Comentário: The Perks of Being a Wallflower

Aviso: como todos os meus comentários, temos spoilers aqui.

 

“Why do I and the people I love always pick people who make us feel like we’re nothing?”

A pergunta de Sam, personagem da Emma Watson foi o que mais ressoou na minha cabeça. Não dá pra negar: por quê? Eu conheço e convivo com tantas pessoas cuja inteligência é imensurável, cujo talento é indiscutível, além da boa companhia de copo e de badtrips. E ainda assim, por que eu as vejo, todos os dias, andando com pessoas que as deixam pra baixo?

A resposta que o filme oferece é: “nós aceitamos o amor que acreditamos merecer”. Apesar de ter certa significação, eu acredito que a resposta seja sim muito simplista. O primeiro questionamento de The Perks of Being a Wallflower (2012) é esse: por que procuramos companhias que nos diminuem? Estamos apenas espelhando o pouco de pensamos de nós próprios? Estamos nivelando por baixo? Mas onde fica esse limite? Como saber se estou com alguém que me deixa pra baixo ou se realmente eu não conseguiria coisa melhor? É claro que no enredo adolescente e cheio de reviravoltas instigantes do filme fica bem claro como Sam namora um babaca. Quero dizer, que tipo de pessoa responde “Você escreve poesia?” com um floreio e “A poesia é que me escreve”? Não dá pra não virar os olhos nessa cena.

Outra coisa: pra quem é fã de John Green, é impossível ignorar como a história do filme (que é uma adaptação de um romance) é parecida demais com Looking for Alaska. Os ingredientes básicos estão todos lá: um personagem principal calado, sem habilidades sociais, com apego incomum por leitura, que são inseridos numa escola nova, com pouca ou nenhuma interferência da família. É claro que os problemas mentais de Charlie nem se comparam à falta de jeito de Miles, mas os dois se comportam de formas surpreendentemente semelhantes. Mas é claro que eu não vou cometer o erro clichê de acusar uma das duas histórias de plágio. Primeiro, porque nenhum deles inventou a idéia de um menino tímido e deslocado numa escola nova, especialmente nos últimos, digamos, vinte anos, em que filmes e livros vem retratando muito as vítimas de bullying, às vezes até romantizando tudo.

Além disso, a personagem de Emma Watson, com seu sotaque americano bem fingido, é uma Alaska mais rasa. Os traumas que Charlie tem no filme, Alaska tem no livro, até certo nível. Ela é o que alguns estudiosos chamam de estereótipo da “pixie girl”. O que é a Pixie girl? Bem, são personagens como Alaska, Sam, Kate Winslet em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, etc. Mulheres estranhas, quase mágicas, muito bonitas, muito traumatizadas, que iluminam a vida do personagem principal, mas que muitas vezes foram traumatizadas além do nível em que se pode ajudá-las. Como eu disse, Sam é uma pixie girl bem rasa, considerando suas colegas; ela apenas teve um passado de má reputação e pegação com o chefe do pai, e só precisa dar uma estudadinha pra outro SAT’s. É claro que ela é adorável, e simpática, e não tem como não torcer por ela. Como é o primeiro filme em que eu a vejo depois da série Harry Potter, eu diria que, do trio, ela é a única que tem chances de fazer uma carreira duradoura além de Hermione Granger. Desculpem, Dan e Rupert, mas é a verdade.

E finalmente, o meio irmão de Sam, Patrick, o equivalente ao Colonel no meu paralelo com Looking for Alaska. Aquele personagem masculino, amigo da pixie girl, que é o guia do personagem principal. Alguém imprevisível e divertido, com suas próprias dificuldades, mas com muito potencial. Patrick e Colonel precisam existir, porque senão nem o Perks nem Looking for Alaska iriam para frente – ambos provavelmente seriam histórias sobre meninos estudiosos tomando refrigerante na cara e se masturbando pra pixie girl no dormitório.

Previsivelmente, Charlie tem um começo difícil na escola, e sabemos desde o princípio que ele tem algum problema estranho, e que fica se lembrando de uma tal tia Helen que morreu em um acidente. Mas eis que encontramos aqui a grande reviravolta do filme – eu não imaginava nem em um milhão de anos. Nos últimos minutos de filme, Charlie tem um ataque muito tenso, em que ele quase se mata; as memórias que lhe passam pela cabeça revelam ao expectador que a tal tia não era apenas próxima do menino: ela abusava sexualmente dele. E quando ela morre em um acidente, ele tem crises de culpa, porque o acidente teria ocorrido quando ela ia buscar um presente para ele – e não só isso, ele confessa não saber se teria desejado a morte dela.

Em aspectos de cinema, não há nada de muito especial com a fotografia, ou com a música – além da boa escolha de Heroes para ambientar as cenas no túnel.

O filme é do tipo que faz você se sentir bem ao final, que te faz pensar e refletir sobre os anos de adolescência e sobre como eles são mesmo uma merda pra (quase) todo mundo. Eu com certeza recomendo. E também aconselho a tentar desligar o botão de comparações com Looking for Alaska, porque há de fato muitas semelhanças e isso pode diminuir a sua diversão.

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Comentário: The Hunger Games

Disclaimer: como na maioria dos meus comentários, este post terá vários spoilers. Então saiba que vou falar da história do primeiro livro e filme sem restrições.

É difícil achar algo que eu não goste em Hunger Games. Gosto do título, da protagonista, do estilo, do ritmo, da história, da adaptação para filme, das emoções, e as críticas mais comuns à série.

Em primeiro lugar, eu queria mencionar um dos principais argumentos dos anti-Hunger Games, que dizem que a série é apenas uma cópia de Battle Royale, um filme japonês de 2000 adaptado de um livro publicado em 1999.  Antes de mais nada, eu não sou ninguém pra descartar essa hipótese completamente, porém, honestamente, eu acho que dois autores tiveram duas idéias semelhantes que foram bem sucedidas. Pelo que o namorado (que precisou assistir Hunger Games quase amarrado) disse, Battle Royale tem muito mais porradaria – os jogos são mostrados com muito mais detalhes, ao passo que Hunger Games gasta mais da metade do seu tempo no cinema para mostrar a preparação de Katniss para a arena, além de todas as alegorias inconfundíveis com a história dos Estados Unidos.

Ah, Katniss. Ela é uma excelente personagem. Francamente, ela é um modelo de humanidade. Pra mim é até difícil falar dela, porque eu atingi um grau de identificação muito alto com a personagem: ela sustenta a família desde a morte precoce do pai, um trabalhor das minas do Distrito 12, o mais pobre de todos que servem à Capitol. Esta é o centro do governo e a grande responsável pela criação e manutenção dos Hunger Games por 73 anos.

Na 74a edição, Katniss enfrenta a possibilidade – ínfima – de que Primrose, sua irmãzinha, torna-se uma possível candidata a tributo do distrito 12, no jogo em que crianças e adolescentes devem lutar até a morte. Em entrevista, a autora alega que teve a idéia central da série enquanto mudava de canal entre um reality show e um documentário desses de animais caçando na selva.

Ainda me lembro de que quando comecei a ler, subestimei a minha impressão da história só por causa da narração em primeira pessoa. Lembro de pensar: “ai, mais uma narração derivada de Crepúsculo, com essa coisa adocicada e pseudo sofrida”… Mas bem, eu não poderia estar mais errada.

Tudo começa com o dia da colheita, em que se sorteiam as crianças a serem doadas por cada distrito para os Hunger Games. Pra mim é difícil não prender a respiração com a Katniss enquanto ela observa o nome de Prim ser retirado no sorteio. Por impulso, ela faz a única coisa ao seu alcance para proteger a irmã: ela se voluntaria para ir no lugar dela. Effie, a responsável pela cerimônia até mesmo comenta que Katniss era a primeira voluntária da história do distrito.

Ela é imersa num ambiente absurdo, de opulência e espetáculo, em que seu corpo é polido, esfregado e preparado pela exibições, entrevistas, medidas… Enfim, ela é explorada ao extremo, bem como Peeta (o tributo menino que é sorteado com ela), antes de ser enviada para os jogos.

Outra crítica comum à serie é que ela seria levemente homofóbica na sua caracterização da capital, porque as pessoas são descritas por usarem roupas coloridas, cabelos extravagantes, além de maquiagens e interferências corporais que lembram muito os conceitos tipicamente associados a gays; dessa forma, os “vilões”, por assim dizer, seriam associados de maneira subsconciente a gays.

Acho que essa crítica não é completamente errada, mas acho que o exagero físico da moda da capital não é apenas gay; acho pessoalmente que ela tem muito a ver com a norma hetero para mulheres; cabelos, pinturas e afins, além das imagens da adaptação fílmica que envolvem pai e mãe dando de presente ao filho uma espada, que começa a correr atrás da filha  que segura uma boneca.

Finalmente, outra crítica, a melhor fundamentada na minha opinião, é sobre como a moralidade, ou mesmo o senso de culpa de Katniss é flutuante. Antes dos jogos, ela demonstra desejo nulo de matar crianças inocentes, mas isso se faz necessário, não há hesitação. Vale a pena lembrar que seu primeiro assassinato é indireto – ela corta o galho de um ninho de jabberjays nos inimigos, que matam com o veneno – porém logo ela mata frente a frente, especialmente ao encontrar o corpo de sua aliada, Rue, na cena mais tocante do filme. Ela dispara a flecha contra o tributo do Distrito 1 que a matara e não pensa nele mais do que duas ou três vezes por todo o resto da série.

Sim, as lágrimas de desespero dela por Rue e por outros são verdadeiras e de partir o coração, mas ela não pensa nunca mais em Cato, ou em outros tributos que ela mata ou que observa morrer. A narrativa sugere que os traumas incomparáveis derivados da experiência a levariam a tentar bloquear ao máximo as memórias, mas é difícil negar que Katniss, por mais sensacional que seja, não sofre igualmente pelos personagens que mata.

Sou grande fã do filme lançado em março do ano passado; contudo, fico profundamente incomodada com os posteres que divulgaram o filme: quase todos mostram uma Katniss centralizada, com Peeta e Gale, seu melhor amigo, de cada lado, num eco evidente do primeiro poster de Crepúsculo, com aquela sombra de ego-personagem e seus pretendentes. Além disso dar a impressão errônea de que o filme é um romance e não uma aventura distópica, dá uma dor de cabeça ficar explicando que não existe uma tensão “ui, com quem ela vai ficar”, porque o tempo todo tem algo bem mais interessante acontecendo do que qualquer romance.

Esta série me surpreendeu demais. Fazia anos que eu não virava a noite inteira lendo um livro. Fazia anos que uma história não me tocava em níveis tão básicos e tão essenciais. A narradora de Susanne Collins me fez chorar desesperadamente, e em determinados momentos até me fez largar o livro de pura raiva com alguma reviravolta que eu não imaginava nem nos meus piores pesadelos. Ah, os pesadelos… Foram pelo menos duas semanas de pesados agitados em que eu estava nos Hunger Games tentando salvar a minha pele.

Não dá pra não recomendar.

Comentário: The Casual Vacancy

The Casual Vacancy, publicado no Brasil como A Morte Súbita, é a primeira tentativa de J.K. Rowling de escrever um romance para adultos, sem nenhuma referência ou conexão com o mundo mágico da série Harry Potter.

Terminei de lê-lo ontem, e finalmente pude ler spoilers: a maioria dos comentários apontava coisas previsíveis no livro e mesmo que ele seria pouco criativo. Particularmente, eu achei as críticas um tanto quanto cruéis demais; afinal de contas, desde que ela própria era criança, J.K. escrevia literatura infantil ou infanto-juvenil. Eu não diria que é o livro mais sensacional publicado em 2012 – até porque neste ano foi publicado o The Fault in Our Stars, do John Green – possivelmente o melhor dele até agora, na minha opinião.

De qualquer maneira, o enredo geral de Casual Vacancy é numa cidadezinha pequena, Pagford, que não é um cidade em si, mas é como um distrito da cidade maior, Yarvil. No começo do livro, Barry Fairbrother morre subitamente enquanto levava a mulher para jantar no clube de golfe. Outro casal que estava lá, Miles e Samantha Mollison, os ajudam chamando a ambulância e indo até o hospital, mas não adianta.

Barry era um conselheiro distrital, o que seria, creio eu, o equivalente a um vereador; a morte de um conselheiro é chamada de, não por acaso, casual vacancy, e muito do livro é construído sobre quem seria a melhor pessoa para preencher o seu lugar. Barry é constantemente construído como quase um santo: ele tinha projetos bons, lutava para resgatar jovens e adolescentes de situações de risco… Enfim, ele se doava inteiramente. Aí está uma expectativa minha que não se concretizou: fiquei o livro todo esperando alguém desmitificar Barry, o que não aconteceu. O tempo todo você vê gente falando dele, e os que falam mal são personagens profundamente desagradáveis e conservadores. Não sei, esperei ver, sei lá, que no final ele teria feito algo bastante ruim. E nada. O cara permanece santo até o final.

Há uma variedade de personagens no livro, e isso é um ponto forte constante de J.K.: as imersões dentro dos personagens, e o modo como ela descreve seus sentimentos e o mecanismo de seus pensamentos. Eu daria destaque à familia de Sikh, os Jawandas, especialmente a mãe, Parminder, e a filha Sukhvinder (espero ter escrito certo o nome da menina). A mãe, por ser apaixonada por Barry e por seu marcado descontrole – se ela não pirasse tanto na batatinha, ela seria perfeita demais – e a filha por ser vítima clássica de bullying, inclusive com o que creio ser Síndrome de Borderline. Mas também, é claro que eu, sendo eu, simpatizaria com a Sooks (como ela é apelidada pela amiga Gaia).

Eu francamente queria ter a disposição de falar de todos os personagens.

Howard Mollison, que dá pra chamar de vilão do livro, não mostra uma característica positiva: ele é a personificação do conservadorismo, preconceituoso, elitista e cego às necessidades dos outros, além de adúltero, mal educado e convencido de si próprio – o que chega ao ápice quando o filho é eleito para o lugar de Barry no Conselho. Ele foi outra decepção; porque, ao contrário de Barry, eu acho que esperei uma humanização dele. Nós temos imersões na cabeça da mulher dele, Shirley, da nora, Samantha, e ainda que a narrativa justifique o comportamento dele – descrevendo o começo das questões políticas – , ele não tem profundidade. Quer dizer, por que ele se casou com Shirley, por exemplo, que é filha de uma prostituta? Por que eles chegaram ao acordo mencionado pela mulher de que “eles não precisavam de sexo”? Eu acho coerente que eles escolham Miles como favorito, e que praticamente tenham expulsado de casa a outra filha, Patrícia – uma mulher muito mais bem sucedida, que mora em Londres e tem um relacionamento estáve com uma mulher. Porém, a maldade dele e o descaso com sua própria saúde não estão bem fundamentados, na minha opinião.

Eu também queria falar um pouco da Samantha, esposa de Miles. A narrativa chega muito perto de fazer slut-shaming com ela, o que acho um pouco preocupante. Ela tem um casamento frustrado; achou que estava se casando com um homem independente, mas ao longo dos anos ela observa enquanto Miles progride para ficar exatamente igual ao pai; ela começa a fantasiar loucamente com um menino de boyband, e chega a comprar ingressos com a desculpa de dar um presente à filha, mas acaba não indo, ficando muito bêbada e pegando um menino de dezesseis anos no aniversário do sogro. Eu honestamente não a condeno. Ela se sente presa em um ambiente hostil – porque Pagford é extremamente hostil -, vive frustrada sexualmente, presa em uma existência que não quis pra si. Mas com duas filhas e o marido eleito para o Conselho, ela sabe que jamais conseguirá escapar – e não conseguirá mesmo porque, tragicamente, ainda ama o marido.

Vou ter que ficar devendo um comentário sobre Fats e os Wall de forma geral, mas vale lembrar que Fats é o único que acaba de fato se responsabilizando pelas coisas que fez – e por mais algumas. Ele desenvolve esse conceito, na minha opinião ridículo, de autenticidade, em oposição à prática de todos que vivem sob a moral e bons costumes, fazendo o que se deve, e etc. Filho do vice diretor da escola, ele é francamente insuportável e desafia o pai em toda oportunidade possível.

Contudo, na minha opinião a personagem principal é, sem dúvida, Krystal Weedon. Ela é uma adolescente problemática, sua mãe vive entrando e saindo do tratamento para se livrar do vício em heroína, tem um irmão pequeno chamado Robbie que vive mal alimentado, ou sujo ou mesmo esquecido ao lado da mãe enquanto ela faz sexo por drogas. Krystal é vista como uma vadia por toda a cidade, porque, de fato, ela faz sexo com quem quer – Fats, principalmente -, e apenas a assistente social, Kay Bawden, a vê como alguém responsável e apegada ao irmão. Krystal se encarrega de levar o menino à escolinha, briga com traficantes e faz o máximo para proibir a mãe de cair no vício de novo. Krystal não gosta de Kay – ela gostava de verdade é de Barry Fairbrother, que vira algo de especial nela ao criar o time de remo. Antes da morte dele, esse time de remo era a melhor coisa na vida de Krystal, onde ela até fez amigas – Sukhvinder entre elas  – e aqui temos até o elemento cômico do hino do time de remo: Umbrella, de Rihanna!

No clímax do livro, Krystal decide tentar engravidar de Fats; aquilo seria sua fuga definitiva dos Fields, um condomínio de apartamentos numa área afastada, cheio de criminosos e viciados, para uma casa em Pagford, criando seu bebê e seu irmão, longe da influência da mãe e do traficante que chega a estuprá-la em uma cena horripilante.

Dessa forma, Krystal foge de casa com o irmão, determinada a encontrar Fats e tentar engravidar mais uma vez. Ela deixa o irmão sentado num banco com um pacote de chocolate e vai para o mato trepar com Fats. Numa sequência trágica, a criança fica com sede e sai andando pelos arredores. Para resumir a tragédia, ele  cai no rio e se afoga, não sem antes Sukhvinder aparecer, ver o menino no rio e pular para tentar salvá-lo.  Krystal, enlouquecida ao ser encontrada pela polícia com a notícia da morte do irmão, corre para a casa da mãe, arruma a colher, o isqueiro e a heróina e trata de se dar uma overdose fatal.

O suicídio de Krystal é uma atitude desesperada. É um elemento trágico. Nos faz pensar sobre como ela tinha uma humanidade que ninguém via, que ninguém queria ver. Krystal era uma personagem bem construída, e pelo menos eu, como leitora, me percebi torcendo para que sim, ela conseguisse dar o golpe da barriga em Fats, e sim, ela saísse daquela vida. Mas tentando sair daquela vida é que ela acaba pulando de cabeça na cadeira de eventos que a levaria a se matar. A única pessoa que acreditava nela está morta, os aliados de Barry não tem força nem poder de continuar lutando pela manutenção da clínica de reabilitação ou pelos Fields. O desespero e a desistência de Krystal pra mim são o resultado final de uma história em que todo mundo perde. Os conservadores elegem Miles Mollison, Krystal não consegue provar seu valor, e a cidade não pensa por um momento em quem ela foi – apenas comentam com estranheza o esforço do falecido Barry em tentar provar o valor das pessoas dos Fields.

The Casual Vacancy não é um livro que faz você se sentir bem. Não é mesmo. Talvez por isso eu não saiba dizer tanto qual é a minha impressão final. Eu tenho que mencionar o fato de que no começo eu enxergava J.K. por trás da narrativa; mas conforme a história prossegue, eu me esqueci completamente dela, e me percebi lendo grandes porções da tora de papel em um dia só, então eu diria que o livro tem a mágica da narrativa da tia J.K..

Tenho que mencionar o trabalho editorial lindo do capa dura que comprei. Papel de qualidade, fonte e tamanho perfeitos, e a capa, que quando vi na internet tinha detestado, é muito aprazível não só aos olhos, como ao toque. Um livro que vale o dinheiro.

Vale lembrar que eu foquei o meu comentário nos personagens, mas eu poderia ter escolhido falar da trama impulsionada pelo Fantasma de Barry Fairbrother, mas eu preferi não focar na cena já prometida na orelha do livro sobre como todos teriam segredos e tralalala. Ao ler J.K., sempre tenho a impressão que são os personagens que fazem a trama, e não o contrário.

Filme: Swedish Auto

Antes de falar do filme em si, gostaria só de dar uma dica: caso vocês ainda não conheçam o Netflix, bem, vocês deviam conhecer. Basicamente, você paga quinze reais por mês, debitados na maior simplicidade do seu cartão de crédito, sem documento nenhum, e tem acesso a todo o tipo de filme e série, até documentários, pra assistir online, todos devidamente dublados e/ou legendados. Ele te mostra na página inicial sugestões de filmes conforme você marca suas preferências de gênero e tal. O carregamento é super rápido. A única desvantagem é que ele não tem material muito novo. Algumas séries não tem as temporadas mais recentes, é só. Mas o acervo é grande o suficiente pra te manter entretido até eles conseguirem o material mais novo, sem dúvida.

Bom, vamos ao filme!

Swedish auto se passa principalmente no espaço da oficina mecânica, que leva o nome do filme, onde trabalha um rapaz que, pra resumir bem, é um stalker. Ele é muito solitário, mora sozinho e seus passatempos principais são observar a rotina de uma violinista. Ele almoça todos os dias no mesmo lugar com o dono da oficina e o palhaço do filho dele. Carter assusta no começo.

Mas o motivo principal que eu dou pra vocês verem o filme é a excelente reviravolta que ele dá ainda no começo. Outros temas inesperados são incluídos na trama, os personagens são aprofundados e você se percebe entrando em desespero com as situações, sentindo emoções muito fortes. É um filme de muita empatia, pelo menos pra mim.

A trilha sonora é excelente. Tão boa quanto ela, só os silêncios. Quando os personagens estão em silêncio e a cabeça da gente ferve com tudo que eles devem estar pensando naquele momento. É muito intenso. Ao ler o resumo, fica só parecendo um elogio ao stalkerismo, numa onda meio série tosca de “vampiros”, mas o filme é sem dúvida, um tapa na cara das suas expectativas.

Recomendo.

PS. – Aline, eu sei que você quer a morte do negrito, mas eu não resisti.

Comentário: House M.D.

So… this is it.

os personagens principais das três primeiras temporadasOficialmente, uma série de Tv americana me escravisou durante mais de um mês, cujos dias eram gastos no vazio existencial dessa minha vida de merda quando eu não conseguia ver pelo menos um episódio. Durante semanas, dei minhas aulas, assisti outras tantas, almocei correndo pra pegar o ônibus de uma hora e ir pra casa ver House a tarde inteira.

Mas olha só: ironicamente, não consigo nem organizar muito meu pensamento crítico sobre a série. A sobrecarga é uma das culpadas, é claro. Afinal, seis temporadas, média de 4 episódios vistos por dia… Bom, qualquer um sobrecarregaria. Mas mais ironicamente, ainda me lembro de quando escrevi Drop Dead Diva, e eu gostava contra todas aquelas coisas sobre as quais eu consegui argumentar. Com relação a House, que é fantasticamente bem feito, atuado, etc, etc… Só consigo pensar em comentários pessoais e melosos. Será que tem uma lei dos opostos me sacaneando aqui?

Todos já sabem o básico da série: médico filho da puta espertão resolve casos magicamente, daquele jeito epifânico que só os Estados Unidos fazem por você. E adivinhem: Hugh Laurie, o protagonista, é inglês e enganou até a galera que estava fazendo o casting pra série, de tão bom o sotaque americano dele.

Já que eu sou incapaz de ser objetiva sobre algo que eu simplesmente venero, ok: notas breves sobre os personagens – ou os meus favoritos (mimimi o blog é meu, mimimi).

Foreman: no começo eu achava ele muito chato; mas tem sempre que ter um chato, porque senão tudo ser legal vira um saco, também. Claro que quando vi o episódio no qual a gente percebe que a mãe dele tem Alzheimer, eu tive um apelo emocional mais forte. Ô doença dramática filha da puta. Mas assim, ele é um House júnior, mas não sabe medir as atitudes dele muito bem. Tanto é que se fode no único relacionamento que ele tem durante a série, com a Thirteen. Tanto faz. Ele nem é meu favorito mesmo.

Chase: ôôôôôÔ, mas eu pegava demais esse cara! Hahaha. Sério. Todo mundo fala de pegar o House, que o House isso, o House aquilo, mas eu super prefiro o Chase. No começo ele não passa de um filhinho de papai puxa saco, mas ao longo das temporadas e do relacionamento com a Cameron ele se solta desses laços e se torna… Bem, nessa fase pós Cameron eu estou achando ele bem vazio, ou seja: em breve vai ter outra mulher pegando ele na série e não sei se vou lidar bem com isso. Fico com ciúme de imaginar.

Taub: uma chatura. Mimimi quero trepar com outra, mimimi ganho menos dinheiro aqui. Só é doido no episódio da sexta temporada em que ele fica doidão de Vicodin com o Foreman.

Thirteen: fui extremamente implicante com ela no começo, por ser a figura feminina que substituiu a Cameron no time na quarta temporada. E essa coisa de ser bissexual me deu um tédio tremendo, porque eu tive a sensação de que ela só é muito previsivelmente interessante. Quero dizer: sentença de morte em breve + bissexualismo? Ah, sim, esquecendo a parte em que ela é estupidamente bonita. Com o namoro com o Foreman eu passei a gostar um pouquinho mais dos dois, e agora acho que já me acostumei a ela, haha. Depois da fase doideira drogas sexo seguida de namoro, ela parece mais madura e eu até gosto dela.

Wilson: essa natureza dele de sempre ser bonzinho me dá más lembranças. Todo mundo gosta dele, e por isso eu desconfio. Claro que ele tem o mérito de ser muito foda no modo de lidar com o House. Mas sério, não sei como ele não fica muito entediado toda vez que o House tem uma epifania e sai da sala. Achou a vida emocional dele no lixo, como 90% das mulheres do planeta, e bem, onde está a história ele está em um remember com a primeira ex mulher. Definitivamente, o ápice dele foi a morte da Amber no fim da quarta temporada. A história foi fantástica e foi de matar qualquer um de chorar (eu sei que uma amiga minha quase se afogou nas lágrimas).

House: ah, ele é doido. Hahah. Quero dizer, não tem muito pra dizer dele, a série já é sobre isso. Mas o senso de humor é fantástico. E uma característica dele que se espalha para todo o enredo da série: as coisas nunca ficam OK. Às vezes existem lapsos de felicidade, como o casamento do Chase e da Cameron – que acaba – ou a noite dele com a Cuddy – que foi alucinação. Ah, aliás, uma frase fantástica pra se dizer pra alguém com quem se está apaixonado: “I always want to kiss you”. (favor citar a fonte quando usar isso na sua vida emocional) E mesmo, a única personagem com quem eu vejo ele dando certo é a Cuddy mesmo.

favorita!! <3Cameron: vai parecer que não, mas ela é minha favorita de todos os tempos. Eu sempre gostei demais dela e da atitude. Ela é decidida, corajosa, inteligentíssima: as melhores idéias são quase sempre dela durante as três temporadas e mesmo durante a participação dela nas temporadas em que trabalha na emergência. Não tive coragem de me livrar do episódio em que ela se droga e pega o Chase pela primeira vez. Nem o episódio no qual ela resolve se envolver com ele emocionalmente: aquela coisa da terça feira é algo que eu queria pra mim! LOL. Ela chegar e dizer pra ele: “é terça feira”, e ele: “Hm… não, ainda faltam algumas horas…” e ela: “eu não queria esperar”. Ê laiá! Mas ela tem uma falha de personagem meio triste: ela muda muito pouco ao longo da série. Quero dizer, o Chase e o Foreman mudam bastante, amadurecem, revisam princípios e atitudes. Ela se segura na ética com força demais o tempo todo, e mesmo quando sabe que o Chase matou o ditador africano, não acha que deve repensar seus valores, assumir um pouco menos de que ela está certa.  Ah, e só não deixei ela por último pra não ser clichê demais.

Cuddy: a super mulher! Cara, ela é demais. Manda no hospital todo, adotou a menina e ainda consegue abrir a cabeça o suficiente pra manter o House e as doideras dele, sem mencionar todos os outros inúmeros problemas que cuidar de um hospital acarreta. Nada mais normal do que ter pavor de se render àquela coisa toda que ela tem com o House. É lógico que pra gente que assiste a série, fica gritando na frente da tela “SE JOGA, FILHA”, mas se fosse com a gente, faríamos tão diferente? Se desse certo, não seria o House. A ex dele entendeu isso bem, exceto na parte em que chega a resolver voltar pra ele na segunda temporada.

Bom, é isso. Outras coisas chamam à atenção, esquecidos os clichês absurdos de série de hospital, que ficam pra outro dia. Mentiras são rotineiras nessa série, e o ateísmo do House não é só manifesto, como pregado, o que na minha opinião faz perder meio que o princípio. Oh, gosh, agora a coisa é esperar o próximo episódio. ❤

Emma, Jane Austen

Antes de mais nada, só queria comentar que mudei o cabeçalho ontem, com um pedacinho de uma foto que eu tirei há alguns meses. Adoro foco super macro, confesso.

Agora, ao que interessa. Jane Austen escreveu romances sobre mulheres, basicamente. E eu não culpo a maioria maciça dos homens por não gostar do que ela escreve, que é basicamente sobre senhoritas tentando arrumar um marido rico e que elas amem – porque as heroínas da Jane Austen só se casam por amor, embora maravilhosamente o amor seja rico na Inglaterra do século XVIII. Mas talvez vocês já possam desconfiar que tem algo por trás de tanta caçação de macho se eu disser que a própria autora nunca se casou, embora o casamento esteja em toda a parte de sua obra.

Desde que assisti um filminho chamado “The Jane Austen Book Club”, resolvi tentar fazer o mesmo dos personagens e ler todos os romances da Austen. Bem, eu já tinha lido Pride and Prejudice havia mais de um ano, então o mais legal de todos já estava descartado. De qualquer maneira, passei na biblioteca da FALE e peguei os que sobraram, pra trazer pra roça. Volto em dois dias e só li um deles. A meu favor, digo que antes li os livros que peguei emprestado com uma amiga, e comprei mais um, então não me persigam, ainda tem um mês inteiro de férias.

O caso é que esse primeiro romance que terminei é Emma. Eu o escolhi pra começar porque sabia que Emma é o que chamam em inglês de matchmaker, e que isso foi precursor de mil histórias de casamenteiros que não sabem cuidar das próprias vidas amorosas. Sim, você aí pensou no filme do Will Smith, né? Ok, o pop está em todos nós, entra na cabeça mesmo que a gente não queira. Tá de boa, pensei no mesmo. E GOSTARIA DE DEIXAR CLARO QUE TEM SPOILERS ABAIXO, OU SEJA, VOU CONTAR O FINAL! Estejam avisados.

O primeiro parágrafo já deixa claro que Emma Woodhouse é rica, bonita, e fora a morte da mãe quando era criança, não teve nada de relevante para entristecê-la: o sentido normal das coisas é cumprir a vontade dela. Emma tem 21 anos, cuida da casa desde jovem, porque a irmã se casou e se mudou, e ela se torna a única companhia do pai, que já está bem velho, quando sua governanta se casa. De acordo com Emma, o próprio casamento seria um arranjo dela.

Eu desenrolei o que acontece no primeiro capítulo. Emma resolve fazer amizade com a tal Harriet Smith, que é pobre e não sabe quem é sua família natural, (the natural daughter of nobody) e se empenha durante todo o livro para arrumar um marido para a amiga. Seu melhor amigo, irmão do cunhado e dono da mansão vizinha, Mr. Knightley, a censura desde o princípio por colocar idéias em Harriet que não condizem com seu lugar na sociedade.

De ler isso, parece que o Knightley é vilão. O caso é, NÃO; todos os personagens, unanimemente, concordam, ainda que silenciosamente, que o dinheiro dita quem pode se relacionar de qual maneira com quem, especialmente com relação a casamentos. Muitos são por dinheiro sim. Mas você acaba compreendendo que o casamento entre pessoas com diferenças econômicas acaba sendo muito improvável porque ricos e pobres simplesmente não se encontram, não se conhecem, e mesmo quando isso acontece, a diferença fica presente, como na cena em que Emma vai fazer sopa para uma família muito pobre e Harriet a acompanha. Isso fica mais forte ainda na adaptação para o cinema de 1996, que tem a Gwyneth Paltrow no papel principal.

Gwyneth Paltrow como Emma Woodhouse, em 1996

Alguém muito mal educado fez anotações violentas no livro em que eu estava lendo, e como sou curiosa do jeito ruim, li uma parte que falava sobre Emma ser uma comédia dos erros. As dicas para o que realmente acontece à volta de Emma estão lá o tempo todo: você vê Mr. Elton dando em cima dela o tempo todo, e não de Harriet. Você vê que depois ela não se apega ao Frank Churchill, mesmo que a Emma já tenha percebido que não gostou dele realmente. E a essa altura você já começa a prestar muita atenção no Knightley falando: “Brother and sister? No, indeed!”, se referindo a Emma. Porém, ela simplesmente não vê. “Eu pareço condenada à cegueira”, ela confessa a ele, quando, no fim do livro, os dois finalmente se declaram mutuamente.

E como tudo dá errado nas previsões da Emma, o que estaria errado nesse momento maravilhoso? Hã? Harriet Smith tinha confessado amar Knightley, dias atrás! Aiai… Sim, tudo dá errado pra Emma, mas pra aquecer o coração da gente, ela acaba se dando bem no final, casando com Knightley e tudo o mais.  Engraçados esses finais felizes da Austen, porque ela própria não foi assim. E outra coisa: os dois galãs que eu já vi dela são meio rudes. Será que ela, como eu, desconfia dos bonzinhos demais? Sei lá, vai ver ela entende uma certa hipocrisia em bons modos eternos. Enquanto Emma tenta mascarar sua desaprovação da Mrs. Elton, Knightley nunca finge gostar de Frank Churchill – mais por ciúmes, mas ainda assim.

Outra coisa: vale questionar as relações secretas a partir desse romance. Confesso que não imaginei o noivado secreto da Jane Fairfax com Frank, já que ele gastou tanto tempo falando mal dela pra Emma e dando em cima da Emma tão violentamente!

Bom, o que vale dizer é que o livro tem trechos maçantes, mas acaba sendo ótimo, e te prende. Só mais um paralelo com Pride and Prejudice: os dois, Darcy e Knightley, tem uma frase de impacto, romântica, que me derreteram e me fizeram virar uma mulherzinha boba suspirando pelo príncipe encantado. Eu sempre quis ouvir o Darcy falando pra mim: “I love you. Most ardently.” Sem falar que no filme ficou ainda melhor! O Knightley, por outro lado, diz  “I cannot make speeches, Emma. If I loved you less, I might be able to talk about it more”. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh.

Sobre as adaptações: vi duas. Uma pra TV, muito mais ou menos, deletei assim que vi. Mas achei que ela acertou em coisas que a adaptação pro cinema errou. O Mr Knightley da TV era mais rude, mais durão, enquanto o do cinema era um pouco príncipe encantado demais. A Harriet da TV também parecia mais a menina inocente e boba, embora a atuação da Tony Collete pra cinema seja muito boa (mas eu confesso que mesmo que não fosse boa eu gostaria, afinal a Tony Collete é mãe da Little Miss Sunshine! hahaha.) A Emma-Paltrow é muito boazinha, a Emma-TV (esqueci o nome) é malvada demais. A fotografia e montagem pra TV são horríveis, as do cinema são melhores. A Miss Bates pra cinema é ótima, e irritante como a do livro. Aliás, PUTS! Eu pulava a maior parte das coisas que a Miss Bates fala no livro, porque a fala dela sempre terminava na página seguinte, quando saía algo de interessante…

Mas então, é isso, eu recomendo. É uma leitura que exige paciência, e compreensão, o ato de tentar pensar como as pessoas daquele contexto, porque a nossa vida é loucamente diferente hoje. Qualquer generalização que fiz sobre toda a obra que estiver errada e apenas diga respeito aos dois romances que eu li, perdão desde já.

Gente, mil e duzentas palavras! Isso podia ser um essay pra faculdade! Agora é só esperar eu fazer uma matéria que leia esse livro…