Mulheres em tradução de notícias

No mês passado, terminei a Letras. Falar isso parece inacreditável, especialmente se você viu meu post sobre o que sinto toda vez que penso em me formar, mas não é esse o assunto de hoje – especialmente porque antes da colação de grau, a gente meio que se sente mentindo falando que formou.

A minha monografia foi defendida no mês passado, e o tema dela, creio eu, vale pelo menos um post de blog, não é? Hahaha.

Basicamente, um dia eu encontrei uma notícia sobre a Casey Anthony na BBC, e depois vi sua tradução na BBC Brasil. O texto em inglês exibia uma parte dizendo “Anthony, wearing a pink button-down shirt and her hair tied back in a pony-tail, wept when the not guilty verdict was read”, enquanto a versão em português dizia “Ao ser inocentada das acusações de assassinato e abuso, Casey chorou.” Estranho, não? Vale lembrar que ambos artigos tinham uma imagem dela, com o look descrito, mas essa parte da frase simplesmente não aparecia no texto em português.

Isso gera inúmeras perguntas, não é? Será que notícias em inglês objetificam mais as mulheres? Será que a aparência delas é mais importante lá do que aqui? Será que o tradutor achou irrelevante? Será que isso não se faz? Como as notícias lidam com essas marcas de gênero em notícias?

Bem, isso gerou meu projeto de pesquisa. Feito isso, resolvi coletar amostras, formar o que a gente chama de corpus: textos de notícias, em inglês e traduzidos para o português brasileiro, para ver se esse tipo de coisa acontecia, ou se o par que eu tinha encontrado era apenas uma exceção. Como a monografia leva apenas um ano e o período para coletar os textos foi de apenas três meses, só consegui 22 pares de textos, e também porque é mais difícil do que parece achar notícias que tenham no seu centro de informação uma mulher, ou mulheres como coletividade.

Vale lembrar, antes de eu dizer o que encontrei, que tradução de notícias é uma coisa muito complicada no mercado de hoje. Não existe regulamentação para isso; muito frequentemente, quem traduz essas notícias são os próprios jornalistas, e o intervalo de tempo entre texto em inglês pra texto em português varia entre três horas e um dia. Por causa das infinitas variáveis que podem envolver a produção essas traduções, a gente só pode especular os motivos, mas mesmo assim temos resultados.

Vejam bem: esses 22 pares acabaram estabelecendo dois padrões muito curiosos. Uma parte deles, a maior parte (14) foram traduzidos de um jeito quase engraçado: frase a frase. Tipo assim:

Source text: “It’s bad,” Erin M. Carr-Jordan said, swab in hand, as she collected samples from a surface that she would later deliver to a lab for microbial testing.

Translated text: “Está ruim”, disse Erin M. Carr-Jordan, com um cotonete na mão, enquanto coletava amostras da superfície para entregar a um laboratório que realiza testes microbianos.

Meio esquisito, né? Dá pra ver que a pessoa simplesmente foi olhando, palavra por palavra, e digitando traduções. A maioria dessas traduções era meio esquisita de ler, porque tinha construções que deixavam bem claro que aquele texto tinha sido escrito em outra língua – idéia essa que a gente aprende a tentar evitar ao traduzir.

Porém, o que é mais interessante nem é isso: é que esse tipo de tradução era mais frequente em tipos específicos de notícias – o que chamam na área de hard news: política, economia e crime.

Por outro lado, ainda que menos ocorrente nos meus dados, houve um número de traduções que eu chamei, pra tentar não dar julgamento de valor, de tradução a nível textual. Aí que é fica o centro das bizarrices:

Source text: Tributes are coming in from around the world.
On Twitter, Tinchy Stryder said: “My thoughts go out to her family and friends. RIP Amy Winehouse.”
Katy B said: “So sad. Such an incredibly talented woman. R.I.P Amy such an inspiration, my heart hurts.”
Jessie J said: “The way tears are streaming down my face – such a loss – RIP Amy.”
Lily Allen, who rose to fame around the same time as Amy Winehouse said the death is “just beyond sad”.
She added: “There’s nothing else to say. She was such a lost soul, may she rest in peace.”

Translated text: O crítico de música do jornal Daily Telegraph se disse chocado pela morte da artista. “É o mais trágico desperdício de talento que consigo lembrar.”
Sua última aparição foi na noite de quarta-feira, quando se apresentou ao lado da cantora de soul Dionne Bromfield, na The Roundhouse, uma casa de shows em Camden.
Ela havia sido liberado havia pouco de um programa de reabilitação e estava sob regras severas para não beber.”

E sim, esse par é sobre a morte da Amy Winehouse. Eu peguei o final do artigo pra vocês verem que loucura. Os pares que foram traduzidos dessa forma até desafiam, na minha humilde opinião, o conceito de tradução; porém, aceitei como tradução esses textos porque apesar de diferirem loucamente em partes como essa, compartilhavam as informações centrais, como data, evento, horário, etc etc, sem mencionar o fator prático de que esses textos tinham grande proximidade cronológica com a publicação do artigo fonte.

O problema é: por onde começar? hahaha

A gente aprende na faculdade que a tradução a nível textual é ideal, porque considera fatores extratextuais: contexto, público alvo, possíveis diferenças culturais, adaptações, etc. Porém, (e no blog eu posso dar juízo de valor e que tudo se exploda), nas notícias a gente vê uma prática completamente irresponsável desse método de tradução. Frases e parágrafos muitas vezes foram omitidos, as informações trocadas de lugar, sem mencionar esse exemplo acima, que ilustra bem claramente o que acontece quando você traduz uma notícia de forma irresponsável: quando você lê o texto fonte, sabe que uma cantora muito talentosa foi encontrada morta, que não se sabe o motivo e que outros artistas estavam mandando mensagens de luto; ao passo que no texto brasileiro, Amy poderia perfeitamente ser mais uma celebridade decadente, que já não cantava ou mostrava talento há tempos – se você olha os artigos inteiros, a menção de seu Grammy é estrategicamente movida – , sem mencionar que provavelmente não passava de uma bêbada.

O problema das notícias é que elas não precisam dizer essas coisas explicitamente para que elas causem essa impressão nas pessoas. Na verdade, se elas dessem sua opinião de forma óbvia, a chance dos leitores chegarem às mesmas conclusões poderia até ser menor. Nos meus pares de textos, isso aconteceu várias vezes. Casey Anthony, a mulher que foi inocentada de matar a filha, em inglês foi liberada por “dúvida razoável”, ou falta de provas. Em português, a insistência em falar de sua vida de festas acaba dando a clara impressão de que, em português, Casey só se deu bem.

Idealmente, é claro, as notícias não deveriam nos passar essas opiniões, não é? Pois é, mas passam. O contraste facilita que isso seja visto. E existe muito mais gente do que gosto de admitir que lê as notícias sem questionar a escolha de assuntos ou o tratamento deles. E isso acontece todos os dias. Vemos a polícia invadindo comunidades, expulsando gente pobre das suas casas, funcionários em greve de diversas categorias, enquanto as grandes mídias apenas falam do trânsito, porque é isso que sociedade do deus Carro pagando estacionamento no deus Shopping quer ouvir.

Mas calma, não terminou: essas traduções foram mais frequentes com outro tipo de notícia, soft news, que compreende artes, vida dos famosos e estilo de vida.

Muitas outras perguntas surgem desse resultado. Existe hierarquia entre os tipos de notícias? Soft news não precisam tanto que as informações tenham a mesma ordem do texto fonte? Será que porque soft news são estereotipicamente femininos, elas importam menos e qualquer bricolagem resolve o problema? E por que hard news é consistentemente traduzida por uma versão cafeinada do google tradutor?

Infelizmente, os dados da minha monografia não são suficientes pra responder a essas perguntas, e se valeram pra alguma coisa, foi pra gerar mais perguntas ainda. Agora o que resta é criar um projeto de mestrado que olhe tudo isso mais a fundo.

No meio tempo, vocês deveriam ver esse documentário, MissRepresentation, que fala sobre a exploração da figura da mulher na mídia dos Estados Unidos. Vocês ficarão surpresos – e deprimidos – com o volume de informações dele.

Minha monografia foi escrita em inglês, porque me formei em inglês. Quem tiver interesse no pdf, é só falar comigo.

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Carta aos pedreiros-espírito de porco

Não pra todos os pedreiros que erguem casas e prédios. Mas pra todos aqueles pedreiros, às vezes almas torturadas escondidas dentro de um playboy bombado, que insistem em falar gracinhas no meio da rua pra qualquer pessoa portadora de vagina. Pra quem foi ensinado desde pequeno que a mulher gosta de ouvir “elogios” de estranhos. Pra quem acha bonito gritar coisas pra uma mulher de dentro de um carro.

Quando eu estava voltando pra BH com meu pai há duas semanas, eu perguntei pra ele o que ele achava desses homens que gritam na rua quando uma mulher está passando sozinha, ou que chamam uma desavisada de gostosa, não importa a idade, não importa o real fator gostosura, não importa nada. Bem, ele me respondeu: “quem faz isso não é homem, é moleque”.

Vamos pegar essa máxima de sabedoria do meu pai e aplicar na vida real. Eu comecei a ouvir essas “gracinhas” na rua desde os doze anos. Hoje quando me lembro disso confesso que me assusta ainda mais. Com doze anos eu mal tinha começado a me desenvolver. Ainda não tinha seios, ainda não tinha nada. Era uma criança. Hoje, quando eu dou aula pra uma menina de doze anos, percebo como elas são pequenas. Vou repetir, são crianças. Agora, imagine que já faz um bom tempo que crianças são chamadas indiscriminadamente de “gostosa”, “princesa”, “ah lá em casa”, etc. Você pede pra sua filha comprar um pão ali a dois quarteirões de distância e isso acontece. Eu queria dizer que é exagero, mas é real e eu sou só um exemplo disso.

Bem, estou prestes a completar 23 anos, então veja bem, já são mais de dez anos disso. Já faz mais de dez anos que, não importa aonde eu vá e o que eu esteja vestindo, se eu estiver na rua e for passar pela mesma calçada onde um homem – geralmente mais velho – estiver, vou ter que ouvir julgamentos gratuitos sobre a minha aparência e sobre como eu provavelmente sou na cama. Ouvi isso por sete anos inteiros antes mesmo de perder a virgindade. Muitas mulheres podem te contar uma história parecida.

Acho que ninguém ainda acredita sinceramente no mito de que as mulheres gostam desse tipo de tratamento. Eu nunca conheci nenhuma. E também não tem efeito nenhum sobre a auto estima. Se você está indo pra casa à noite depois de um bar, vai pro ponto de ônibus e os carros começam a passar, buzinando e gritando – repito, não importa a roupa – a sensação não é “nossa, como eu sou gostosa”. É de medo. Como é que eu não sei que aqueles palhaços não vão fazer alguma coisa comigo? Afinal, eu estou ali, completamente indefesa, não é?

Não quero falar dos mesmos fatores que a Lola falou no post dela sobre esse hábito horrível do espírito de porco pedreiro style, mas sobre como agir nesse tipo de situação. A atitude da mulher quase 100% das vezes é ignorar. E é isso mesmo que meu pai me disse que eu deveria fazer nessas situações. Mas veja bem. Já faz dez anos que eu faço isso. E não parou. Nem vai parar. Isso de “se dar ao respeito” não tem nada a ver com ficar em silêncio.

Oras, caros pedreiros-espírito de porco, se eu ficar calada todas as vezes que vocês gratuitamente avaliarem a minha aparência, como vocês vão saber que não só eu, mas ninguém aprecia o seu julgamento? Como o meu silêncio vai ser mais eficaz do que toda uma vida ouvindo que a gente gosta disso?

Pois bem. Como eu não posso e nem quero sempre parar para dar uma aula sobre direitos humanos pra todo pedreiro-espírito de porco que encontro – ou que me encontra, né – e como não recebo pra dar uma lição tão detalhada quanto as lições de inglês que dou diariamente, mantenho um tratamento de choque: mandar tomar no cu. Seja falando, seja com gesto. Algumas vezes, senhores pedreiros-espírito de porco, vocês me chamam de mal-educada. Ora, respondo às vezes (só quando tenho paciência), eu preciso de educação? Sou eu que estou incomodando gente na rua que só está passando? Bem, então acho que só respondi à sua má educação com má educação, não? Se você tivesse me deixado passar em paz e em segurança, todo mundo estaria feliz.

Então, veja bem, ninguém gosta disso. Você não afirma sua macheza me chamando, ou qualquer outra, de gostosa. Você só prova que tem dois neurônios com dificuldades de comunicação entre si. Seus colegas não vão te achar viado se você me deixar em paz. Afinal de contas, você não está trabalhando? Vê se eu fico chamando aluno meu de gostoso. Por que eu deveria ser demitida por justa causa caso faça isso e você toma uns tapinhas nas costas dos seus colegas?  Essa história está mal contada, não acha? Pois é.

O pacto que fica: você me respeita, eu te respeito. Falou?

Igualdade é possível?

Essa semana um dos melhores vlogueiros do Youtube, o AmazingAtheist, está fazendo uma série de vídeos chamada “Hate Week”. O primeiro vídeo tem argumento central que ficou na minha cabeça durante essa semana. Pra falantes de inglês, o vídeo abaixo:

A idéia básica: igualdade é uma ilusão, porque por princípio todos nós somos diferentes. E por mais que seja cabível que perante a lei devamos receber o mesmo tratamento, é um absurdo esperar isso no dia a dia.

Essa idéia foi somada com um post da Redd que eu demorei demais pra ler, que coloca exatamente o modo como eu me senti a vida toda a respeito do feminismo: simplesmente ir lá e exercer os direitos. Não lutar por eles, não protestar, simplesmente ir lá e fazer o que eu queria. Bem, antes de expor a minha humilde conclusão eu quero descrever o cenário aparentemente misturadíssimo de Londres.

Eu moro no dormitório da universidade – só por mais duas semanas!!!! – e tem esse salão onde servem refeições duas vezes por dia. Desde o primeiro dia tive uma forte sensação de refeitório de High School americana. E as coisas seguem um padrão. Os brancos ingleses andam juntos, os internacionais – tipo eu – tendem a se agrupar com pessoas que tem culturas parecidas. Em questão de duas semanas as panelinhas estão formadas e você dificilmente conhece alguém novo depois dos dois primeiros meses. Por isso, hoje eu fiquei chocada de tal forma quando uma francesa e um italiano random sentaram na minha mesa hoje e começaram a puxar assunto. Eles NÃO SÃO do meu grupo, como podem só ir sentando?

Dois: hoje, de dentro do ônibus, passei por dois policiais algemando um suposto criminoso na frente de um mercado. Tive dois pensamentos: a polícia daqui realmente PEGA os ladrões, o que pra mim é uma grande novidade, e dois, por que sempre que eu vejo gente sendo algemada essa pessoa é negra? Afinal, aqui não tem miséria, né. Ninguém “precisa” roubar. Né?

A sensação que eu tenho da miscigenação suposta de Londres é que na verdade todo mundo só dá conta de viver assim, misturado, porque na verdade ninguém se mistura coisa nenhuma. Eu vejo igrejas onde só vão negros, escolas onde só vão negros ou só vão brancos. A idéia não é de um apartheid, não, como se os negros sentissem que não podem ir nas áreas mais “brancas”. O que eu sinto é que existe uma certa auto segregação.

A maioria da população negra aqui, pelo menos até onde eu sei, descende ou nasceu na Nigéria. Eles tem um sotaque bastante marcado, um jeito de andar e de interagir entre si. Uma amiga minha me disse que na semana passada, um motorista de ônibus estava dando anúncios pras pessoas no andar de cima pararem de beber ou coisa assim (aqui é ilegal beber nas ruas ou dentro do transporte público), quando um inglês bêbado (e branco, claro), berrou de volta: “Sorry, I don’t speak Nigerian!” com risos imbecis dos amigos dele.

Não preciso explicar o quão ofensivo isso é, lembrando que a língua oficial da Nigéria é o próprio inglês, ainda que quase toda a população tenha como língua materna alguma língua africana. Aqui nunca se fala em sofrer por preconceito. Você não ouve nem frases que generalizam uma nacionalidade, o que vai a extremos meio estranhos. Por exemplo, me desculpem, mas eu acho o sotaque indiano em inglês uma coisa lamentável. Feio de se ouvir. Não implico que, sei lá, os indianos sejam burros ou qualquer coisa. Mas sei que não posso dizer isso pra alguém. Parece que se a gente não fala sobre as nossas diferenças elas não existem. É… esquisito. E totalmente diferente do Brasil, porque no Brasil as pessoas se misturam mais, e tem menos medo de falar das diferenças, e dizer ‘feio’, ‘bonito’, ‘legal’, ‘chato’, etc. Eu não discordo quando você diz que julgamentos como esses muitas vezes só refletem os tais padrões de beleza inatingíveis. Mas sabe? Nem sempre. Tem gente eu acho feia e pronto. E eu quero poder dizer isso. Tem gente que eu acho bonita e eu quero poder dizer isso. Não gosto de ter que fingir que todo mundo é igual, com essa auto segregação daqui. A atitude londrina é racional e educada, mas é fria de humanidade e isso me estressa.

Ao mesmo tempo, com relação à opinião do AmazingAtheist, eu concordo que nós somos todos diferentes e nos tratamos de forma diferente. Mas porque esse tratamento, diria eu, diferenciado, precisa corresponder justamente com o estereótipo do preconceito? Por exemplo, os negros vêem claramente quando uma mulher segura a bolsa com mais força ao vê-lo. Ela o está tratando de forma diferente de um cara branco, mas é porque ele é negro simplesmente ou por que ela foi constantemente bombardeada com imagens que associam negros a criminosos?

É muita inocência de um cara que normalmente tem opiniões muito bem fundamentadas. O modo como tratamos pessoas diferentes quase sempre é diferente porque estamos reagindo de acordo com um estereótipo que temos internalizado. Se eu resolver aprender a dirigir, por exemplo, já dá pra imaginar o número infinito de piadas do nível Rafinha Bastos que eu vou ter que ouvir, porque sou uma mulher. Aliás, o problema principal do feminismo na contemporaneidade, acredito eu, nem é que não tenhamos os mesmos direitos ou as mesmas chances de fazer as mesmas coisas que os homens. Como a Redd diz, a gente pode ir lá simplesmente e resolver voltar da festa sozinha, pegar ônibus e descer o morro do 2004 até onde eu moro. Mas eu enfrento consequências muito diferentes pelos mesmos atos. Além de ser, ao menos em tese, um alvo mais fácil pra assaltantes, quem vê uma mulher andando sozinha na rua de noite aprendeu a pensar que ela é vagabunda.

Então eu diria que quando a gente busca um tratamento igualitário, pode até ser que estejamos buscando um padrão tão impossível quanto o de beleza da mídia. Mas é um que vale muito mais a pena. Não um que finja que todo mundo é igual pra aflorar quando o magnânimo branco nacional heterossexual fica bêbado num ônibus. Mas um que nos permita mover-se com flexibilidade entre as desgraçadas panelinhas.

Politicamente correto/Escolhas lexicais

Essa semana, a revista Rolling Stone publicou uma matéria com o Rafinha Bastos, do CQC, na qual ele faz uma piada que é no mínimo infeliz. Pra quem tem preguiça de abrir o link, ele disse num show de stand up comedy, pra resumir, que mulher feia tem é muita sorte de ser estuprada, e que o homem (“herói”) que a estupra merece um abraço.

Vou fazer força pra não chover no molhado com relação a esse assunto. O absurdo do que foi dito é auto explicativo. Gosto muito do programa do CQC  e resisto a declarações de que o humor do programa é baseado em misoginias e outras piadas de mau gosto. Pelo menos nas matérias que eu assisto, o humor geralmente vem da pressão nos políticos do Brasil, o que muito me interessa. Já sei que no passado outro integrante, o Danilo Gentili, já falou merda também. Falou algo racista, não me lembro direito. Então antes de mais nada eu quero isolar o comportamento desses dois da equipe do programa como um todo.

Acontece que li sobre o ocorrido em dois blogs feministas, o da Lola e o Groselha News. Ambos, além de colocarem o que qualquer pessoa de bom senso pensa ao ouvir uma “piada” como essa, levantam uma discussão sobre o que é mesmo politicamente correto, até quando e mesmo SE ele deveria ser transgredido. Concordo que tem gente emergindo com um humor baseado na ofensa alheia gratuita, e concordo sem sombra de dúvida que confundir estupro com sexo é um imenso, enorme, intergalático ato de ignorância. A piada e os argumentos em seu favor me fizeram lembrar de um dia, quando uma coisa dessas não disparava um alarme feminista na minha cabeça: eu estava com uns amigos num bar e me lembro desse cara, com quem até então já tinha bebido, e conversado, e rido, que começou a falar sobre como as mulheres que são estupradas mereceram o que tiveram. Devido à cerveja e ao fato da conversa não estar sendo transmitida via twitcam pro mundo inteiro, os argumentos ficaram muito pessoais e tal, mas o que é mais triste é que existe gente pensando esse tipo de coisa à nossa volta. Não é mito.

Sobre corretismo, eu sempre vi um quê de atraente no termo politicamente incorreto, porque sempre associei o corretismo no uso de uma série de palavras vazias criadas tão artificialmente quanto o aroma de guaraná do Dolly. Sempre associei os termos indicados pelo corretismo a eufemismos. Sempre falei negros (ainda que não falasse ‘pretos’, porque minha vó sempre falou “pretos” com um certo nojo na voz, e eu evitava), gays, paralíticos, etc. Hoje, quando me deparei com o comentário da Lola sobre como se auto educar nesses termos exige esforço. Bem, eu não sou uma naturalista. Acho que os grupos têm o direito de serem chamados pelo que quiserem. Mas acho que muito mais do que serem chamados de homossexuais, as bichas querem ser tratadas como seres humanos. Isso vale pra maioria dos termos. As palavras que eu chamo de “novas” – visually impaired, pra cegos, em inglês, afro-brasileiros-americanos-insira-uma-nacionalidade-aqui, são uma tentativa válida de renovar a linguagem e o modo como a gente trata essas porções da população, mas o uso do termo não deve vir antes da aquisição do respeito, e sim como um resultado. É que nem colocar aluno que teve um ensino defasado pra fazer gramática tradicional e oficina de texto quando chega na faculdade, ao invés de garantir que ele tenha aprendido isso no ensino médio, como está no programa de educação nacional.

Eu sempre dou exemplos de homossexuais, porque são os mais próximos de mim nessa miscelânea. Não é qualquer pessoa que pode chamar um gay de viado ou de bicha. Quando eles percebem que estão sendo respeitados pelos outros, eles mesmos colocam estes à vontade pra chamá-los assim.

O que eu acho é que o respeito deve vir antes do uso de palavras que frequentemente não são práticas. O fato de eu chamar um cego de “visually impaired” não faz ele enxergar melhor. Por outro lado, se os falantes próprios, os magos da língua de verdade, se pusessem a reinventar as palavras, não seria tão necessário que a gente vivesse pisando em ovos, e babaquices decepcionantes como a do Rafinha Bastos seriam cada vez menos vistas.

Guerra dos Sexos

Desde 2007, quando fui num Seminário de Política e Feminismo pela primeira vez, decidi pra mim mesma que achava o feminismo no século XXI o movimento mais descabido e anacrônico de todos os movimentos de minorias. Quando fiz na Letras uma matéria sobre poesia do século XX – ensinada por uma professora feminista – , peguei verdadeiro ódio do feminismo, primeiro porque toda interpretação de poema era a mesma merda, a representação do falo oprimindo a representação do feminino tralalalalalalalala, e segundo porque eu pensava nas mulheres da segunda metade do século passado queimando sutiã e tocando o terror no meio da rua – e até ali, nos meus dezoito anos, eu dizia a quem quisesse ouvir que não me senti nunca discriminada por ser mulher, e que diferentemente de outras minorias, eu tinha voz e podia bater de frente caso eu me sentisse discriminada.

Eu mudei de opinião bastante desde então, mas estava parcialmente certa com relação a uma coisa: entre todas as minorias, acho que nós mulheres temos mais espaço pra armar o barraco quando somos discriminadas. Não digo que acontece menos, mas eu sinto que mulheres são muito mais ouvidas do que gays ou negros, pelo grande público. Mas duas coisas devem ser levadas em consideração: primeiro, traços que causam discriminação não são exclusivos: você não é só gay, ou só mulher, ou só negro. E outra, como agora, de acordo com a idéia do politicamente correto não se pode – ou não se poderia – discriminar alguém pelo gênero, acaba que muitas mulheres acabam se vendo encarceradas no estereótipo do feminino. Muita gente já tem blogs a respeito, então só vou resumir o assunto colocando que as feministas contemporâneas acabam sofrendo preconceito por serem mulheres E por serem feministas, como se estivessem reclamando de boca cheia.

Quando eu estava indo pro metrô hoje peguei um jornal. A maior manchete tinha esta notícia.

Poucas coisas me deixam mais irada do que um boçal que chega dizendo: “ai, mas e o preconceito contra homens, brancos e heterossexuais?”. Dá vontade de sair correndo com uma serra elétrica atrás da pessoa. Eu não acho que alguém que diz isso entende o que quer dizer discriminação. A grosso modo, meus caros, é quando você é tratado como inferior por não ser de uma determinada forma que por acaso detém todo o poder político, ou econômico ou social, geralmente os três. Ou seja, ser tratado como inferior por não ser homem branco heterossexual! Não consigo explicar com mais simplicidade que isso. Sem mencionar quando o infeliz diz que homens não se sentem atraídos por mulheres que são mais bem sucedidas do que eles próprios. Não sei quem fica mais ofendido com essa, se a mulher dele, se a síndrome de pau pequeno do cidadão.

Sabe o que é mais preocupante? Isso foi dito por um membro do Parlamento Inglês. Não é o Zé do buteco. Não é nem um deputado estadual analfabeto funcional dalgum cantinho do Brasil que tem uma mulher e quinze crianças. Isso veio de um homem que provavelmente teve a melhor educação que o dinheiro pode fornecer, que teoricamente leu todos os livros que se deve ler, que representa os cidadãos do Reino Unido. Não há limites para a resistência da ignorância, é só o que eu penso. Deu tristeza.

Pois muito bem. Eu viro uma página, e o que vejo? Essa outra notícia.

Esses caras que falaram que acham um absurdo uma mulher trabalhar como lateral são tipo o Galvão Bueno e o Casa Grande daqui. Faz vinte anos que eles comentam todos os jogos principais daqui. Quando um comentário descaradamente machista como esse vem desse tipo de gente, só dá vontade de sentar no chão e chorar, porque é como se o mundo estivesse acontecendo à volta deles – e sabe-se lá de quem mais, que insiste em ignorar coisas tão simples? – e… e nada. E eles acham que não tem problema alimentar em rede nacional o estereótipo da mulher que é burra demais pra entender o que é um impedimento.

Eu normalmente não postaria sobre feminismo, apesar de ler alguns blogs e ser até simpatizante. Mas meio que me senti no dever de mostrar que esses pensamentos imbecis não estão confinados a países como o Brasil, muito pelo contrário. Foi da Europa que saiu boa parte dos preconceitos dos quais ainda tentamos nos livrar, mas não deixa de chocar como eles insistem.