Comentário: The Hunger Games

Disclaimer: como na maioria dos meus comentários, este post terá vários spoilers. Então saiba que vou falar da história do primeiro livro e filme sem restrições.

É difícil achar algo que eu não goste em Hunger Games. Gosto do título, da protagonista, do estilo, do ritmo, da história, da adaptação para filme, das emoções, e as críticas mais comuns à série.

Em primeiro lugar, eu queria mencionar um dos principais argumentos dos anti-Hunger Games, que dizem que a série é apenas uma cópia de Battle Royale, um filme japonês de 2000 adaptado de um livro publicado em 1999.  Antes de mais nada, eu não sou ninguém pra descartar essa hipótese completamente, porém, honestamente, eu acho que dois autores tiveram duas idéias semelhantes que foram bem sucedidas. Pelo que o namorado (que precisou assistir Hunger Games quase amarrado) disse, Battle Royale tem muito mais porradaria – os jogos são mostrados com muito mais detalhes, ao passo que Hunger Games gasta mais da metade do seu tempo no cinema para mostrar a preparação de Katniss para a arena, além de todas as alegorias inconfundíveis com a história dos Estados Unidos.

Ah, Katniss. Ela é uma excelente personagem. Francamente, ela é um modelo de humanidade. Pra mim é até difícil falar dela, porque eu atingi um grau de identificação muito alto com a personagem: ela sustenta a família desde a morte precoce do pai, um trabalhor das minas do Distrito 12, o mais pobre de todos que servem à Capitol. Esta é o centro do governo e a grande responsável pela criação e manutenção dos Hunger Games por 73 anos.

Na 74a edição, Katniss enfrenta a possibilidade – ínfima – de que Primrose, sua irmãzinha, torna-se uma possível candidata a tributo do distrito 12, no jogo em que crianças e adolescentes devem lutar até a morte. Em entrevista, a autora alega que teve a idéia central da série enquanto mudava de canal entre um reality show e um documentário desses de animais caçando na selva.

Ainda me lembro de que quando comecei a ler, subestimei a minha impressão da história só por causa da narração em primeira pessoa. Lembro de pensar: “ai, mais uma narração derivada de Crepúsculo, com essa coisa adocicada e pseudo sofrida”… Mas bem, eu não poderia estar mais errada.

Tudo começa com o dia da colheita, em que se sorteiam as crianças a serem doadas por cada distrito para os Hunger Games. Pra mim é difícil não prender a respiração com a Katniss enquanto ela observa o nome de Prim ser retirado no sorteio. Por impulso, ela faz a única coisa ao seu alcance para proteger a irmã: ela se voluntaria para ir no lugar dela. Effie, a responsável pela cerimônia até mesmo comenta que Katniss era a primeira voluntária da história do distrito.

Ela é imersa num ambiente absurdo, de opulência e espetáculo, em que seu corpo é polido, esfregado e preparado pela exibições, entrevistas, medidas… Enfim, ela é explorada ao extremo, bem como Peeta (o tributo menino que é sorteado com ela), antes de ser enviada para os jogos.

Outra crítica comum à serie é que ela seria levemente homofóbica na sua caracterização da capital, porque as pessoas são descritas por usarem roupas coloridas, cabelos extravagantes, além de maquiagens e interferências corporais que lembram muito os conceitos tipicamente associados a gays; dessa forma, os “vilões”, por assim dizer, seriam associados de maneira subsconciente a gays.

Acho que essa crítica não é completamente errada, mas acho que o exagero físico da moda da capital não é apenas gay; acho pessoalmente que ela tem muito a ver com a norma hetero para mulheres; cabelos, pinturas e afins, além das imagens da adaptação fílmica que envolvem pai e mãe dando de presente ao filho uma espada, que começa a correr atrás da filha  que segura uma boneca.

Finalmente, outra crítica, a melhor fundamentada na minha opinião, é sobre como a moralidade, ou mesmo o senso de culpa de Katniss é flutuante. Antes dos jogos, ela demonstra desejo nulo de matar crianças inocentes, mas isso se faz necessário, não há hesitação. Vale a pena lembrar que seu primeiro assassinato é indireto – ela corta o galho de um ninho de jabberjays nos inimigos, que matam com o veneno – porém logo ela mata frente a frente, especialmente ao encontrar o corpo de sua aliada, Rue, na cena mais tocante do filme. Ela dispara a flecha contra o tributo do Distrito 1 que a matara e não pensa nele mais do que duas ou três vezes por todo o resto da série.

Sim, as lágrimas de desespero dela por Rue e por outros são verdadeiras e de partir o coração, mas ela não pensa nunca mais em Cato, ou em outros tributos que ela mata ou que observa morrer. A narrativa sugere que os traumas incomparáveis derivados da experiência a levariam a tentar bloquear ao máximo as memórias, mas é difícil negar que Katniss, por mais sensacional que seja, não sofre igualmente pelos personagens que mata.

Sou grande fã do filme lançado em março do ano passado; contudo, fico profundamente incomodada com os posteres que divulgaram o filme: quase todos mostram uma Katniss centralizada, com Peeta e Gale, seu melhor amigo, de cada lado, num eco evidente do primeiro poster de Crepúsculo, com aquela sombra de ego-personagem e seus pretendentes. Além disso dar a impressão errônea de que o filme é um romance e não uma aventura distópica, dá uma dor de cabeça ficar explicando que não existe uma tensão “ui, com quem ela vai ficar”, porque o tempo todo tem algo bem mais interessante acontecendo do que qualquer romance.

Esta série me surpreendeu demais. Fazia anos que eu não virava a noite inteira lendo um livro. Fazia anos que uma história não me tocava em níveis tão básicos e tão essenciais. A narradora de Susanne Collins me fez chorar desesperadamente, e em determinados momentos até me fez largar o livro de pura raiva com alguma reviravolta que eu não imaginava nem nos meus piores pesadelos. Ah, os pesadelos… Foram pelo menos duas semanas de pesados agitados em que eu estava nos Hunger Games tentando salvar a minha pele.

Não dá pra não recomendar.

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Filme: Swedish Auto

Antes de falar do filme em si, gostaria só de dar uma dica: caso vocês ainda não conheçam o Netflix, bem, vocês deviam conhecer. Basicamente, você paga quinze reais por mês, debitados na maior simplicidade do seu cartão de crédito, sem documento nenhum, e tem acesso a todo o tipo de filme e série, até documentários, pra assistir online, todos devidamente dublados e/ou legendados. Ele te mostra na página inicial sugestões de filmes conforme você marca suas preferências de gênero e tal. O carregamento é super rápido. A única desvantagem é que ele não tem material muito novo. Algumas séries não tem as temporadas mais recentes, é só. Mas o acervo é grande o suficiente pra te manter entretido até eles conseguirem o material mais novo, sem dúvida.

Bom, vamos ao filme!

Swedish auto se passa principalmente no espaço da oficina mecânica, que leva o nome do filme, onde trabalha um rapaz que, pra resumir bem, é um stalker. Ele é muito solitário, mora sozinho e seus passatempos principais são observar a rotina de uma violinista. Ele almoça todos os dias no mesmo lugar com o dono da oficina e o palhaço do filho dele. Carter assusta no começo.

Mas o motivo principal que eu dou pra vocês verem o filme é a excelente reviravolta que ele dá ainda no começo. Outros temas inesperados são incluídos na trama, os personagens são aprofundados e você se percebe entrando em desespero com as situações, sentindo emoções muito fortes. É um filme de muita empatia, pelo menos pra mim.

A trilha sonora é excelente. Tão boa quanto ela, só os silêncios. Quando os personagens estão em silêncio e a cabeça da gente ferve com tudo que eles devem estar pensando naquele momento. É muito intenso. Ao ler o resumo, fica só parecendo um elogio ao stalkerismo, numa onda meio série tosca de “vampiros”, mas o filme é sem dúvida, um tapa na cara das suas expectativas.

Recomendo.

PS. – Aline, eu sei que você quer a morte do negrito, mas eu não resisti.

Maratona: Half Blood Prince

Antes de mais nada, eu queria deixar claro o motivo de eu não admitir o título desse filme em português: é o mesmo motivo de esse filme ser, pra mim, a segunda pior adaptação da série. Half Blood, traduzido como mestiço, dá a entender na série que a pessoa é filha de trouxas e de bruxos, de ascendência mista. Prince seria obviamente traduzido como Príncipe, mas bem, então porque não traduzir apenas como “O Príncipe Mestiço”?  Bom, porque nada nesse título é óbvio.

Como Snape afirma sem maiores detalhes ou explicações no fim desse filme, ele próprio é o Half Blood Prince. Os leitores sabem que, na verdade, o nome de solteira de sua mãe, Eileen, é Prince. Agora, por que ele ia querer se chamar pelo sobrenome da mãe? Pra encurtar a história, o pai de Snape era um monstro. Simples assim. Aterrorizante e violento. Quando Severus descobre seu talento para poções, ele faz a analogia de ser o príncipe das poções. Como sua mãe não vem de uma família mágica, eis que ele é mestiço magicamente! Não só é um bruxo “mestiço”, como, claro, metade de seu sangue seria da família da mãe, os Prince.

Vamos deixar combinado a partir desse ponto que esse título da J.K. Rowling é um puta desafio de traduzir? OK, vamos em frente.

Harry Potter and the Half Blood Prince foi lançado em 2009, também dirigido por David Yates. Porém… Steve Kloves está de volta. Quais as consequências imediatas disso? Bem… Ron entra mudo e sai calado do filme, ou só ganha falas “engraçadas” ou “estúpidas”. Hermione fala todas as coisas que lhe cabem e todas as falas sérias, preocupadas, etc etc de seu futuro marido. Kloves nunca lidou bem com o fato de que Ron fica com Hermione; como resultado, temos cenas completamente desnecessárias, como a extensão da cena dos canários, em que Hermione chora nos ombros de Harry e pergunta como é que ele se sentia quando via Gina com Dean Thomas – sim, porque DE REPENTE Harry está apaixonado por Gina! O desastre continua: nós temos cenas com Ginny usando só um roupão, e abaixando-se de forma tão bizarra pra amarrar o cadarço de Harry que eu sinceramente pensei na sala de cinema que ela ia pagar um boquete. Sério. Toda a sala de cinema, a julgar pelos gritos, achou a mesma coisa. Ela magicamente aparece no time de quadribol, já que, como ela entra no livro cinco como substituta do Harry, ninguém entende nada. Aliás, a segunda cena do filme é o maior disparate possível: Harry está lendo o Profeta Diário numa estação de trem e de repente começa a flertar com a garçonete, que por algum motivo fica super atiradinha com um moleque igual ele. Explicações? Por favor?

A aparatação de Dumbledore, em frente a um anúncio pra perfume “Do some magic to your man”, ou qualquer coisa assim, é bem engraçada, em compensação. O filme tem muitos momentos engraçados, a seu favor. Boa parte deles envolve o novo professor de Poções, Horace Slughorn. Ele está presente quando Ron toma uma poção do amor que era pra ter sido tomada por Harry, seguido de um envenenamento que era pra ser de Dumbledore. Não dá pra não rir quando Ron acorda e diz “these girls… they’re gonna kill me!”. Ou na cena hilária em que Harry toma a poção da sorte, Felix Felicis, e não só fica com uma voz rouca de Darth Vader, mas também age feito bêbado. Daniel: clap clap clap!

Vocês podem perceber que quando eu não gosto muito do filme o post tende a ser menor (vide o de ontem, que não acabava nunca).

O começo, o comecinho mesmo do filme, na verdade é muito bom. Gostei da amarração com o filme anterior, pegando diretamente das fotos de Harry e Dumbledore, ainda no Ministério da Magia – dá uma noção de continuidade, especialmente pro fã oportunista que só leva o namorado no cinema e fica esperando o Harry pegar a Hermione (uma vez guerreiro de ship, pra sempre um guerreiro de ship. Vou tentar me controlar). Em seguida, várias imagens de Londres cobrem o trajeto dos Comensais da Morte até Olivaras, o vendedor de varinhas mágicas – isso e a revelação de que o Beco Diagonal fica logo virando a esquina de Leicester Square station, atrás da Trafalgar Square. Eu sou contra, porque aquela área é posh e cheia de gente chata indo a boates chatas. Finalmente, a ponte destruída por Voldemort, no livro a Brockdale, transforma-se na Millenium Bridge, que liga o Tate Modern à St. Paul’s Cathedral. Pra mim é particularmente divertido ver essa sequência inicial.

Enfim! O tema desse livro é o passado de Voldemort. Durante todo o ano, Dumbledore enche Harry de algumas das lembranças de sua penseira a respeito de Voldemort. Nós descobrimos que ele cresceu num orfanato, e já era uma criança bem assustadora (o ator para o jovem Riddle, infelizmente, não é o mesmo de Câmara Secreta), entre outras coisas. Inclusive, enquanto eu lia o livro pela primeira vez eu ficava bem entediada. O filme não se detém muito no assunto, apenas nas tentativas vergonhosas de Harry pra coagir Slughorn a lhe ceder a memória que era crucial para descobrir a estratégia de Voldemort.

Ele não morre porque sua alma foi dividida em sete partes, através de assassinatos. Quando Harry finalmente convence Slughorn, usando de um papo mole sobre sua mãe, uma das alunas favoritas dele (com uma história de aquário, peixe, que não procede no livro), nós descobrimos que Slughorn foi quem acabou involuntariamente dando a idéia de usar Horcruxes para buscar a imortalidade, sobre a máscara do “puramente acadêmico”.

O personagem de hoje está na série desde a Pedra Filosofal, mas o desespero de Harry em segui-lo o filme todo o coloca em evidência, para no fim do filme nós termos uma surpresa sobre sua personalidade. Draco Malfoy tem no sexto ano a missão de matar Dumbledore. Parece loucura, não é? Como sua mãe diz, ele é só um menino! E um mimado, ainda por cima! Bem, quem se lembra do quinto filme sabe que Lucius, seu pai, pisou feio no tomate. Não só não recuperou a profecia que Voldemort tanto desejava, como também apanhou razoavelmente de um bando de adolescentes, acabando em Azkaban. Voldemort se vingou usando o que é mais precioso pra ele: seu filho.

Draco fica num beco sem saída. Ele é realmente covarde demais pra matar qualquer pessoa, que dirá Dumbledore! Logo de cara ele sabe que está encrencado, ainda que mostre para seus amigos que tem um grande segredo e planos maiores e maiores expectativas do que eles. Suas tentativas, como diz o próprio Dumbledore, são tão patéticas que é difícil de acreditar que ele realmente quisesse matar o diretor de Hogwarts. Draco se isola e vive em conflito, porque se não der um jeito de matar o velho, ele sabe que Voldemort mataria ele e sua família. Se tem uma coisa que você precisa saber sobre os Malfoys, é que eles são uma família pequena que se ama muito. Eles traem, trapaceiam, roubam, mas Lucius, Narcissa e Draco são muito apegados.

Ele chega a ser gravemente ferido por Harry num “duelo”. Draco está de tal forma num beco sem saída que só dá pra sentir pena. Do começo ao fim. Ele desarma Dumbledore, mas não consegue matá-lo. É aí que entra Snape.

Depois de seis filmes, o expectador (assim como o leitor, quando o livro foi lançado) já aprendeu a confiar em Snape. Ele é esquisito, assustador, até já foi um Comensal da Morte, mas voltou para o lado de Dumbledore (o expectador não sabe que Snape é diretamente responsável por Voldemort ter resolvido ir atrás dos Potter, e que ele se arrepende profundamente, por motivos explorados no livro sete e no filme que eu vou ver domingo e boa parte de vocês já viu), mas ele sempre ajudou quando necessário: salvou Harry no primeiro ano, protegeu o trio no terceiro, avisou a Ordem que Harry achava que Sirius estava preso no Ministério… Ele vai resolver a situação agora, né? Ele vai se sacrificar, não vai cumprir o Voto Perpétuo, mas vai dar um fim nos Comensais antes…

Aí ele vai lá e mata o Dumbledore.

Enquanto os Comensais fogem de Hogwarts, Harry tenta atacá-lo, mas Snape o ignora, até que Harry o chama de covarde. A frase mais épica de Snape, que então se volta e releva sua identidade a ele, é então cunhada: “Don’t call me a coward“.

Depois do que minha amiga Melissa chama de “cena de show do Coldplay”, na qual por algum motivo TODA Hogwarts está acordada e encarando o cadáver de Dumbledore, eles erguem a varinhas com a ponta iluminada. Gina, que até o fim desse livro era namorada de Harry (me desculpem não demonstrar nenhum interesse nessa parte), o abraça enquanto ele chora sobre o corpo. Nada de cena do enterro, nada de túmulo branco, NADA DE LAMENTO DA FÊNIX. Por quê?? O filme já estava com duas horas e meia, dois minutos a mais iam matar quem?

Essa parte da história instiga mais perguntas do que responde. Como Snape pode ter matado Dumbledore? Será que ele morreu mesmo? Na época até surgiu um site, dumbledoreisnotdead.com. Essa morte, mais um recurso narrativo clássico das sagas de herói, é muito simbólica. Agora Harry está mesmo sozinho. Sem orientação, sem dicas, sem proteção, vai ter que encontrar as horcruxes que restam e destruí-las. A morte do velho sábio é recorrente em histórias do gênero e, muitos dizem, necessária para o amadurecimento do herói.

Sei que acabei falando mais do livro do que do filme, mas deixemos pra amanhã a parte que eu tinha reservado nesse post para Snape. Até amanhã, no último dia dessa minha maratona bloguística, com Relíquias da Morte, Parte Um!

Maratona: A Ordem da Fênix

You are a fool, Harry. And you will lose everything.

Um pouco antes do quinto livro ser lançado, eu já escrevia fanfics e ocasionalmente publicava colunas na Edwiges Homepage. Numa dessas colunas, eu me fazia a pergunta que nenhum livro ainda tinha respondido: por que, afinal de contas, Voldemort queria tanto matar Harry?

Quer dizer, o moleque tinha um ano, nem tinha tido chance de fazer alguma coisa que aborrecesse Voldemort. E não dá também pra dizer que Voldemort queria destruir toda a família. Desde o começo da série, J.K. tinha deixado bem claro que Voldemort dissera a Lily Potter pra sair da frente, e que ela não precisava morrer – o que ele queria era o menino. Uma vez morto, ele parecia ser indiferente ao destino de Lily. Ainda assim, ela não saiu da frente do filho, e enfrentou Voldemort sozinha e desarmada – por culpa da teimosia e da coragem da mãe de Harry, nós tivemos essa história toda. Sabemos que ele foi protegido pelo sacrifício de Lily, mas não sabemos por que ele foi necessário. Depois de ponderar todas essas coisas, acabei chegando à conclusão de que a única explicação era que Harry fosse alguma espécie de “predestinado”, como eu argumentei na época.

Desnecessário dizer que eu me orgulho muito dessa coluna, porque eu estava certa.

Harry Potter e a Ordem da Fênix, lançado em 2007 (quase que ao mesmo tempo do sétimo livro – 2007 foi um ano e tanto) é minha segunda adaptação favorita. Digo segunda porque até agora a parte um do sétimo livro continua sendo a melhor… Veremos como será domingo. Dirigido por David Yates, que ficou na mesma posição durante os filmes seis, sete parte um e parte dois, A Ordem da Fênix tem uma vantagem astronômica sobre todos os outros filmes da franquia: seu roteiro não foi escrito por Steve Kloves. Isso significa que Hermione voltou a falar apenas o que lhe cabia, que as informações mais importantes foram passadas. Inclusive, Michael Goldenberg até consertou erros do Kloves: lembram-se que ontem eu reclamei que Cálice de Fogo não menciona o fato dos pais de Neville serem heróis que resistiram à tortura? Pois é; no meio do quinto filme ele coloca Neville pra confessar a história a Harry, num momento muito oportuno, visto que Bellatrix Lestrange, a mulher que torturara seus pais, tinha acabado de escapar de Azkaban.  Esse roteiro, claro, é forçado a cortar fatos, mas diferente de Kloves, sempre tenta explicar as coisas de uma forma ou outra.

Outro exemplo mais claro desse bom amarramento é que duas cenas fantásticas do livro são misturadas em uma só no filme: ao mesmo tempo que Fred e Jorge Weasley fazem a façanha de envergonhar Umbridge e fazer o maior espetáculo de quebra de regras que Hogwarts já viu, Harry tem a visão de Sirius sendo torturado por Voldemort, durante os exames.

As visões que Harry passa o ano todo tendo das atividades de Voldemort o atormentam, culminando no momento em que Arthur Weasley é quase morto e de forma meio irracional, ele se sente culpado por ter visto a coisa toda. Aqui o filme podia ter mantido uma das poucas cenas boas de Gina Weasley: quando ela diz que Harry não podia estar sendo controlado por Voldemort simplesmente porque não tinha nenhum dos sintomas. E acrescenta que se ele não ficasse se martirizando e fugindo de todo mundo, se ele simplesmente tivesse ido até ela, a única pessoa que ele conhecia que já fora controlada por Voldemort, e perguntado, ele saberia logo a resposta e não ficaria naquele sofrimento. Essa cena poderia ter ajudado o expectador a ver melhor a Gina, ao invés de só focar nela quando ela faz algum feitiço poderoso ou quando ela faz uma cara de ciúme de Cho Chang. Assim quem sabe a gente não acharia TÃO esquisito o súbito aumento de importância dela no filme seguinte.

Uma vez estabelecido que Harry não pode ser assim tão vulnerável à mente de Voldemort, ele começa a ter aulas de Oclumência com Snape. Isso é particularmente problemático, porque Harry é em essência uma pessoa muito aberta e óbvia com seus sentimentos. Isso é uma das coisas mais bonitas em Harry e é algo que eu, Amanda, gosto muito nas pessoas: quando você sabe o que aquela pessoa está sentindo, quando ela é incapaz de jogar com os sentimentos ou com as impressões dos outros. Sendo assim, Harry enfrenta longas horas de Snape fuçando em suas memórias mais valiosas, até que finalmente ele revida.

E há! Toda a imagem de Tiago/James Potter como um santo virtuoso que Harry tinha cai por terra. Seu pai era na verdade um valentão imbecil. Não só isso, como ele humilhava Snape em Hogwarts exatamente como Draco ou Duda humilhavam Harry. Ele se sente profundamente traído – essa, como todas as consequências psicológicas nos filmes, não é muito explorada, mas pelo menos é mostrada. Aquela cena é importantíssima não só para a inversão de papéis de James e Sirius, mas também de Snape. Infelizmente a cena não foi completamente adaptada, não temos Lily impedindo James ou Snape a chamando em seguida de Sangue-Ruim, mas ao menos temos dessa vez a idéia geral.

As duas personagens de hoje são muito bem construídas.

Luna Lovegood é uma excluída. Todos em Hogwarts estão convencidos de que ela é meio maluca, então desde sua entrada em Hogwarts um ano depois de Harry, as outras crianças se divertem às custas dela, escondendo seus objetos. A única amiga que Luna parece ter na altura em que Harry a conhece é Gina. O comportamento de Luna frente à adversidade não é só chocante para Harry, mas como também o faz ter vergonha de si mesmo: Luna não reage. Não briga, não revida. Ela apenas trata as pessoas bem e age com uma sinceridade muita vezes pouco benéfica à socialização. Ela explica a Harry o que são os novos animais mágicos, os testrálios, visíveis apenas para quem conhece a morte – para aqueles que já viram alguém morrer. Devido à morte de Cedric, Harry agora podia vê-los.

Não é segredo pra ninguém que no fim Harry acaba namorando Gina, eles até se casam e têm filhos, mas desde a primeira vez em que Luna aparece, eu quis sinceramente que Harry acabasse ficando com ela. Nem tanto por Harry ser um dos meus personagens favoritos, ele não é. Acho que eu queria que a série fosse Harry/Luna porque eu queria que pelo menos na ficção o herói ficasse com a esquisita no final. E, aparentemente, Goldenberg compartilha dos meus sentimentos: Luna tem muito mais falas no filme do que no livro, ao fim do filme até segura a mão de Harry de um modo neutro – mal interpretado por mentes poluídas como a minha. Ela se torna um dos principais membros da Armada de Dumbledore; do círculo mais importante, ela é a personagem mais recente.

A Armada de Dumbledore é o símbolo do teor político de Ordem da Fênix, que é outro elemento que me faz adorar essa parte da série. Parece loucura que o governo não admitisse o retorno de Voldemort, não é? Mas ainda assim, o Ministro da Magia se nega terminantemente a admitir que a sociedade bruxa está de novo em risco, porque isso o prejudicaria politicamente; assim, segue com uma campanha para desacreditar Harry e Dumbledore, vistos então como loucos ou mentirosos. Sinceramente? Eu acho esse tema do livro/filme quase educativo. J.K. está mostrando a pessoas como o poder cega e como a política pode facilmente distorcer a verdade através dos meios de comunicação. Qualquer pessoa com dois neurônios no mundo mágico sabe que o Profeta Diário está sendo manipulado, assim como qualquer pessoa com dois neurônios sabe que a Folha de São Paulo exerce uma manipulação descarada sobre a veiculação das notícias – e é aí que cheamos à triste percepção de que muito menos gente do que nós imaginamos tem mais de dois neurônios.

It’s revolution, baby!

Frustrados com a censura e com a injustiça, o trio resolve criar um grupo para praticar mágica secretamente, afim de se prepararem para lutar contra as Artes das Trevas. O filme mostra isso magnificamente: as sequências de feitiços praticados, Filch tentando encurralá-los, Ron perdendo feio pra Hermione, Luna conjurando um patrono, Gina reduzindo a pedaços o que quer que fosse aquele objeto antes, todas essas coisas são lindamente representadas no filme.

A Armada de Dumbledore é a versão mirim da Ordem da Fênix, que batiza o livro/filme, pouco mencionada até aqui porque é só o renascimento do grupo de resistência da guerra, antes da morte dos Potter. A Armada é estendida, no livro sete, à própria personificação da resistência, o que eu acho muito bonito.

Com uma exposição tão heróica, não é de surpreender que Harry finalmente dê seu primeiro beijo, com Cho Chang, a tal apanhadora bonitinha da Corvinal. No filme a coisa não vai pra frente porque ela supostamente trai a Ordem da Fênix, mas no livro nós sabemos que foi a amiga dela, e que eles terminam porque – pasmem! – Cho tinha muitos ciúmes de Hermione. Louca.

A segunda personagem (não paro nunca mais de escrever, socorro) é Umbridge. Apontada pelo Ministério para manipular ensinar Defesa Contra as Artes das Trevas, Umbridge proíbe o uso de varinhas, a afirmação da verdade, o contato entre meninos e meninas, as agremiações, os professores esquisitos, a respiração, até a lei da gravidade ela tenta proibir. O modo dissimulado de punir, o seu desespero por controle, seu preconceito e, mais horrível do que tudo, sua preferência doentia pelo rosa fazem com que ela sem dúvida seja a personagem mais odiosa de toda a série. Pouca coisa traz mais satisfação do que a despedida dos gêmeos de Hogwarts, ou do que ver os centauros arrastando a louca Miriam Rios Umbridge floresta adentro. Ela retornará no sétimo filme parte um, como veremos sábado.

Finalmente, temos a primeira grande morte da série. Enganado por Voldemort, Harry sai pra salvar um Sirius que estava em segurança dentro da Mansão Black. Tudo se desenrola horrivelmente, com Bellatrix matando Sirius. Nesse momento do filme eu precisei acalmar o meu desespero que sempre se repete nessa parte pra perceber como o silêncio é usado muito bem nessa adaptação como trilha sonora. Silêncio como trilha sonora? É. Yates entendeu que certas dores são tão horríveis, tão inexplicáveis e tão injustas, que nada transmite o sentimento melhor do que o silêncio. Harry entra em desespero (numa ótima atuação de Daniel Radcliffe, que continua melhorando desde o quarto filme) e Lupin imediatamente o segura, impedindo que ele tente seguir o padrinho. A única pessoa que significava uma família para Harry agora está morta, simples assim, e seu sonho está mais uma vez arruinado.

Talvez por isso o efeito da conclusão seja tão grandioso. Voldemort, depois de duelar com Dumbledore, tenta explorar esse ódio em Harry possuindo-o. Pouco tempo depois fica claro que ele seria incapaz de controlar Harry, justamente pelo motivo que não o deixa aprender Oclumência: ele se importa demais. Ele ama demais – e Voldemort é incapaz de entender esse tipo de laço. Nesse ponto o filme fica muito clichê, com Harry dizendo que sente pena de Voldemort, mas eu perdôo; todos temos direito a um bom clichê de vez em quando.

O Ministério da Magia é então forçado a admitir o retorno de Voldemort, porque todo esse faroeste que descrevi nos últimos parágrafos foi dentro do próprio ministério. O filme termina com muita tristeza, e com aquela sensação que a gente as vezes sente na vida, resumível em uma simples palavra:

fudeu!

Ah, e sabendo que hoje era o dia do filme cinco, eis o que fiquei cantando o dia inteiro:

WE’RE DUMBLEDORE’S ARMY!

E amanhã *suspirando* o filme seis, Half Blood Prince, ou aquele-que-não-deve-ser-assistido.

Maratona: o Cálice de Fogo

Everything is going to change now, isn’t it?

Hermione resume a coisa toda pra gente: o Cálice de Fogo é um divisor de águas em termos de narração. Apesar de ser meu segundo livro favorito, a adaptação lançada em 2005 deixa a desejar, apesar de, claro, não ser tão ruim quando a do que nós discutimos ontem. O livro quatro é o que eu mais reli (oito vezes), então é o que eu mais vou saber pra comparar.

Eu nunca consigo superar bem o fato de que 80% das cenas de quadribol são excluídas dos filmes, pra evitar que todos os filmes tenham sete horas de duração. O Cálice de Fogo é um livro bem mais longo do que os três anteriores, com muito mais detalhes e com uma trama já bastante complexa, então dá pra entender a dificuldade do diretor Mike Newell em terminar o trabalho, que resultou em cerca de duas horas e meia de filme.

Os Dursley são completamente excluídos dessa trama; e pela primeira vez o filme não começa falando de Harry Potter, e sim de Voldemort, agora junto de Peter Pettigrew, tramando mais uma vez o seu retorno, com a ajuda de um personagem novo, interpretado pelo Doctor Who David Tennant.

No quarto filme, os horizontes do expectador se expandem. Harry vai assistir à Copa do Mundo de Quadribol; vê bruxos de diferentes nacionalidades, que serão definitivos no desenvolvimento da trama mais adiante, e percebe que fora muito inocente nunca considerando a existência de outras escolas de magia além de Hogwarts. Em toda a série, as únicas duas escolas mencionadas são Beauxbatons (francesa) e Durmstrang (alemã/búlgara/praqueles lados lá). Essas escolas visitam Hogwarts ao início do ano letivo (no livro isso é só no dia das bruxas) para uma competição legendária, o Torneio Tribruxo; uma série de tarefas mágicas perigosas e espetaculosas para entretenimento e competição entre as academias.

A verdade é que nesse filme tem muitos temas misturados: a entrada mal explicada e misteriosa de Harry no torneio mantém o suspense das próximas tarefas (em tese, apenas alunos de 17 anos ou mais deveriam poder participar), o que causa sua primeira grande briga com Ron, o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, que pela primeira vez elucida como os pais de Harry teriam morrido na aula de Maldições Imperdoáveis… Enfim. Outras informações, periféricas mas relevantes, nos são apresentadas: os pais de Neville foram torturados horrivelmente durante a guerra (mas o filme não diz que eles estão internados no St. Mungus até aquele dia) sendo a principal delas.

Nesse livro/filme, quando importa mais, Harry está sozinho, o que é uma grande diferença com os outros livros. Em todos os outros fins de livro, ele teve ajuda até quase o final. Durante as tarefas do torneio, ele está constantemente sozinho, ainda que tenha ajuda na preparação. Nessa altura, Snape perde o argumento de dizer que Harry é só um moleque sortudo com amigos mais talentosos do que ele. Uma luta com um dragão, um esforço sobrehumano de salvar pessoas que ele não tinha que salvar no fundo de um lago, sem mencionar a ajuda a Cedric Diggory no último momento, o que acabou determinando a morte dele.

O Cálice de Fogo tem muitos choques; e como nosso amado trio está com 14 anos, os hormônios começam a levar a melhor sobre ele. Com a iminência do dito Baile de Inverno, os alunos são forçados a dançar, arrumar roupas chiques e, pior, convidar alguém do sexo oposto como companhia. Isso é particularmente difícil para Harry e Ron, que como descrito por J.K. e transcrito pelo filho do capeta Kloves, percebem que as garotas insistem em andar em bandos, dando risadinhas imbecis e assustando demais qualquer garoto desesperado para chamar alguém. A descrição do comportamento histérico adolescente feminino é real demais pra não ser engraçado; então quando Harry consegue chamar a menina bonitinha pro baile, Cho Chang, percebe que tinha perdido tempo e ela já tinha combinado de ir com outro garoto… ohhh o drama! Paralelamente, Ron também dorme no ponto e um tanto quanto tarde demais volta-se pra Hermione e diz: “Hermione… you’re a girl.”. O drama RH culmina no próprio baile, quando ela aparece para surpresa de todos com o bonitão campeão de Durmstrang e jogador internacional de Quadribol, Viktor Krum. Mais uma vez: oooohh o drama!

O modo como Harry começa a entrar involuntariamente na mente de Voldemort é mostrado pelo filme como um mero detalhe, o que é triste porque é muito necessário que fique claro. Quando finalmente o funcionário do Ministério da Magia, Bartolomeu Crouch é encontrado morto a história finalmente começa a ganhar o tom de seriedade que devia; e o clímax desse filme divide a série em duas partes: antes e depois do retorno de Voldemort.

De um lado, Cedric Diggory, interpretado pelo pobre Robert Pattinson, que depois caiu na besteira de estrelar o que provavelmente é a série mais patética e machista da história, aquela crepúsculo lá. Cedric tem um pai extremamente orgulhoso, mas não é pra menos; o rapaz é bonito, talentoso, popular, inteligente – e humilde! Em nenhum momento ele trata Harry mal ou se exibe por ser o campeão de Hogwarts no Tribruxo. Como o expectador tende a ficar do lado de Harry, a gente meio que quer que o Diggory seja um babaca, pra torcer pro Harry sem remorso. Mas ele é tão bom caráter que mesmo Crouch Jr. pode contar com ele a ponto de carregar o seu esquema contra Harry adiante – sem saber, claro.

Uma vez morto por Voldemort (tecnicamente morto por Pettigrew), Cedric ganha um valor simbólico na série, especialmente depois do discurso de Dumbledore ao encerramento do filme. Torna-se um exemplo de atitude e de caráter. Eu honestamente acho que a cena mais triste de todo o filme é quando Harry consegue retornar a Hogwarts com o corpo de Cedric e seu pai desce da arquibancada pra encontrar o filho morto. O desespero do personagem forma um contraste mórbido com a alegria da multidão que ainda não percebeu o que acabou de acontecer – o efeito é digno de pesadelos, enquando ele grita: “my boy!”

Voldemort, por sua vez, entra em cena. Revive a partir do sangue de Harry (Jesus Cristo feelings), interpretado pelo genial Ralph Fiennes. Mesmo com muitas chances de matar Harry, ele insiste em provar para seus seguidores (apresentados no filme como Comensais da Morte, usuários de máscaras e capas que lembram muito o Ku Klux Klan) que Harry sobreviveu por acidente, e não por poder superior. Uma vez com a chance em um duelo, Harry acaba escapando mais uma vez. Claro que conta um pouco com a sorte, uma vez que nenhum deles podia adivinhar que suas varinhas não poderiam lutar uma contra a outra, mas acima de tudo é habilidade. A performance de Dan inclusive melhora a partir do filme anterior, especialmente quando Voldemort diz que ele não deveria se esconder e fugir dele, e sim lutar como um homem. Com tudo a perder, pouco a ganhar, Harry respira fundo e enfrenta Voldemort de frente.

Mesmo no fim desse filme, apesar de finalmente revelado, Voldemort continua sendo uma interrogação. Harry ainda não entende seus motivos ou sua personalidade, e, principalmente, não sabe por que, afinal de contas, Voldemort estava tão resolvido a matá-lo quando era criança.

Pra terminar, o grande pecado dessa adaptação pra mim é: cadê a cena de Harry escutando a conversa de Snape com Karkaroff no Baile de Inverno? Eu não sei porque a câmera fica indicando que o Karkaroff estava por trás de tudo, quando não só não estava, como também não se esclarece que ele tem pavor de encontrar Voldemort depois de ter dedurado tantos Comensais. Snape perde uma cena importantíssima para que o expectador entenda a complexidade do personagem – pra quem sabe não tomar o puta susto que um “fã” só de filmes vai tomar quando assistir a parte dois esse final de semana. Não dá pra perdoar que o Snape neste filme seja apenas usado para humor.

Bom, continuamos amanhã, com o ótimo Ordem da Fênix. Nox!

Maratona: Prisioneiro de Azkaban

I solemnly swear that I’m up to no good.

Sim! Porque no good é uma ótima expressão pra definir Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, lançado em 2004. Ao menos em termos de adaptação. No terceiro filme nós temos uma mudança de diretor: Alfonso Cuarón, diretor de “E Sua Mãe Também”, dirigiu este filme e só este de todos.

Sempre que penso nesse filme penso que ele é todo azul. Bem, hoje, prestando atenção, deu pra entender porque: o filme todo tem mais azul que o Windows 95. Do começo ao final, parece que alguém puxou a barra de matiz da sintonia fina pro lado do azul. A adaptação já começa mostrando que realmente não está interessada em se ater a nenhum dos fatos do livro: o primeiro take é de Harry, embaixo do lençol, praticando um feitiço nunca mostrado nos livros – o tal do lumos maxima – sendo expressamente proibido praticar magia fora de Hogwarts.

Mas não vou me ater aos defeitos de adaptação do filme, porque eles são muitos e eu estaria chovendo no molhado de um debate que acontece em fóruns potterianos há quase oito anos. Tem algumas coisas boas que a direção de Cuarón traz pra série, vou confessar: uma delas é a fluidez da narrativa. Os takes nos dois primeiros filmes eram quadrados, com começo e fim, quase dá pra ouvir o barulho da página do livro virando dentro da cabeça da gente. No terceiro filme, é tudo amarrado de forma sutil, de modo que o expectador precisa manter uma atenção especial nos detalhes; diferentemente de Columbus, Cuarón não guia o mistério do filme pela câmera ou pelas expressões de Harry – e sorte que não, porque francamente, Prisioneiro de Azkaban é a pior performance de Daniel Radcliffe. Quando vi o filme pela primeira vez no cinema, desejei que Macaulay Culkin tivesse conseguido o papel ao invés dele.

Bem, mas vamos ao padrão, certo? Nessa parte da série, Harry vai conhecer mais sobre o passado de seus pais. Vai descobrir que o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, Lupin, foi amigo de seus pais. Vai descobrir os rumores de que o fugitivo da prisão de Azkaban na verdade foi aquele que vendeu seus pais para Voldemort, quando eles resolveram se esconder. Inclusive, a cena em que ele descobre isso é a que tem a atuação mais patética e lamentável. Um momento crucial da construção de Harry frente ao expectador é destruído pelo imbecil do Dan Radcliffe berrando como se estivesse numa partida de quadribol, “He was their friend… HE WAS THEIR FRIEND!”.

Lupin, o mencionado professor, é essencial pra trama do filme. Não só ele constrói uma relação de amizade com Harry que ele nunca teve com outro professor, mas também lhe ensina a lidar com os novos seres mágicos introduzidos no volume – os dementadores. E ele descreve os pais de Harry para ele. Diz que Lily, além de poderosa, tinha uma capacidade incomum de vez o bom nas pessoas, especialmente quando elas não conseguiam ver nada de bom em si próprias. O leitor já imagina que ele se refira a algum momento no qual ela tenha descoberto que ele é um lobisomem (essa cena até me inspirou mais tarde na fanfic James/Lily que escrevi). Ele ensina a Harry o feitiço Expecto Patronum, provavelmente o feitiço mais legal e mais poético de toda a saga, no qual o bruxo deve se esforçar para pensar em sua lembrança mais feliz de todas para que ela tome uma forma física animal e afaste os dementadores. Alguém que tenha o livro por perto, poderia checar pra mim se aquela coisa toda de ele pensar nos pais quando consegue fazer o feitiço pela primeira vez procede na adaptação? Porque que eu me lembre Harry usa sempre ou quadribol ou Ron e Hermione para conseguir conjurar seu patrono.

No livro 3, mas infelizmente não no filme, a Grifinória ganha o Campeonato de Quadribol pela primeira vez! Eu ainda me lembro de ler a cena no livro e de pular com a narração do Lino Jordan. No filme nós apenas vemos o primeiro jogo contra a Lufa-Lufa, onde deveríamos ter sido apresentados a Cedric Diggory, o apanhador, e se houvesse um jogo seguinte, à Cho Chang, apanhadora da Corvinal, já que ambos terão papéis importantes no próximo filme.

Outro detalhe: aparentemente a Grifinória se mudou pro meio de um corredor nesse filme. Nos dois primeiros filmes os personagens encontravam a pintura da Mulher Gorda no fim de um corredor. Ele não só está agora entre dois lances de escadas, no meio do nada, como a Mulher Gorda é… outra pessoa!

*momento detalhes maníacos acaba aqui*

No filme, como quase ficou de lado no meu post, fica o próprio Sirius Black, nosso prisioneiro de Azkaban. Acusado de matar Peter Pettigrew e ter entregado os Potter para Voldemort, Sirius é condenado à prisão perpétua, mas no terceiro ano de Harry ele escapa… com um método que ele poderia ter usado a qualquer momento. Cuarón e Kloves, o pior roteirista da história da humanidade, não se preocupam em explicar isso em nenhum momento e apenas cruzam os dedos para que o expectador fique distraído o suficiente para que ninguém pergunte a respeito. Sirius é um animago – pode se transformar num cachorro, passando despercebido, então, pelos dementadores. Poderia, de fato, ter feito isso a qualquer momento. Bem, quem leu o livro vai se lembrar do que o motivou. Não é dito, mas o pai de Ron ganha na loteria! Com o dinheiro, os Weasley viajam todos para o Egito e aparecem no jornal com uma grande foto de família, na qual Ron aparece segurando seu rato.

O rato é ninguém menos que o próprio Pettigrew, também um animago ilegal, que afinal de contas não estava morto, mas escondido há mais de uma década como um animal de estimação na família Weasley! Não só isso, como ele fora o verdadeiro Fiel do Segredo do casal Potter – sim, porque Kloves também não achou nada importante explicar que apenas uma pessoa poderia dedurar os Potter, porque eles estavam protegidos por mágica – e o único verdadeiro traidor, que havia se tornado um seguidor de Voldemort.

Quando o jornal acidentalmente foi parar na cela de Sirius após uma visita do Ministro da Magia (estou falando de cabeça, me corrijam se eu estiver errada), ele ganhou um motivo para sair dali. Até então, estivera consumido pela depressão de ver seus melhores amigos mortos e ser emboscado.

Finalmente encontrando Harry e fornecendo as devidas explicações, Sirius conta a Harry sobre ser o padrinho do menino, e o convida para morar com ele quando conseguirem entregar Pettigrew às autoridades. Essa cena é verdadeiramente dolorosa, porque soma um homem que foi injustamente preso por doze anos e um garoto que passara todo esse tempo morando com parentes que nem o queriam.

Ainda tenho que falar da Profa. Trelawney, na grande performance de Emma Thomson. E aqui um parênteses, porque essa atriz é verdadeiramente sensacional: ela faz a escritora em Stranger than Fiction e Elinor Dashwood em Razão e Sensibilidade (que por acaso é o livro que estou lendo no momento!! ohhh!). A professora, uma adivinha charlatã que tem a seu favor apenas a ascendência de uma grande adivinha, uma tal de Cassandra, fala muita bobagem em aula, mas em dado momento ela entra numa espécie de transe e acaba proferindo uma verdadeira adivinhação, que seria a conclusão do livro, com Pettigrew fugindo e se reunindo com Voldemort. Ela vai ser importante no filme cinco, como veremos, e acabo de ler que ela tem cenas no filme 7, parte dois. Bem, isso veremos!

Muito a contragosto, Kloves é forçado a incluir nos filmes cenas Ron/Hermione, como o abraço quando o hipogrifo de Hagrid é supostamente sacrificado, ou o apertar de mãos na primeira aula de Hagrid também. A principal fonte de tensão romântica entre os dois personagens ele resolve convenientemente amenizar: a briga eterna. Eles passam o livro todo brigando, e dali pra frente brigam praticamente até o meio do livro 7. Harry ainda não teve cabeça pra olhar direito pra menina nenhuma, mas nós veremos amanhã como, mais cedo ou mais tarde, os hormônios dele começam a trabalhar. Amanhã, o Cálice de Fogo!

P.S. E essa imagem no mínimo estranha de Snape protegendo o trio? hahaha.

Maratona: A Câmara Secreta

Continuando com a sequência iniciada ontem: hoje assisti Harry Potter e a Câmara Secreta, a adaptação do segundo livro da série de mesmo título.

Igual ontem, eu quero começar falando do tema, e depois de alguns personagens introduzidos na trama. Na verdade o foco do livro é na questão existencial. Harry passa todo o seu segundo ano descobrindo que ele tem mais semelhanças com seu arqui inimigo Voldemort do que ele gostaria; ao longo do tempo ele descobre que eles compartilham o dom de falar com cobras, e quando a suspeita de toda a escola cai sobre ele a respeito dos ataques a alunos, ele se pergunta se realmente o Chapéu Seletor teria feito a coisa certa selecionando-o para a Grifinória, e não para a Sonserina como o Chapéu argumentou na ocasião.

No filme esse questionamento é meio diluído porque Columbus resolveu encaixar o máximo de sequências de ação nas duas horas de filme que ele podia: carros voadores, bolos flutuantes,pó de flu, quadribol, poção polissuco, clube de duelos… No meio de toda essa confusão, você esquece que Harry está meio perdido consigo mesmo.

No fim das contas, o tema mais focado pelo filme passa a ser a discriminação e o preconceito. E não é porque eu sempre blogo sobre isso, não! J.K. finalmente nos mostra que uma das características essenciais dos tempos em que Voldemort era poderoso era a caça aos bruxos que descendiam de trouxas ou que de alguma forma não tinham todos os seus parentes bruxos. Isso inclui, nós veremos mais pra frente, outras espécies, como lobisomens e gigantes. A maioria dos teóricos atribui com certa exatidão essa atitude de Voldemort a um paralelo da Segunda Guerra Mundial e da perseguição a judeus, comunistas, homossexuais, entre outros. No filme o tema vem à tona quando Draco chama Hermione de “sangue ruim”, um palavrão horrível na sociedade bruxa, referente a filhos de trouxas. Imediatamente Ron reage e tenta atacar Malfoy pra defender sua donzela ofendida, mas como nada dá certo quando a gente é adolescente, seu feitiço sai pela culatra e ele recebe todo o efeito.

Com relação a personagens, não dá pra falar da Câmara Secreta sem falar do Dobby. O elfo doméstico é a primeira centelha revolucionária da série; escravidão é a melhor definição de toda a espécie dele, mas ele descobre que havia um plano que seria executado em Hogwarts naquele ano. Sendo assim ele foge de sua família e vai atrás de Harry, fazendo tudo que pode para proteger o menino e evitar que ele volte à escola. Aí já dá pra enxergar o status simbólico da vida de Harry pro mundo bruxo; mesmo antes de que isso se confirme, existe um acordo silencioso de que enquanto ele estiver vivo, Voldemort seria incapaz de voltar.

O problema é que suas estratégias de salvamento não são nada ortodoxas; ele esconde as cartas do menino, joga um bolo na cabeça das visitas de seus tios, enfeitiça um balaço pra quebrá-lo todo no quadribol, etc etc. Seu esforço é tal que, quando no final do filme Harry consegue libertar Dobby de sua escravidão num ato de esperteza, a única coisa que ele exige em retorno é que Dobby nunca mais tente salvar a sua vida. Depois de assistir o filme sete parte um, realmente todas as cenas com a presença do Dobby ganham um carinho renovado. Como não se emocionar quando ele segura a meia, ergue as orelhinhas e diz: “Dobby is… free!”

Bom, mas livre de quem? Livre do segundo personagem que merece destaque neste post: Lucius (ou Lúcio) Malfoy, pai de Draco. Pra quem geralmente vive mais focado na segunda metade da série, é engraçado se lembrar de quando a família Malfoy estava por cima da carne seca. Ricos e influentes politicamente, Lucius até mesmo consegue coagir o conselho a suspender Dumbledore. Eu inclusive lamento muito que sua primeira cena no filme tenha sofrido um corte injusto: na cena da Floreios e Borrões, quando ele troca farpas com Arthur Weasley, pai de Ron, este chega a perder a paciência e parte pra cima de Malfoy. É lindo, eles saem na porrada em plena livraria! Na verdade, ele é construído nesse filme como bem aparavorante. Mais apavorante do que Snape, absolvido depois do erro de julgamento no fim do primeiro filme, que neste segundo nos diverte muito com suas sugestões para piorar a vida de Harry. E, claro, pra algumas pessoas como eu, cumprindo o papel de professor mais sexy de Hogwarts.

*limpando a garganta*

Voltando ao Lucius, já que estamos reclamando de detalhes a respeito dele na adaptação, eu acho um disparate terem colocado ele pra tentar matar o Harry no fim do segundo filme. Naquela altura, J.K. Rowling nem havia nos apresentado à Maldição da Morte, Avada Kedavra. O feitiço é na verdade introduzido no quarto livro, que por acaso havia sido lançado no final de 2001, um ano antes do lançamento deste filme. O caso é que ele fica furioso com Harry por ter lhe causado a perda de Dobby, ergue a varinha e começa “Avada…” quando Dobby o interrompe com sua próxima fala (que eu sempre falo junto com ele…) “You shall not harm Harry Potter!”. Oras. Mas o que ele pretendia? Matar Harry do lado de fora do escritório de Dumbledore? Depois de todo um livro sendo o político dissimulado, ele vai abertamente tentar matar um moleque sabendo que não está no poder dele? Que vergonha, hein, roteirista?

Ah sim, e neste filme nós temos a primeira cena assumidamente Ron/Hermione: uma vez curada da petrificação, na cena final Hermione retorna ao Salão Principal, onde abraça Harry e congela quando chega a vez de abraçar Ron. Os dois se olham, morrendo de vergonha, dão um passo pra trás cada, e apertam as mãos. Eu ainda me lembro do tempo das guerras de ships quando os torcedores iludidos de Harry/Hermione honestamente interpretavam aquilo como nojo ou desgosto. Oh, é bom estar certo de vez em quando…

Bem, a adaptação de amanhã, o Prisioneiro de Azkaban, é a que eu mais detesto, já lhes adianto isso. Mas veremos o motivo. Até lá!