Maratona: A Ordem da Fênix

You are a fool, Harry. And you will lose everything.

Um pouco antes do quinto livro ser lançado, eu já escrevia fanfics e ocasionalmente publicava colunas na Edwiges Homepage. Numa dessas colunas, eu me fazia a pergunta que nenhum livro ainda tinha respondido: por que, afinal de contas, Voldemort queria tanto matar Harry?

Quer dizer, o moleque tinha um ano, nem tinha tido chance de fazer alguma coisa que aborrecesse Voldemort. E não dá também pra dizer que Voldemort queria destruir toda a família. Desde o começo da série, J.K. tinha deixado bem claro que Voldemort dissera a Lily Potter pra sair da frente, e que ela não precisava morrer – o que ele queria era o menino. Uma vez morto, ele parecia ser indiferente ao destino de Lily. Ainda assim, ela não saiu da frente do filho, e enfrentou Voldemort sozinha e desarmada – por culpa da teimosia e da coragem da mãe de Harry, nós tivemos essa história toda. Sabemos que ele foi protegido pelo sacrifício de Lily, mas não sabemos por que ele foi necessário. Depois de ponderar todas essas coisas, acabei chegando à conclusão de que a única explicação era que Harry fosse alguma espécie de “predestinado”, como eu argumentei na época.

Desnecessário dizer que eu me orgulho muito dessa coluna, porque eu estava certa.

Harry Potter e a Ordem da Fênix, lançado em 2007 (quase que ao mesmo tempo do sétimo livro – 2007 foi um ano e tanto) é minha segunda adaptação favorita. Digo segunda porque até agora a parte um do sétimo livro continua sendo a melhor… Veremos como será domingo. Dirigido por David Yates, que ficou na mesma posição durante os filmes seis, sete parte um e parte dois, A Ordem da Fênix tem uma vantagem astronômica sobre todos os outros filmes da franquia: seu roteiro não foi escrito por Steve Kloves. Isso significa que Hermione voltou a falar apenas o que lhe cabia, que as informações mais importantes foram passadas. Inclusive, Michael Goldenberg até consertou erros do Kloves: lembram-se que ontem eu reclamei que Cálice de Fogo não menciona o fato dos pais de Neville serem heróis que resistiram à tortura? Pois é; no meio do quinto filme ele coloca Neville pra confessar a história a Harry, num momento muito oportuno, visto que Bellatrix Lestrange, a mulher que torturara seus pais, tinha acabado de escapar de Azkaban.  Esse roteiro, claro, é forçado a cortar fatos, mas diferente de Kloves, sempre tenta explicar as coisas de uma forma ou outra.

Outro exemplo mais claro desse bom amarramento é que duas cenas fantásticas do livro são misturadas em uma só no filme: ao mesmo tempo que Fred e Jorge Weasley fazem a façanha de envergonhar Umbridge e fazer o maior espetáculo de quebra de regras que Hogwarts já viu, Harry tem a visão de Sirius sendo torturado por Voldemort, durante os exames.

As visões que Harry passa o ano todo tendo das atividades de Voldemort o atormentam, culminando no momento em que Arthur Weasley é quase morto e de forma meio irracional, ele se sente culpado por ter visto a coisa toda. Aqui o filme podia ter mantido uma das poucas cenas boas de Gina Weasley: quando ela diz que Harry não podia estar sendo controlado por Voldemort simplesmente porque não tinha nenhum dos sintomas. E acrescenta que se ele não ficasse se martirizando e fugindo de todo mundo, se ele simplesmente tivesse ido até ela, a única pessoa que ele conhecia que já fora controlada por Voldemort, e perguntado, ele saberia logo a resposta e não ficaria naquele sofrimento. Essa cena poderia ter ajudado o expectador a ver melhor a Gina, ao invés de só focar nela quando ela faz algum feitiço poderoso ou quando ela faz uma cara de ciúme de Cho Chang. Assim quem sabe a gente não acharia TÃO esquisito o súbito aumento de importância dela no filme seguinte.

Uma vez estabelecido que Harry não pode ser assim tão vulnerável à mente de Voldemort, ele começa a ter aulas de Oclumência com Snape. Isso é particularmente problemático, porque Harry é em essência uma pessoa muito aberta e óbvia com seus sentimentos. Isso é uma das coisas mais bonitas em Harry e é algo que eu, Amanda, gosto muito nas pessoas: quando você sabe o que aquela pessoa está sentindo, quando ela é incapaz de jogar com os sentimentos ou com as impressões dos outros. Sendo assim, Harry enfrenta longas horas de Snape fuçando em suas memórias mais valiosas, até que finalmente ele revida.

E há! Toda a imagem de Tiago/James Potter como um santo virtuoso que Harry tinha cai por terra. Seu pai era na verdade um valentão imbecil. Não só isso, como ele humilhava Snape em Hogwarts exatamente como Draco ou Duda humilhavam Harry. Ele se sente profundamente traído – essa, como todas as consequências psicológicas nos filmes, não é muito explorada, mas pelo menos é mostrada. Aquela cena é importantíssima não só para a inversão de papéis de James e Sirius, mas também de Snape. Infelizmente a cena não foi completamente adaptada, não temos Lily impedindo James ou Snape a chamando em seguida de Sangue-Ruim, mas ao menos temos dessa vez a idéia geral.

As duas personagens de hoje são muito bem construídas.

Luna Lovegood é uma excluída. Todos em Hogwarts estão convencidos de que ela é meio maluca, então desde sua entrada em Hogwarts um ano depois de Harry, as outras crianças se divertem às custas dela, escondendo seus objetos. A única amiga que Luna parece ter na altura em que Harry a conhece é Gina. O comportamento de Luna frente à adversidade não é só chocante para Harry, mas como também o faz ter vergonha de si mesmo: Luna não reage. Não briga, não revida. Ela apenas trata as pessoas bem e age com uma sinceridade muita vezes pouco benéfica à socialização. Ela explica a Harry o que são os novos animais mágicos, os testrálios, visíveis apenas para quem conhece a morte – para aqueles que já viram alguém morrer. Devido à morte de Cedric, Harry agora podia vê-los.

Não é segredo pra ninguém que no fim Harry acaba namorando Gina, eles até se casam e têm filhos, mas desde a primeira vez em que Luna aparece, eu quis sinceramente que Harry acabasse ficando com ela. Nem tanto por Harry ser um dos meus personagens favoritos, ele não é. Acho que eu queria que a série fosse Harry/Luna porque eu queria que pelo menos na ficção o herói ficasse com a esquisita no final. E, aparentemente, Goldenberg compartilha dos meus sentimentos: Luna tem muito mais falas no filme do que no livro, ao fim do filme até segura a mão de Harry de um modo neutro – mal interpretado por mentes poluídas como a minha. Ela se torna um dos principais membros da Armada de Dumbledore; do círculo mais importante, ela é a personagem mais recente.

A Armada de Dumbledore é o símbolo do teor político de Ordem da Fênix, que é outro elemento que me faz adorar essa parte da série. Parece loucura que o governo não admitisse o retorno de Voldemort, não é? Mas ainda assim, o Ministro da Magia se nega terminantemente a admitir que a sociedade bruxa está de novo em risco, porque isso o prejudicaria politicamente; assim, segue com uma campanha para desacreditar Harry e Dumbledore, vistos então como loucos ou mentirosos. Sinceramente? Eu acho esse tema do livro/filme quase educativo. J.K. está mostrando a pessoas como o poder cega e como a política pode facilmente distorcer a verdade através dos meios de comunicação. Qualquer pessoa com dois neurônios no mundo mágico sabe que o Profeta Diário está sendo manipulado, assim como qualquer pessoa com dois neurônios sabe que a Folha de São Paulo exerce uma manipulação descarada sobre a veiculação das notícias – e é aí que cheamos à triste percepção de que muito menos gente do que nós imaginamos tem mais de dois neurônios.

It’s revolution, baby!

Frustrados com a censura e com a injustiça, o trio resolve criar um grupo para praticar mágica secretamente, afim de se prepararem para lutar contra as Artes das Trevas. O filme mostra isso magnificamente: as sequências de feitiços praticados, Filch tentando encurralá-los, Ron perdendo feio pra Hermione, Luna conjurando um patrono, Gina reduzindo a pedaços o que quer que fosse aquele objeto antes, todas essas coisas são lindamente representadas no filme.

A Armada de Dumbledore é a versão mirim da Ordem da Fênix, que batiza o livro/filme, pouco mencionada até aqui porque é só o renascimento do grupo de resistência da guerra, antes da morte dos Potter. A Armada é estendida, no livro sete, à própria personificação da resistência, o que eu acho muito bonito.

Com uma exposição tão heróica, não é de surpreender que Harry finalmente dê seu primeiro beijo, com Cho Chang, a tal apanhadora bonitinha da Corvinal. No filme a coisa não vai pra frente porque ela supostamente trai a Ordem da Fênix, mas no livro nós sabemos que foi a amiga dela, e que eles terminam porque – pasmem! – Cho tinha muitos ciúmes de Hermione. Louca.

A segunda personagem (não paro nunca mais de escrever, socorro) é Umbridge. Apontada pelo Ministério para manipular ensinar Defesa Contra as Artes das Trevas, Umbridge proíbe o uso de varinhas, a afirmação da verdade, o contato entre meninos e meninas, as agremiações, os professores esquisitos, a respiração, até a lei da gravidade ela tenta proibir. O modo dissimulado de punir, o seu desespero por controle, seu preconceito e, mais horrível do que tudo, sua preferência doentia pelo rosa fazem com que ela sem dúvida seja a personagem mais odiosa de toda a série. Pouca coisa traz mais satisfação do que a despedida dos gêmeos de Hogwarts, ou do que ver os centauros arrastando a louca Miriam Rios Umbridge floresta adentro. Ela retornará no sétimo filme parte um, como veremos sábado.

Finalmente, temos a primeira grande morte da série. Enganado por Voldemort, Harry sai pra salvar um Sirius que estava em segurança dentro da Mansão Black. Tudo se desenrola horrivelmente, com Bellatrix matando Sirius. Nesse momento do filme eu precisei acalmar o meu desespero que sempre se repete nessa parte pra perceber como o silêncio é usado muito bem nessa adaptação como trilha sonora. Silêncio como trilha sonora? É. Yates entendeu que certas dores são tão horríveis, tão inexplicáveis e tão injustas, que nada transmite o sentimento melhor do que o silêncio. Harry entra em desespero (numa ótima atuação de Daniel Radcliffe, que continua melhorando desde o quarto filme) e Lupin imediatamente o segura, impedindo que ele tente seguir o padrinho. A única pessoa que significava uma família para Harry agora está morta, simples assim, e seu sonho está mais uma vez arruinado.

Talvez por isso o efeito da conclusão seja tão grandioso. Voldemort, depois de duelar com Dumbledore, tenta explorar esse ódio em Harry possuindo-o. Pouco tempo depois fica claro que ele seria incapaz de controlar Harry, justamente pelo motivo que não o deixa aprender Oclumência: ele se importa demais. Ele ama demais – e Voldemort é incapaz de entender esse tipo de laço. Nesse ponto o filme fica muito clichê, com Harry dizendo que sente pena de Voldemort, mas eu perdôo; todos temos direito a um bom clichê de vez em quando.

O Ministério da Magia é então forçado a admitir o retorno de Voldemort, porque todo esse faroeste que descrevi nos últimos parágrafos foi dentro do próprio ministério. O filme termina com muita tristeza, e com aquela sensação que a gente as vezes sente na vida, resumível em uma simples palavra:

fudeu!

Ah, e sabendo que hoje era o dia do filme cinco, eis o que fiquei cantando o dia inteiro:

WE’RE DUMBLEDORE’S ARMY!

E amanhã *suspirando* o filme seis, Half Blood Prince, ou aquele-que-não-deve-ser-assistido.

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Maratona: o Cálice de Fogo

Everything is going to change now, isn’t it?

Hermione resume a coisa toda pra gente: o Cálice de Fogo é um divisor de águas em termos de narração. Apesar de ser meu segundo livro favorito, a adaptação lançada em 2005 deixa a desejar, apesar de, claro, não ser tão ruim quando a do que nós discutimos ontem. O livro quatro é o que eu mais reli (oito vezes), então é o que eu mais vou saber pra comparar.

Eu nunca consigo superar bem o fato de que 80% das cenas de quadribol são excluídas dos filmes, pra evitar que todos os filmes tenham sete horas de duração. O Cálice de Fogo é um livro bem mais longo do que os três anteriores, com muito mais detalhes e com uma trama já bastante complexa, então dá pra entender a dificuldade do diretor Mike Newell em terminar o trabalho, que resultou em cerca de duas horas e meia de filme.

Os Dursley são completamente excluídos dessa trama; e pela primeira vez o filme não começa falando de Harry Potter, e sim de Voldemort, agora junto de Peter Pettigrew, tramando mais uma vez o seu retorno, com a ajuda de um personagem novo, interpretado pelo Doctor Who David Tennant.

No quarto filme, os horizontes do expectador se expandem. Harry vai assistir à Copa do Mundo de Quadribol; vê bruxos de diferentes nacionalidades, que serão definitivos no desenvolvimento da trama mais adiante, e percebe que fora muito inocente nunca considerando a existência de outras escolas de magia além de Hogwarts. Em toda a série, as únicas duas escolas mencionadas são Beauxbatons (francesa) e Durmstrang (alemã/búlgara/praqueles lados lá). Essas escolas visitam Hogwarts ao início do ano letivo (no livro isso é só no dia das bruxas) para uma competição legendária, o Torneio Tribruxo; uma série de tarefas mágicas perigosas e espetaculosas para entretenimento e competição entre as academias.

A verdade é que nesse filme tem muitos temas misturados: a entrada mal explicada e misteriosa de Harry no torneio mantém o suspense das próximas tarefas (em tese, apenas alunos de 17 anos ou mais deveriam poder participar), o que causa sua primeira grande briga com Ron, o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, que pela primeira vez elucida como os pais de Harry teriam morrido na aula de Maldições Imperdoáveis… Enfim. Outras informações, periféricas mas relevantes, nos são apresentadas: os pais de Neville foram torturados horrivelmente durante a guerra (mas o filme não diz que eles estão internados no St. Mungus até aquele dia) sendo a principal delas.

Nesse livro/filme, quando importa mais, Harry está sozinho, o que é uma grande diferença com os outros livros. Em todos os outros fins de livro, ele teve ajuda até quase o final. Durante as tarefas do torneio, ele está constantemente sozinho, ainda que tenha ajuda na preparação. Nessa altura, Snape perde o argumento de dizer que Harry é só um moleque sortudo com amigos mais talentosos do que ele. Uma luta com um dragão, um esforço sobrehumano de salvar pessoas que ele não tinha que salvar no fundo de um lago, sem mencionar a ajuda a Cedric Diggory no último momento, o que acabou determinando a morte dele.

O Cálice de Fogo tem muitos choques; e como nosso amado trio está com 14 anos, os hormônios começam a levar a melhor sobre ele. Com a iminência do dito Baile de Inverno, os alunos são forçados a dançar, arrumar roupas chiques e, pior, convidar alguém do sexo oposto como companhia. Isso é particularmente difícil para Harry e Ron, que como descrito por J.K. e transcrito pelo filho do capeta Kloves, percebem que as garotas insistem em andar em bandos, dando risadinhas imbecis e assustando demais qualquer garoto desesperado para chamar alguém. A descrição do comportamento histérico adolescente feminino é real demais pra não ser engraçado; então quando Harry consegue chamar a menina bonitinha pro baile, Cho Chang, percebe que tinha perdido tempo e ela já tinha combinado de ir com outro garoto… ohhh o drama! Paralelamente, Ron também dorme no ponto e um tanto quanto tarde demais volta-se pra Hermione e diz: “Hermione… you’re a girl.”. O drama RH culmina no próprio baile, quando ela aparece para surpresa de todos com o bonitão campeão de Durmstrang e jogador internacional de Quadribol, Viktor Krum. Mais uma vez: oooohh o drama!

O modo como Harry começa a entrar involuntariamente na mente de Voldemort é mostrado pelo filme como um mero detalhe, o que é triste porque é muito necessário que fique claro. Quando finalmente o funcionário do Ministério da Magia, Bartolomeu Crouch é encontrado morto a história finalmente começa a ganhar o tom de seriedade que devia; e o clímax desse filme divide a série em duas partes: antes e depois do retorno de Voldemort.

De um lado, Cedric Diggory, interpretado pelo pobre Robert Pattinson, que depois caiu na besteira de estrelar o que provavelmente é a série mais patética e machista da história, aquela crepúsculo lá. Cedric tem um pai extremamente orgulhoso, mas não é pra menos; o rapaz é bonito, talentoso, popular, inteligente – e humilde! Em nenhum momento ele trata Harry mal ou se exibe por ser o campeão de Hogwarts no Tribruxo. Como o expectador tende a ficar do lado de Harry, a gente meio que quer que o Diggory seja um babaca, pra torcer pro Harry sem remorso. Mas ele é tão bom caráter que mesmo Crouch Jr. pode contar com ele a ponto de carregar o seu esquema contra Harry adiante – sem saber, claro.

Uma vez morto por Voldemort (tecnicamente morto por Pettigrew), Cedric ganha um valor simbólico na série, especialmente depois do discurso de Dumbledore ao encerramento do filme. Torna-se um exemplo de atitude e de caráter. Eu honestamente acho que a cena mais triste de todo o filme é quando Harry consegue retornar a Hogwarts com o corpo de Cedric e seu pai desce da arquibancada pra encontrar o filho morto. O desespero do personagem forma um contraste mórbido com a alegria da multidão que ainda não percebeu o que acabou de acontecer – o efeito é digno de pesadelos, enquando ele grita: “my boy!”

Voldemort, por sua vez, entra em cena. Revive a partir do sangue de Harry (Jesus Cristo feelings), interpretado pelo genial Ralph Fiennes. Mesmo com muitas chances de matar Harry, ele insiste em provar para seus seguidores (apresentados no filme como Comensais da Morte, usuários de máscaras e capas que lembram muito o Ku Klux Klan) que Harry sobreviveu por acidente, e não por poder superior. Uma vez com a chance em um duelo, Harry acaba escapando mais uma vez. Claro que conta um pouco com a sorte, uma vez que nenhum deles podia adivinhar que suas varinhas não poderiam lutar uma contra a outra, mas acima de tudo é habilidade. A performance de Dan inclusive melhora a partir do filme anterior, especialmente quando Voldemort diz que ele não deveria se esconder e fugir dele, e sim lutar como um homem. Com tudo a perder, pouco a ganhar, Harry respira fundo e enfrenta Voldemort de frente.

Mesmo no fim desse filme, apesar de finalmente revelado, Voldemort continua sendo uma interrogação. Harry ainda não entende seus motivos ou sua personalidade, e, principalmente, não sabe por que, afinal de contas, Voldemort estava tão resolvido a matá-lo quando era criança.

Pra terminar, o grande pecado dessa adaptação pra mim é: cadê a cena de Harry escutando a conversa de Snape com Karkaroff no Baile de Inverno? Eu não sei porque a câmera fica indicando que o Karkaroff estava por trás de tudo, quando não só não estava, como também não se esclarece que ele tem pavor de encontrar Voldemort depois de ter dedurado tantos Comensais. Snape perde uma cena importantíssima para que o expectador entenda a complexidade do personagem – pra quem sabe não tomar o puta susto que um “fã” só de filmes vai tomar quando assistir a parte dois esse final de semana. Não dá pra perdoar que o Snape neste filme seja apenas usado para humor.

Bom, continuamos amanhã, com o ótimo Ordem da Fênix. Nox!

Maratona: Prisioneiro de Azkaban

I solemnly swear that I’m up to no good.

Sim! Porque no good é uma ótima expressão pra definir Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, lançado em 2004. Ao menos em termos de adaptação. No terceiro filme nós temos uma mudança de diretor: Alfonso Cuarón, diretor de “E Sua Mãe Também”, dirigiu este filme e só este de todos.

Sempre que penso nesse filme penso que ele é todo azul. Bem, hoje, prestando atenção, deu pra entender porque: o filme todo tem mais azul que o Windows 95. Do começo ao final, parece que alguém puxou a barra de matiz da sintonia fina pro lado do azul. A adaptação já começa mostrando que realmente não está interessada em se ater a nenhum dos fatos do livro: o primeiro take é de Harry, embaixo do lençol, praticando um feitiço nunca mostrado nos livros – o tal do lumos maxima – sendo expressamente proibido praticar magia fora de Hogwarts.

Mas não vou me ater aos defeitos de adaptação do filme, porque eles são muitos e eu estaria chovendo no molhado de um debate que acontece em fóruns potterianos há quase oito anos. Tem algumas coisas boas que a direção de Cuarón traz pra série, vou confessar: uma delas é a fluidez da narrativa. Os takes nos dois primeiros filmes eram quadrados, com começo e fim, quase dá pra ouvir o barulho da página do livro virando dentro da cabeça da gente. No terceiro filme, é tudo amarrado de forma sutil, de modo que o expectador precisa manter uma atenção especial nos detalhes; diferentemente de Columbus, Cuarón não guia o mistério do filme pela câmera ou pelas expressões de Harry – e sorte que não, porque francamente, Prisioneiro de Azkaban é a pior performance de Daniel Radcliffe. Quando vi o filme pela primeira vez no cinema, desejei que Macaulay Culkin tivesse conseguido o papel ao invés dele.

Bem, mas vamos ao padrão, certo? Nessa parte da série, Harry vai conhecer mais sobre o passado de seus pais. Vai descobrir que o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, Lupin, foi amigo de seus pais. Vai descobrir os rumores de que o fugitivo da prisão de Azkaban na verdade foi aquele que vendeu seus pais para Voldemort, quando eles resolveram se esconder. Inclusive, a cena em que ele descobre isso é a que tem a atuação mais patética e lamentável. Um momento crucial da construção de Harry frente ao expectador é destruído pelo imbecil do Dan Radcliffe berrando como se estivesse numa partida de quadribol, “He was their friend… HE WAS THEIR FRIEND!”.

Lupin, o mencionado professor, é essencial pra trama do filme. Não só ele constrói uma relação de amizade com Harry que ele nunca teve com outro professor, mas também lhe ensina a lidar com os novos seres mágicos introduzidos no volume – os dementadores. E ele descreve os pais de Harry para ele. Diz que Lily, além de poderosa, tinha uma capacidade incomum de vez o bom nas pessoas, especialmente quando elas não conseguiam ver nada de bom em si próprias. O leitor já imagina que ele se refira a algum momento no qual ela tenha descoberto que ele é um lobisomem (essa cena até me inspirou mais tarde na fanfic James/Lily que escrevi). Ele ensina a Harry o feitiço Expecto Patronum, provavelmente o feitiço mais legal e mais poético de toda a saga, no qual o bruxo deve se esforçar para pensar em sua lembrança mais feliz de todas para que ela tome uma forma física animal e afaste os dementadores. Alguém que tenha o livro por perto, poderia checar pra mim se aquela coisa toda de ele pensar nos pais quando consegue fazer o feitiço pela primeira vez procede na adaptação? Porque que eu me lembre Harry usa sempre ou quadribol ou Ron e Hermione para conseguir conjurar seu patrono.

No livro 3, mas infelizmente não no filme, a Grifinória ganha o Campeonato de Quadribol pela primeira vez! Eu ainda me lembro de ler a cena no livro e de pular com a narração do Lino Jordan. No filme nós apenas vemos o primeiro jogo contra a Lufa-Lufa, onde deveríamos ter sido apresentados a Cedric Diggory, o apanhador, e se houvesse um jogo seguinte, à Cho Chang, apanhadora da Corvinal, já que ambos terão papéis importantes no próximo filme.

Outro detalhe: aparentemente a Grifinória se mudou pro meio de um corredor nesse filme. Nos dois primeiros filmes os personagens encontravam a pintura da Mulher Gorda no fim de um corredor. Ele não só está agora entre dois lances de escadas, no meio do nada, como a Mulher Gorda é… outra pessoa!

*momento detalhes maníacos acaba aqui*

No filme, como quase ficou de lado no meu post, fica o próprio Sirius Black, nosso prisioneiro de Azkaban. Acusado de matar Peter Pettigrew e ter entregado os Potter para Voldemort, Sirius é condenado à prisão perpétua, mas no terceiro ano de Harry ele escapa… com um método que ele poderia ter usado a qualquer momento. Cuarón e Kloves, o pior roteirista da história da humanidade, não se preocupam em explicar isso em nenhum momento e apenas cruzam os dedos para que o expectador fique distraído o suficiente para que ninguém pergunte a respeito. Sirius é um animago – pode se transformar num cachorro, passando despercebido, então, pelos dementadores. Poderia, de fato, ter feito isso a qualquer momento. Bem, quem leu o livro vai se lembrar do que o motivou. Não é dito, mas o pai de Ron ganha na loteria! Com o dinheiro, os Weasley viajam todos para o Egito e aparecem no jornal com uma grande foto de família, na qual Ron aparece segurando seu rato.

O rato é ninguém menos que o próprio Pettigrew, também um animago ilegal, que afinal de contas não estava morto, mas escondido há mais de uma década como um animal de estimação na família Weasley! Não só isso, como ele fora o verdadeiro Fiel do Segredo do casal Potter – sim, porque Kloves também não achou nada importante explicar que apenas uma pessoa poderia dedurar os Potter, porque eles estavam protegidos por mágica – e o único verdadeiro traidor, que havia se tornado um seguidor de Voldemort.

Quando o jornal acidentalmente foi parar na cela de Sirius após uma visita do Ministro da Magia (estou falando de cabeça, me corrijam se eu estiver errada), ele ganhou um motivo para sair dali. Até então, estivera consumido pela depressão de ver seus melhores amigos mortos e ser emboscado.

Finalmente encontrando Harry e fornecendo as devidas explicações, Sirius conta a Harry sobre ser o padrinho do menino, e o convida para morar com ele quando conseguirem entregar Pettigrew às autoridades. Essa cena é verdadeiramente dolorosa, porque soma um homem que foi injustamente preso por doze anos e um garoto que passara todo esse tempo morando com parentes que nem o queriam.

Ainda tenho que falar da Profa. Trelawney, na grande performance de Emma Thomson. E aqui um parênteses, porque essa atriz é verdadeiramente sensacional: ela faz a escritora em Stranger than Fiction e Elinor Dashwood em Razão e Sensibilidade (que por acaso é o livro que estou lendo no momento!! ohhh!). A professora, uma adivinha charlatã que tem a seu favor apenas a ascendência de uma grande adivinha, uma tal de Cassandra, fala muita bobagem em aula, mas em dado momento ela entra numa espécie de transe e acaba proferindo uma verdadeira adivinhação, que seria a conclusão do livro, com Pettigrew fugindo e se reunindo com Voldemort. Ela vai ser importante no filme cinco, como veremos, e acabo de ler que ela tem cenas no filme 7, parte dois. Bem, isso veremos!

Muito a contragosto, Kloves é forçado a incluir nos filmes cenas Ron/Hermione, como o abraço quando o hipogrifo de Hagrid é supostamente sacrificado, ou o apertar de mãos na primeira aula de Hagrid também. A principal fonte de tensão romântica entre os dois personagens ele resolve convenientemente amenizar: a briga eterna. Eles passam o livro todo brigando, e dali pra frente brigam praticamente até o meio do livro 7. Harry ainda não teve cabeça pra olhar direito pra menina nenhuma, mas nós veremos amanhã como, mais cedo ou mais tarde, os hormônios dele começam a trabalhar. Amanhã, o Cálice de Fogo!

P.S. E essa imagem no mínimo estranha de Snape protegendo o trio? hahaha.

Maratona: A Câmara Secreta

Continuando com a sequência iniciada ontem: hoje assisti Harry Potter e a Câmara Secreta, a adaptação do segundo livro da série de mesmo título.

Igual ontem, eu quero começar falando do tema, e depois de alguns personagens introduzidos na trama. Na verdade o foco do livro é na questão existencial. Harry passa todo o seu segundo ano descobrindo que ele tem mais semelhanças com seu arqui inimigo Voldemort do que ele gostaria; ao longo do tempo ele descobre que eles compartilham o dom de falar com cobras, e quando a suspeita de toda a escola cai sobre ele a respeito dos ataques a alunos, ele se pergunta se realmente o Chapéu Seletor teria feito a coisa certa selecionando-o para a Grifinória, e não para a Sonserina como o Chapéu argumentou na ocasião.

No filme esse questionamento é meio diluído porque Columbus resolveu encaixar o máximo de sequências de ação nas duas horas de filme que ele podia: carros voadores, bolos flutuantes,pó de flu, quadribol, poção polissuco, clube de duelos… No meio de toda essa confusão, você esquece que Harry está meio perdido consigo mesmo.

No fim das contas, o tema mais focado pelo filme passa a ser a discriminação e o preconceito. E não é porque eu sempre blogo sobre isso, não! J.K. finalmente nos mostra que uma das características essenciais dos tempos em que Voldemort era poderoso era a caça aos bruxos que descendiam de trouxas ou que de alguma forma não tinham todos os seus parentes bruxos. Isso inclui, nós veremos mais pra frente, outras espécies, como lobisomens e gigantes. A maioria dos teóricos atribui com certa exatidão essa atitude de Voldemort a um paralelo da Segunda Guerra Mundial e da perseguição a judeus, comunistas, homossexuais, entre outros. No filme o tema vem à tona quando Draco chama Hermione de “sangue ruim”, um palavrão horrível na sociedade bruxa, referente a filhos de trouxas. Imediatamente Ron reage e tenta atacar Malfoy pra defender sua donzela ofendida, mas como nada dá certo quando a gente é adolescente, seu feitiço sai pela culatra e ele recebe todo o efeito.

Com relação a personagens, não dá pra falar da Câmara Secreta sem falar do Dobby. O elfo doméstico é a primeira centelha revolucionária da série; escravidão é a melhor definição de toda a espécie dele, mas ele descobre que havia um plano que seria executado em Hogwarts naquele ano. Sendo assim ele foge de sua família e vai atrás de Harry, fazendo tudo que pode para proteger o menino e evitar que ele volte à escola. Aí já dá pra enxergar o status simbólico da vida de Harry pro mundo bruxo; mesmo antes de que isso se confirme, existe um acordo silencioso de que enquanto ele estiver vivo, Voldemort seria incapaz de voltar.

O problema é que suas estratégias de salvamento não são nada ortodoxas; ele esconde as cartas do menino, joga um bolo na cabeça das visitas de seus tios, enfeitiça um balaço pra quebrá-lo todo no quadribol, etc etc. Seu esforço é tal que, quando no final do filme Harry consegue libertar Dobby de sua escravidão num ato de esperteza, a única coisa que ele exige em retorno é que Dobby nunca mais tente salvar a sua vida. Depois de assistir o filme sete parte um, realmente todas as cenas com a presença do Dobby ganham um carinho renovado. Como não se emocionar quando ele segura a meia, ergue as orelhinhas e diz: “Dobby is… free!”

Bom, mas livre de quem? Livre do segundo personagem que merece destaque neste post: Lucius (ou Lúcio) Malfoy, pai de Draco. Pra quem geralmente vive mais focado na segunda metade da série, é engraçado se lembrar de quando a família Malfoy estava por cima da carne seca. Ricos e influentes politicamente, Lucius até mesmo consegue coagir o conselho a suspender Dumbledore. Eu inclusive lamento muito que sua primeira cena no filme tenha sofrido um corte injusto: na cena da Floreios e Borrões, quando ele troca farpas com Arthur Weasley, pai de Ron, este chega a perder a paciência e parte pra cima de Malfoy. É lindo, eles saem na porrada em plena livraria! Na verdade, ele é construído nesse filme como bem aparavorante. Mais apavorante do que Snape, absolvido depois do erro de julgamento no fim do primeiro filme, que neste segundo nos diverte muito com suas sugestões para piorar a vida de Harry. E, claro, pra algumas pessoas como eu, cumprindo o papel de professor mais sexy de Hogwarts.

*limpando a garganta*

Voltando ao Lucius, já que estamos reclamando de detalhes a respeito dele na adaptação, eu acho um disparate terem colocado ele pra tentar matar o Harry no fim do segundo filme. Naquela altura, J.K. Rowling nem havia nos apresentado à Maldição da Morte, Avada Kedavra. O feitiço é na verdade introduzido no quarto livro, que por acaso havia sido lançado no final de 2001, um ano antes do lançamento deste filme. O caso é que ele fica furioso com Harry por ter lhe causado a perda de Dobby, ergue a varinha e começa “Avada…” quando Dobby o interrompe com sua próxima fala (que eu sempre falo junto com ele…) “You shall not harm Harry Potter!”. Oras. Mas o que ele pretendia? Matar Harry do lado de fora do escritório de Dumbledore? Depois de todo um livro sendo o político dissimulado, ele vai abertamente tentar matar um moleque sabendo que não está no poder dele? Que vergonha, hein, roteirista?

Ah sim, e neste filme nós temos a primeira cena assumidamente Ron/Hermione: uma vez curada da petrificação, na cena final Hermione retorna ao Salão Principal, onde abraça Harry e congela quando chega a vez de abraçar Ron. Os dois se olham, morrendo de vergonha, dão um passo pra trás cada, e apertam as mãos. Eu ainda me lembro do tempo das guerras de ships quando os torcedores iludidos de Harry/Hermione honestamente interpretavam aquilo como nojo ou desgosto. Oh, é bom estar certo de vez em quando…

Bem, a adaptação de amanhã, o Prisioneiro de Azkaban, é a que eu mais detesto, já lhes adianto isso. Mas veremos o motivo. Até lá!

Harry Potter, as minhas histórias

No próximo dia 7 de julho, acontecerá a última premiere dos famosos de filme potteriano, lá na terrinha da qual eu voltei com tanta alegria. Em Trafalgar Square, Londres, pela última vez vão lançar um filme da série que mais afetou minha vida: Harry Potter e as Relíquias da Morte, Parte 2.

Bom, eu tenho 22 anos e faço Letras, o que significa que frequentemente eu me esbarro com os preconceitos da academia, que insiste que nada que seja bem vendido, conhecido e amado pelo mundo inteiro possa ser algo além de um golpe de marketing. Essas situações geralmente são um puta aborrecimento. Quase tão chato quanto isso é ir numa estréia de filme no cinema e sentar perto de um grupo de menininhas que gritam com a tela de cinema como se fosse um show de rock, usando camisas daquela triste série crepúsculo e que ficam torcendo pro Harry ficar com a Hermione. Entre gente que se acha inteligente demais e gente com problemas sérios de interpretação de texto, é uma raridade conhecer alguém que goste sinceramente de Harry Potter ou que, mesmo não gostando, reconheça a importância da série na cultura da última década.

Emma Watson, Daniel Radcliffe e Rupert Grint, no papel do trio, pro filme 1.

Eu li os livros pela primeira vez em novembro de 2001, duas semanas antes de completar treze anos. Minha melhor amiga da terra natal, a Nádia, vinha me dizendo há meses pra ler Harry Potter, que eu ia adorar e tudo mais, mas eu vivia lendo outras coisas e vivia postergando, até o dia em que eu vi um comercial na tv, uma promoção da Coca Cola que em tese levaria o vencedor para Hogwarts, e fiquei olhando praquelas imagens do castelo, com a musiquinha mágica da trilha sonora. Peguei o telefone e pedi que ela levasse o livro na escola no dia seguinte.

Foi o fim da minha vida! Como muitos fãs da minha geração, li os livros em desespero e em menos de um dia já estava na metade da Pedra Filosofal. Outra menina da minha sala estava lendo, e apostamos que terminaríamos o livro naquela mesma noite. Eram vinte pra meia noite quando fechei o volume, ainda chocada com a revelação de que Quirrell queria matar Harry e não Snape! Ohhhhhhhh!!!

Ementei com o segundo, terceiro e quarto, e uma semana depois já estava em dia com a série, pouco tempo antes do lançamento da adaptação fílmica do primeiro volume. Nádia e eu criamos a tradição de a cada lançamento de filme irmos juntas a Ribeirão Preto assistir no Novo Shopping.

Era difícil explicar para não-leitores porque aquilo era tão bom; conforme a série progredia nós descobríamos que os sete livros eram resultado de um planejamento detalhadíssimo, com pistas jogadas nos lugares mais impressionantes e eram reveladas lá na frente. Os personagens eram adoráveis, especialmente o trio, e era sempre bom ver como as habilidades deles se completavam, desde o clímax do primeiro livro. A primeira fase, do deslocamento, era pra mim algo muito aguardado quando eu tinha a idade do Harry; eu já vinha de uma sequência de outros livros de fantasia, o melhor até então sendo provavelmente História Sem Fim, e alguns animes. Eu detestava aquela vidinha de cidade pequena, sem magia nem um mundo precisando ser salvo.  Como Harry nos é apresentado como um órfão que não tinha amigos e era mal tratado e mal alimentado pelos parentes forçados a criá-lo, ele tinha um diferencial das outras crianças: ele sabia apreciar muita coisa a qual a gente só dá valor depois de grande. Um lugar que o aceitasse, amigos que não tinham vergonha de ficar ao lado dele, muito pelo contrário! Ele não só é transportado para um mundo mágico, mas é uma lenda nele!  E junto com a chegada dele à escola, nós descobrimos que Voldemort estaria fazendo esforços para voltar à vida propriamente dita para terminar o que não tinha conseguido fazer na noite em que matou os pais de Harry.

Simpatia e catarse: check.

O estilo de escrita é simples e bem humorado. Não simples no estilo emburrecedor da autora de crepúsculo, que é incapaz sequer de formar um período composto, mas ausente do tom pomposo e solene que depois eu ia descobrir (e adorar) em Senhor dos Anéis. Afinal, era uma história de crianças, pelo menos no começo, não um épico de lordes tentando salvar toda a civilização humana. Bom, no começo não era.

O meu acesso à internet então era escasso. Na época ainda existia a internet discada, só aos sábados e domingos, depois das duas da tarde. Eu entrava furiosamente em todos os sites que pudessem ter informações, e saía salvando as páginas para lê-las depois, offline. Foi quando eu descobri a existência de alguns sites de fã brasileiros, como a Edwiges Homepage e Harry Potter O Filme. O segundo site tinha informações quase diárias sobre o progresso das gravações, fotos e set reports, que eram textos de pessoas que de alguma forma tinham acesso aos sets de gravação e contavam tudo nos mínimos detalhes. Na Ed, como depois fui chamar, a webmistress Madame Scila focava nas formas de interação com a série: conheci os gêneros fanfic e fanart, respectivamente sendo textos e desenhos baseados na trama da série. Como ainda não havia previsão para o lançamento do quinto livro, o jeito era me alimentar de fanfics, pra ter algo a ler enquanto a série ainda não saía. Hesitei um pouco, mas acabei começando a publicar minhas próprias fanfics, horríveis a princípio, mas foram melhorando conforme eu continuava escrevendo e lendo. Traduzida pela Scila, Um Verão Trouxa (A Muggle Summer) era a fanfic mais clássica da casta apoiadora de Ron ficando com Hermione no final. Eu passava meus finais de semana salvando arquivos de fanfics desesperadamente, notícias e etc pra ler ao longo da semana. A primeira coisa que eu fazia ao entrar na internet era abrir meu Outlook Express (hahaha!) e mandar os capítulos novos que eu tinha escrito para o site da Scila, enviar longuíssimos e-mails para minha mais nova amiga de internet, que atendia pelo nick Melissa Hogwarts.

Os mesmos atores, já bem diferentes, no terceiro filme!

Tem duas amigas cruciais na minha trajetória maníaca pela série: a Nádia, que me empurrou os livros, e a Melissa. Ficamos amigas pouco depois do lançamento do livro 5, Ordem da Fênix. Além da morte de Sirius, o livro continha cenas em flashback de quando os pais de Harry e seus amigos estavam na escola, o que inspirou minha primeira fanfic realmente boa e livre e Mary Sues (esse era o termo que nós usávamos para nos referir a fanfics escritas com um enredo repetido: menina nova entra na escola e Harry se apaixona por ela). A primeira fanfic que eu li, inclusive, era uma desse tipo: se chamava Harry Potter e a Amante de Voldemort, e eu me lembro de ler no site antiguíssimo Expresso de Hogwarts. Eu ficaria mais do que feliz em linkar todas essas páginas, mas elas não existem mais. A segunda fanfic foi Novas Esperanças, na mesma página, uma fanfic que apesar de boa eu achei meio estranha, porque juntava Harry com Gina Weasley. Argh, pensei na época (penso até hoje…).

Enfim, conheci a Melissa quando ela estourou na comunidade dos fãs (o fandom) com a fanfic Eu vou me casar, Hermione. A fanfic era famosa pelo enredo pós Hogwarts em que Hermione descobria que Ron estava prestes a se casar com outra mulher e resolve virar o mundo de ponta cabeça pra tê-lo de volta, ao mesmo tempo em que, trabalhando no Ministério da Magia, tem que lidar com a iminência de uma revolução dos duendes. Pois veja vem, é claro que eu escrevi pra ela, elogiando a escrita e tudo o mais, pedindo que ela publicasse mais capítulos logo, e eis que ela me responde, dizendo que também tinha lido minha nova fanfic, Água e Vinho, e que gostava muito! Eu escrevia sobre como achava que os pais de Harry tinham se apaixonado em seus tempos de escola, e aquele foi o primeiro título que me colocou no mapa das fanfics. Nós duas começamos a trocar e-mails enormes, e fomos descobrindo mais e mais sobre a vida uma da outra, até que finalmente começamos a trocar confidências via MSN sobre os meninos que gostávamos e nos dávamos conselhos. A essa altura, nós duas já estávamos no colegial.

Paralelamente, o principal instrumento de diálogo entre os fãs potterianos eram os fóruns de discussão. Eu frequentei um grande número deles, desde o fórum do Expresso de Hogwarts até o da posterior Aliança 3 Vassouras, Beco Diagonal, etc. Também ao mesmo tempo, o idioma primário da série entra na história; de tanto acessar páginas como o FanFiction.net (esse ainda existe!), o Mugglenet, o Leaky Cauldron, o SugarQuill, um belo dia eu percebi que entendia inglês bem e conseguia postar em fóruns de discussão americanos.

O fandom potteriano era uma coisa absurdamente grande e intensa, com gente debatendo desenhos, teses, fanfics, notícias, trocando fotos, fazendo sites. Só por ser fã de Harry Potter eu melhorei muito a minha escrita, aprendi inglês bem mais rápido, comecei a traduzir fanfics do inglês para o português, atingi mil posts em um fórum brasileiro, adquiri uma versão pirata do photoshop e comecei a fazer minhas próprias montagens, e até mesmo aprendi um pouco de HTML, quando tentei (e fracassei) fazer o meu próprio site de Harry Potter. Até mesmo criei uma segunda identidade na internet, a Lady Voldemort, pra poder publicar fanfics sobre o Snape, hahaha.

Tudo isso durante o colegial, a um tropeço do vestibular. O sexto livro saiu pra colocar fim à terrível e divertidíssima Guerra dos Shippers: traduzindo, pessoas que enxergavam o óbvio que Ron e Hermione ficariam juntos tinham furiosas discussões com quem insistia que Harry e Hermione, como um casal, estavam nas “entrelinhas”. Eu reconheço o quanto é infantil ficar debatendo um assunto dele, mas oh, a diversão! Pra mim aquela guerra tinha o fator divertido de discutir na internet quando se é adolescente e tem tempo pra isso, mas misturada com um pouco de preocupação sobre os níveis de interpretação de texto de uma parcela do fandom.

A guerra acabou porque no livro seis, ainda que eles não tivessem se beijado, Ron tinha namorado outra menina, levando Hermione à loucura, seguido de um incidente que quase matou Ron e fez com que eles fizessem as pazes e começassem a agir quase como um casal. Ao mesmo tempo, no sexto livro Harry começa a namorar Gina, de verdade agora, não só em fanfics, depois de um primeiro beijo atrapalhado com outra personagem periférica no livro 5.

A essa altura eu já estava no terceiro colegial, no ápice de minha amizade com a Melissa, terminando de traduzir uma trilogia sobre o Snape, e era hora de decidir sobre a universidade. Mas eis que a Melissa era de Belo Horizonte, e como eu, pretendia prestar Letras. Veio a proposta: ué, Amanda, porque você não presta vestibular aqui em BH? Imagina se a gente pudesse estudar junto??

Junto com o frio na barriga com a iminência do sétimo livro, que sairia em junho de 2007, publiquei minha fanfic mais conhecida, e sem falsa modéstia a melhor mesmo, Como eu Vejo. Eu tinha construído os capítulos com quatro narradores diferentes em primeira pessoa, Harry, Luna, Gina e Draco. Os casais que eu escrevia não eram de acordo com os livros, agora; eu fazia dois casais, Harry com Luna e Gina com Draco. Paralelamente, minha grande amiga publicava Ilusórios, que colocava Harry com Gina.

e, finalmente, os atores no filme 7, parte 1!

Na altura em que prestei vestibular e conheci a Melissa pessoalmente, não dava pra negar que ser fã de Harry Potter mudou completamente o rumo das minhas decisões. Depois de ter terminado o primeiro período de faculdade, recebi o livro 7 em casa. O filme cinco saiu no mês seguinte, seguido do filme 6 em 2009, e o 7 parte 1 em dezembro do ano passado. Hoje eu converso com outros fãs e tudo que nós sabemos pensar é que está acabando, e que faz DEZ anos que nós nos falamos pela internet, dez anos que estamos esperando o lançamento de livros e filmes. Discutimos os temas, amizade e morte, e ficamos estipulando o que aconteceria se fosse diferente.

Esse post foi inspirado do livro da Melissa Anelli, moderadora do Leaky Cauldron, que lançou recentemente o livro Harry e Seus Fãs (pessimamente traduzido pro português brasileiro pela Editora Rocco, vergonhoso), e em discussões com as meninas do Fórum Not as a Last Resort, um dos mais antigos de que eu tomo parte. A sensação do fim iminente é outra história que provavelmente eu vou contar depois de assistir o último filme.  Pra quem não tem amor a si próprio, meu perfil com todas as fanfics que eu escrevi e traduzi está aqui: FF.NET.

A utilidade desse post? Nenhuma. Documentação. Não quero provar pra ninguém que Harry Potter é um fenômeno, primeiro porque isso é chover no molhado, e segundo, porque se você não gosta, não gosta mesmo e acabou. A vida é assim. Mas pra mim, foi crucial.