Mulheres em tradução de notícias

No mês passado, terminei a Letras. Falar isso parece inacreditável, especialmente se você viu meu post sobre o que sinto toda vez que penso em me formar, mas não é esse o assunto de hoje – especialmente porque antes da colação de grau, a gente meio que se sente mentindo falando que formou.

A minha monografia foi defendida no mês passado, e o tema dela, creio eu, vale pelo menos um post de blog, não é? Hahaha.

Basicamente, um dia eu encontrei uma notícia sobre a Casey Anthony na BBC, e depois vi sua tradução na BBC Brasil. O texto em inglês exibia uma parte dizendo “Anthony, wearing a pink button-down shirt and her hair tied back in a pony-tail, wept when the not guilty verdict was read”, enquanto a versão em português dizia “Ao ser inocentada das acusações de assassinato e abuso, Casey chorou.” Estranho, não? Vale lembrar que ambos artigos tinham uma imagem dela, com o look descrito, mas essa parte da frase simplesmente não aparecia no texto em português.

Isso gera inúmeras perguntas, não é? Será que notícias em inglês objetificam mais as mulheres? Será que a aparência delas é mais importante lá do que aqui? Será que o tradutor achou irrelevante? Será que isso não se faz? Como as notícias lidam com essas marcas de gênero em notícias?

Bem, isso gerou meu projeto de pesquisa. Feito isso, resolvi coletar amostras, formar o que a gente chama de corpus: textos de notícias, em inglês e traduzidos para o português brasileiro, para ver se esse tipo de coisa acontecia, ou se o par que eu tinha encontrado era apenas uma exceção. Como a monografia leva apenas um ano e o período para coletar os textos foi de apenas três meses, só consegui 22 pares de textos, e também porque é mais difícil do que parece achar notícias que tenham no seu centro de informação uma mulher, ou mulheres como coletividade.

Vale lembrar, antes de eu dizer o que encontrei, que tradução de notícias é uma coisa muito complicada no mercado de hoje. Não existe regulamentação para isso; muito frequentemente, quem traduz essas notícias são os próprios jornalistas, e o intervalo de tempo entre texto em inglês pra texto em português varia entre três horas e um dia. Por causa das infinitas variáveis que podem envolver a produção essas traduções, a gente só pode especular os motivos, mas mesmo assim temos resultados.

Vejam bem: esses 22 pares acabaram estabelecendo dois padrões muito curiosos. Uma parte deles, a maior parte (14) foram traduzidos de um jeito quase engraçado: frase a frase. Tipo assim:

Source text: “It’s bad,” Erin M. Carr-Jordan said, swab in hand, as she collected samples from a surface that she would later deliver to a lab for microbial testing.

Translated text: “Está ruim”, disse Erin M. Carr-Jordan, com um cotonete na mão, enquanto coletava amostras da superfície para entregar a um laboratório que realiza testes microbianos.

Meio esquisito, né? Dá pra ver que a pessoa simplesmente foi olhando, palavra por palavra, e digitando traduções. A maioria dessas traduções era meio esquisita de ler, porque tinha construções que deixavam bem claro que aquele texto tinha sido escrito em outra língua – idéia essa que a gente aprende a tentar evitar ao traduzir.

Porém, o que é mais interessante nem é isso: é que esse tipo de tradução era mais frequente em tipos específicos de notícias – o que chamam na área de hard news: política, economia e crime.

Por outro lado, ainda que menos ocorrente nos meus dados, houve um número de traduções que eu chamei, pra tentar não dar julgamento de valor, de tradução a nível textual. Aí que é fica o centro das bizarrices:

Source text: Tributes are coming in from around the world.
On Twitter, Tinchy Stryder said: “My thoughts go out to her family and friends. RIP Amy Winehouse.”
Katy B said: “So sad. Such an incredibly talented woman. R.I.P Amy such an inspiration, my heart hurts.”
Jessie J said: “The way tears are streaming down my face – such a loss – RIP Amy.”
Lily Allen, who rose to fame around the same time as Amy Winehouse said the death is “just beyond sad”.
She added: “There’s nothing else to say. She was such a lost soul, may she rest in peace.”

Translated text: O crítico de música do jornal Daily Telegraph se disse chocado pela morte da artista. “É o mais trágico desperdício de talento que consigo lembrar.”
Sua última aparição foi na noite de quarta-feira, quando se apresentou ao lado da cantora de soul Dionne Bromfield, na The Roundhouse, uma casa de shows em Camden.
Ela havia sido liberado havia pouco de um programa de reabilitação e estava sob regras severas para não beber.”

E sim, esse par é sobre a morte da Amy Winehouse. Eu peguei o final do artigo pra vocês verem que loucura. Os pares que foram traduzidos dessa forma até desafiam, na minha humilde opinião, o conceito de tradução; porém, aceitei como tradução esses textos porque apesar de diferirem loucamente em partes como essa, compartilhavam as informações centrais, como data, evento, horário, etc etc, sem mencionar o fator prático de que esses textos tinham grande proximidade cronológica com a publicação do artigo fonte.

O problema é: por onde começar? hahaha

A gente aprende na faculdade que a tradução a nível textual é ideal, porque considera fatores extratextuais: contexto, público alvo, possíveis diferenças culturais, adaptações, etc. Porém, (e no blog eu posso dar juízo de valor e que tudo se exploda), nas notícias a gente vê uma prática completamente irresponsável desse método de tradução. Frases e parágrafos muitas vezes foram omitidos, as informações trocadas de lugar, sem mencionar esse exemplo acima, que ilustra bem claramente o que acontece quando você traduz uma notícia de forma irresponsável: quando você lê o texto fonte, sabe que uma cantora muito talentosa foi encontrada morta, que não se sabe o motivo e que outros artistas estavam mandando mensagens de luto; ao passo que no texto brasileiro, Amy poderia perfeitamente ser mais uma celebridade decadente, que já não cantava ou mostrava talento há tempos – se você olha os artigos inteiros, a menção de seu Grammy é estrategicamente movida – , sem mencionar que provavelmente não passava de uma bêbada.

O problema das notícias é que elas não precisam dizer essas coisas explicitamente para que elas causem essa impressão nas pessoas. Na verdade, se elas dessem sua opinião de forma óbvia, a chance dos leitores chegarem às mesmas conclusões poderia até ser menor. Nos meus pares de textos, isso aconteceu várias vezes. Casey Anthony, a mulher que foi inocentada de matar a filha, em inglês foi liberada por “dúvida razoável”, ou falta de provas. Em português, a insistência em falar de sua vida de festas acaba dando a clara impressão de que, em português, Casey só se deu bem.

Idealmente, é claro, as notícias não deveriam nos passar essas opiniões, não é? Pois é, mas passam. O contraste facilita que isso seja visto. E existe muito mais gente do que gosto de admitir que lê as notícias sem questionar a escolha de assuntos ou o tratamento deles. E isso acontece todos os dias. Vemos a polícia invadindo comunidades, expulsando gente pobre das suas casas, funcionários em greve de diversas categorias, enquanto as grandes mídias apenas falam do trânsito, porque é isso que sociedade do deus Carro pagando estacionamento no deus Shopping quer ouvir.

Mas calma, não terminou: essas traduções foram mais frequentes com outro tipo de notícia, soft news, que compreende artes, vida dos famosos e estilo de vida.

Muitas outras perguntas surgem desse resultado. Existe hierarquia entre os tipos de notícias? Soft news não precisam tanto que as informações tenham a mesma ordem do texto fonte? Será que porque soft news são estereotipicamente femininos, elas importam menos e qualquer bricolagem resolve o problema? E por que hard news é consistentemente traduzida por uma versão cafeinada do google tradutor?

Infelizmente, os dados da minha monografia não são suficientes pra responder a essas perguntas, e se valeram pra alguma coisa, foi pra gerar mais perguntas ainda. Agora o que resta é criar um projeto de mestrado que olhe tudo isso mais a fundo.

No meio tempo, vocês deveriam ver esse documentário, MissRepresentation, que fala sobre a exploração da figura da mulher na mídia dos Estados Unidos. Vocês ficarão surpresos – e deprimidos – com o volume de informações dele.

Minha monografia foi escrita em inglês, porque me formei em inglês. Quem tiver interesse no pdf, é só falar comigo.

Boletim 2012

Não vou reclamar, não. Finalmente tive uma parte pra comer lasagna quatro queijos, tomar umas cervejas vendo Chocolate com Pimenta.

Bem, por quê? Finalmente estou de pseudo-férias!

Falando em pseudo, qualquer coisa depois que a gente entra na dita vida adulta é pseudo. A gente fala que está de férias, mas está dando uma aulinha por dia. Fala que tem dinheiro, mas só pode gastar no máximo uns 20 reais por dia, depois de pagar as contas. Fala que não tem nenhum trauma de passado e que é uma pessoa madura, mas quando está ouvindo música e filosofando no ônibus você só consegue lembrar dos piores momentos dos piores relacionamentos, sem mencionar aquela voz dentro da cabeça dizendo que a gente devia mesmo voltar pra academia.

É isso que é vida adulta? Não que isso seja uma surpresa, mas não é lá muito divertido.

E dado que eu nem tenho 24 anos ainda, às vezes eu me sinto velha demais pra minha idade. Minha mãe está sempre dizendo sobre como eu levo as coisas a sério demais (ainda que nesse momento eu esteja rindo de outra daquelas inúmeras cenas de Chocolate com Pimenta em que todo mundo enfia comida na cara uns dos outros). Eu nem concordo, nem discordo, mas assumo que muitas vezes eu sou uma pessoa muito rancorosa e que tenho dificuldade de perdoar as pessoas. E não conseguir perdoar os outros não é nada menos que arrogância, porque eu também faço merda.

Esse semestre eu dei muitas aulas, e questionei muito a minha capacidade de ensinar. Acho que você tem que ser uma pessoa mais feliz, mais animada, mais inabalável pra ensinar inglês nesse método que está em voga hoje em dia.

Também escrevi minha monografia, afinal. Lembram daquele post sobre a formatura? Pois é, esse dia está chegando mais e mais perto, e estou com dificuldade em manter coerência!

Ensinar

Se você não está na área, existe uma boa chance que o seguinte comercial de uma “escola” de inglês online veiculou recentemente:

Comercial Open English

Eu não vou nem render nos quesitos óbvios e na crítica que já está dispersa pela internet. Mas esse comercial, além de ter uma quantidade absurda de conceitos errôneos sobre ensino de língua estrangeira, me fez pensar no que estou vivendo agora que me tornei uma “professora de verdade”, com carteira assinada e muitas turmas/alunos de níveis diferentes.

Digamos que eu já me achei uma professora melhor. Não sei dizer se isso acontece porque o número de aulas que eu dou triplicou, se é porque estou usando um material com o qual não acabei de me acostumar – em comparação com o material na escola que eu trabalhava antes e usei por mais de 2 anos. Mas ao invés de ficar inventando desculpas, vou só explicar porque me sinto uma professora pior.

O cansaço realmente bate na gente, digamos, na quarta turma do dia, ou na terceira. Você perde o idealismo de “não existe aluno ruim, existe professor ruim”. Você tenta, tenta, traz materiais extras, vídeos, etc. Jura a si mesmo que sua turma de básico 1 não vai ouvir uma palavra em português. Dali a um mês, ou menos, você começa a ver a expressão de alguns alunos como se fosse um espelho. Por que eu estou fazendo essas mímicas? Por que eu estou cumprimentando com esse louco entusiasmo? Eu não preciso fazer isso. Ou preciso?

Às vezes eu me pergunto uma coisa, que acho até comum se perguntar, mas… E se eu não for boa de verdade em nada? E se eu for só uma professora OK, uma estudante OK, talvez no futuro uma mestranda OK? Não sou a pessoa mais ambiciosa do mundo, mas faz umas semanas que isso está me incomodando demais. Será que não tem nada em que eu seja boa de verdade?

Filme: Swedish Auto

Antes de falar do filme em si, gostaria só de dar uma dica: caso vocês ainda não conheçam o Netflix, bem, vocês deviam conhecer. Basicamente, você paga quinze reais por mês, debitados na maior simplicidade do seu cartão de crédito, sem documento nenhum, e tem acesso a todo o tipo de filme e série, até documentários, pra assistir online, todos devidamente dublados e/ou legendados. Ele te mostra na página inicial sugestões de filmes conforme você marca suas preferências de gênero e tal. O carregamento é super rápido. A única desvantagem é que ele não tem material muito novo. Algumas séries não tem as temporadas mais recentes, é só. Mas o acervo é grande o suficiente pra te manter entretido até eles conseguirem o material mais novo, sem dúvida.

Bom, vamos ao filme!

Swedish auto se passa principalmente no espaço da oficina mecânica, que leva o nome do filme, onde trabalha um rapaz que, pra resumir bem, é um stalker. Ele é muito solitário, mora sozinho e seus passatempos principais são observar a rotina de uma violinista. Ele almoça todos os dias no mesmo lugar com o dono da oficina e o palhaço do filho dele. Carter assusta no começo.

Mas o motivo principal que eu dou pra vocês verem o filme é a excelente reviravolta que ele dá ainda no começo. Outros temas inesperados são incluídos na trama, os personagens são aprofundados e você se percebe entrando em desespero com as situações, sentindo emoções muito fortes. É um filme de muita empatia, pelo menos pra mim.

A trilha sonora é excelente. Tão boa quanto ela, só os silêncios. Quando os personagens estão em silêncio e a cabeça da gente ferve com tudo que eles devem estar pensando naquele momento. É muito intenso. Ao ler o resumo, fica só parecendo um elogio ao stalkerismo, numa onda meio série tosca de “vampiros”, mas o filme é sem dúvida, um tapa na cara das suas expectativas.

Recomendo.

PS. – Aline, eu sei que você quer a morte do negrito, mas eu não resisti.

Comentário: Grey’s Anatomy

Grey’s Anatomy, vou resumir aqui, é uma história ruim.

Sendo assim, por que ela é tão viciante?

A minha hipótese, que vou tentar elaborar um pouco aqui, é de que ela se vale de um elemento fácil de conseguir identificação pra que a gente se transfira pros personagens. Feito isso, os responsáveis pelos roteiros colocam os personagens em todo tipo possível de carrossel de emoções, e nós nos deixamos ir, por causa daquele sentimento nostálgico de quando você começou a ver a primeira temporada.

Pra quem não sabe, Grey’s Anatomy é uma série médica, com um subtema que eu gosto de chamar de “putaria”. O nome tem a ver com a personagem principal, Meredith Grey, que termina o curso de medicina e vai fazer internato em um hospital de Seattle, onde sua mãe, também cirurgiã, trabalhou. Como essa mãe é uma lenda, os desafios iniciais se resumem a não fazer merda e não desgraçar o nome da mãe. O problema é que ela não é muito carismática. Ela é meio seca, e dura, e os primeiros episódios são meio desagradáveis porque nós observamos enquanto cada personagem que possui um pênis quer ela loucamente. Entretanto, desde o primeiro episódio ela tem um romance tórrido com um dos médicos atendentes, um neurocirurgião.  Ou seja, na primeira temporada já vemos pessoas se pegando em todo lugar do hospital.

Então você me pergunta, onde está aquele elemento de empatia? No fato de Meredith e outros quatro personagens estarem começando a carreira na medicina. Os outros personagens, a início todos muito mais interessantes do que ela, são George, Cristina, Izzie e Alex. Quando alguém se forma na medicina, é claro que as pessoas não são simplesmente jogadas numa sala de operação pra cortar gente, então eles tem três anos de internato antes de poderem chegar perto dos pacientes. Esse começo, o medo de falhar, e a alegria que a gente compartilha com os personagens, especialmente com o George, quando eles fazem algo certo, é realmente sensacional. No meio tempo, o romance vai ficando bagunçado. Na segunda temporada, quando aparece uma das minhas personagens favoritas, Addison Montgomery, você começa a se perguntar se não está na hora de parar de ver aquela pegação disfarçada de série médica. Mas aí aparece Denny Duquete, que cria toda a tensão da segunda temporada. Antes que você perceba, aqueles internos estão fazendo coisas muito loucas e eticamente questionáveis. Os cliffhangers às vezes são óbvios, mas mesmo assim você se percebe correndo pra baixar o próximo episódio.

Christina e Meredith

No começo da terceira você ainda está sem fôlego por causa do final da segunda. É quando o foco muda mais pra questão Cristina e Burke… Estou tentando não dar spoilers, mas comece a ver como a história começa a deixar de ser sobre a carreira médica deles, e sobre as estripulias de uma galerinha da pesada num hospital pra lá de maluco. O problema é que a essa altura do campeonato, já é difícil não querer saber se a Meredith e o Derek vão ficar juntos, se a Cristina vai se casar ou não, depois você fica torcendo pelo casório… Nessa série, você acaba interessado nos personagens, e acaba que o enredo é ruim, mas mesmo assim você assiste. É que o personagem te prendeu. A história é péssima, mas aquele personagem te tem nas mãos. No caso de Grey’s Anatomy, vários personagens te tem nas mãos. Eu particularmente sempre fui entusiasta da Bailey, da Addison e da Cristina. Quando mexiam com elas eram os momentos de maior vício. Você continua se perguntando por quê, afinal, a série leva o nome da Meredith…

A terceira temporada termina, com oh-meu-deus-drama-drama-drama. E a quarta, mais curta, tenta repuxar a simpatia original, porque aqueles médicos agora são residentes! Mandam em novos internos, sobem na cadeira alimentar, e começam a pôr a mão na massa. Além disso, agora os personagens já tem muita bagagem emocional, o que significa que o expectador tem uma idéia muito mais clara de como eles vão reagir a determinadas situações, o que transfere pra gente uma nítida sensação de que aquele personagem realmente existe, está ali no nosso dia a dia. Não num nível Goku de ser, eles não precisam que você erga as mãos para o céu nem nada, mas vocês entendem o que eu quero dizer.

Depois da quarta temporada as coisas melhoram. O enredo não fica mais criativo, mas os personagens já atingiram um nível bem avançado de profundidade… Alguns deles. Por isso o drama fica mais intenso, o que com certeza era a idéia inicial, mas o melhor de tudo é que eles podem ser vistos crescendo como seres humanos. Entre a quinta e a oitava temporada, temos casamentos (eu consigo pensar em uns 4…), filhos, perda de filhos, gente morando junto…

Sem dúvida a melhor season finale é a da sexta pra sétima, porque simplesmente você não enxerga uma forma daquelas coisas darem certo. A tensão é grande e eu gosto das atuações, especialmente da atriz da Meredith. Inclusive, a essa altura você gosta dela. Porque ela já cometeu muitos erros, e ela se torna mais humana, mas mesmo assim continua competente, e o número de homens interessados nela acaba caindo de  36458369456834 pra um. O contraste com o subtema “putaria” das primeiras temporadas se consolida como “relacionamentos”. Ou seja, gente tentando viver junto, lidando com família e trabalho, tendo filhos, tendo problemas sérios, e ocasionalmente sendo super heróis com os pacientes.

Só pra concluir esse comentário, eu sempre escolho um personagem favorito e pra mim é Miranda Bailey, sem dúvida. Ela começa como uma residente, chefe dos internos que estrelam a série. Durona, super competente, se faz ouvir, mas mais importante, não se mete em rolos sexuais pelo hospital. Ela é focada no trabalho, mas luta o tempo todo pra manter a sua família. E putz, ela é engraçadíssima.

Desculpa, mas só mais uma coisinha: o que foi aquele episódio HORROROSO, que parece que saiu do Glee, na sétima temporada, com todos os personagens cantando? A vergonha alheia foi tão grande que eu precisei pular, e olha que naquele episódio a Addison vinha de Los Angeles.

Vou deixar vocês com essa entrevista da Sandra Oh, que faz a Cristina:

E da Bailey:

Ars Bloguetica

Esse mês o ThePavania completa dois anos de existência. É meio patético que eu esteja contando, mas achei que o primeiro post de 2012 deveria ser sobre como esse é o terceiro janeiro em que posto aqui.

Claro, se você tiver a infelicidade de olhar os registros anteriores, aviso já que não pertencem originalmente a esse endereço: eu tive pena de perder os posts em um blog vergonhoso da adolescência – porque, afinal, todos os blogs da adolescência são vergonhosos.

A coisa mais importante que eu aprendi mantendo o ThePavania foi que eu não quero, decididamente, ter muitas visitas, nem ter popularidade online. A princípio, eu sei que isso parece paradoxal, mas é porque a gente acaba pensando que se alguém publica alguma coisa na internet, é porque ela deve ser lida. Bom, eu não nego que eu quero que os textos sejam lidos, mas acho que visibilidade mataria todo o propósito.

Até porque, para abarcar uma grande população de leitores, eu teria que ter pelo menos alguma constância na escolha dos meus temas. Isso foi um problema quando eu comecei e não sabia bem o que estava fazendo. Deveria escrever só sobre feminismo, ou só sobre literatura, ou só sobre fantasia, ou só sobre política, ou só sobre viagens… E acabou tudo virando uma miscelânea.

Quando você tem muitas visualizações, você adquire uma responsabilidade com relação aos seus leitores. Os interesses deles devem ser considerados. Você tem uma platéia. Isso não é ruim, porque é poder pra comunicar muitas coisas importantes, mas uma abordagem dessa significaria diminuir o conteúdo pessoal do meu blog. E sempre que eu penso sobre o que colocar aqui e tenho dúvidas por ser sobre mim mesma, acabo lembrando do dia em que eu postei a história da Lara. A velha história do “o blog é meu e eu escrevo o que quiser”, pra minha alegria, se aplica a mim, mas não a pessoas como, sei lá, a Lola. Aqui eu puxo um Homem Aranha e lembro vocês de que com grande poder vem grandes responsabilidades. Aqui, estou escrevendo pra amigos e pra poucos conhecidos. Se eu quiser colocar um fluxo de consciência xingando todos os homens que já deram mancada comigo, ninguém liga, sou só mais uma voz falando quase sozinha na internet. Mas quando se tem visibilidade, há consequências. As pessoas formam opinião a partir do seu surto de reclamação de homens. E acho que prefiro o sossego daqui do jeito que está.

Houve um começo em que eu me sentia tentada a postar sobre discussões da internet. Coisas que davam ibope, como postar alguns motivos pelos quais Justin Bieber é um péssimo cantor ou pelos quais a série crepúsculo envergonha todo um gênero literário, sem falar de vários arquétipos. Aprendi a tentar sempre ter uma das duas abordagens: ou falar por crer que eu realmente tinha algo a acrescentar, ou porque eu precisava mais era discutir o assunto comigo mesma pra consolidar a minha própria opinião.

Isso tem muito a ver com um hábito passado de escrever em diários. Escrevi dos 9 aos 19 anos, tudo com uma riqueza humilhante de detalhes. Ainda que eu tenha parado, sempre precisei de algumas outras formas mais brandas de gravar a minha existência, o que no meu subconsciente deve ser uma tentativa patética de me imortalizar. Mas sem análise hoje: isso tudo foi só pra dizer que eu acho que escrevo bastante em blogs porque sou ligeiramente viciada em escrever em primeira pessoa.

Um último motivo é que eu não quero parar de escrever completamente. Quando leio uns textos de uns 4, 5 anos atrás percebo que eu escrevia muito bem, e seria muito triste só deixar de escrever.

Muitas reflexões pra esse começo de ano. Evitem os traumas, as más lembranças, tomem gin tônica e sejam felizes que ano bissexto é mais legal.

Viciados em Opiniões

É possível que alguém tenha opiniões demais?

Antes que você me diga que isso é uma pegadinha, porque parece, mantenha a calma. Sei bem que só de discutir o fato de que “opiniões demais” existem, já estaremos sendo muito paradoxais. Mas vamos tentar ignorar um dos dois únicos traços estilísticos da minha escrita nesse blog (o outro é falta de planejamento de texto).

Esse problema é muito comum nas humanas. A verdade é que nós nunca queremos estar errados. Nós nos damos bem com as palavras, e não nos cansamos de usá-las, mesmo que seja em situações nas quais elas são inúteis, repetitivas ou redundantes. Na verdade, esse traço de personalidade é que o nos faz perceber que pertencemos a essa área, antes mesmo de fazer o vestibular. Enquanto os professores de Geografia, de História e de Literatura insistentemente nos dizem pra questionar o que está em torno da gente, pra sempre suspeitar das fontes de informação, aprender a fazer as perguntas certas, é bem verdade que pouca gente acaba carregando isso. No caso particular dos alunos da UFMG, as pessoas que acabam criando esse vício em crítica e dissecação de argumentos acaba indo pra FALE, pra FAFICH e alguns pro IGC.

Mas a verdade é, opinião demais às vezes é uma coisa que enche o saco. Eu e meus amigos mais próximos temos esse problema. Ninguém nunca está errado. Nunca. Mesmo se eu quiser comprar um sutiã preto e a Aline achar melhor eu comprar um, sei lá, azul. Quem ouve conversas entre seres como nós deve pensar que estamos tentando salvar alguém do corredor da morte.

Eu não me lembro sempre de fazer isso, mas às vezes, em conversas, eu apenas me sento, apoiada no encosto – outro traço dos que tem opinião pra tudo: quem se inclina pra frente, põe os cotovelos na mesa de bar, pode ser um de nós – , respirando fundo. Sabe por quê? Às vezes é impossível conseguir uma brecha de meio segundo pra começar sua frase. É engraçado como o processo de turn-taking, essa coisa de quem fala depois de quem, pode ficar complicada quando seres das humanas estão discutindo algum assunto. Todos nós, veja bem, todos nós temos uma perspectiva. Mesmo se não tivermos opinião formada, vamos dizer: “Ah, mas uma vez alguém me disse que achava isso assim e assim”, só pra contribuir pra conversa e tentar validar (ou não) aquela opinião que você conhece, mas ainda não sabe se concorda. Às vezes nós ficamos bravos uns com os outros, porque não nos deixamos falar.

Estar errado é… ARGH! Impensável.

E olha que até agora eu apenas me ative a conversas de bar. Quando você está lidando com seres que compartilham o seu funcionamento, mas não são seus amigos… Ah, aí é guerra. Em discussões em sala de aula. Quando alguém com dificuldades cognitivas (momento eufemismo) ergue a mão numa aula de literatura inglesa e diz: “I think it’s ironic…”, em discussões políticas. Em reuniões! Nós nos sentimos compelidos a fazer algum pronunciamento. Mesmo que não seja a melhor opinião na mesa, queremos por tudo que ela não seja a pior.

Eu, particularmente, tenho esse sintoma agravado porque tenho problemas com ansiedade. Problemas sérios. Tá, não tão sérios. Mas digamos que eu PRECISO ser a primeira pessoa a entrar num ônibus, então quando ele se aproxima, eu faço mil contas e me posiciono sempre de forma que as portas abram bem na minha frente. Não consigo atrasar, me sinto mal, é quase físico. Quando tenho que acordar cedo pra um compromisso, como trabalhar, eu não durmo, porque minha cabeça continua a mil na escuridão, calculando todas as possibilidades de eu dormir demais e me atrasar, ou de tudo dar errado. Quando vou viajar, compro passagens com antecedência que varia entre dois meses a uma semana, mesmo quando há muitos voos, ou ônibus. É doentio.

Resumindo, pra gente é ainda mais difícil. Existem forças, plural, em ação para que você tente por tudo estar certo. Estar certo é uma droga. Deixa você preso numa nuvem de conforto, felicidade e arrogância, pra poder rir das opiniões ridículas dos outros. É um lado negro nosso.

Nas redes sociais, somos facilmente identificáveis. Na verdade, nas redes sociais um olhar aguçado pode até detectar gradações do vício. Sabe aquelas pessoas que sempre estão entrando em grandes argumentos? Que sempre estão em uma polêmica, mais ou menos entre a segunda ou terceira página do seu news feed? Gente que posta comentários com dois, três parágrafos, quando qualquer pessoa sã simplesmente pensa consigo mesma, “tl;dr”? Pois é. Somos alvos frequentes de trolls.

Agora, essa é particularmente pra quem compartilha desse meu problema: crianças, isso é desgastante. Respirem fundo. Tomem mais dois goles de cerveja, ponham as pernas pra cima. NÃO responda a trolls. Não responda a qualquer pessoa. Conheço gente que passa horas inteiras pesquisando perfis online de desafetos e entrando no tipo de discussão que eu acabei de descrever no parágrafo acima. Isso envelhece, viu? Eu sei que fomos treinados pra fazer isso por anos. Nós debatemos em sala de aula. Somos treinados durante a graduação e todos os níveis da pós pra criar teses que não tenham falhas. Mas pelamor, uma discussão sobre o se o estilo do Neymar é ridículo não precisa desse tipo de entusiasmo. Tenhamos calma.

Mercado de Trabalho, meu novo monstro

Um dos desafios aos quais eu me propus nos últimos seis meses foi trabalhar para entrar finalmente no mercado de trabalho.

Sim, o temiiiido mercado de trabalho. Aquele do qual quase todo bacharelando tem horror. Todo concursando tem horror.

Na verdade, eu não conheço ninguém que ache o mercado de trabalho a coisa mais divertida.

Desde antes do vestibular, a escola particular, pra me preparar para o mercado de trabalho. Eu tinha que saber coisas que não tem nada a ver hoje com a minha profissão, como química, física e biologia. Me disseram que eu ia precisar de tudo que eu conseguisse lembrar no mercado de trabalho, mas até hoje esses conhecimentos só tiveram duas utilidades: ganhar várias vezes todos os programas tipo Show do Milhão repetidas vezes, sentada no meu sofá e impressionando meus pais, e vomitando conhecimento inútil depois de algumas cervejas, o que acaba gerando nas pessoas à minha volta a impressão errônea de que eu sou uma pessoa mais interessante do que pareço.

Na universidade, a gente descobre que se conseguir ser nerd o suficiente, não vai precisar passar pelo mercado de trabalho. Vamos formar, fazer mestrado e doutorado com bolsas, olha que simples. Esse sempre foi o meu plano desde uma tentativa ridícula de ser monitora do que eu depois descobri ser uma horrível escola de inglês do centro de BH, em 2008.

O que a gente de fora sabe do mercado de trabalho? Que ele é a quintessência do capitalismo. A qualidade do serviço nem sempre importa. Os resultados nem sempre importam. O que importa é o quanto você consegue demonstrar gratitude e admiração pelo dono de qualquer que seja o estabelecimento onde você trabalha. Resultados e competência são secundários. Outra coisa muito comum no mercado de trabalho: entrevistas de emprego.

Entrevistas de emprego são uma amostra nojenta do que você está enfrentando. É o que faz você perceber que você está sinceramente se esforçando pra vender a sua dignidade. Aquela pessoa senta na sua frente, com uma prancheta, um papel em branco, uma caneta e uma poker face. É aqui que elas testam a única coisa que elas realmente querem testar para assinar ou seu contrato ou a sua carteira:

“Por que você quer trabalhar pra gente?”

E gostaria de informar, que por mais que eu queira, por mais que eu tenha me prometido nos últimos anos, ainda não consegui ter as bolas pra responder “Pra ganhar dinheiro”. Porque é isso que você quer responder, mas você tem que dizer que a empresa é muito respeitada, tem um grande know-how, é indicada pelos seus colegas de profissão, bla bla bla.

Algumas são menos imbecis; menos imbecis porque nelas, pelo menos, a pessoa que te entrevista leu seu currículo. E, mais impressionantemente, porque às vezes eles querem mesmo discutir seu currículo. Aí é lindo. Mas quase nunca é assim. Por exemplo, recentemente eu fiz uma entrevista na qual me pediram para dizer o que eu faria em uma série de situações vagas e sem nenhuma restrição. “quando você ensinou algo novo a alguém”, “quando você lidou com alguém que estava sendo anti-ético” (ainda tem hífen?), “quando você resolveu que precisava seguir adiante”. E juraram que só queriam que eu respondesse com sinceridade.

Sinceramente? BULLSHIT.

Algumas pessoas tem facilidade de fazer elogios que não foram merecidos. Por mais eu condene, não deveria, porque isso faz com que elas tenham um emprego e eu não (não que eu esteja desempregada, vocês entenderam).

E mesmo que você passe pela grande análise de puxa-saquismo, você segue para um primeiro mês no qual todos os olhos estão em você, te esperando fazer cagada. Pra quem trabalha no ensino de língua como eu, isso te coloca muitas vezes em situações ridículas, porque no Brasil os alunos tem uma grande dificuldade de te enxergar como uma autoridade acima deles. Já que eles pagam, eles acham que mandam em você. As escolas de inglês no Brasil – e aqui eu não faço exceções, porque ainda não conheci uma – não só não combatem essa idéia, como incentivam. Reclame sim, por favor. Seu professor falou muito inglês em sala de aula? Pois é, imagina só, um professor de inglês que realmente fala inglês!

Quem dá aula em escolas, não cursos livres, passa por um inferno todo deles. Porque além de serem subordinados de grupos de 20 a 30 adolescentes mimados, ainda recebem outra responsabilidade que não lhes pertence, que é a de educar os filhos dos outros. De gente que tem filhos, mas que acha que o único lugar onde eles precisam aprender qualquer coisa, inclusive humanidade, é dentro dos quatro muros da escola.

Esse post todo zangado é pra dizer que sim, eu detesto o mercado de trabalho. E provavelmente um dia, algum contratante meu vai jogar meu nome no google, descobrir esse texto exatamente e me descartar de qualquer que seja a seleção. E me fará um favor, porque poxa, que tipo de gerente doente de RH joga nomes de candidatos no google?

Solteira sim, sozinha sempre

Aqui estamos, caros leitores: eu, uma garrafa de água com gás e meu ventilador apontado pras costas, madrugada adentro.

E hoje em dia quero soliloquar (GASTEI, HEIN) sobre as pessoas que namoram, esses seres alienígenas que convivem comigo diariamente, mas que guardam diversos segredos inatingíveis para pessoas, como eu, que se identificam um pouco demais com a imagem ao lado.

Como solteira há mais de dois anos, sem qualquer tipo de relacionamento exceto por um ou dois amores platônicos (acho que dois), da minha perspectiva os namorados tem acesso a algum tipo de felicidade que pra mim é simplesmente impossível de acessar. Não sei qual dos fatores tem um apelo maior: o sexo regular e muito bom (em longos relacionamentos, o casal se conhece bem e sabe o que o outro gosta, em tese), a segurança de aceitação sobre qualquer circunstância, o apoio incondicional naqueles dias ruins em que o ônibus atrasa, reclamam de você no trabalho e seu chefe é mais burro que você. E tem também o sexo.

Não que solteiros não façam sexo, ou que não façam quando bem quiserem. O que eu quero dizer é diferente: não só vai ser bom, como se não tiver sexo nenhum, dormir junto vai ser muito bom. Ver filme ruim também. Olhar o 9gag até ter que recorrer à página do vote também. O conforto dessa situação é totalmente diferente da tal da adrenalina dos one night stands.

Então, como todos os meus amigos mais próximos (quase) estão em relacionamentos de longa data, não só eu acabo ficando com preguiça de frequentar ambientes de solteiros “pra caçar” como acabo ficando com esse imaginário idealizado do solteiro, que só lembra dos namoros pelas suas coisas boas.

Esse é o ponto número um.

O dois: conheço umas três pessoas, pelo menos, que consistentemente pulam de namoro em namoro, com intervalos de um mês ou dois entre um relacionamento e outro, sendo que ela nunca passa muito tempo sozinha. Essas namoradoras profissionais (conheço mais homens que mulheres que aderem à prática) me rodeiam desde que sou adolescente. Eu achava que eu não era assim porque não era bonita, olha que bobagem. Que bom que a gente cresce, né?

Quando eu decidi falar sobre isso, eu tinha planejado falar do modo menos impositivo possível, mas afinal de contas, eu estarei mentindo se disser que eu aprecio esse tipo de atitude. As pessoas que conheço e aderem a essa necessidade de estar em um relacionamento, ao meu ver que pode perfeitamente estar errado, são mais fracas.

Pronto falei. Julguei, generalizei, fiz tudo que sempre prego contra. Me denunciem na safernet.

Existe vício em romance? Eu não sei se é pra mim que isso é mais ofensivo, porque sempre tento (e falho em) pagar de durona, de independente, etc. Talvez. Mas sempre que eu conheço essa pessoa, e num espaço de cinco anos ela não passou mais de dois meses solteira tendo estado, digamos, em três relacionamentos, eu acabo abstraindo que essa pessoa é fraca e dependente. Que a vida dela vive sendo desviada pra assuntos bobos relacionados com namoros jovens e que duram até seis meses, sempre desgastantes e sempre responsáveis por repercussões negativas em estudos e trabalho. Sob a minha perspectiva, eu acabo vendo essas pessoas namoradeiras como instáveis, nada confiáveis e ligeiramente necessitadas de atenção.

É claro que você pode pegar tudo que eu escrevi aqui e fazer outro texto sobre como a gente joga valores e preconceitos numa pessoa segundos depois de conhecê-la num bar, se ela te disser: “Eu namoro bastante, nunca fico sozinha”.

Ficar sozinho tem seus prazeres. É uma vida de menos adrenalina, mas não é como se conhecer um namorado pra mim seja uma mera questão de vestir algo bonito e sair. Não é qualquer pessoa que é namorável. Na verdade, quase ninguém é! Eu sempre me choco com o número de casais existentes, porque conhecer alguém que te atraia, que você atraia, que tenha interesses em comum e ao mesmo tempo tensão sexual, horários compatíveis, idéias políticas que não sejam dissonantes (isso pra mim é importante), etc, etc, etc é um evento tão raro que não deveria acontecer nunca!

Graduação – Loading 90%

São três da manhã e eu estou num ciclo de surtação interior que começou ontem à noite, quando saiu a oferta de matérias da Letras para o próximo semestre.

Estava eu, olhando e sentindo a vontade costumeira de me matricular em dez matérias, quando de repente percebi… que daquelas matérias, três apenas são as que eu devo fazer pra me formar no próximo semestre. Só de pensar nisso, meu sangue ainda gela embaixo da pele. E por mais que eu faça a matemática, eu sempre estou certa nas contas, sempre o mesmo resultado. Concluí as matérias de linguística, de literatura. Deprimente ou não, faltam duas matérias de ênfase da monografia e… gramática tradicional.

Ou seja, de quebra, no meu último semestre vou fazer matéria com calouros. Acho que vou até mudar o nome do meu blog pra “estudando com calouros”.

Quero dizer. Eu vou me formar. Me formar. Serei uma bacharel em inglês. Pela FALE. Faz cinco anos que levo essa vida, por que essa sensação é tão estranha? Por que esse frio na barriga afinal? Faz anos que eu vejo meus amigos se formarem, porque boa parte deles é mais velha ou mais avançada academicamente. Eles concluem, entregam uns relatórios, defendem uma monografia, tiram cem, vestem aquela beca ridícula no dia da colação, tem uma dezena de discursos piegas sobre a vocação do profissional de letras (blah) e, inevitavelmente, o pesadelo da breguice: um power point com música e foto dos formandos. Tudo isso é horrível até mandar parar. Eu já fiquei na platéia inúmeras vezes, e ficarei na próxima pra ver alguns amigos se formarem, mas na colação de, sei lá, agosto, serei eu. E se tem uma lição aprendida nesse blog, é que o tempo passa, e assim como há um ano exato eu estava ficando sem dinheiro em Londres, trabalhando e me sentindo horrivelmente sozinha, sei que daqui a um ano tudo vai ser ainda mais radicalmente diferente.

Na verdade, eu mudei de assunto por vergonha. Eu tenho uma secreta paixão por colações de grau. Sabe como dizem que pra muitas mulheres o casamento é a cerimônia da vida dela? E casamento é piegas, ridículo, brega, com discurso, talvez até power point… Pois é, sabe? (ah, o powerpoint, que custa a sair de moda!)Então… digamos que a colação de grau será o meu casamento. A mera idéia já me assusta tanto que eu tenho medo de ficar chorando igual uma retardada durante o negócio todo. Mas como não? Vão me chamar lá pra receber meu canudo lilás, vão falar meu nome inteiro, meus pais vão estar explodindo de orgulho e meus amigos vão provavelmente ficar me chamando de cachaceira.

Cerimônias são importantes, sabe. A idéia de passar por essa cerimônia específica, a colação de grau da Letras, sinceramente me apavora. Vou ter 23 anos e um diploma de Letras! Eu estou repetindo isso vezes demais, né? Muitas vezes? Bem, desculpe. Blog é blog.

Bom, agora são três e quinze da manhã e eu ainda me sinto desorientada. E, ainda que falte pouco, parece que é tanto! E tem o D.A.! Aliás, minha chapa ganhou a eleição, obrigada a todos!

Acho que a sensação de medo que estou tendo agora me lembra muito uma situação que me aconteceu em julho.

Eu tinha voltado pra Belo Horizonte depois de chegar no Brasil e passar um mês com meus pais. Daí meu pai veio comigo no fim de julho, e minha amiga Nádia veio comigo. O dia foi corrido, assistimos o último filme de Harry Potter com a Melissa e a família dela, foi épico. Quando fomos dormir, eu estava um pouco decepcionada porque meu pai e a Nádia iam embora dali a pouco, e eu tinha a sensação de que não tinha sido uma boa hostess. Não estava conseguindo dormir de jeito nenhum, e eu achava que era por isso.

Finalmente eu me levantei, saí do quarto da moradia, fiquei sentada na sala um bom tempo. Era mais ou menos a hora que é agora. Eu percebi que estava é com medo. Porque quando eles saíssem na manhã seguinte, quando o carro arrancasse e eu ficasse aqui na Avenida Fleming, eu estaria sozinha de novo. E depois de oito meses sozinha em Londres, eu tinha me agarrado aos meus pais, e sinceramente eu tinha um medo quase paralisante de retomar a minha vida no Brasil. De não ser tão boa quanto antes. Nessas horas, qualquer bobagem faz você se sentir pior. Eu me senti menos bonita, por causa da engorda que sofri lá fora. Me senti inútil, porque meu último emprego consistia de três dias humilhantes sendo garçonete no Hilton Heathrow. Eu tinha sonhado tanto, e agora que tinha voltado, estava com medo da vida real não condizer com as minhas expectativas.

E bem, eu estava errada, pra meu alívio.

Inclusive eu escrevi pouco aqui, ainda que tenha pensado em diversas pautas, mas porque durante boa parte do semestre eu surtei achando defeitos fatais na minha monografia, ou lidando com empregos em três lugares diferentes + aulas particulares + legendagem (entrei prum grupo desses de legendagem de séries) + matérias da faculdade (acabei trancando duas das cinco, e só depois descobri q elas eram desnecessárias mesmo…). E agora, no fim do ano tudo se acresce ao D.A. Letras, meu xodó. É tanta coisa pra pensar que não dá pra se desligar, aí de repente sai essa oferta…

E nós voltamos ao começo do post.

O texto cíclico foi acidental. Mas talvez seja assim pra eu descobrir que esse meu medo de não dar conta é saudável. É o que mantém a gente na ponta do pé.

*respirando fundo*