As brincadeiras de mau gosto, a ditadura gay e a patrulha do politicamente correto

Queria começar este post dando os parabéns à UFMG, que está nas notícias nacionais desde ontem. Que beleza, hein? Meus parabéns.

Eu acho difícil tratar com qualquer coisa além de ironia e sarcasmo essa história do trote da Escola de Direito. Francamente, é uma decepção difícil de exprimir. Não que não existisse trote quando eu entrei – e olha que eu entrei na Letras. Tinha trote sim. No final de uma quarta-feira, depois da aula de Teoria da Literatura I, uns estranhos chegaram colocando barbante na mão da gente e gritando coisas indistintas. Bem, antes de pensar muito no assunto, eu só tirei o barbante da mão e saí andando.

Muita gente diz que o aluno vai parar no trote não por restrições físicas, mas psicológicas. Eu concordo; ninguém quer virar um pária no seu primeiro semestre em um ambiente estranho onde você deve permanecer por cerca de cinco anos. No meu semestre, um menino apelou e saiu correndo, num momento tragicômico, mas o máximo que aconteceu foi levar o apelido de André Rebelde, em homenagem à novela mexicana da época, e foi só. Eu ainda chamo ele assim mais por hábito (e porque na minha geração tem André até demais, francamente, e eu uso pra diferenciar).

Isso é completamente diferente do que acontece nas faculdades dos cursos mais disputados. Quem diria, você estuda igual um maluco pra entrar em um curso dificílimo e é recebido da forma como a gente lê nos jornais. Então, sim, eu sou contra trotes. Nos meus anos de atuação no Diretório Acadêmico, nós apenas incentivamos a recepção de calouros, com pimentinha barata e vinho mais barato ainda; tinha tinta pros desejosos escreverem na testa, e um grupo separado foi pra Antônio Carlos pedir dinheiro pros motoristas.

Vamos contrastar isso com outra história: eu moro no Bairro Ouro Preto, próximo às entradas de Educação Física e Veterinária da UFMG. Um belo dia, estou eu a caminho do ponto de ônibus pra ir trabalhar e de repente me sobe um cheiro inacreditável de merda. Ergo a cabeça pra perceber a presença de uns 5 ou 10 calouros da Veterinária, e eles estavam – SIM – cobertos em merda.

Por princípio, eu já não dou dinheiro pra calouro, talvez por causa da minha mãe, que, quando eu passei, deu rapidamente os parabéns, mas logo acrescentou que eu não fiz “mais do que a obrigação”, já que ela tinha investido no meu ensino durante mais de uma década, além dela e do meu pai terem trabalhado loucamente pra que eu própria não precisasse sacrificar tempo de estudo trabalhando. Ainda menos quando trata-se de um calouro alto, forte, bonito, branquelo e bem alimentado, com corte de cabelo da moda, me dizendo que passou em Medicina.

A UFMG não está sozinha nas práticas medievais de recepção de calouros. Contudo, saber que isso está acontecendo na instituição onde eu me formei é particularmente doloroso; é como se, como ex-aluna, eu tivesse algum tipo de dever de zelar pela “imagem” da universidade. Isso influencia todos os dias o modo como eu exerço minhas profissões; quando dava aula, e agora quando reviso e traduzo, penso sempre em como o nome da UFMG influenciou minha contratação de forma positiva, e tento atuar de modo a atender a essas expectativas e não decepcionar os professores que investiram tempo me preparando e corrigindo meus trabalhos.

Infelizmente, tenho a impressão que essa noção muito simples falta aos alunos, veteranos ou calouros, de muitos cursos da UFMG. Para eles, ser aceito na UFMG é um mérito por si só, que, no imaginário deles, deve corresponder a algum tipo de escalada num sistema de castas antigo, um escravo alforriado que sai comprando escravos.

Uso essa metáfora e não é por acaso: essa visão de entitlement e superioridade não vem separada de um preconceito enraizado de forma tão profunda que nem é reconhecida. A meritocracia instituída pelo vestibular é apenas parcialmente responsável por isso; existe também essa supervalorização do bom desempenho nos estudos, como se notas e nomes fossem as únicas coisas importantes na sociedade e o único caminho para a felicidade.

Por causa de tudo isso, o que aconteceu na Escola de Direto não tem nada a ver com “uma brincadeira de mau gosto”. Tem a ver, sim, com ignorância, com falta de respeito e empatia.

Contrariamente do que circula nos comentários asquerosos e abissais das matérias que li em jornais online, nós não estamos passando por uma “ditadura gay” ou por uma “patrulha do politicamente correto”. Isso não existe. O que existe são pessoas que finalmente se unem para mostrar o seu desconforto com atitudes desrespeitosas, ou, no máximo, que tratam pessoas preconceituosas do modo como são tratadas por elas. É natural que o esforço pela igualdade de voz cause atrito. E, ainda que este atrito me force a ver o pior que existe na cabeça deturpada de gente acostumada a ter a voz e a vez, eu me vejo forçada a achar isso uma coisa boa, porque eu estou aqui argumentando em contrário, pessoas argumentam em contrário nos ônibus, nas ruas, na internet, na mesa do buteco.

Uma ditadura gay significaria que todo mundo seria obrigado a trocar a norma culta pelo bichês; que héteros não poderiam se beijar em público, assumir relações em público, e caso o fizessem, seriam presos e torturados. Uma patrulha do politicamente correto bateria na sua porta tarde da noite para perguntar por que você contou uma piada machista na empresa, na hora do almoço, ao invés de te olhar feio e sair andando. Uma dose amargurada de revanchismo dentro de mim é forçada a desejar apenas um dia de ditadura gay e patrulha do politicamente correto, apenas para que os termos imbecis parassem de ser usados.

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Graduação – Loading 90%

São três da manhã e eu estou num ciclo de surtação interior que começou ontem à noite, quando saiu a oferta de matérias da Letras para o próximo semestre.

Estava eu, olhando e sentindo a vontade costumeira de me matricular em dez matérias, quando de repente percebi… que daquelas matérias, três apenas são as que eu devo fazer pra me formar no próximo semestre. Só de pensar nisso, meu sangue ainda gela embaixo da pele. E por mais que eu faça a matemática, eu sempre estou certa nas contas, sempre o mesmo resultado. Concluí as matérias de linguística, de literatura. Deprimente ou não, faltam duas matérias de ênfase da monografia e… gramática tradicional.

Ou seja, de quebra, no meu último semestre vou fazer matéria com calouros. Acho que vou até mudar o nome do meu blog pra “estudando com calouros”.

Quero dizer. Eu vou me formar. Me formar. Serei uma bacharel em inglês. Pela FALE. Faz cinco anos que levo essa vida, por que essa sensação é tão estranha? Por que esse frio na barriga afinal? Faz anos que eu vejo meus amigos se formarem, porque boa parte deles é mais velha ou mais avançada academicamente. Eles concluem, entregam uns relatórios, defendem uma monografia, tiram cem, vestem aquela beca ridícula no dia da colação, tem uma dezena de discursos piegas sobre a vocação do profissional de letras (blah) e, inevitavelmente, o pesadelo da breguice: um power point com música e foto dos formandos. Tudo isso é horrível até mandar parar. Eu já fiquei na platéia inúmeras vezes, e ficarei na próxima pra ver alguns amigos se formarem, mas na colação de, sei lá, agosto, serei eu. E se tem uma lição aprendida nesse blog, é que o tempo passa, e assim como há um ano exato eu estava ficando sem dinheiro em Londres, trabalhando e me sentindo horrivelmente sozinha, sei que daqui a um ano tudo vai ser ainda mais radicalmente diferente.

Na verdade, eu mudei de assunto por vergonha. Eu tenho uma secreta paixão por colações de grau. Sabe como dizem que pra muitas mulheres o casamento é a cerimônia da vida dela? E casamento é piegas, ridículo, brega, com discurso, talvez até power point… Pois é, sabe? (ah, o powerpoint, que custa a sair de moda!)Então… digamos que a colação de grau será o meu casamento. A mera idéia já me assusta tanto que eu tenho medo de ficar chorando igual uma retardada durante o negócio todo. Mas como não? Vão me chamar lá pra receber meu canudo lilás, vão falar meu nome inteiro, meus pais vão estar explodindo de orgulho e meus amigos vão provavelmente ficar me chamando de cachaceira.

Cerimônias são importantes, sabe. A idéia de passar por essa cerimônia específica, a colação de grau da Letras, sinceramente me apavora. Vou ter 23 anos e um diploma de Letras! Eu estou repetindo isso vezes demais, né? Muitas vezes? Bem, desculpe. Blog é blog.

Bom, agora são três e quinze da manhã e eu ainda me sinto desorientada. E, ainda que falte pouco, parece que é tanto! E tem o D.A.! Aliás, minha chapa ganhou a eleição, obrigada a todos!

Acho que a sensação de medo que estou tendo agora me lembra muito uma situação que me aconteceu em julho.

Eu tinha voltado pra Belo Horizonte depois de chegar no Brasil e passar um mês com meus pais. Daí meu pai veio comigo no fim de julho, e minha amiga Nádia veio comigo. O dia foi corrido, assistimos o último filme de Harry Potter com a Melissa e a família dela, foi épico. Quando fomos dormir, eu estava um pouco decepcionada porque meu pai e a Nádia iam embora dali a pouco, e eu tinha a sensação de que não tinha sido uma boa hostess. Não estava conseguindo dormir de jeito nenhum, e eu achava que era por isso.

Finalmente eu me levantei, saí do quarto da moradia, fiquei sentada na sala um bom tempo. Era mais ou menos a hora que é agora. Eu percebi que estava é com medo. Porque quando eles saíssem na manhã seguinte, quando o carro arrancasse e eu ficasse aqui na Avenida Fleming, eu estaria sozinha de novo. E depois de oito meses sozinha em Londres, eu tinha me agarrado aos meus pais, e sinceramente eu tinha um medo quase paralisante de retomar a minha vida no Brasil. De não ser tão boa quanto antes. Nessas horas, qualquer bobagem faz você se sentir pior. Eu me senti menos bonita, por causa da engorda que sofri lá fora. Me senti inútil, porque meu último emprego consistia de três dias humilhantes sendo garçonete no Hilton Heathrow. Eu tinha sonhado tanto, e agora que tinha voltado, estava com medo da vida real não condizer com as minhas expectativas.

E bem, eu estava errada, pra meu alívio.

Inclusive eu escrevi pouco aqui, ainda que tenha pensado em diversas pautas, mas porque durante boa parte do semestre eu surtei achando defeitos fatais na minha monografia, ou lidando com empregos em três lugares diferentes + aulas particulares + legendagem (entrei prum grupo desses de legendagem de séries) + matérias da faculdade (acabei trancando duas das cinco, e só depois descobri q elas eram desnecessárias mesmo…). E agora, no fim do ano tudo se acresce ao D.A. Letras, meu xodó. É tanta coisa pra pensar que não dá pra se desligar, aí de repente sai essa oferta…

E nós voltamos ao começo do post.

O texto cíclico foi acidental. Mas talvez seja assim pra eu descobrir que esse meu medo de não dar conta é saudável. É o que mantém a gente na ponta do pé.

*respirando fundo*

Ao Pé da Letras

Eu tenho poucos leitores regulares aqui, mas esses poucos sabem o quanto eu já me envolvi com movimento estudantil na UFMG. Desde que eu sou caloura, já participei de DCE, de eleição pra Congresso da UNE, de gestão de D.A., de comissão eleitoral pra eleição da diretoria da Letras, de representação estudantil na Câmara de Extensão da FALE e na Congregação. Ou seja, ao longo desses quatro anos de Letras, eu já mexi com bastante coisa.

Principalmente, eu sempre tive uma relação muito pessoal com o D.A. Em 2007, quando me mudei pra cá, naquela salinha laranja com tocador de vinil, eu encontrei amigos que até hoje fazem a minha vida em BH ótima. Lá eu encontrei apoio nos meus momentos mais difíceis. Quando me mudei, quando minha avó morreu, quando me vi sem um real pra ir pra Inglaterra. Por causa disso, sempre me mantive a par das gestões, participei de uma, a Gestão 42, 2007/2008, e mesmo que depois eu tenha perdido a eleição seguinte, nunca consegui deixar de me importar.

Por isso, depois de muitos acontecimentos lamentáveis no D.A. Letras desse ano, algo muito singular aconteceu: devido ao absurdo dos acontecimentos, pessoas com quem eu discordei não uma, mas várias vezes no passado, se juntaram comigo pra construir uma chapa que se preocupe primariamente com o D.A. e com a Letras, ao invés dos favores do seu partido, sem a prolixidade patética do que está lá no momento, e sem as risadas sarcásticas diante das críticas. Quanto você ocupa um cargo público – e a gestão de um simples D.A. se encaixa nessa categoria, você deve satisfações e deve respeito a quem te critica, porque você trabalha pra eles. Eu não quero gastar muito tempo falando da decepção que eu tive com a gestão atual, mas só vou deixar bem claro que ela foi suficiente pra que eu me juntasse com outras pessoas que se sentiram tão ultrajadas quanto eu na chapa que leva o nome desse post.

Nessa terça-feira, teremos dois debates, e eu vou estar lá pra responder a perguntas durante a manhã, mas à noite eu trabalho. Vou colocar aqui a carta-programa, e peço que vocês leiam com calma, me tragam perguntas na terça, e me ajudem a colocar uma chapa no D.A. que não recebe dinheiro de nenhum partido e que é feita de uma miscelânea de pessoas novas e antigas na FALE.

“Olá, estudante de Letras!
É chegada a hora de mais uma eleição para o Diretório Acadêmico Carlos Drummond de Andrade, o DA-Letras. Esse é um momento em que refletimos muito sobre nossa faculdade: qual modelo de educação nós defendemos? Quais problemas sentimos em nossa unidade e quais são seus motivos? Como devem nos representar aqueles que elegemos e o que eles devem defender? Como deve se organizar o movimento estudantil da Letras?
Nós somos uma chapa que defende um novo modelo para o DA: queremos construir uma relação Ao Pé da Letras – aproximar cada estudante na sala de aula, construir um DA com democracia, interesse pelo debate e respeito à diversidade. Somos estudantes de ambos os turnos e diversas habilitações, que achamos necessário ter um DA aberto e democrático para poder responder a todas as demandas que tanto sentimos na Letras.

Qual é a FALE que queremos? 

Estudamos em uma faculdade que é uma referência nacional, numa das maiores Universidades federais do país. Porém, sabemos que nem tudo são rosas na FALE. Todos temos muito orgulho de estar aqui e, por isso, achamos que temos que defender com unhas e dentes o nosso curso. Viemos de um processo de expansão que não veio acompanhado de investimentos adequados. Assim, nossos calouros se deparam com salas lotadas e todos nós vemos os professores sobrecarregados com muitos orientandos e disciplinas para lidar. A oferta de disciplinas se torna pobre e temos filas cada vez maiores para o acerto de matrícula… E nossa cantina, então? Para os alunos do noturno, a situação beira o insustentável: temos 10 minutos de intervalo para comer – tempo que passamos, normalmente, todo na fila. Os preços aumentam a cada semestre – o pão de queijo com café, que antes custava 1,20, teve um reajuste de 25%! Mas e nossas bolsas, foram reajustadas também? 
Ainda há problemas de estrutura como o nosso elevador, que data da década de 80, o CAD que deveria ter ficado pronto em 2009 ainda está em obras, nosso xerox, cujas filas constantemente nos fazem chegar atrasados na aula… Exemplos não faltam! Cada um de nós sabe bem o que passamos em cada habilitação, em cada sala. 
A Chapa Ao Pé da Letras defende um DA que aponte alternativas e soluções pra esses problemas. Temos que reivindicar mais contratação de professores, a presença de todas as habilitações para os dois turnos, um novo modelo de acerto de matrículas, uma nova grade que respeite a realidade dos estudantes que chegam à Letras… Mas que, principalmente, esteja presente no dia a dia de cada estudante para saber as demandas de cada habilitação. E é com um DA de todos que podemos nos organizar para poder conquistar as melhorias de que tanto precisamos em nossa faculdade.

Cultura e Lazer: o estudante quer seu espaço!
A Letras é famosa por sua pluralidade de ideias, produções e manifestações: temos músicos, poetas, artistas plásticos, esportistas, produtores culturais, editores… Cada vez mais, nossos colegas avançam em esforços de auto-organização para poder se manifestar na faculdade: temos saraus independentes puxados por estudantes, o Drummônios, nosso time de futebol, a proposta de algumas estudantes de conformar o time feminino, estudantes de graduação que organizam mesas de debates acadêmicos sozinhos… Achamos essas iniciativas essenciais; cada vez mais nosso espaço de expressão é tolhido na faculdade. Nossas festas foram proibidas, muito pouco fala-se sobre a produção literária de nossos alunos, o Drummônios se articula praticamente sozinho… A nossa chapa acha que essas iniciativas têm que ter todo o apoio político, financeiro ou organizacional do DA. Queremos que nosso Diretório Acadêmico ajude na construção de Saraus mensais na faculdade, acompanhe e apoie mais de perto o trabalho do Drummônios, impulsione a formação do time feminino… O estudante de Letras deve ocupar o espaço da faculdade para sua livre expressão e desenvolvimento, e achamos que o DA deve ser um grande ator nesse processo!

Damos um viva à diversidade na FALE!
Nossa faculdade foi palco, neste ano, de dois casos lamentáveis de agressão contra homossexuais: no primeiro semestre, numa festa promovida pelo DA-Letras, um casal de lésbicas foi alvo de insultos e agressões verbais por parte de uma pessoa que foi ao evento. Já no segundo semestre, um outro casal foi constrangido pela segurança da faculdade, a pedido da diretoria da Letras, por se beijarem em público dentro da FALE. Sabemos que casos de homofobia como esses acontecem o tempo todo.
Também sabemos que estudantes não raramente dentro e fora da Universidade são alvo de situações constrangedoras pelo simples fato de serem negros. O racismo, por mais que as elites e a mídia digam que está superado, ainda é sentido muito fortemente pelos negros do nosso país. Nosso curso reflete isso: apesar de haver uma lei federal determinando o ensino de literatura afro nas escolas de ensino fundamental e médio, nós, futuros professores, até hoje não temos disciplinas em nossa faculdade voltadas para a herança cultural do povo negro. 
Outra ideologia vastamente difundida na sociedade é o machismo. As mulheres são tratadas como objetos seja nos veículos de comunicação ou em situações bastante comuns nas universidades, como nos trotes machistas em que quase sempre estudantes são expostas a situações opressoras e humilhantes. O machismo se reproduz também na FALE: a nossa graduação é majoritariamente composta por mulheres, mas nossos professores são em sua maioria homens. Muitas de nossas alunas são mães e não têm uma assistência estudantil diferenciada que as permita conciliar seus estudos com a maternidade e por isso muitas abandonam o curso.
Precisamos de um DA que combata cotidianamente as opressões em nossa faculdade. Nós da chapa Ao Pé da Letras nos propomos a atuar no sentido de promover eventos e debates sobre os temas relativos às questões de gênero, raça e sexualidade. Apoiaremos iniciativas acadêmicas, culturais e políticas de combate ao preconceito e desenvolveremos campanhas em defesa dos direitos dos negros, mulheres e LGBTs.

A Educação no Brasil vai mal
Por que temos de estudar em salas lotadas? Por quer sofremos com falta de professores, ofertas de disciplinas ruins, um elevador que sempre estraga e um CAD que nunca fica pronto? A verdade é que falta investimento em nossa faculdade. Porém o problema não se restringe ao curso de Letras: todos sabemos que a educação no Brasil não é prioridade. Acompanhamos esse ano em nosso estado a heroica luta dos professores Estaduais em greve, reivindicando o simples cumprimento de uma lei nacional que determinava o piso salarial; greve esta que foi duramente reprimida pelo governador Anastasia, mas que, ainda assim, durou 112 dias, sendo a maior greve de professores da história de Minas. Mas por que não se investe em educação? Se olharmos os dados do orçamento da União de 2010, vemos que apenas 2,89% foram destinados à educação, enquanto 44,93% são destinados aos juros e amortização da dívida, além dos bilhões de reais de dinheiro público que são perdidos todos os anos em escândalos de corrupção. A Chapa Ao Pé da Letras acha necessário defender a educação como prioridade, e por isso escolhemos construir a campanha e o plebiscito nacional em defesa do investimento de 10% do PIB para a Educação Pública Já! A Educação não pode esperar!

Democracia e abertura para construir um novo DA Letras
Só é possível construir um movimento estudantil na Letras que represente e inclua os estudantes se tivermos democracia interna e abertura ao debate. 
Infelizmente, não foi o que vimos nesses últimos dois anos de gestão Travessia. Não podemos tomar as principais decisões em reuniões secretas e de portas fechadas. Não podemos decidir sozinhos para onde vai todo o dinheiro e não prestar contas aos estudantes! Para estar ao pé da Letras, nós defendemos:
– Que TODAS as reuniões sejam abertas e divulgadas, para que qualquer estudante possa participar e opinar no cotidiano do D.A.
– Gestão democrática e horizontal, na qual a divisão de cargos não determine nenhum poder maior. 
– Boletins periódicos (impressos ou virtuais) para criar um ambiente de comunicação e troca
– Conselho de representantes de cada habilitação, para fortalecer a representação estudantil
– Eleição aberta para nossos representantes nos órgãos colegiados para que qualquer um possa se candidatar e para que todos conheçam quem nos representa 
– Prestação de contas periódicas para que todo estudante saiba para onde vai o dinheiro
– Revisão do estatuto do D.A., por meio de uma assembleia estudantil. 

Enfim, somos uma chapa que defende abertura e democracia no nosso DA-Letras para conseguirmos as mudanças que defendemos e conquistarmos a FALE que queremos!

Estão ao Pé da Letras:
Aline Sobreira, Amanda Barbosa, Amanda Bruno, Amanda Pavani, Ana Beatriz Fonseca, Bruno Reis, Carolina Arantes, Cristiano Vieira, Daniela França Chagas, Daniel Dalsecco, Érico Colen, Fábio Castro, Francisco Danilo (Chicão), Franz Galvão, Gabriel Gil, Gabriel Prado, George Vallestero, Isadora Manna, Lais Alves, Lívia de Melo, Mara Silva, Mariah Mello, Melina Rocha, Moisés Borges, Paula Tamiris, Rayana Almeida, Rebeca Buarque, Ricardo Malagoli, Stela Ferreira, Tavos Mata Machado”

Essa é a versão mais recente. Uma mais afinada deve sair amanhã, ou antes dos debates de qualquer forma. Peço que vocês analisem nossas propostas, conversem com a gente e façam todas as perguntas que desejarem, e também que, por favor, divulguem pra todos os colegas letreros.

Eu disse que a chapa é apartidária, mas quero lembrar que nela tem pessoas pertencentes a partidos. Isso não significa que os interesses partidários serão em qualquer momento colocados acima dos interesses dos alunos da FALE e da UFMG em geral. Peço apoio e ajuda para que a representação dos alunos seja de fato representativa, o que quase nunca acontece, já que todo ano é o mesmo sofrimento para atingir o número mínimo de votos.

Não temos também a intenção de cortar quaisquer que sejam as práticas que foram acertadas da gestão atual, e não queremos animosidade. Só cuidar do D.A. e fazer com que ele volte a ser um lugar receptivo como já foi, sem puritanismo e sem julgamentos, aberto ao diálogo.

Fazer as escolhas certas

Quem me conhece na vida real sabe: meu humor é baseado na auto depreciação.

Às vezes sobre meu peso aumentando ou caindo; sobre a minha capacidade quase sobre humana de comer, ou, principalmente, sobre as estratégias peculiares que os homens que eu amei usaram pra se livrar de mim, geralmente com alto grau de humilhação pública ou através de deleção total de auto estima da que vos escreve. Viu? Se você riu não tem problema, eu conto é pra isso mesmo.

O que eu quero dizer é que apesar do meu humor ter base no negativismo, se você me perguntar na honestidade, eu vou ser forçada a te dizer que me acho uma pessoa profundamente sortuda.

Quase ninguém consegue, com dezoito anos ou mesmo, dizer pra si próprio “Eu quero fazer a coisa X da minha vida”. Até porque idealmente, ninguém deveria ter que tomar uma decisão dessa magnitude tão cedo. É claro que achar que a decisão do que estudar na universidade ser um fator fatal e determinante do seu futuro é coisa de quem cresceu, bem… no mesmo ambiente que eu! Ah, como esquecer daqueles intervalos durante as aulas no Colégio Objetivo, quando todo mundo falava sobre os cursos e as cidades que iria fazer, classificando as profissões por salário, cidade com vida social mais agitada e por último… interesse.

Muito bem, quem me conhece sabe também que eu sou uma traidora do São Paulo way of life.

Hoje, eu não nego, aquelas meninas do Colégio Objetivo estão de formando em conceituadas faculdades particulares perto da cidade dos pais, arrumando um emprego na maior empresa do ramo em sua cidade, ou talvez até cresceram socialmente de forma impressionante – moram, acreditem, em Ribeirão Preto!

Claramente, tais prospectos de glória e sucesso eram demais pra mim.

Falando sério agora. Já perto de formar, pensando em monografia e talvez num mestrado, eu ouço as pessoas falando das respectivas faculdades, e da vida que levam. E pensando também na conversa que se desdobrou durante minha prova oral de italiano. Percebo que muito pouca gente, mas muito pouca gente mesmo, pode dizer o que eu digo:

“Eu amo o que estudo e amo a vida que construí pra mim nesses últimos anos. Sinto que acertei na minha escolha”.

Quero dizer, todos os romances pós modernos e todos os dramas da modernidade são sobre como você podia ter feito algo certo no passado e mesmo assim pisou no tomate. É tão errado assim que eu sempre me lembre de vinte e oito de janeiro de dois mil e sete? Se eu penso por dois segundos, consigo sentir a emoção de novo, de ver o meu nome na lista. É claro que me lembro também de quando fui aprovada na UEL e na UNESP, mas a mágica foi auto explicativa quando o resultado da UFMG saiu. Me lembro de ligar pra Melissa (nossa senhora do interurbano!) e assim que ela falou “alô”, eu berrei, “VOCÊ FICOU EM OITAVO, SUA FILHA DA PUTA!”, ao qual se seguiram gritos de “PASSAMOS!” e “vamos estudar juntas!”.

A Faculdade de Letras da UFMG é minha Hogwarts; eu me sinto à vontade. Por mais que eu odeie ter que fazer gramática tradicional antes de formar, e por mais que eu me preocupe com as novas gerações de calouros, ah, tem algo naquele lugar que me faz sentir em casa! É como se eu pudesse esticar as minhas asas, ser o que eu quero. Quando eu me pronuncio assim, desse jeito loucamente positivo, sempre tem alguém pra sacudir a cabeça, dizer que não tem essa relação com a faculdade. Estou ciente que quase ninguém na FALE se sente assim também. Mas recentemente eu resolvi que quando eu escrevo sobre o que eu amo, ao invés de escrever sobre o que eu odeio, não só perco dezenas de acessos – leitores querem polêmica, fodam-se vocês! – mas também durmo melhor, vivo melhor. Eu aconselho!

Brega é, sem dúvida, uma parte da gente!

São oito da manhã e

eu acordei a toa.

Duplamente a toa.

Faz uma semana que voltei pra Belo Horizonte. Passei esse tempo juntando documentos pra tirar meu visto de estudante, ficando puta com a internet de casa, reencontrando amigos que perguntam compulsivamente que dia eu vou embora (18 de setembro, DEZOITO DE SETEMBRO), e, muito mais curiosamente, frequentando as aulas da FALE.

Diariamente meus amigos me xingam porque eu poderia estar dormindo; ao invés disso, estou indo numa aula de Italiano III que não vai me render crédito nenhum e que provavelmente terei que refazer quando voltar. Hoje, pra minha felicidade, acordei seis e quinze ouvindo No Fundo do Baú – tocou Prince “beautiful giiiirrrrllll stay with meeeeee” – e cá cheguei, tomei café… Pra depois lembrar que hoje não tinha primeiro horário.

OK, porque eu venho pra cá at all? Além do fato já amplamente conhecido – minha paixão imortal pela FALE, haahha – eu descobri que realmente tenho um prazer em estar numa sala de aula. É um tipo de prazer engraçado e difícil de definir, já que uma vez dentro da sala eu fico olhando no relógio. Acho que pra mim ir à aula é parecido com se apaixonar por homens – ruim, mas sem é pior…

Nos meus tempos de fã mais desesperada de Harry Potter, eu concluí que entre as casas de Hogwarts, eu pertencia à Corvinal, que tinha os alunos com gosto por aprendizado. E agora que estou acordando cedo pra assistir essas aulas… Não é que eu realmente gosto de aprender? O meu filtro de aprendizado é meio amplo, eu gosto de saber tudo, mas principalmente gosto de aprender coisas nas quais posso prosseguir depois por minha conta, como idiomas, como literatura, até informática e afins dá pra aprender bastante sozinho ou conversando com amigos. Por outro lado, coisas de fora da minha área que exigem disciplina e um formato fechado de aulas tendem a ser abandonadas.

Sempre tive um problema sério com aulas de inglês, apesar do meu último emprego ter sido justamente como professora de inglês. O formato fechado me dava nos nervos, especialmente porque eu fazia no CCAA – nada me apavorava mais do que o “now you”, ou os “drills”. Porém, com idiomas você pode ser feliz fuçando filmes na internet, músicas, etc, etc… Não é o mesmo que rola com matemática, por exemplo, que exige uma prática mais disciplinada e metódica. Não tô dizendo que é por isso que eu não sou boa nisso – I SUCK – mas são modos diferentes de aprender, né.

Enfim, já abstraí o suficiente pra poder descer lá no xerox e pegar meus documentos pro visto de estudante. ahhah.

ENEM e Vestibular

Uma das coisas que eu faço na faculdade já faz bastante tempo é a representação discente. Desde 2007, 2008, participo de reuniões administrativas na FALE. Isso inclui a Congregação, que é o órgão deliberativo mais alto do curso. Nele sempre houve quatro vagas para alunos; no entanto, durante muito tempo só fomos eu e o André, amigo meu. Essas reuniões são muito ocasionais, sempre às sextas-feiras, e raramente tem mais de uma por mês, que dirá duas em duas semanas.

No entanto, anteontem os representantes dos funcionários, alunos e professores foram chamados a outra reunião, depois de ter tido uma na sexta anterior. Na pauta, apenas um item: adoção do ENEM no Vestibular da UFMG.

O pedido havia chegado da reitoria – cuja nova gestão começou há cerca de um mês – e pedia um parecer das unidades até dia 28 de abril. Como nessa próxima semana a UFMG não vai funcionar em plena forma por conta da Mostra das Profissões, lá estávamos nós.

Havia duas propostas na mesa. A primeira vinha da COPEVE (a comissão organizadora do vestibular da UFMG, pra quem não conhece): a nota da primeira etapa seria dividida meio a meio: metade do peso viria da própria prova que nós já temos, a outra metade viria do ENEM. A segunda etapa continuaria a cargo total da UFMG. O candidato, nesse formato, não tem a opção de não fazer o ENEM, e contar só com a nota do vestibular elaborado pela COPEVE: teria sim que fazer os dois, pra sua nota não cair pela metade.

A segunda proposta foi elaborada durante uma reunião realizada ainda mais às pressas que a reunião da Congregação na qual eu estive: os diretores de unidades de toda a universidade elaboraram uma idéia na qual a primeira etapa toda ficaria a cargo do ENEM, enquanto a segunda etapa ficaria a cargo das unidades, e cada uma então estabeleceria como filtraria os alunos aprovados para a segunda etapa.

Vou disponibilizar em anexo uma carta que nós recebemos levantando muitos contras sobre o uso do ENEM, mas ainda assim sendo favorável à adoção da prova. Ela cobre a maioria dos pontos levantados durante a discussão, que levou uma hora e vinte minutos, regados a Guaraná Antarctica quente e salgadinhos de queijo, daqueles que não dá pra mastigar com dignidade na frente de outros professores.

Disseram que usar o ENEM fortaleceria a seleção para o vestibular como um processo nacional. A prova é aplicada num número altíssimo de municípios no país todo. Dessa maneira, um aluno em qualquer lugar do país teria acesso ao vestibular da UFMG, que é conhecida como a melhor universidade federal do país, só com a sua notinha e com uns cliques de internet pra selecionar a universidade desejada. Bom, pra todo mundo que já passou em vestibular na vida fica bem claro que ser aprovado em uma prova acaba sendo o mais simples. É lógico que a satisfação de passar num vestibular fudido te dá força e ânimo pra muita coisa, mas não faz milagres. No caso específico da UFMG, a assistência estudantil já está enfraquecida desde a “brilhante” vitória do DCE ao derrubar uma muito questionável taxa de matrícula que todo aluno pagava quando fazia matrícula na UFMG, e depois todo o semestre. Perder duzentos reais semestrais de 80% dos alunos matriculados – porque os assistidos não pagam, claramente – foi um golpe severo à assistência feita por fundação, que já tinha seus problemas quando não tinha o número aumentado de alunos pra cuidar, graças ao REUNI. Mas o REUNI não é assunto de hoje. Recapitulando, já está foda do jeito que está. É muito bonito dizer que tem muita gente procurando a UFMG do país todo, mas não adianta se só vai vir filho de burguês, porque filho de pobre não vai dar conta de se virar por aqui – salvas as exceções, que sempre existem pra alimentar o contra argumento. Outro efeito horroroso disso: isso acabaria elitizando a UFMG muito mais do que democratizando. Deixar passar um aluno não garante em absolutamente nada a permanência dele na universidade. Teríamos, além da fantástica nata mineira de filhos de diplomatas, engenheiros e advogados, a nata de filhos de diplomatas, engenheiros e advogados e todo o país. Como diz uma amiga, rico paga cursinho, paga escola particular, mas não paga universidade. Não interessa se é na federal da Bota do Judas, mas ainda federal.

Houve também quem dissesse na reunião que o ENEM não devia ser visto como vestibular, já que há uma tendência de que ele se transforme em um exame exigido para ser aprovado no Ensino Médio. Bom, não dá pra não tratar ele como vestibular se você nos propõe usar a nota dele pra colocar o cidadão na universidade, né? Não sei se quem aguentou ler até aqui já fez ENEM – eu fiz em 2005 e 2006, segundo e terceiro ano. Sinceramente? Isso até falei lá. Aquilo não testa seu ensino básico, porque o ensino básico está séculos atrás do que é exigido lá. Também não é um vestibular, porque não seleciona de forma imparcial: ENEM não passa de uma prova de resistência, especialmente se você considerar o novo formato. Muito lindo você ter uma prova interdisciplinar, organizada em áreas. Mas que ser humano normal vai fazer 200 questões em dois dias, mais uma redação, com seis horas diárias? Isso só factível pra quem teve treinamento apropriado, não adianta. O engraçado dos argumentos contra cursinhos pré vestibulares é que adotar o ENEM só faria a coisa igualmente triste: não custa nada o Pré-UFMG virar Pré-ENEM. E, ainda por cima, os cursinhos estarão robotizando os alunos de uma maneira muito mais limitada e militar do que já robotizam, ao preparar os alunos pro vestibular elaborado pela COPEVE. Quanto a isso, nenhuma mudança prática existiria na máfia do ensino e ainda por cima seria pior, já que a filosofia de exame da COPEVE permanece mais decente que a do ENEM, questionável, inconsistente e ainda por cima pouquíssimo confiável.

Nisso eu quero inserir um viés pessoal: além dos dois ENEMs que eu fiz, ainda me inscrevi em: duas das três etapas do vestibular seriado da UFU, o PAIES (primeiro e segundo ano), dois vestibulares da USP (um como treineira no segundo ano e um no terceiro, pra Relações Internacionais), uma UNESP e uma UEL no terceiro, junto da UFMG. De todas essas provas, nenhuma me exigiu menos decoreba e mais manipulação lógica de informações do que a UFMG. Simplesmente não consigo entender porque você troca uma prova mais bem feita por uma mais feita, se as alterações práticas no modo de seleção serão pra pior ou nulas.

Se você pensa que o processo particular da UFMG é regionalista e etecetera, que a COPEVE tem vários defeitos sérios, eu concordo plenamente. Mas pense por um momento em todos os processos seletivos que existem. Vestibulares, entrevistas de emprego, exames, SAT’s americanos, análise de currículo pra entrar em Yale ou Harvard. Pense em todas as suas notas da sua vida. Algum desses métodos é 100% confiável e justo? Desistamos da idéia de que vamos chegar a um processo maravilhosamente justo e democrático, por favor. Um pouco de realismo nesse caso pode nos ajudar a encontrar uma opção menos pior. Como uma das professoras colocou na sexta, isso acaba revelando um viés de decisão política: não acatar o ENEM protege sim, os mineiros, se você pensar que manter o fator geográfico (você tem que ir pelo menos até o estado de MG pra fazer o vestibular) já exclui muita gente da seleção, ao passo que acatá-lo seria um empurrão pra tentar estimular um processo unificado. Essa idéia é muito interessante, na verdade, mas é impraticável da maneira como o ENEM é hoje.

Outro viés político, não mencionado por essa professora, mas por vários, foi que houve, sim, uma coação de cima para que a Congregação da FALE acatasse uma das duas sugestões. Isso foi exercido de maneiras sutis, sim, e inclusive nos foi dito em alguns momentos que era estúpido recusar ambas as propostas, pois isso nada acrescentava ao debate. Em certas partes, a impressão de que a nossa hora e meia foi praticamente gasta à toa, já que a decisão final não é das unidades, e sim do Conselho Universitário, do CEPE, etc. Mas, pra meu orgulho do senso de realidade da maioria dos professores da Letras, ambas as propostas foram negadas. Ainda que a longo prazo tudo aquilo não signifique nada, e ainda que acabemos adotando uma prova que não aprovamos pra selecionar os alunos na FALE e em toda universidade, a posição da Congregação da Letras significa alguma coisa: é oficial e tem o direito de ser ouvida, assim como DAs e DCEs.

Bem, é isso. Quero deixar claro que toda a argumentação aqui é tudo menos imparcial: é minha opinião mesmo e dane-se, o blog é meu. Porém, obviamente, opiniões são bem vindas; quanto mais discussão sobre o assunto, melhor.

Carta do Fórum de Processos Seletivos

C-C-C-Combo de Micos!

Não sei se tem algum recorde pra mais vexação em pouco tempo. Hoje, em menos de 100 minutos, eu fiz coisas inacreditáveis.

Primeiro: Faz um bom tempo que eu tenho uma quedinha por um professor que dá aula de italiano no mesmo lugar que eu, mas ele é serião e vai embora logo depois de dar aula. Descobri que ele tá aula ao lado da salinha dos estagiários, então hoje, dez minutos antes da aula, fui pra lá estrategicamente. O mocinho estava lá, mal notou minha existência como sempre, não me abalei. Amor platônico é pra isso mesmo. Uma vez que ele saiu, resolvi que era hora também de ir pra minha literatura. Quando saí, dei aquela olhada significativa pra sala dele, e quando me virei de volta pro corredor, vi uma moça que achei que fosse uma amiga minha, cansada de saber da minha paixonite.

Pois bem: quando vi que era ela, fiz uma firula depois de passar pela sala dele, me joguei na parece e fiz uns gestos ridículos de paixão. Abri a boca pra dizer: “Fulaaaana… como esse homem é bonito!”, mas antes que eu falasse qualquer coisa, vi que não era ninguém que eu conhecesse.

O que fazer? Balbuciei, morrendo de vergonha, um ‘nossa! achei que você fosse outra pessoa! heheh…’. Mas não satisfeita em não ser amiga minha, ela ENTROU NA SALA dele! É aluna do dito cujo!!

Segundo: Resistindo a pular do quarto andar, insisti e fui pra aula. Depois de meia hora vendo a professora clicando em reiniciar quando o botão certo era cancelar, não sabendo abrir um vídeo – baixado em .flv, diga-se de passagem! Nem pra baixar vídeo do youtube direto em AVI! – estressei e fui comprar um sanduíche. Voltei com meu sanduíche pra sala de estagiários, fiquei conversando com um pessoal do alemão, depois de passar de novo pela sala do homem e conferir que ele estava falando com a turma, fazendo qualquer coisa. Contei aos três do alemão que lá estavam meu primeiro mico, com minha linda voz retumbante de descendente de italianos. No fim, um deles virou pra mim: ‘Que bom que você contou aqui, Amanda… A turma dele tá fazendo prova, num silêncio mortal, e ele deve ter acabado de ouvir cada palavra sua.”

Terceiro: engoli a vergonha mais uma vez e voltei pra aula, já esquecida dos problemas de inclusão digital da professora. Hoje e na próxima aula vamos falar de um romance, Lord of the Flies, e eu li quase nada hoje dele, ainda que desse pra acompanhar a aula de forma minimamente satisfatória. Em determinado momento, todos começaram a discutir alegorias, e o que cada personagem representava nessa interpretação; foi quando a professora disse: “Por exemplo, o Roger, lembram? Aquele que mata o Piggy…”

Do fundo da minha alma, antes que eu pudesse controlar meu impulso doidão de expressividade: “óóóóóóunnnnn”, gemi, tão alto que a sala INTEIRA morreu de rir de mim. Não foi pouco não,foi muito. Eu não conseguia parar de rir, seja de humilhação, de remorso, nervoso, qualquer coisa. Já que tá no inferno, abraça o capeta, ainda acrescentei, no meio da cascata de risos. “Mas o Piggy era o melhor…”

Sim, Brasil, humilhação não tem limite. Não achei uma imagem que expresse adequadamente minha derrota. Aceito sugestões.