O Campo Minado dos Comentários

Noite passada eu tive um sonho muito interessante.

Pra resumir, eu sonhei que estava brigando com o Bolsonaro!

Ele estava em algum tipo de entrevista coletiva, e eu por algum motivo estava na primeira fileira de pessoas, bebendo alguma coisa. Em determinado momento ele falava alguma coisa e eu cuspi – isso mesmo, cuspi! Nele, e passei uns bons cinco minutos falando uns impropérios pra ele, começando com “você me enoja” e afins. No sonho, eu nem estava brigando com ele por causa do desespero diário dele de tirar todos os direitos humanos dos homossexuais, mulheres, negros, mulheres negras homossexuais, não. Acho que ele estava sendo acusado de algum tipo de crueldade com animais.

Enfim, o que é mais maluco, pouco depois de ter falado umas poucas e boas pra ele, eu descobri – ou sempre soube – que a tal coletiva estava sendo transmitida ao vivo – e, claro, estava recebendo comentários ao vivo. Eu me lembro até de ler os comentários no meu computador em tempo real, dizendo que “aquela amanda” só podia ser “uma lésbica mal amada, ignorante, baixa, vulgar, vagabunda, e que o excelentíssimo deputado Bolsonaro estava tratando o caso com dignidade” (ele tinha escutado em silêncio todo o meu xingamento, com aquela cara de bunda fedida dele, porque, claro, não tinha resposta e porque eu sempre ganho os argumentos no meu sonho).

Depois que eu acordei e pensei no que tinha sonhado, fiquei impressionada com o grau de base na realidade que o meu sonho tinha tido – isto é, se você esquecer a parte em que eu conheço o Bolsonaro pessoalmente e ele sai com vida.

Uma atitude nova na leitura de posts em blogs e notícias é procurar ver o teor dos comentários. Vocês também têm sentido essa mudança? Especialmente na Falha de São Paulo. Você lê aquela manchete, nada tendenciosa, que diz por exemplo, que a Dilma tá passando um tremendo aperto pra colocar alguém no Ministério dos Transportes. Quem já conhece a Falha sabe que ela vai construir o texto de forma que a Dilma apareça como incompetente e fraca. Então a nova do verão é ir direto pros comentários, que são moderados num estilo que me lembra muito a liberdade de expressão praticada na República Popular da China (que não é república e tampouco popular), escritos por cidadãos de bem da classe média alta brasileira (cofpaulistanacof).

“os PTralhas dominam o nosso país”

“e a copa está chegando, vai ser uma vergonha”

“volta FHC!”, que pode ser lido “quebra meu país de novo, por favooooor”

“nada contra os homossexuais, mas eu acho que eles não têm decência, espalham doenças sexualmente transmissíveis, cometem pedofilia com crianças a cada oportunidade”

“deus fez adão e eva, ALELUIA!”

“se fosse nos eua esses ptralhas já estariam todos na cadeia, lá é que as coisas funcionam”.

Eu não sei se vocês compartilham a minha impressão, mas tem dias que eu me próíbo de ler caixas de comentários, pra poupar a minha beleza. A sensação é que existe algum tipo de Esquadrão da Ignorância que passa 24hrs por dia online, comentando em todas as notícias a mando do pastor da pentecostal, com ordens explícitas de defender o direito de discriminação do homem branco católico heterossexual e tratar como doente e criminoso todo e qualquer outro estilo de vida alternativo.

Lembram da época em que o Bolsonaro estourou como hit da ignorância do verão passado? Na época eu fiz um vídeo, que pelo menos eu e as pessoas que eu conheço na vida real julgaram óbvio, no qual eu discorria com certa irritação sobre os limites (tão simples!) entre liberdade de expressão e incitação ao ódio. Lembram de como a gente ficou puto e depois pensou “não, esse é só um palhaço sem nenhuma representação”? Eu recebi alguns comentários argumentativos, outros discordando, mas ainda com cordialidade. Mas a maioria maciça dos comentários, depois de um tempo, consistiam invariavelmente de gente especulando sobre a minha sexualidade, dizendo que eu sou feia, estúpida, burra. Bem, a minha feiúra não faz o meu argumento ser menos consistente, eu sinto muito. Tentar me chamar de lésbica numa tentativa de me ofender é no mínimo estranho, porque é o mesmo que eu chegar pra alguém que gosta muito de Harry Potter e falar “Seu… seu… seu fã de Senhor dos Anéis!

Não é que existe toda uma camada da sociedade, com quem nós dividimos ar, espaço e banco no ônibus que pensa igualzinho a ele?

As perguntas que ficam na cabeça, pelo menos pra mim, são: até que ponto esses trolls das caixas de comentários pelo mundo são apenas um número limitado de pessoas infelizes e tristes, que parecem numerosos na internet mas na vida real não são? Como agir quando você conta pra alguém muito próximo o absurdo que a lamentável ex-esposa do Roberto Carlos, ex-atriz, ex-modelo e ex-humana disse a respeito de homossexuais e pedofilia, pra ver a pessoa querida parar, pensar e dizer: “ah, ela tá certa nisso, eu não sou obrigada a contratar um gay!” COMO VOCÊ REAGE?

Sad Keanu está desapontado com os bolsonarianos.

Dá vontade de chorar, não dá? Desde que TUDO virou liberdade de expressão, atitude defendida pelo Bolsonaro, pela Miriam Rios, pelo Rafinha Bastos, pelo Silas Malafaia e outras pessoas memoravelmente ignorantes, não exite mais nenhum freio para o preconceito. Junto com a homofobia, de repente tudo é permitido: mulheres deveriam voltar pra cozinha (visão essa militada por um blog de “humor” que eu não vou linkar), negros deveriam voltar pra África (de acordo com um PROFESSOR UNIVERSITÁRIO), nordestinos aumentam a criminalidade (ao invés de aquecer a economia, expandir cidades, arrumar trabalhos difíceis e mal pagos que os magnânimos comentaristas nunca fariam). Eles se julgam protegidos pela liberdade de expressão e se sentem profundamente ameaçados por medidas como a PL 122.

Por que essa medida que criminaliza homofobia tanto quando discriminação racial é uma grande ameaça? Bom, porque ela é o epitáfio de um direito que tem sido exclusivo da casta dos comentaristas há séculos: o direito de discriminar. Imagina só se uma seleção de emprego for só baseada na competência?? Os céus vão se abrir em chamas e tudo volta ao pó.

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Adão e Eva

Estou em Piracicaba, vim visitar uma amiga minha que faz USP aqui. Das outras vezes em que vim percebi que, como toda cidade de interior – ou quase toda, sei lá – Piracicaba tem muita gente preconceituosa. Falo especificamente de homofobia. Sempre que eu topo com um homofóbico, costumo meio que perder as estribeiras, porque adoro gays. E sabe, mesmo que não acreditasse, acredito que a gente tem que deixar as pessoas em paz. Nesse momento, sempre ouço a seguinte frase: ah, eu não tenho nada contra gays…

Essas reticências escondem, quase invariavelmente, um “mas eu não quero nenhum deles perto de mim”. Por isso, sempre que ouço a parte que é pronunciada dessa confissão, fico meio puta. Ontem, na mesa do bar, me perguntaram se eu já beijei mulher, e eu disse que sim, claro. Alguns exclamaram “como assim, claro?”, e depois se disse que se você já pegou alguém do mesmo sexo alguma vez na sua vida, logo você é gay. Achei isso o maior absurdo do século vinte e um – é uma total incompreensão do que é preferência sexual. Sinceramente, pra mim isso é tão simples… gosta do diferente, é hetero. Gosta do igual, é gay. Gosta dos dois, é bi. Mas ai. Quando eu disse que não tinha a menor importância o que você já fez sexualmente, no momento você tem uma preferência ou outra ou outra… Nossa! Pareceu heresia. Aí alguém mencionou alguma coisa nas linhas de “ah, mas Deus fez Adão e Eva…” E eu virei prontamente pra dizer: imagina só, ainda tem gente que acha que Adão e Eva existiram! Não tive chance de mencionar o teor metafórico da Bíblia, os leitores (leitores?) literais do tal livro me execraram. Antes que a minha melhor amiga mudasse de assunto – provavelmente pro meu bem – ainda ri alto, dizendo que nós não somos planárias: você não arranca um pedaço do corpo pra nascer outra pessoa em volta da costela! Ai…

Eu fico muito preocupada quando encontro essas mentalidades. De verdade. Gays são julgados, sim. Ainda são considerados más influências, dar o cu é uma perda de honra absurda. Isso não me entra na cabeça. Rolar no próprio vômito não é… Como assim? É chocante como as pessoas não estão preparadas para a idéia simples de que existe gente diferente delas próprias. Como eu vivo no ambiente da Letras, onde tem viado em todo lugar, onde eles vivem livremente e não são discriminados, ou pelo menos quase nunca, e onde discriminação sexual é o fim da picada, eu acabo achando que é assim em todo lugar. Não é. Discriminação está, na realidade, na maioria dos lugares. E gente que nem eu, que paga de, sei lá, atéia modernete, acaba sofrendo discriminação também, por tabela. Que nem cristãos que protegiam judeus durante o Holocausto.

Eu queria simplesmente que as pessoas se deixassem em paz.