Princesas

Numa dessas noites de derreter em butecos brasileiros, uns ótimos amigos meus discutiam o que mais legal: ser princesa ou ser rockstar?

Foi simplesmente impossível fazer os meninos entenderem a nossa escolha por ser princesa: a verdade é, pra que diabos serve uma princesa? Quase não existem mais princesas. Os meninos argumentaram que a princesa tinha que fazer uma infinidade de coisa que não gostava e seguir um monte de regras estúpidas – na verdade, ela não pode fazer o que quer. Ela pode fazer é bem pouco, quando você pensa.

Ainda assim, tem algo de glamouroso em ser princesa que simplesmente não envelhece, né? Afinal de contas, o que colocou essa idéia de princesa tão forte na nossa cabeça? A Disney, claro.

Ontem eu revi A Pequena Sereia, depois de muitos anos. Confesso que fiquei tanto tempo assim sem rever o desenho não porque eu não gostasse da história, mas porque tinha pavor da Úrsula! Blog é pra essas coisas mesmo, confessar porcaria. Eu tinha pavor da hora que a Úrsula vira gigante e quase mata todo mundo, e tinha medo da cena que ela toma a voz da Ariel.

AHH não estou falando disso pra dizer que tenho medo da vilã. É pra dizer que eu me vi ficando contra a Ariel em todas as situações. Ela não tem noção das obrigações, não tem noção da realidade e não dá o menor valor à vida que ela tem. Ela é a caçula de sete princesas, e o rei… Cadê a mãe das princesas? Por que princesa da Disney não tem mãe?

Princesas sem mãe: Branca de Neve, Cinderella, Aurora, Anastasia, Ariel, Jasmin… Você pode tentar dizer que a Aurora tem mãe, mas ela cresce sem e só conhece a mãe no final do desenho.  Sinceramente não faço idéia do motivo das princesas não terem mãe. Acho que é porque se elas tiverem um modelo feminino pra seguir e pra protegê-las a vida das princesas não seria tão trágica.

Agora, eu sei que a gente sempre usa a expressão príncipe encantado pra se referir a um homem perfeito – mas revendo os desenhos eu fiquei com vergonha pelas figuras masculinas dos desenhos! Os príncipes tem nome, mas ninguém lembra. Por exemplo, qual dos príncipes se chama Felipe? São figuras inexistentes, que por algum motivo estão doidinhos pra sair da vida de solteiro disputado e se casar imediatamente. São tipos surpreendentemente fáceis de conquistar – antes de terem que salvar a princesa no clímax geralmente só as encontram uma vez, falam de sentimentos na maior tranquilidade, cantam e dançam. Não falam muito. É esquisito: por um lado movem o mundo no fim do desenho pra salvar a princesa, mas durante o desenho todo é a princesa que sofre, que enfrenta dificuldades…

Fiquei preocupada com uns detalhes que eu percebi nas princesas: quase todas tem dezesseis anos. Quase caí da cama ontem quando vi a Ariel abraçando a estátua do príncipe na frente do pai e dizendo “mas eu o AMO!”.

Imagina que você tem uma filha de 16 anos rebelde, que acha que é adulta. Ela de repente some, volta e diz que ama um cara de OUTRA ESPÉCIE. Sério, como você reagiria?

Outra coisa: o que faz uma boa princesa? No começo da Bela Adormecida fica a dica: Aurora ganha os dons da beleza e o dom de cantar. Ariel tem que dar a voz pra ganhar pernas, e nós ouvimos uma música de ideologia preocupante da Úrsula sobre como homem não gosta de mulher que fala. Na Cinderella, o fato dela ter o menor pé do reino é um charme. Então vamos tentar colocar tudo junto: uma princesa deve ter dimensões pequenas – pés pequenos, cinturinha, baixinha… – deve usar a voz só pra cantar, mas principalmente, tem que ser muito bonita. Isso invariavelmente inclui cabelo liso, pele branca, olhos azuis e lábios naturalmente vermelhos que ninguém tem.

Tá bom, nós crescemos vendo nos desenhos de princesas que tínhamos que ser que nem elas. Bom, quando você é criança ainda há esperança! Você ainda pode emagrecer na puberdade, o cabelo de muita gente muda, os peitos crescem… Ou não. A certa altura do desenvolvimento você percebe que não vai ser aquele modelo de graça e se sente uma merda. Mas… ainda assim, depois de tudo isso, eu continuo querendo escrever histórias sobre princesas.

Por quê?

A princesa, filha do rei, está diretamente relacionada com o que acontece com o Estado – digo isso na ficção, sei lá como rola hoje a política dessas coisas. Quem se casar com ela será rei, ooohhh! Mas, se parar pra pensar, quais são as responsabilidades de uma princesa?

Eu pensei isso outro dia e assisti hoje no Mulan 2: as princesas dizem que a própria vida não lhes pertence, que elas devem fazer o que for melhor para o seu país. É uma obrigação pela qual elas não pedem, pra qual elas não são preparadas, mas ainda assim tá lá.

Aliás, na minha opinião Mulan é a princesa mais sensacional de todas, apesar de ser a única que… bem, não é uma princesa e nem se torna uma princesa depois de se casar. Ela tem pai e mãe – ooohh – ela se passa por homem no desenho todo, e tem um momento em que a Disney parece que brinca com os padrões que ela própria estabeleceu no passado: durante uma música em que os homens falam que gostam de pensar que tem uma mulher em casa pra quem voltar, descrevem a mulher ideal. Aí Mulan sem jeito adiciona na música, “e se a mulher usar o… cérebro?” e os homens: “naaaaaah”.

Bom, as princesas mudam de acordo com os costumes, né? Mas uma coisa elas não perdem: o charme. Sempre tem alguém lutando por elas.

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Do que nós somos feitos

Hoje eu saí na rua, dei uns passos, não senti frio. Fiquei confortável. Depois de cinco minutos, eu tava positivamente sentindo calor. Calor mesmo, de se abanar. Olhei no celular: a temperatura em Londres estava em 14 graus. Ergui a cabeça pra perceber que uma boa parte das folhas já caiu. Lembrei do Quito comentando que a Europa no outono dá a impressão de que a gente tá pra sempre preso num clipe de Sandy e Júnior.

E veja bem, eu nem tenho pra quem transmitir essa piada. Quem aqui riria se eu falasse isso? Quem aqui riria, mesmo que eu mostrasse pra um gringo aqui o clipe no youtube? Bom, eu não riria no lugar de qualquer dos amigos que eu fiz aqui nesse começo de Inglaterra.

Mesmo antes de sair do Brasil, eu sabia que uma coisa aconteceria: eu aprenderia o que é, de verdade, ser brasileira. Parece irônico à primeira vista. Da mesma maneira, é irônico que eu me gradue em Inglês no Brasil e faça matérias do Português na Inglaterra. Eu faço piada com isso toda hora. Mas uma pergunta sempre martelou na minha cabeça: o que é mesmo ser brasileiro? O que é mesmo ter nascido naquele determinado território, com aquela determinada língua? É fácil imaginar uma realidade alternativa na qual o Brasil não existe, na qual os países são totalmente diferentes… Qual é o resultado das coisas serem como são?

A História do Brasil pra mim sempre pareceu deprimente na escola; nós nunca tivemos grandes guerras pra vencer, fomos essencialmente formados de ladrões e prostitutas expulsos da Europa há pouco menos de quinhentos anos. Na sua origem, o Brasil, como outras terras descobertas na época, tinha um status de paraíso perdido, uma chance de começar a humanidade do zero, uma terra onde os nativos não tinham medo nem vergonha dos seus corpos. Bom, não é mais assim. Nós nos vestimos como os europeus, assistimos os mesmos filmes, estudamos os mesmos filósofos. Eu tendia a acreditar que a nação brasileira era uma mera noção criada pelas mesmas mídias que tentaram com tanto afinco eleger o Serra. Sempre achei que era só uma ilusão. Sempre achei que estavam tentando criar uma sensação de unidade brega numa mistura irreconciliável, igual quando recortaram a África em quadradinhos. Era pessimista igual essa galera que fica falando que as pessoas empolgadas com coisas feito futebol e carnaval era só o povo burro do pão e circo.

Veja bem, todo mundo cita a Canção do Exílio do Gonçalves Dias quando se refere a passar tempo no exterior. Antes de eu sair do Brasil, aquela era toda a realidade que eu conhecia. A minha variedade regional do Português moldava a minha noção de realidade, minhas gírias, até o modo de flertar, o modo de participar numa sala de aula, o tipo de questões que a gente faz por aí. Como eu não conhecia nenhuma outra realidade, nunca consegui bem definir o que é ser brasileira.

Não se iluda de achar que com tão pouco tempo eu já encontrei uma resposta; mas muita coisa me faz refletir.

Antes de mais nada, tenham orgulho aí de terem nascido no sul. Ser brasileiro está na moda! Em todo santo lugar que eu vou, sou muito bem recebida. Muita gente até tenta falar português, e sai um espanhol desengonçado. Tem quem brinque perguntando se eu moro perto da floresta aí, pra consertar em seguida. Tem três reações mais frequentes logo depois de eu dizer que sou brasileira:

1. Nóóóóóóóóóóó! Eu tenho amigos brasileiros/Já fui lá! Foi ótimo, é um lugar do caralho!

2.Mas você é branca!?

3.Você gosta do Lula?

Focando na segunda reação, depois de um tempo eu reforcei outra coisa que já tinha imaginado antes de vir pra cá: não se espera que eu seja brasileira. Afinal, eu não sei dançar, não tenho ritmo, não sou negra, não sou do Rio de Janeiro, não gosto de forró e muito menos de… bem, cultura pop brasileira no que toca à música. E, claro, não sou gostosona de peito e bunda enorme. Not at all. Tento ver isso de forma positiva, pra mim e pros outros. É bom que eles desconfiem que em 180 milhões de pessoas, nem todo mundo é passista do carnaval.

Por outro lado, tem brasileiro aqui em todo lugar. Seria fácil falar português todo dia. Eles estão no banco, no ônibus, tirando foto perto do BigBen. Eles se abraçam, gritam, se misturam. Não andam em grupos fechados e homogêneos, como os asiáticos. Estão aí, onde a gente menos espera.

Brahma não é uma cerveja tão boa; a Globo é decididamente uma merda; fazia mil anos que eu não escutava Los Hermanos. Ainda assim, por que fiquei rindo feito uma besta quando um dia sem querer, assisti cinco minutos de Globo? Por que o primeiro gole da Brahma foi tão fantástico? Por que coloquei Los Hermanos de novo no MP3? É quando a gente volta pro Gonçalves Dias: uma hipótese ser que de repente tudo que é de casa pareça muito melhor porque está muito longe.

Eu sinceramente acho isso muito simplista. Depois de todas aquelas tardes de bar do Cabral, não dá pra ser igualmente receptivo com uma pint de Ale, que parece uma cerveja escura quente em volta desse povo tão exageramente civilizado?

Começo a concluir que, no fim das contas, aquela mentira da nação tem uma boa parte de verdade. Nós compartilhamos muita coisa. Essas coisas estão tão entremeadas com nossa maneira de pensar! Como visualizar a importância de facilitar a mobilidade social quando você sempre morou no centro de Londres, no máximo vendo um documentário sobre a Venezuela na BBC? O Brasil é, afinal de contas, um país muito jovem; tudo nele é novo. História, economia, literatura… Parece que só agora se ergue a cabeça, de uma certa forma.

De uma forma meio retardada, sinto muito orgulho das coisas brasileiras. Fico ensinando pra todo mundo como nossa política funciona, a mecânica das novelas horríveis da TV… E pensando agorinha, nós estamos de certa forma acostumados com um grau de tosqueira na nossa vida, né? Lembro de quando a Melissa me contou duma louca levando uma reprodução em tamanho original do Aécio pra casa. O mundo explode em purpurina antes de alguém, não importa a nacionalidade, fazer isso em Londres. Eu diria que, em termos de socialização, nós temos menos medo de nos abrir. Até mesmo eu! ahahah. A maneira como às vezes só ignoramos as regras parece horrível à primeira vista. Mas aqui existem tantas regras desnecessárias! E que povo calmo! Um trânsito de uma hora e meia e o cara lá, assoviando na frente do volante! O estacionamento do supermercado vazio de madrugada e ele dando a volta pra não passar na CONTRA MÃO! Ter que provar que eu sou maior de dezoito anos pra comprar nem álcool, mas uma TESOURA no supermercado!

Acabou que eu não consegui concluir nada, mas… Já me peguei pensando, esses europeus tem muito a aprender com a gente!

7 Opiniões pra perder os amigos

Já faz um mês que eu estou aqui em Londres – coisa demais pra mencionar no meu blog, coisa demais pra comentar no vlog – por isso quero pedir desculpas a quem espera que meu blog passe a ser um diário de viagem – quem relata muito vive menos. Ou seja, vou continuar opinando sobre coisas que eu vejo por aí, que é a idéia dele desde janeiro, quando começou.

Às vezes eu vejo alguém que discorda de mim. Tá que não é às vezes, é bastante, mas é normal alguém discordar de você quando você diz que Heinecken é a melhor cerveja Lager. Mas tem opiniões – eu não sei vocês, mas eu tenho isso – que eu considero no alto da minha arrogância pseudo racional como verdades absolutas que ninguém devia discordar. Algumas delas tão aí nessa polêmica do segundo turno das eleições.

(mais de uma vez eu disse a mim mesma: vou postar sobre as eleições! Vou falar sobre como me interesso pela Marina mas tenho ressalvas, sobre como Serra nem fudendo, sobre como… ah! Aí percebi que um post sobre as eleições seria chover no molhado igual explicar por A + B porque Crepúsculo será provavelmente a pior série de todos os tempos, desnecessário)

Pois muito bem. Pensei comigo mesma: nessa valsa repetitiva de Dilma e Serra se esquivando de tantas questões na esperança de ter o apoio do público da Marina, vou eu deixar claro o que eu apóio e foda-se. Eis os tópicos:

1. Casamento gay. De verdade, gente? A essa altura da humanidade cês ainda querem meter o bedelho na vida de quem só quer casar e ficar de boa? O que você tem a ver com isso, cidadão?

2.Aborto. Sou a favor da legalização do aborto sem restrições. Esses dias li uns argumentos muito doidões contra o aborto e fui tomada da acima mencionada arrogância de quem talvez tenha certeza demais que está certo. Não aceito feto como um ser vivo, do mesmo jeito que um vírus não é aceito como ser vivo na Biologia porque não vive sozinho, somente dentro e dependente de outro organismo. Quem tá viva nessa história é a mulher. E de novo: sério, gente? Ainda é tão difícil assim lembrar que mulher existe e é gente? Pleno 2010?

3. Votar em tucano. Me explica de verdade porque alguém que não é das classes A e B vota no Serra? Eles estão tão claramente interessados em defender somente os mais ricos à custa de promover uma população alienada sob um ensino de merda cheio de maquiagem que só não dá pra entender. Não sei sinceramente porque o Serra ameaça a candidatura da Dilma.

4. Beber Skol. Quando alguém me diz que a cerveja favorita é skol, a pessoa cai no meu conceito quase que instantaneamente. Em alguns poucos eu vejo um pouco de potencial, respiro fundo e falo: poxa, mas pelo mesmo preço cê podia beber cerveja de verdade… Tem Brahma, Itaipava por aí…

5.Legalização de drogas. Por mim todo mundo ingere o que quiser. Não é como se já não o fizessem, só é mais difícil. É bom que legalizando as drogas, vai rolar um darwinismo generalizado: quem for burro o suficiente pra usar de forma indiscriminada já morre e fica menos gente burra no mundo, pronto falei. No fim as coisas se equilibram.

6.Comunismo. Gente, vai dormir, já deu a hora de vocês, de verdade. Resumindo: aham, cláudia, senta lá.

7.Divisão em partidos de forma geral. Outro dia me disseram que ser contra a organização da “democracia” em partidos me fazia anarquista e achei graça. Acho horrível ter que ser filiado a um partido pra se candidatar a um cargo, acho que só leva ao que levou: esvaziamento da noção de unidade ideológica em detrimento de alianças temporárias que se provem mais interessantes.

Belo Horizonte

Quando eu passei no vestibular, as pessoas me perguntavam qual opção eu ia escolher e tal. Só que quando eu dizia: vou fazer Letras na UFMG em BH, elas corriam pro carro/rádio/computador e tocavam aquela música tensa duma dupla sertaneja que canta algo como “é aqui que eu mooooooro/é aqui que eu quero ficar/pois não hááááá lugar melhor que BH”.

Ninguém na minha cidade natal entendeu a minha escolha direito até hoje… Mas a questão hoje não é a escolha, e sim o lugar.

Quando eu vim pra cá, nas duas etapas do vestibular da UFMG, teve algo nessa cidade que me capturou, alguma coisa que me identificou de uma maneira muito forte. Como eu só morei aqui e na minha cidade, eu nunca saberia dizer se todas as pessoas sentem isso quando resolvem mudar. No meu processo de vestibular, eu estava considerando morar em algumas cidades bem diferentes entre si: São Paulo (óbvio), Belo Horizonte, Londrina ou Franca (Uberlândia foi considerada também, mas eu acabei descartando). Eu sabia que a escolha da cidade era crucial. Não sabia o quanto, obviamente, tendo mrado a vida toda em uma cidade com cerca de 30 mil habitantes.

Cheguei em BH depois da viagem de ônibus até então mais longa da minha vida. Enquanto passava com a Melissa e o pai dela pela cidade, e especialmente quando ele deu uma voltinha de cortesia no campus e eu vi a FALE pela primeira vez, bateu uma coisa, sabe? Tá, é brega. Mas imediatamente eu gostei da cidade. Minha mãe odiava tudo, hahaha, ela não se dá bem com cidades grandes. Mas quanto mais eu conhecia, mais eu gostava. E minha amiga e o pai dela foram ótimos guias, contando episódios da história belorizontina, me levando pra tomar sorvete e tudo.

Faz três anos que eu moro aqui. Sempre que alguém descobre de onde eu sou, ou melhor, do quão LONGE eu morava, todos perguntam o motivo de eu não ter simplesmente feito Letras na USP mesmo.

Parte da minha formação de personalidade durante a adolescência, eu sempre enxerguei um desespero por eficiência e, mais bizarramente, excelência, no modo paulista de ser. Quando eu ouvia falar da Letras, e quando examinava o currículo, amava tudo. Lembro de dizer pros meus pais que ia me formar em todos os idiomas que a FALE oferecia (até agora só melhorei meu inglês, comecei italiano, latim e japonês, esquecendo completamente os dois últimos).

Nesse ponto, você diz: ah, a coisa não foi só Belo Horizonte, foi a cidade e a universidade. Ué, caboclo, claro que foi, eu tinha dezoito anos e estava avaliando meus prospectos! Sabe… todas as outras cidades no meu horizonte de possibilidades eram escolhas comumente tomadas por pessoas que tinham crescido comigo. Estudar no Paraná tinha os atrativos de ser uma cidade limpa e eficiente, com o plus de que eu tinha passado muito bem lá e o vestibular era fácil. São Paulo é São Paulo, né?

Depois que eu criei a coragem e vim pra cidade mais longe de todas, o processo de identificação só melhorou. Estava eu no 1207, seis e meia da manhã, semi acordada, mas todas as manhãs eu tentava me espremer e ficar do lado direito do ônibus pra ver a Lagoa da Pampulha. Prosseguindo numa cadeia de coisas bregas, aquela visão simbolizava alguma coisa que eu não conseguia expressar direito.

Desde que eu me mudei pra moradia da UFMG e tudo o mais, eu tive menos perrengues, mas fiz amigos – sim, pessoas de Palmeiras, eu tenho amigos aqui! Eu sei, vocês acharam que eu nunca teria amigos, né? -, construí uma vida. Eu me sinto bem recebida aqui, não sei explicar por quê. Acho que eu misteriosamente tenho uma personalidade mineira, mesmo sendo paulista e com toda a minha família imediata sendo paulista ou paulistana (TODO mundo tem um parente em São Paulo). Coisa de turista.

Mas é sério: eu acho simplesmente o máximo passar pela Lagoa, pela Praça da Liberdade, pela Praça Sete, pelo Mineirinho. Tenho muito orgulho de ter escolhido vir pra cá, acho que tive a melhor das idéias. Sinto que eu consegui virar gente, livre dos olhares dos paulistas, que enchem tanto o saco da gente o tempo todo!

Essa semana me peguei zuando um paulistano e imitando o sotaque. Nessas ocasiões, sempre tem um amigo pra me lembrar que eu meio que sou um deles. É engraçado, mas eu não me sinto paulista. Gosto dos mil bares, e me sinto em casa nessa cidade. Gosto, especialmente – vocês vão me achar doida – de andar de ônibus. Quando preciso pegar o 2004 só acho ruim de subir o morro mesmo, porque adoro passar pelo bairro, pela Antônio Carlos, pela João Pinheiro e tal. Gosto de ver a cidade pela janela, os mineiros andando na Afonso Pena. Lembro de quando tudo isso não passava de flashes da tv, e fico me sentindo dentro da tv de um jeito engraçado. Fico me sentindo num lugar onde as coisas acontecem, onde eu posso simplesmente me levantar, pegar um ônibus e sair, pedir um hamburguer, praticamente qualquer coisa. Eu gosto de ter espaço pra existir de qualquer jeito. Belo Horizonte é perfeita pra mim nesse aspecto, eu me sinto livre.

O intercâmbio e as adrenalinas dele derivadas.

Eu não tenho falado muito do assunto por aqui porque o meu intercâmbio do semestre que vem está naquela categoria de possibilidades tão maravilhosas que eu não queria comentar até ter certeza de que vai acontecer.

Tudo indica – ou nem tudo, como vocês verão – que em setembro eu devo viajar pra Londres e passar um ano letivo estudando em King’s College. Bem, nós estamos em julho, e desde março, eu tenho brigado e resolvido uma miscelânea de problemas. Mas hoje, ah… Hoje foi a gota d’água.

Em março, entreguei toda a documentação necessária na data. Uma semana depois, foram me dizer que precisavam da minha declaração de condições financeiras. Como sou nivelada pela FUMP, tinham me dito que isso não seria necessário, mas acabou sendo. De onde a coleguinha miserável tira 22 mil reais pra mostrar pra UFMG? De lugar nenhum, beijos. Esse foi o primeiro pepino, que se enrolou em recursos, reuniões, telefonemas. Depois o pepino evoluiu, foi resolvido de leve, e entrei na parte dos orçamentos, papéis, comprovações, cálculos. Um pouco de espera seguido de mais telefonemas, pessoas que por algum motivo tinham ido embora mais cedo dos respectivos escritórios e nunca estavam nos dias seguintes.

Depois disso, tive minha primeira vitória significativa, relaxei e pensei: bom, agora é só a carta de aceite chegar, eu me inscrevo na moradia, e aí só esquento com isso em agosto, quando tiver que ir no Rio tirar meu visto de estudante. Ao mesmo tempo que pensei isso, suspeitei. É, tava muito fácil mesmo.

E tá que essa carta não chega, não chega… O prazo pra se inscrever nos dormitórios de King’s foi ficando curto, curto… Ontem – dia 30, na verdade – acabou. Pois é, colega, e agora José? Hoje eu abro meu gmail no melhor dos humores, pensando já no jogo do Brasil contra a Holanda amanhã, e o que eu descubro? Um e-mail encaminhado da responsável por admissões em King’s. As nossas cartas não chegavam simplesmente porque eles nunca receberam a PRIMEIRA leva de documentos enviada no meio de MARÇO!

Com licença, vou ali chorar. Foi mal o desabafo.

Nota sobre vazio

Eu twittei assim: Luto: dona Hilda, a velhinha do outro lado da rua. Desses golpes que gritam na cara da gente: “Por que você ainda tá vivo, afinal?”

Depois de alguns meses, acho que aprendi a me expressar bem em 140 caracteres.

A ida da dona Hilda me fez perceber como eu meio que não existo mais pra muita gente, especialmente pros meus pais, por morar tão longe. Eu queria estar lá hoje, e amanhã, mas não vou estar. Assim como não estava quando foi a minha vó.

Ficou com cara de fim de capítulo, esse dia.

Comentário: House M.D.

So… this is it.

os personagens principais das três primeiras temporadasOficialmente, uma série de Tv americana me escravisou durante mais de um mês, cujos dias eram gastos no vazio existencial dessa minha vida de merda quando eu não conseguia ver pelo menos um episódio. Durante semanas, dei minhas aulas, assisti outras tantas, almocei correndo pra pegar o ônibus de uma hora e ir pra casa ver House a tarde inteira.

Mas olha só: ironicamente, não consigo nem organizar muito meu pensamento crítico sobre a série. A sobrecarga é uma das culpadas, é claro. Afinal, seis temporadas, média de 4 episódios vistos por dia… Bom, qualquer um sobrecarregaria. Mas mais ironicamente, ainda me lembro de quando escrevi Drop Dead Diva, e eu gostava contra todas aquelas coisas sobre as quais eu consegui argumentar. Com relação a House, que é fantasticamente bem feito, atuado, etc, etc… Só consigo pensar em comentários pessoais e melosos. Será que tem uma lei dos opostos me sacaneando aqui?

Todos já sabem o básico da série: médico filho da puta espertão resolve casos magicamente, daquele jeito epifânico que só os Estados Unidos fazem por você. E adivinhem: Hugh Laurie, o protagonista, é inglês e enganou até a galera que estava fazendo o casting pra série, de tão bom o sotaque americano dele.

Já que eu sou incapaz de ser objetiva sobre algo que eu simplesmente venero, ok: notas breves sobre os personagens – ou os meus favoritos (mimimi o blog é meu, mimimi).

Foreman: no começo eu achava ele muito chato; mas tem sempre que ter um chato, porque senão tudo ser legal vira um saco, também. Claro que quando vi o episódio no qual a gente percebe que a mãe dele tem Alzheimer, eu tive um apelo emocional mais forte. Ô doença dramática filha da puta. Mas assim, ele é um House júnior, mas não sabe medir as atitudes dele muito bem. Tanto é que se fode no único relacionamento que ele tem durante a série, com a Thirteen. Tanto faz. Ele nem é meu favorito mesmo.

Chase: ôôôôôÔ, mas eu pegava demais esse cara! Hahaha. Sério. Todo mundo fala de pegar o House, que o House isso, o House aquilo, mas eu super prefiro o Chase. No começo ele não passa de um filhinho de papai puxa saco, mas ao longo das temporadas e do relacionamento com a Cameron ele se solta desses laços e se torna… Bem, nessa fase pós Cameron eu estou achando ele bem vazio, ou seja: em breve vai ter outra mulher pegando ele na série e não sei se vou lidar bem com isso. Fico com ciúme de imaginar.

Taub: uma chatura. Mimimi quero trepar com outra, mimimi ganho menos dinheiro aqui. Só é doido no episódio da sexta temporada em que ele fica doidão de Vicodin com o Foreman.

Thirteen: fui extremamente implicante com ela no começo, por ser a figura feminina que substituiu a Cameron no time na quarta temporada. E essa coisa de ser bissexual me deu um tédio tremendo, porque eu tive a sensação de que ela só é muito previsivelmente interessante. Quero dizer: sentença de morte em breve + bissexualismo? Ah, sim, esquecendo a parte em que ela é estupidamente bonita. Com o namoro com o Foreman eu passei a gostar um pouquinho mais dos dois, e agora acho que já me acostumei a ela, haha. Depois da fase doideira drogas sexo seguida de namoro, ela parece mais madura e eu até gosto dela.

Wilson: essa natureza dele de sempre ser bonzinho me dá más lembranças. Todo mundo gosta dele, e por isso eu desconfio. Claro que ele tem o mérito de ser muito foda no modo de lidar com o House. Mas sério, não sei como ele não fica muito entediado toda vez que o House tem uma epifania e sai da sala. Achou a vida emocional dele no lixo, como 90% das mulheres do planeta, e bem, onde está a história ele está em um remember com a primeira ex mulher. Definitivamente, o ápice dele foi a morte da Amber no fim da quarta temporada. A história foi fantástica e foi de matar qualquer um de chorar (eu sei que uma amiga minha quase se afogou nas lágrimas).

House: ah, ele é doido. Hahah. Quero dizer, não tem muito pra dizer dele, a série já é sobre isso. Mas o senso de humor é fantástico. E uma característica dele que se espalha para todo o enredo da série: as coisas nunca ficam OK. Às vezes existem lapsos de felicidade, como o casamento do Chase e da Cameron – que acaba – ou a noite dele com a Cuddy – que foi alucinação. Ah, aliás, uma frase fantástica pra se dizer pra alguém com quem se está apaixonado: “I always want to kiss you”. (favor citar a fonte quando usar isso na sua vida emocional) E mesmo, a única personagem com quem eu vejo ele dando certo é a Cuddy mesmo.

favorita!! <3Cameron: vai parecer que não, mas ela é minha favorita de todos os tempos. Eu sempre gostei demais dela e da atitude. Ela é decidida, corajosa, inteligentíssima: as melhores idéias são quase sempre dela durante as três temporadas e mesmo durante a participação dela nas temporadas em que trabalha na emergência. Não tive coragem de me livrar do episódio em que ela se droga e pega o Chase pela primeira vez. Nem o episódio no qual ela resolve se envolver com ele emocionalmente: aquela coisa da terça feira é algo que eu queria pra mim! LOL. Ela chegar e dizer pra ele: “é terça feira”, e ele: “Hm… não, ainda faltam algumas horas…” e ela: “eu não queria esperar”. Ê laiá! Mas ela tem uma falha de personagem meio triste: ela muda muito pouco ao longo da série. Quero dizer, o Chase e o Foreman mudam bastante, amadurecem, revisam princípios e atitudes. Ela se segura na ética com força demais o tempo todo, e mesmo quando sabe que o Chase matou o ditador africano, não acha que deve repensar seus valores, assumir um pouco menos de que ela está certa.  Ah, e só não deixei ela por último pra não ser clichê demais.

Cuddy: a super mulher! Cara, ela é demais. Manda no hospital todo, adotou a menina e ainda consegue abrir a cabeça o suficiente pra manter o House e as doideras dele, sem mencionar todos os outros inúmeros problemas que cuidar de um hospital acarreta. Nada mais normal do que ter pavor de se render àquela coisa toda que ela tem com o House. É lógico que pra gente que assiste a série, fica gritando na frente da tela “SE JOGA, FILHA”, mas se fosse com a gente, faríamos tão diferente? Se desse certo, não seria o House. A ex dele entendeu isso bem, exceto na parte em que chega a resolver voltar pra ele na segunda temporada.

Bom, é isso. Outras coisas chamam à atenção, esquecidos os clichês absurdos de série de hospital, que ficam pra outro dia. Mentiras são rotineiras nessa série, e o ateísmo do House não é só manifesto, como pregado, o que na minha opinião faz perder meio que o princípio. Oh, gosh, agora a coisa é esperar o próximo episódio. ❤