Comentário: The Perks of Being a Wallflower

Aviso: como todos os meus comentários, temos spoilers aqui.

 

“Why do I and the people I love always pick people who make us feel like we’re nothing?”

A pergunta de Sam, personagem da Emma Watson foi o que mais ressoou na minha cabeça. Não dá pra negar: por quê? Eu conheço e convivo com tantas pessoas cuja inteligência é imensurável, cujo talento é indiscutível, além da boa companhia de copo e de badtrips. E ainda assim, por que eu as vejo, todos os dias, andando com pessoas que as deixam pra baixo?

A resposta que o filme oferece é: “nós aceitamos o amor que acreditamos merecer”. Apesar de ter certa significação, eu acredito que a resposta seja sim muito simplista. O primeiro questionamento de The Perks of Being a Wallflower (2012) é esse: por que procuramos companhias que nos diminuem? Estamos apenas espelhando o pouco de pensamos de nós próprios? Estamos nivelando por baixo? Mas onde fica esse limite? Como saber se estou com alguém que me deixa pra baixo ou se realmente eu não conseguiria coisa melhor? É claro que no enredo adolescente e cheio de reviravoltas instigantes do filme fica bem claro como Sam namora um babaca. Quero dizer, que tipo de pessoa responde “Você escreve poesia?” com um floreio e “A poesia é que me escreve”? Não dá pra não virar os olhos nessa cena.

Outra coisa: pra quem é fã de John Green, é impossível ignorar como a história do filme (que é uma adaptação de um romance) é parecida demais com Looking for Alaska. Os ingredientes básicos estão todos lá: um personagem principal calado, sem habilidades sociais, com apego incomum por leitura, que são inseridos numa escola nova, com pouca ou nenhuma interferência da família. É claro que os problemas mentais de Charlie nem se comparam à falta de jeito de Miles, mas os dois se comportam de formas surpreendentemente semelhantes. Mas é claro que eu não vou cometer o erro clichê de acusar uma das duas histórias de plágio. Primeiro, porque nenhum deles inventou a idéia de um menino tímido e deslocado numa escola nova, especialmente nos últimos, digamos, vinte anos, em que filmes e livros vem retratando muito as vítimas de bullying, às vezes até romantizando tudo.

Além disso, a personagem de Emma Watson, com seu sotaque americano bem fingido, é uma Alaska mais rasa. Os traumas que Charlie tem no filme, Alaska tem no livro, até certo nível. Ela é o que alguns estudiosos chamam de estereótipo da “pixie girl”. O que é a Pixie girl? Bem, são personagens como Alaska, Sam, Kate Winslet em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, etc. Mulheres estranhas, quase mágicas, muito bonitas, muito traumatizadas, que iluminam a vida do personagem principal, mas que muitas vezes foram traumatizadas além do nível em que se pode ajudá-las. Como eu disse, Sam é uma pixie girl bem rasa, considerando suas colegas; ela apenas teve um passado de má reputação e pegação com o chefe do pai, e só precisa dar uma estudadinha pra outro SAT’s. É claro que ela é adorável, e simpática, e não tem como não torcer por ela. Como é o primeiro filme em que eu a vejo depois da série Harry Potter, eu diria que, do trio, ela é a única que tem chances de fazer uma carreira duradoura além de Hermione Granger. Desculpem, Dan e Rupert, mas é a verdade.

E finalmente, o meio irmão de Sam, Patrick, o equivalente ao Colonel no meu paralelo com Looking for Alaska. Aquele personagem masculino, amigo da pixie girl, que é o guia do personagem principal. Alguém imprevisível e divertido, com suas próprias dificuldades, mas com muito potencial. Patrick e Colonel precisam existir, porque senão nem o Perks nem Looking for Alaska iriam para frente – ambos provavelmente seriam histórias sobre meninos estudiosos tomando refrigerante na cara e se masturbando pra pixie girl no dormitório.

Previsivelmente, Charlie tem um começo difícil na escola, e sabemos desde o princípio que ele tem algum problema estranho, e que fica se lembrando de uma tal tia Helen que morreu em um acidente. Mas eis que encontramos aqui a grande reviravolta do filme – eu não imaginava nem em um milhão de anos. Nos últimos minutos de filme, Charlie tem um ataque muito tenso, em que ele quase se mata; as memórias que lhe passam pela cabeça revelam ao expectador que a tal tia não era apenas próxima do menino: ela abusava sexualmente dele. E quando ela morre em um acidente, ele tem crises de culpa, porque o acidente teria ocorrido quando ela ia buscar um presente para ele – e não só isso, ele confessa não saber se teria desejado a morte dela.

Em aspectos de cinema, não há nada de muito especial com a fotografia, ou com a música – além da boa escolha de Heroes para ambientar as cenas no túnel.

O filme é do tipo que faz você se sentir bem ao final, que te faz pensar e refletir sobre os anos de adolescência e sobre como eles são mesmo uma merda pra (quase) todo mundo. Eu com certeza recomendo. E também aconselho a tentar desligar o botão de comparações com Looking for Alaska, porque há de fato muitas semelhanças e isso pode diminuir a sua diversão.

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Filme: Swedish Auto

Antes de falar do filme em si, gostaria só de dar uma dica: caso vocês ainda não conheçam o Netflix, bem, vocês deviam conhecer. Basicamente, você paga quinze reais por mês, debitados na maior simplicidade do seu cartão de crédito, sem documento nenhum, e tem acesso a todo o tipo de filme e série, até documentários, pra assistir online, todos devidamente dublados e/ou legendados. Ele te mostra na página inicial sugestões de filmes conforme você marca suas preferências de gênero e tal. O carregamento é super rápido. A única desvantagem é que ele não tem material muito novo. Algumas séries não tem as temporadas mais recentes, é só. Mas o acervo é grande o suficiente pra te manter entretido até eles conseguirem o material mais novo, sem dúvida.

Bom, vamos ao filme!

Swedish auto se passa principalmente no espaço da oficina mecânica, que leva o nome do filme, onde trabalha um rapaz que, pra resumir bem, é um stalker. Ele é muito solitário, mora sozinho e seus passatempos principais são observar a rotina de uma violinista. Ele almoça todos os dias no mesmo lugar com o dono da oficina e o palhaço do filho dele. Carter assusta no começo.

Mas o motivo principal que eu dou pra vocês verem o filme é a excelente reviravolta que ele dá ainda no começo. Outros temas inesperados são incluídos na trama, os personagens são aprofundados e você se percebe entrando em desespero com as situações, sentindo emoções muito fortes. É um filme de muita empatia, pelo menos pra mim.

A trilha sonora é excelente. Tão boa quanto ela, só os silêncios. Quando os personagens estão em silêncio e a cabeça da gente ferve com tudo que eles devem estar pensando naquele momento. É muito intenso. Ao ler o resumo, fica só parecendo um elogio ao stalkerismo, numa onda meio série tosca de “vampiros”, mas o filme é sem dúvida, um tapa na cara das suas expectativas.

Recomendo.

PS. – Aline, eu sei que você quer a morte do negrito, mas eu não resisti.

Comentário: O Fantasma da Ópera (DVD)

É claro que eu já vi esse DVD várias vezes. Sempre gostei muito, desde a adolescência. O apelo que a história desse musical tem para adolescentes é bem claro: um cara esquisito e sozinho se apaixona por uma moça n, capaz de se tornar uma diva da ópera? Bom, se eu não me engano tem uma galera “gótica” da onda Radiohead/Creep que carregou esse estigma até bem depois de quando seria aconselhável.

Aliás, eu queria avisar que tudo que eu vou falar a respeito da história de dos personagens está baseado no novo DVD – eu não vi nada da versão com a Sarah Brightman além de algumas cenas, assustadoras o suficiente pra eu saber que não queria ver mais.

De todas as vezes que eu vi, só hoje eu enxerguei uma interpretação, que é tristemente meio feminista. Mas como eu achei bases na história pra ela, explico e aí vocês me dizem o que acham.

O Fantasma da Ópera é uma história sobre solidão, música e amor. Pelo menos são as três palavras que eu colocaria como mais importantes. A Christine cresce na escola de ballet da casa de ópera, meio que adotada pela professora das bailarinas, depois que seu pai morre com ela ainda muito jovem. Durante o amadurecimento dela, uma voz estranha fala com ela quando vai rezar pro pai. Essa voz se intitula o Anjo da Música, que ela acredita ter sido mandado por seu pai, e assim ele a ensina a cantar ao longo dos anos. Com a mudança de administração da casa de ópera, as exigências antes atendidas são negadas pelos novos donos; com eles entra em cena Raoul, um jovem (convenientemente) rico e muito bonito, que tinha sido namoradinho de infância de Christine, quando ela ainda morava com o pai. Enquanto eles se aproximam, o Fantasma se vê ameaçado e também entra em cena, exigindo que Christine tenha os melhores papéis.

A cena em que ele a leva pras masmorras onde mora, embaixo da casa de ópera, é uma das mais famosas de todos os tempos, sem mencionar o refrão (The phaaaaaamtom of the opera is theeeeere… Inside my miiiiiind…). É uma cena ricamente construída em cima de um homem querendo uma mulher, pura e simples. Só que a gente entende que o amor do Fantasma pela Christine se origina do talento dela, curiosamente. O que você entende é que a união dos dois seria o ideal para a música (Your spirit and my voice, a Christine canta enquanto é levada). Ele criaria, ela cantaria. Eles nem deveriam subir de volta ao mundo das outras pessoas; bastariam um ao outro, vivendo com a música. Mas, mais importante, o Fantasma teria uma companheira e uma igual – apesar de ela não ser um gênio criativo como ele, ele resolve vê-la como igual.

Por outro lado, quando volta ao “mundo real” e percebe as aproximações de Raoul, Christine começa a ficar confusa. Sua confusão aparentemente se resolve quando o Fantasma mata um homem e joga o enforcado em pleno palco durante uma apresentação – Raoul e Christine protagonizam outra cena clássica, “All I ask of you”. Na letra, em oposição à cena do encontro dela com o Fantasma, você vê que as duas situações se opõem como Raoul sendo luz e o Fantasma a escuridão, dia e noite, liberdade e prisão; o Fantasma está dentro da cabeça de Christine e é como se a perseguisse em todos os lugares. Raoul e Christine cantam ao mesmo tempo  “Anywhere you go, let me go,too. Love, that’s all I ask of you.”

Bom, segue-se a cena de profundo sofrimento do Fantasma, que acompanhava a cena escondido – putaquepariu, o que é chorar nessa hora? Aqui está a identificação do típico adolescente rejeitado, haha. Pelo menos comigo isso rolou, e meio que ainda rola sempre que vejo essa cena. Ele sofre, e depois ameaça vingança.

A partir daí as coisas ficam tensas, os eventos se desencadeiam de maneira que por mais que Christine fique noiva secretamente de Raoul, o Fantasma é sempre um tipo de tentação pra ela. Sempre que ele usa uma voz mais cuidadosa, ela se rende e quase volta. A parte em que isso mais chega perto de acontecer é na cena do cemitério, dueto da Christine com o Fantasma, Angel of Music, I denied you.

Pulando direto pro ápice do filme, quando o Fantasma dá o ultimato a Christine, exige que ela escolha entre ficar com o Fantasma pra sempre e liberar Raoul ou negar o Fantasma uma última vez, ao custo da morte de seu noivo. Depois de um suspense de praxe, ela se aproxima e beija o Fantasma, sem a máscara. Aparentemente, o beijo dela causa uma dor que ele não tinha esperado sentir – afinal, ele a amava e ela não o beijou pelo mesmo motivo – e resolve deixá-los ir. Na minha opinião, essa atitude já descarta as teorias de que o personagem é louco, como afirmam muitos ao longo do filme. Não acho que alguém desequilibrado tomasse uma atitude similar. [/opiniãopessoal]

Final feliz pro filme, com um arremate de tristeza porque todo o musical é perpassado por um flash forward do Raoul comprando a caixinha de música do Fantasma num leilão e levando ao túmulo da Christine. Ao contrário do que é normalmente feito, o futuro é mostrado em preto e branco, e não o passado, mas também como estratégia pra mostrar a tristeza do personagem em ser viúvo, talvez.

Bom, eu prometi uma visão feminista. Lá vai. Se você enxerga o Fantasma como um inspirador do talento artístico da Christine e o Raoul como o chamado para a vida normal de esposa (e Viscondessa, mas enfim), na verdade os dilemas da Christine não são entre apenas dois homens, mas dois estilos de vida. Aquele oferecido pelo fantasma não é nada tradicional, e assusta – daí o desconhecido do futuro com ele ganhando significação com a cor escura. E o oposto pro Raoul: a vida que qualquer moça ia querer, se não tivesse talvez a opção do talento.

Aí você diz, bom, mas o Raoul nunca deu a entender que a Christine não cantaria mais uma vez casada com ele. A minha evidência disso está num dos últimos quadros do filme, pertencente ao flash forward: Raoul coloca a caixinha de música do Fantasma sobre o túmulo dela, nós vemos uma foto envelhecida da Christine, e na lápide está escrito: “Vicomtesse de Chagny – Beloved wife and mother“. Também não tem nenhum sinal de amor dos fãs, ou de qualquer sinal de que ela foi uma cantora de ópera, ou mesmo uma bailarina. Isso indica que sim, depois daqueles eventos ela realmente não cantou mais. É possível, então, ver que O Fantasma da Ópera é também uma história entre uma mulher dividida entre o seu talento e uma vida tradicional, além de outras coisas. Se eu tivesse paciência, escreveria também sobre o Fantasma – mas não sobre o Raoul, ele é muito óbvio e chato! – , mas esse post já está grande demais.

Independente de quaisquer juízos de valor de gênero ou mimimis do gênero, essa é uma linda história e eu devo ainda rever muitas vezes! =]

Avatar e entretenimento

Antes de tudo, eu queria falar sobre a tamanha tentação que é não criar um vlog, seguindo o que eu fiz na semana passada. É cansativo, mas divertido. Enjoei de olhar pra minha cara durante as horas de edição, mas valeu pra ouvir a minha mãe dizer no telefone domingo: “Amaaaaaanda, você tá linda no youtube”. Hahaha. Mãe é uma coisa muito doida.

Mas o assunto de hoje: assisti Avatar, finalmente. Como o post não se chama “Comentário: Avatar”, só digo por cima que ele é estupidamente longo (duas horas e trinta e cinco minutos? Oi, Senhor dos Anéis?), mas MUITO legal. Sério mesmo, eu curti cada um dos trezentos e cinquenta mil minutos do filme. E nem senti tanta falta dos efeitos especiais. Uma coisa que tem me incomodado muito a respeito dos filmes que tão sendo lançados ultimamente é o fato de que TUDO agora é lançado na merda do 3D. Gente, que chatura! Só pra eu ter que pagar o dobro pra ir no cinema e usar um óculos com duas cores? Triste, mas vou ter que assistir algum filme em 3D pra falar mal com propriedade, agora. Olha que tristeza. Alguém quer ir ver Alice comigo?

Como eu digo aos meus alunos: focus…

Como ia dizendo, Avatar é muito legal. Apesar de ter exatamente o mesmo enredo de Pocahontas – e eu já tinha sido alertada disso, motivo de eu ter demorado tanto pra ver, além do 3D – , é muito divertido. Você realmente se apega aos personagens, e fica puto com os vilões, tudo. Passa o filme todo achando que vai acabar em tragédia, achando que seria impossível o Sully ficar com a… a mocinha azul. Neytiri?

Hoje de noite contei prum amigo meu que finalmente tinha visto Avatar e tinha adorado. Daí ele me perguntou diretamente “E é bom mesmo?”, daí eu parei. “Bom, ele é um grande entretenimento. É divertidíssimo, não é tempo perdido assistir, de jeito nenhum. Dá até pra abstrair um tiquinho nessa coisa de colonizar civilizações, mas isso é muito raso, obviamente, por isso foi um blockbuster. Eu gostei, mas não é um filme intelectual. É legal apesar de ser tão cheio de grana.”

Bom,

claro que eu não fui tão articulada na hora. Vocês viram no vídeo que eu sou um ser que não consegue elaborar uma coisa dessas sem pensar muito antes, apertar o backspace na cabeça e tal.

O que eu quero dizer com tudo isso é na verdade bem simples: eu costumo separar o fato de uma coisa ser bem feita ou intelectualmente profunda do fato de eu ter gostado dela ou não. Odeio essa gente que só tem gostos intelectuais. Que só lê crássicos. Gente, hoje eu recebi por e-mail o primeiro capítulo do sétimo livro do Artemis Fowl e fiquei que foi pura felicidade. Adoro Harry Potter. Adoro… que mais intelectualmente condenado que eu adoro? *procurando nas pastas de músicas* Taí, Lady GaGa. Até Avril Lavigne tem. Evanescence. Mas eu gosto de umas coisas que são consagradas, tipo Placebo. Que todo mundo diz que é bem feito musicalmente, etc etc. Eu sei lá. Sei que eu gosto. Pra eu gostar, não é realmente importante ser cabeçudo. É claro que isso não significa gostar de porcaria unanimemente. Mas se alguém me diz que só ouve Chico Buarque, Death Cab for Cutie, Bob Dylan e coisas do naipe, eu desconfio. Exceto pelo Chico, gosto dos outros mencionados, mas…

Por outro lado, outros grandes cabeçudos consagrados me dão urticária. Eu geralmente defino como “É muito bem feito, mas eu detesto”. Aí nessa lista eu coloco Machado de Assis, o último filme do Lars von Trier, o Chico Buarque… Tem algo neles que me irrita, algo de talvez intelectual demais? De fake? Eu não sei te explicar. Não acho o Machadão fake, não sei porque não gosto dele. Não gosto do Anticristo porque acho que ele é muito bem feito esteticamente, mas é vazio de sentido e dá voltas sobre um mesmo tema. O Chico é só chato mesmo. Mas sabe, gente?

O que eu tô me desesperando pra deixar claro aqui é que eu muitas vezes gosto de coisas pelas quais me condenam, porque aparentemente são vazios, mainstream ou mal feitos. Outras vezes, odeio coisas alternativas, de cafés e mostras culturais que todo mundo idolatra. Eu não gosto de ter vergonha do meu lado pop, não tenho vergonha de me identificar com coisas que são contemporâneas à minha existência – a mera idéia de se esforçar pra ter influências de vinte anos atrás é bizarra, não é? Pois é, muita gente é assim. Quer que a gente acredite que são assim. Bom, eu não sou.

Pra me entreter, não precisa muito: é só passar Ela é Demais na Sessão da Tarde! É evidente que eu também piro o cabeção lendo um Kafka, acho o Gus van Sant um cineasta do caralho. Eu sou normal! Sou a pessoa mais normal do mundo, como sempre digo.

Emma, Jane Austen

Antes de mais nada, só queria comentar que mudei o cabeçalho ontem, com um pedacinho de uma foto que eu tirei há alguns meses. Adoro foco super macro, confesso.

Agora, ao que interessa. Jane Austen escreveu romances sobre mulheres, basicamente. E eu não culpo a maioria maciça dos homens por não gostar do que ela escreve, que é basicamente sobre senhoritas tentando arrumar um marido rico e que elas amem – porque as heroínas da Jane Austen só se casam por amor, embora maravilhosamente o amor seja rico na Inglaterra do século XVIII. Mas talvez vocês já possam desconfiar que tem algo por trás de tanta caçação de macho se eu disser que a própria autora nunca se casou, embora o casamento esteja em toda a parte de sua obra.

Desde que assisti um filminho chamado “The Jane Austen Book Club”, resolvi tentar fazer o mesmo dos personagens e ler todos os romances da Austen. Bem, eu já tinha lido Pride and Prejudice havia mais de um ano, então o mais legal de todos já estava descartado. De qualquer maneira, passei na biblioteca da FALE e peguei os que sobraram, pra trazer pra roça. Volto em dois dias e só li um deles. A meu favor, digo que antes li os livros que peguei emprestado com uma amiga, e comprei mais um, então não me persigam, ainda tem um mês inteiro de férias.

O caso é que esse primeiro romance que terminei é Emma. Eu o escolhi pra começar porque sabia que Emma é o que chamam em inglês de matchmaker, e que isso foi precursor de mil histórias de casamenteiros que não sabem cuidar das próprias vidas amorosas. Sim, você aí pensou no filme do Will Smith, né? Ok, o pop está em todos nós, entra na cabeça mesmo que a gente não queira. Tá de boa, pensei no mesmo. E GOSTARIA DE DEIXAR CLARO QUE TEM SPOILERS ABAIXO, OU SEJA, VOU CONTAR O FINAL! Estejam avisados.

O primeiro parágrafo já deixa claro que Emma Woodhouse é rica, bonita, e fora a morte da mãe quando era criança, não teve nada de relevante para entristecê-la: o sentido normal das coisas é cumprir a vontade dela. Emma tem 21 anos, cuida da casa desde jovem, porque a irmã se casou e se mudou, e ela se torna a única companhia do pai, que já está bem velho, quando sua governanta se casa. De acordo com Emma, o próprio casamento seria um arranjo dela.

Eu desenrolei o que acontece no primeiro capítulo. Emma resolve fazer amizade com a tal Harriet Smith, que é pobre e não sabe quem é sua família natural, (the natural daughter of nobody) e se empenha durante todo o livro para arrumar um marido para a amiga. Seu melhor amigo, irmão do cunhado e dono da mansão vizinha, Mr. Knightley, a censura desde o princípio por colocar idéias em Harriet que não condizem com seu lugar na sociedade.

De ler isso, parece que o Knightley é vilão. O caso é, NÃO; todos os personagens, unanimemente, concordam, ainda que silenciosamente, que o dinheiro dita quem pode se relacionar de qual maneira com quem, especialmente com relação a casamentos. Muitos são por dinheiro sim. Mas você acaba compreendendo que o casamento entre pessoas com diferenças econômicas acaba sendo muito improvável porque ricos e pobres simplesmente não se encontram, não se conhecem, e mesmo quando isso acontece, a diferença fica presente, como na cena em que Emma vai fazer sopa para uma família muito pobre e Harriet a acompanha. Isso fica mais forte ainda na adaptação para o cinema de 1996, que tem a Gwyneth Paltrow no papel principal.

Gwyneth Paltrow como Emma Woodhouse, em 1996

Alguém muito mal educado fez anotações violentas no livro em que eu estava lendo, e como sou curiosa do jeito ruim, li uma parte que falava sobre Emma ser uma comédia dos erros. As dicas para o que realmente acontece à volta de Emma estão lá o tempo todo: você vê Mr. Elton dando em cima dela o tempo todo, e não de Harriet. Você vê que depois ela não se apega ao Frank Churchill, mesmo que a Emma já tenha percebido que não gostou dele realmente. E a essa altura você já começa a prestar muita atenção no Knightley falando: “Brother and sister? No, indeed!”, se referindo a Emma. Porém, ela simplesmente não vê. “Eu pareço condenada à cegueira”, ela confessa a ele, quando, no fim do livro, os dois finalmente se declaram mutuamente.

E como tudo dá errado nas previsões da Emma, o que estaria errado nesse momento maravilhoso? Hã? Harriet Smith tinha confessado amar Knightley, dias atrás! Aiai… Sim, tudo dá errado pra Emma, mas pra aquecer o coração da gente, ela acaba se dando bem no final, casando com Knightley e tudo o mais.  Engraçados esses finais felizes da Austen, porque ela própria não foi assim. E outra coisa: os dois galãs que eu já vi dela são meio rudes. Será que ela, como eu, desconfia dos bonzinhos demais? Sei lá, vai ver ela entende uma certa hipocrisia em bons modos eternos. Enquanto Emma tenta mascarar sua desaprovação da Mrs. Elton, Knightley nunca finge gostar de Frank Churchill – mais por ciúmes, mas ainda assim.

Outra coisa: vale questionar as relações secretas a partir desse romance. Confesso que não imaginei o noivado secreto da Jane Fairfax com Frank, já que ele gastou tanto tempo falando mal dela pra Emma e dando em cima da Emma tão violentamente!

Bom, o que vale dizer é que o livro tem trechos maçantes, mas acaba sendo ótimo, e te prende. Só mais um paralelo com Pride and Prejudice: os dois, Darcy e Knightley, tem uma frase de impacto, romântica, que me derreteram e me fizeram virar uma mulherzinha boba suspirando pelo príncipe encantado. Eu sempre quis ouvir o Darcy falando pra mim: “I love you. Most ardently.” Sem falar que no filme ficou ainda melhor! O Knightley, por outro lado, diz  “I cannot make speeches, Emma. If I loved you less, I might be able to talk about it more”. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh.

Sobre as adaptações: vi duas. Uma pra TV, muito mais ou menos, deletei assim que vi. Mas achei que ela acertou em coisas que a adaptação pro cinema errou. O Mr Knightley da TV era mais rude, mais durão, enquanto o do cinema era um pouco príncipe encantado demais. A Harriet da TV também parecia mais a menina inocente e boba, embora a atuação da Tony Collete pra cinema seja muito boa (mas eu confesso que mesmo que não fosse boa eu gostaria, afinal a Tony Collete é mãe da Little Miss Sunshine! hahaha.) A Emma-Paltrow é muito boazinha, a Emma-TV (esqueci o nome) é malvada demais. A fotografia e montagem pra TV são horríveis, as do cinema são melhores. A Miss Bates pra cinema é ótima, e irritante como a do livro. Aliás, PUTS! Eu pulava a maior parte das coisas que a Miss Bates fala no livro, porque a fala dela sempre terminava na página seguinte, quando saía algo de interessante…

Mas então, é isso, eu recomendo. É uma leitura que exige paciência, e compreensão, o ato de tentar pensar como as pessoas daquele contexto, porque a nossa vida é loucamente diferente hoje. Qualquer generalização que fiz sobre toda a obra que estiver errada e apenas diga respeito aos dois romances que eu li, perdão desde já.

Gente, mil e duzentas palavras! Isso podia ser um essay pra faculdade! Agora é só esperar eu fazer uma matéria que leia esse livro…