Maratona: Half Blood Prince

Antes de mais nada, eu queria deixar claro o motivo de eu não admitir o título desse filme em português: é o mesmo motivo de esse filme ser, pra mim, a segunda pior adaptação da série. Half Blood, traduzido como mestiço, dá a entender na série que a pessoa é filha de trouxas e de bruxos, de ascendência mista. Prince seria obviamente traduzido como Príncipe, mas bem, então porque não traduzir apenas como “O Príncipe Mestiço”?  Bom, porque nada nesse título é óbvio.

Como Snape afirma sem maiores detalhes ou explicações no fim desse filme, ele próprio é o Half Blood Prince. Os leitores sabem que, na verdade, o nome de solteira de sua mãe, Eileen, é Prince. Agora, por que ele ia querer se chamar pelo sobrenome da mãe? Pra encurtar a história, o pai de Snape era um monstro. Simples assim. Aterrorizante e violento. Quando Severus descobre seu talento para poções, ele faz a analogia de ser o príncipe das poções. Como sua mãe não vem de uma família mágica, eis que ele é mestiço magicamente! Não só é um bruxo “mestiço”, como, claro, metade de seu sangue seria da família da mãe, os Prince.

Vamos deixar combinado a partir desse ponto que esse título da J.K. Rowling é um puta desafio de traduzir? OK, vamos em frente.

Harry Potter and the Half Blood Prince foi lançado em 2009, também dirigido por David Yates. Porém… Steve Kloves está de volta. Quais as consequências imediatas disso? Bem… Ron entra mudo e sai calado do filme, ou só ganha falas “engraçadas” ou “estúpidas”. Hermione fala todas as coisas que lhe cabem e todas as falas sérias, preocupadas, etc etc de seu futuro marido. Kloves nunca lidou bem com o fato de que Ron fica com Hermione; como resultado, temos cenas completamente desnecessárias, como a extensão da cena dos canários, em que Hermione chora nos ombros de Harry e pergunta como é que ele se sentia quando via Gina com Dean Thomas – sim, porque DE REPENTE Harry está apaixonado por Gina! O desastre continua: nós temos cenas com Ginny usando só um roupão, e abaixando-se de forma tão bizarra pra amarrar o cadarço de Harry que eu sinceramente pensei na sala de cinema que ela ia pagar um boquete. Sério. Toda a sala de cinema, a julgar pelos gritos, achou a mesma coisa. Ela magicamente aparece no time de quadribol, já que, como ela entra no livro cinco como substituta do Harry, ninguém entende nada. Aliás, a segunda cena do filme é o maior disparate possível: Harry está lendo o Profeta Diário numa estação de trem e de repente começa a flertar com a garçonete, que por algum motivo fica super atiradinha com um moleque igual ele. Explicações? Por favor?

A aparatação de Dumbledore, em frente a um anúncio pra perfume “Do some magic to your man”, ou qualquer coisa assim, é bem engraçada, em compensação. O filme tem muitos momentos engraçados, a seu favor. Boa parte deles envolve o novo professor de Poções, Horace Slughorn. Ele está presente quando Ron toma uma poção do amor que era pra ter sido tomada por Harry, seguido de um envenenamento que era pra ser de Dumbledore. Não dá pra não rir quando Ron acorda e diz “these girls… they’re gonna kill me!”. Ou na cena hilária em que Harry toma a poção da sorte, Felix Felicis, e não só fica com uma voz rouca de Darth Vader, mas também age feito bêbado. Daniel: clap clap clap!

Vocês podem perceber que quando eu não gosto muito do filme o post tende a ser menor (vide o de ontem, que não acabava nunca).

O começo, o comecinho mesmo do filme, na verdade é muito bom. Gostei da amarração com o filme anterior, pegando diretamente das fotos de Harry e Dumbledore, ainda no Ministério da Magia – dá uma noção de continuidade, especialmente pro fã oportunista que só leva o namorado no cinema e fica esperando o Harry pegar a Hermione (uma vez guerreiro de ship, pra sempre um guerreiro de ship. Vou tentar me controlar). Em seguida, várias imagens de Londres cobrem o trajeto dos Comensais da Morte até Olivaras, o vendedor de varinhas mágicas – isso e a revelação de que o Beco Diagonal fica logo virando a esquina de Leicester Square station, atrás da Trafalgar Square. Eu sou contra, porque aquela área é posh e cheia de gente chata indo a boates chatas. Finalmente, a ponte destruída por Voldemort, no livro a Brockdale, transforma-se na Millenium Bridge, que liga o Tate Modern à St. Paul’s Cathedral. Pra mim é particularmente divertido ver essa sequência inicial.

Enfim! O tema desse livro é o passado de Voldemort. Durante todo o ano, Dumbledore enche Harry de algumas das lembranças de sua penseira a respeito de Voldemort. Nós descobrimos que ele cresceu num orfanato, e já era uma criança bem assustadora (o ator para o jovem Riddle, infelizmente, não é o mesmo de Câmara Secreta), entre outras coisas. Inclusive, enquanto eu lia o livro pela primeira vez eu ficava bem entediada. O filme não se detém muito no assunto, apenas nas tentativas vergonhosas de Harry pra coagir Slughorn a lhe ceder a memória que era crucial para descobrir a estratégia de Voldemort.

Ele não morre porque sua alma foi dividida em sete partes, através de assassinatos. Quando Harry finalmente convence Slughorn, usando de um papo mole sobre sua mãe, uma das alunas favoritas dele (com uma história de aquário, peixe, que não procede no livro), nós descobrimos que Slughorn foi quem acabou involuntariamente dando a idéia de usar Horcruxes para buscar a imortalidade, sobre a máscara do “puramente acadêmico”.

O personagem de hoje está na série desde a Pedra Filosofal, mas o desespero de Harry em segui-lo o filme todo o coloca em evidência, para no fim do filme nós termos uma surpresa sobre sua personalidade. Draco Malfoy tem no sexto ano a missão de matar Dumbledore. Parece loucura, não é? Como sua mãe diz, ele é só um menino! E um mimado, ainda por cima! Bem, quem se lembra do quinto filme sabe que Lucius, seu pai, pisou feio no tomate. Não só não recuperou a profecia que Voldemort tanto desejava, como também apanhou razoavelmente de um bando de adolescentes, acabando em Azkaban. Voldemort se vingou usando o que é mais precioso pra ele: seu filho.

Draco fica num beco sem saída. Ele é realmente covarde demais pra matar qualquer pessoa, que dirá Dumbledore! Logo de cara ele sabe que está encrencado, ainda que mostre para seus amigos que tem um grande segredo e planos maiores e maiores expectativas do que eles. Suas tentativas, como diz o próprio Dumbledore, são tão patéticas que é difícil de acreditar que ele realmente quisesse matar o diretor de Hogwarts. Draco se isola e vive em conflito, porque se não der um jeito de matar o velho, ele sabe que Voldemort mataria ele e sua família. Se tem uma coisa que você precisa saber sobre os Malfoys, é que eles são uma família pequena que se ama muito. Eles traem, trapaceiam, roubam, mas Lucius, Narcissa e Draco são muito apegados.

Ele chega a ser gravemente ferido por Harry num “duelo”. Draco está de tal forma num beco sem saída que só dá pra sentir pena. Do começo ao fim. Ele desarma Dumbledore, mas não consegue matá-lo. É aí que entra Snape.

Depois de seis filmes, o expectador (assim como o leitor, quando o livro foi lançado) já aprendeu a confiar em Snape. Ele é esquisito, assustador, até já foi um Comensal da Morte, mas voltou para o lado de Dumbledore (o expectador não sabe que Snape é diretamente responsável por Voldemort ter resolvido ir atrás dos Potter, e que ele se arrepende profundamente, por motivos explorados no livro sete e no filme que eu vou ver domingo e boa parte de vocês já viu), mas ele sempre ajudou quando necessário: salvou Harry no primeiro ano, protegeu o trio no terceiro, avisou a Ordem que Harry achava que Sirius estava preso no Ministério… Ele vai resolver a situação agora, né? Ele vai se sacrificar, não vai cumprir o Voto Perpétuo, mas vai dar um fim nos Comensais antes…

Aí ele vai lá e mata o Dumbledore.

Enquanto os Comensais fogem de Hogwarts, Harry tenta atacá-lo, mas Snape o ignora, até que Harry o chama de covarde. A frase mais épica de Snape, que então se volta e releva sua identidade a ele, é então cunhada: “Don’t call me a coward“.

Depois do que minha amiga Melissa chama de “cena de show do Coldplay”, na qual por algum motivo TODA Hogwarts está acordada e encarando o cadáver de Dumbledore, eles erguem a varinhas com a ponta iluminada. Gina, que até o fim desse livro era namorada de Harry (me desculpem não demonstrar nenhum interesse nessa parte), o abraça enquanto ele chora sobre o corpo. Nada de cena do enterro, nada de túmulo branco, NADA DE LAMENTO DA FÊNIX. Por quê?? O filme já estava com duas horas e meia, dois minutos a mais iam matar quem?

Essa parte da história instiga mais perguntas do que responde. Como Snape pode ter matado Dumbledore? Será que ele morreu mesmo? Na época até surgiu um site, dumbledoreisnotdead.com. Essa morte, mais um recurso narrativo clássico das sagas de herói, é muito simbólica. Agora Harry está mesmo sozinho. Sem orientação, sem dicas, sem proteção, vai ter que encontrar as horcruxes que restam e destruí-las. A morte do velho sábio é recorrente em histórias do gênero e, muitos dizem, necessária para o amadurecimento do herói.

Sei que acabei falando mais do livro do que do filme, mas deixemos pra amanhã a parte que eu tinha reservado nesse post para Snape. Até amanhã, no último dia dessa minha maratona bloguística, com Relíquias da Morte, Parte Um!

Anúncios

Maratona: o Cálice de Fogo

Everything is going to change now, isn’t it?

Hermione resume a coisa toda pra gente: o Cálice de Fogo é um divisor de águas em termos de narração. Apesar de ser meu segundo livro favorito, a adaptação lançada em 2005 deixa a desejar, apesar de, claro, não ser tão ruim quando a do que nós discutimos ontem. O livro quatro é o que eu mais reli (oito vezes), então é o que eu mais vou saber pra comparar.

Eu nunca consigo superar bem o fato de que 80% das cenas de quadribol são excluídas dos filmes, pra evitar que todos os filmes tenham sete horas de duração. O Cálice de Fogo é um livro bem mais longo do que os três anteriores, com muito mais detalhes e com uma trama já bastante complexa, então dá pra entender a dificuldade do diretor Mike Newell em terminar o trabalho, que resultou em cerca de duas horas e meia de filme.

Os Dursley são completamente excluídos dessa trama; e pela primeira vez o filme não começa falando de Harry Potter, e sim de Voldemort, agora junto de Peter Pettigrew, tramando mais uma vez o seu retorno, com a ajuda de um personagem novo, interpretado pelo Doctor Who David Tennant.

No quarto filme, os horizontes do expectador se expandem. Harry vai assistir à Copa do Mundo de Quadribol; vê bruxos de diferentes nacionalidades, que serão definitivos no desenvolvimento da trama mais adiante, e percebe que fora muito inocente nunca considerando a existência de outras escolas de magia além de Hogwarts. Em toda a série, as únicas duas escolas mencionadas são Beauxbatons (francesa) e Durmstrang (alemã/búlgara/praqueles lados lá). Essas escolas visitam Hogwarts ao início do ano letivo (no livro isso é só no dia das bruxas) para uma competição legendária, o Torneio Tribruxo; uma série de tarefas mágicas perigosas e espetaculosas para entretenimento e competição entre as academias.

A verdade é que nesse filme tem muitos temas misturados: a entrada mal explicada e misteriosa de Harry no torneio mantém o suspense das próximas tarefas (em tese, apenas alunos de 17 anos ou mais deveriam poder participar), o que causa sua primeira grande briga com Ron, o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, que pela primeira vez elucida como os pais de Harry teriam morrido na aula de Maldições Imperdoáveis… Enfim. Outras informações, periféricas mas relevantes, nos são apresentadas: os pais de Neville foram torturados horrivelmente durante a guerra (mas o filme não diz que eles estão internados no St. Mungus até aquele dia) sendo a principal delas.

Nesse livro/filme, quando importa mais, Harry está sozinho, o que é uma grande diferença com os outros livros. Em todos os outros fins de livro, ele teve ajuda até quase o final. Durante as tarefas do torneio, ele está constantemente sozinho, ainda que tenha ajuda na preparação. Nessa altura, Snape perde o argumento de dizer que Harry é só um moleque sortudo com amigos mais talentosos do que ele. Uma luta com um dragão, um esforço sobrehumano de salvar pessoas que ele não tinha que salvar no fundo de um lago, sem mencionar a ajuda a Cedric Diggory no último momento, o que acabou determinando a morte dele.

O Cálice de Fogo tem muitos choques; e como nosso amado trio está com 14 anos, os hormônios começam a levar a melhor sobre ele. Com a iminência do dito Baile de Inverno, os alunos são forçados a dançar, arrumar roupas chiques e, pior, convidar alguém do sexo oposto como companhia. Isso é particularmente difícil para Harry e Ron, que como descrito por J.K. e transcrito pelo filho do capeta Kloves, percebem que as garotas insistem em andar em bandos, dando risadinhas imbecis e assustando demais qualquer garoto desesperado para chamar alguém. A descrição do comportamento histérico adolescente feminino é real demais pra não ser engraçado; então quando Harry consegue chamar a menina bonitinha pro baile, Cho Chang, percebe que tinha perdido tempo e ela já tinha combinado de ir com outro garoto… ohhh o drama! Paralelamente, Ron também dorme no ponto e um tanto quanto tarde demais volta-se pra Hermione e diz: “Hermione… you’re a girl.”. O drama RH culmina no próprio baile, quando ela aparece para surpresa de todos com o bonitão campeão de Durmstrang e jogador internacional de Quadribol, Viktor Krum. Mais uma vez: oooohh o drama!

O modo como Harry começa a entrar involuntariamente na mente de Voldemort é mostrado pelo filme como um mero detalhe, o que é triste porque é muito necessário que fique claro. Quando finalmente o funcionário do Ministério da Magia, Bartolomeu Crouch é encontrado morto a história finalmente começa a ganhar o tom de seriedade que devia; e o clímax desse filme divide a série em duas partes: antes e depois do retorno de Voldemort.

De um lado, Cedric Diggory, interpretado pelo pobre Robert Pattinson, que depois caiu na besteira de estrelar o que provavelmente é a série mais patética e machista da história, aquela crepúsculo lá. Cedric tem um pai extremamente orgulhoso, mas não é pra menos; o rapaz é bonito, talentoso, popular, inteligente – e humilde! Em nenhum momento ele trata Harry mal ou se exibe por ser o campeão de Hogwarts no Tribruxo. Como o expectador tende a ficar do lado de Harry, a gente meio que quer que o Diggory seja um babaca, pra torcer pro Harry sem remorso. Mas ele é tão bom caráter que mesmo Crouch Jr. pode contar com ele a ponto de carregar o seu esquema contra Harry adiante – sem saber, claro.

Uma vez morto por Voldemort (tecnicamente morto por Pettigrew), Cedric ganha um valor simbólico na série, especialmente depois do discurso de Dumbledore ao encerramento do filme. Torna-se um exemplo de atitude e de caráter. Eu honestamente acho que a cena mais triste de todo o filme é quando Harry consegue retornar a Hogwarts com o corpo de Cedric e seu pai desce da arquibancada pra encontrar o filho morto. O desespero do personagem forma um contraste mórbido com a alegria da multidão que ainda não percebeu o que acabou de acontecer – o efeito é digno de pesadelos, enquando ele grita: “my boy!”

Voldemort, por sua vez, entra em cena. Revive a partir do sangue de Harry (Jesus Cristo feelings), interpretado pelo genial Ralph Fiennes. Mesmo com muitas chances de matar Harry, ele insiste em provar para seus seguidores (apresentados no filme como Comensais da Morte, usuários de máscaras e capas que lembram muito o Ku Klux Klan) que Harry sobreviveu por acidente, e não por poder superior. Uma vez com a chance em um duelo, Harry acaba escapando mais uma vez. Claro que conta um pouco com a sorte, uma vez que nenhum deles podia adivinhar que suas varinhas não poderiam lutar uma contra a outra, mas acima de tudo é habilidade. A performance de Dan inclusive melhora a partir do filme anterior, especialmente quando Voldemort diz que ele não deveria se esconder e fugir dele, e sim lutar como um homem. Com tudo a perder, pouco a ganhar, Harry respira fundo e enfrenta Voldemort de frente.

Mesmo no fim desse filme, apesar de finalmente revelado, Voldemort continua sendo uma interrogação. Harry ainda não entende seus motivos ou sua personalidade, e, principalmente, não sabe por que, afinal de contas, Voldemort estava tão resolvido a matá-lo quando era criança.

Pra terminar, o grande pecado dessa adaptação pra mim é: cadê a cena de Harry escutando a conversa de Snape com Karkaroff no Baile de Inverno? Eu não sei porque a câmera fica indicando que o Karkaroff estava por trás de tudo, quando não só não estava, como também não se esclarece que ele tem pavor de encontrar Voldemort depois de ter dedurado tantos Comensais. Snape perde uma cena importantíssima para que o expectador entenda a complexidade do personagem – pra quem sabe não tomar o puta susto que um “fã” só de filmes vai tomar quando assistir a parte dois esse final de semana. Não dá pra perdoar que o Snape neste filme seja apenas usado para humor.

Bom, continuamos amanhã, com o ótimo Ordem da Fênix. Nox!

Maratona: Prisioneiro de Azkaban

I solemnly swear that I’m up to no good.

Sim! Porque no good é uma ótima expressão pra definir Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, lançado em 2004. Ao menos em termos de adaptação. No terceiro filme nós temos uma mudança de diretor: Alfonso Cuarón, diretor de “E Sua Mãe Também”, dirigiu este filme e só este de todos.

Sempre que penso nesse filme penso que ele é todo azul. Bem, hoje, prestando atenção, deu pra entender porque: o filme todo tem mais azul que o Windows 95. Do começo ao final, parece que alguém puxou a barra de matiz da sintonia fina pro lado do azul. A adaptação já começa mostrando que realmente não está interessada em se ater a nenhum dos fatos do livro: o primeiro take é de Harry, embaixo do lençol, praticando um feitiço nunca mostrado nos livros – o tal do lumos maxima – sendo expressamente proibido praticar magia fora de Hogwarts.

Mas não vou me ater aos defeitos de adaptação do filme, porque eles são muitos e eu estaria chovendo no molhado de um debate que acontece em fóruns potterianos há quase oito anos. Tem algumas coisas boas que a direção de Cuarón traz pra série, vou confessar: uma delas é a fluidez da narrativa. Os takes nos dois primeiros filmes eram quadrados, com começo e fim, quase dá pra ouvir o barulho da página do livro virando dentro da cabeça da gente. No terceiro filme, é tudo amarrado de forma sutil, de modo que o expectador precisa manter uma atenção especial nos detalhes; diferentemente de Columbus, Cuarón não guia o mistério do filme pela câmera ou pelas expressões de Harry – e sorte que não, porque francamente, Prisioneiro de Azkaban é a pior performance de Daniel Radcliffe. Quando vi o filme pela primeira vez no cinema, desejei que Macaulay Culkin tivesse conseguido o papel ao invés dele.

Bem, mas vamos ao padrão, certo? Nessa parte da série, Harry vai conhecer mais sobre o passado de seus pais. Vai descobrir que o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, Lupin, foi amigo de seus pais. Vai descobrir os rumores de que o fugitivo da prisão de Azkaban na verdade foi aquele que vendeu seus pais para Voldemort, quando eles resolveram se esconder. Inclusive, a cena em que ele descobre isso é a que tem a atuação mais patética e lamentável. Um momento crucial da construção de Harry frente ao expectador é destruído pelo imbecil do Dan Radcliffe berrando como se estivesse numa partida de quadribol, “He was their friend… HE WAS THEIR FRIEND!”.

Lupin, o mencionado professor, é essencial pra trama do filme. Não só ele constrói uma relação de amizade com Harry que ele nunca teve com outro professor, mas também lhe ensina a lidar com os novos seres mágicos introduzidos no volume – os dementadores. E ele descreve os pais de Harry para ele. Diz que Lily, além de poderosa, tinha uma capacidade incomum de vez o bom nas pessoas, especialmente quando elas não conseguiam ver nada de bom em si próprias. O leitor já imagina que ele se refira a algum momento no qual ela tenha descoberto que ele é um lobisomem (essa cena até me inspirou mais tarde na fanfic James/Lily que escrevi). Ele ensina a Harry o feitiço Expecto Patronum, provavelmente o feitiço mais legal e mais poético de toda a saga, no qual o bruxo deve se esforçar para pensar em sua lembrança mais feliz de todas para que ela tome uma forma física animal e afaste os dementadores. Alguém que tenha o livro por perto, poderia checar pra mim se aquela coisa toda de ele pensar nos pais quando consegue fazer o feitiço pela primeira vez procede na adaptação? Porque que eu me lembre Harry usa sempre ou quadribol ou Ron e Hermione para conseguir conjurar seu patrono.

No livro 3, mas infelizmente não no filme, a Grifinória ganha o Campeonato de Quadribol pela primeira vez! Eu ainda me lembro de ler a cena no livro e de pular com a narração do Lino Jordan. No filme nós apenas vemos o primeiro jogo contra a Lufa-Lufa, onde deveríamos ter sido apresentados a Cedric Diggory, o apanhador, e se houvesse um jogo seguinte, à Cho Chang, apanhadora da Corvinal, já que ambos terão papéis importantes no próximo filme.

Outro detalhe: aparentemente a Grifinória se mudou pro meio de um corredor nesse filme. Nos dois primeiros filmes os personagens encontravam a pintura da Mulher Gorda no fim de um corredor. Ele não só está agora entre dois lances de escadas, no meio do nada, como a Mulher Gorda é… outra pessoa!

*momento detalhes maníacos acaba aqui*

No filme, como quase ficou de lado no meu post, fica o próprio Sirius Black, nosso prisioneiro de Azkaban. Acusado de matar Peter Pettigrew e ter entregado os Potter para Voldemort, Sirius é condenado à prisão perpétua, mas no terceiro ano de Harry ele escapa… com um método que ele poderia ter usado a qualquer momento. Cuarón e Kloves, o pior roteirista da história da humanidade, não se preocupam em explicar isso em nenhum momento e apenas cruzam os dedos para que o expectador fique distraído o suficiente para que ninguém pergunte a respeito. Sirius é um animago – pode se transformar num cachorro, passando despercebido, então, pelos dementadores. Poderia, de fato, ter feito isso a qualquer momento. Bem, quem leu o livro vai se lembrar do que o motivou. Não é dito, mas o pai de Ron ganha na loteria! Com o dinheiro, os Weasley viajam todos para o Egito e aparecem no jornal com uma grande foto de família, na qual Ron aparece segurando seu rato.

O rato é ninguém menos que o próprio Pettigrew, também um animago ilegal, que afinal de contas não estava morto, mas escondido há mais de uma década como um animal de estimação na família Weasley! Não só isso, como ele fora o verdadeiro Fiel do Segredo do casal Potter – sim, porque Kloves também não achou nada importante explicar que apenas uma pessoa poderia dedurar os Potter, porque eles estavam protegidos por mágica – e o único verdadeiro traidor, que havia se tornado um seguidor de Voldemort.

Quando o jornal acidentalmente foi parar na cela de Sirius após uma visita do Ministro da Magia (estou falando de cabeça, me corrijam se eu estiver errada), ele ganhou um motivo para sair dali. Até então, estivera consumido pela depressão de ver seus melhores amigos mortos e ser emboscado.

Finalmente encontrando Harry e fornecendo as devidas explicações, Sirius conta a Harry sobre ser o padrinho do menino, e o convida para morar com ele quando conseguirem entregar Pettigrew às autoridades. Essa cena é verdadeiramente dolorosa, porque soma um homem que foi injustamente preso por doze anos e um garoto que passara todo esse tempo morando com parentes que nem o queriam.

Ainda tenho que falar da Profa. Trelawney, na grande performance de Emma Thomson. E aqui um parênteses, porque essa atriz é verdadeiramente sensacional: ela faz a escritora em Stranger than Fiction e Elinor Dashwood em Razão e Sensibilidade (que por acaso é o livro que estou lendo no momento!! ohhh!). A professora, uma adivinha charlatã que tem a seu favor apenas a ascendência de uma grande adivinha, uma tal de Cassandra, fala muita bobagem em aula, mas em dado momento ela entra numa espécie de transe e acaba proferindo uma verdadeira adivinhação, que seria a conclusão do livro, com Pettigrew fugindo e se reunindo com Voldemort. Ela vai ser importante no filme cinco, como veremos, e acabo de ler que ela tem cenas no filme 7, parte dois. Bem, isso veremos!

Muito a contragosto, Kloves é forçado a incluir nos filmes cenas Ron/Hermione, como o abraço quando o hipogrifo de Hagrid é supostamente sacrificado, ou o apertar de mãos na primeira aula de Hagrid também. A principal fonte de tensão romântica entre os dois personagens ele resolve convenientemente amenizar: a briga eterna. Eles passam o livro todo brigando, e dali pra frente brigam praticamente até o meio do livro 7. Harry ainda não teve cabeça pra olhar direito pra menina nenhuma, mas nós veremos amanhã como, mais cedo ou mais tarde, os hormônios dele começam a trabalhar. Amanhã, o Cálice de Fogo!

P.S. E essa imagem no mínimo estranha de Snape protegendo o trio? hahaha.