qual é o problema desse mundo? Parece que ao pedir, com gentileza algumas vezes, que as pessoas se dirijam a você com o mínimo de respeito, você está sendo chato.

    Me desculpe sociedade, mas não é engraçado fazer piada de violência doméstica, nem de estupro, nem de empregada doméstica, nem de negro, nem de índio, nem de gay. Nem de um monte de coisa! Isso significa que o mundo vai ficar mais chato? Não, significa que vamos procurar piadas mais inteligentes. Mas é incrível como todo mundo se apega ao que tem de mais baixo…

    Okay, esse comentário foi um desabafo, mas é que eu me sinto cansada dessas coisas. Eu cheguei no nível de deletar pessoas do Facebook pra bloquear coisas machistas/racistas/homofóbicas/depreciativas da minha timeline. É foda.

  4. Nada como gente sensata e madura o suficiente para saber argumentar como adultos um tema que deveria ser tratado desde muito cedo nas escolas e famílias. Digo isso porque o exemplo que tive do meu pai para a tolerância com o diferente sempre teve destaque na minha formação como ser humano. Mas hoje em dia o que se vê é justamente o oposto: os pais querem que seus filhos sejam super-filhos – entenda-se bonitos, poderosos, ricos e arrogantes -, o que resulta em energúmenos, boçais, beócios como os citados no post e gente como um cara que declarou [vi numa capa de uma revista daquelas vazias] “Não gosto de perder nem partida de tênis”. Faça-me o favor, né sociedade?
    BEIJO NOCÊS!!!!!

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