Sobre estar de volta

OK, finalmente! Vou escrever sobre o retorno ao Brasil! Mais esperado que esse post, só a crítica dos dois últimos filmes de Harry Potter. Mas cada coisa a seu tempo. Este domingo já foi de grande conquistas pra mim, visto que limpei meu quarto. Então, baby steps.

É mais confortável dizer isso agora, porque as pessoas da minha rotina já se acostumaram a me ter por perto de novo, e eu não respondo mais àquelas perguntas incessantes e às vezes inocentemente vagas do tipo “e aí…” pausa dramática, em que a pessoa tenta pensar em algo interessante pra perguntar, logo desistindo, “como foi lá?” Com variações aproximadas de “aproveitou bem?”, “viajou bastante?”, “tá triste de ter voltado?”

Quase todas se chocam quando eu respondo não! Minha amiga Cinthia sempre dizia que quando eu voltasse pro Brasil ia me arrepender de ter voltado tão cedo, quando eu podia ficar só trabalhando e fazendo coisas que eu queria por quase que mais um mês inteiro. Na verdade, adiantar meu retorno pro Brasil está no meu ranking de cinco melhores escolhas que eu já fiz na vida. Tá, eu sei que é meio doente, mas eu tenho um ranking de cinco melhores escolhas. É que eu me considero boa em tomar decisões de forma geral.

Eu me lembro dos dois grandes eventos antes de eu ir embora, assistir ao musical do Fantasma da Ópera e ir ao show do Belle and Sebastian, onde fiquei na grade. Me lembro da sensação de ouvir Fox in the Snow cantada ao vivo, enquanto eu pensava em tudo que tinha me acontecido naquele último ano. Houve momentos tão difíceis, tão difíceis, em que eu fui enganada, em que caí em esquemas que quase me causaram complicações com a polícia, horas em que me senti sozinha como nunca antes, e enquanto eu estava ali, a dois dias dos meus amigos e desse calor senegalês, eu me senti a pessoa mais sortuda e mais vitoriosa sobre o planeta.

No dia primeiro de junho, dia do meu voo, eu recebi um tipo de festa surpresa de despedida: vários amigos meus, Noella, Sharmila, Ben, Mercy, Cinthia, Maria, Gil, etc etc etc vieram ao meu quarto com refrigerante e cheesecake. A Cinthia riu de mim quando eu falei mais tarde, “e não é que eles gostam de mim? Sempre achei que tinha só você!” Gil, o português, e Cinthia, a brasileira, resolveram me acompanhar em um trajeto bem lusófono até a King’s Cross Station (fãs de Harry Potter, que tal a referência, huh?), onde eu pegaria a Piccaddilly Line até o Aeroporto de Heathrow. Pegamos o trem em Denmark Hill com a minha vida em malas. Cinthia dizendo que não ia chorar, e se fosse ela estaria em bugalhos. Lembro de conseguir ver o Big Ben uma última vez, pouco antes de chegar em Blackfriars (que AINDA está em obras, ao contrário dos planos). Eles me ajudaram a carregar minhas malas até o lugar de passar o oyster.

Lá de repente me bateu a realização de que eu ia perder aqueles amigos. A chance de rever a Cinthia é longe, né, ela está ali em São Paulo, mas quando vou rever o Gil? A Mercy? A Noella? O Ben, meu primeiro amigo em Londres? Sem a cidade eu conseguia ficar. Mas saber que dificilmente vou ver essas pessoas de novo pelo resto da minha vida realmente me derrubou. Me despedi dos dois chorando feito criança e bati meu oyster na maquininha. A cancela se abriu e lá estava eu, com meu peso em malas, e sozinha mais uma vez.

A idéia de pegar o metrô em King’s Cross foi genial, mas demorada. Fiquei muito tempo no aeroporto. Lembro que minha última compra em libras foi no Caffè Nero, minha cafeteria favorita (suck it, Starbucks!), um regular mochaccino e um sanduíche de queijo. Quando me sentei na poltrona minúscula do avião, as pessoas já estavam falando português à minha volta. Era quase como se eu já tivesse voltado. Quando o avião começou a se movimentar, não teve jeito, caí no choro de novo. Só conseguia pensar nos meus pais e mal conseguia acreditar que ia ver a Melissa, o Cléber e a Aline, logo no dia seguinte. Fiquei imaginando o momento em que eu sairia em Confins e acabei tentando ver filmes pra me acalmar.

Depois de uma longa e confusa conexão em São Paulo, na qual consegui gritar um oi maluco pra Nádia, que miraculosamente voltou pro Brasil da França no mesmo dia, eu entrei em outro avião com destino a Belo Horizonte. E, adivinha? Outro banho de lágrimas! Quando o avião começou a circular a cidade. Tudo foi se abaixando, ficando próximo. Lá estava a Lagoa da Pampulha. A estrada pra Confins.

Na verdade eu tive muito tempo pra me acalmar, porque demorei uma eternidade pra pegar minhas malas (e o medo de terem perdido alguma coisa? Fui uma das últimas! Passei na imigração muuuito devagar e acabei assim atrasando mais de meia hora. E lá estava o momento mágico: foi quando eu emergi no desembarque internacional e ali estavam Cléber, sua senhora Lígia e Aline. Esperando por mim com pão de queijo na mão!

Desde então, foi só alegria. A Melissa chegou, atrasada, e nós tivemos um abraço cinematográfico, que foi inclusive filmado. Eu postaria aqui, se não tivesse acabado de descobrir que o wordpress agora quer cobrar pra upar vídeos. My ass.

(se eu tiver saco, upo no youtube e linko aqui.)

Enfim. Todos os meus problemas se resolveram em sucessão rápida. Meus amigos me encontraram no bar, eu arrumei uma quantidade de empregos tão louca que precisei abandonar algumas matérias, comecei a fazer monografia e a lidar com outro prospecto assustador: a formatura, que deve ser no meio do ano que vem.

Foi tudo tão maluco, e como minha rotina aqui no Brasil é bastante intensa, eu tenho muito pouco tempo pro meu blog. Não que falte assunto, como eu já mencionei anteriormente. Mas acho que antes de prosseguir e falar sobre a greve dos professores estaduais em minas, sobre certos posts que fiz em outros blogs, sobre minha recente e assustadora entrada no mercado de trabalho – chega de viver de bolsa acadêmica…? – acho que preciso dar um fechamento nesse processo todo.

Honestamente, não sinto saudades de Londres. Sinto saudade de algumas pessoas que conheci lá. Sinto saudade, digamos, do transporte público e dos preços das roupas. Mas nada paga pela vida que eu levo aqui, cheia de amigos, estudando o que eu gosto, com trabalhos dignos, estimulantes e com muita cerveja de 600 nos copos lagoinha.

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A última semana

Bem… quarta-feira começou minha contagem regressiva. Daqui três dias vou pra Heathrow pegar meu voo! Todo mundo que me conhece sabe como eu estou imensamente feliz em voltar. Eu já falei muito sobre como apesar de Londres ser um lugar muito sensacional e tudo o mais, eu prefiro a vida que eu levo no Brasil. Mas veja bem, por mais que eu prefira o Brasil, é claro que tem coisas daqui que farão falta. Me perguntam muito aqui se não me bate um desespero quando eu penso que nunca mais verei as pessoas daqui, e se ver não será mais a mesma coisa, e etc.

Gente, eu não nasci ontem! Eu sabia que isso tudo ia acontecer. Sabia que ia passar oito meses construindo uma vida no exterior pra depois simplesmente deixá-la pra trás, quase como se nunca tivesse aparecido. Os amigos, o emprego, a vida acadêmica; tudo. Eu até achava que ia sofrer mais pra deixar tudo pra trás. A bem da verdade é que eu fiz três amigos de verdade aqui, um deles uma brasileira, então pra mim tá tudo certo. De qualquer forma, vou listar as coisas que me vêm à cabeça logo de cara quando penso em sair de Londres. Vou sentir falta de:

  • um transporte público eficiente. Que é horrivelmente caro, verdade, mas o do Brasil também é caro e vive deixando a gente na mão. Isso inclui segurança, poder mexer em dinheiro e eletrônicos no ônibus, o letreiro que fala o próximo ponto, mas mais importante, todo mundo ouve música com fone de ouvido.
  • tem um ponto de ônibus em Waterloo, no caminho pra faculdade, de onde dá pra ver o que acho que é a visão mais bonita de Londres: o Big Ben atrás do London Eye.
  • a função de self-checkout no supermercado, quando você mesmo passa o código de barra dos seus produtos, você mesmo paga, e pronto.
  • lugares de fast food que servem combos de frango a noite inteira
  • ouvir o sotaque português super gracinha do meu amigo português
  • o preço e a facilidade de comprar celulares, computadores, ipods, etc.
  • não ter que pagar por alguns remédios básicos, se você tiver receita.
  • a temperatura da primavera, que fica entre 10º e 18º. Só a da primavera que vai fazer falta, aliás.
  • como quase todos os problemas da sua vida são resolvíveis por telefone e imediatamente, mesmo os que você espera que tenham muita burocracia.
  • como todos os brasileiros aqui se tratam entre si com alegria extra, e os gringos ficam olhando feito bobos como a gente tá sempre extremamente feliz de se falar
  • meu quarto, que tem uma cama de verdade, mesa de verdade, espaço de verdade, ao contrário do quarto da moradia da UFMG
  • a facilidade de viajar pra outros países da Europa, incluindo preço e proximidade.
  • Donnut de chocolate.
  • Como só escurece depois das nove da noite agora na primavera
  • Como as folhas realmente caem no outono.
  • Como aqui a gente vê de verdade uma diferença de uma estação pra outra.
Enfim, é mais ou menos isso. Agora dá licença que eu vou ali no show do Belle e Sebastian. ❤

Pílulas de abril

Na minha ausência (indolência) dos últimos dias, diversos temas pra postagens passaram pela minha cabeça. Abril foi um daqueles meses em que praticamente nada aconteceu. Resolvi apenas falar brevemente sobre diversos assuntos ao invés de me aprofundar em um só. Caso você tenha sentido falta da brilhante escrita do grande talento do futuro, Amanda Pavani, você pode matar a saudade dos meus sons literários. E eu falo um pouco mais sozinha pra manter a sanidade.

– Sempre adorei jogar The Sims, desde pequena, quando só tinha a opção de ter adulto ou criança e vc selecionava só uma cabeça e um corpo na hora de criar. Desde o lançamento da terceira versão eu fiquei deprimida achando que nunca poderia jogar, mas eis que com o advento do meu computador inglês, batizado em dezembro de Matrix II, um download de proporções históricas foi efetuado e assim eu consegui sobreviver às horas infinitas de tédio. Fico feliz em anunciar que o casamento gay já foi aprovado no mundo dos Sims; não só o casamento gay, mas o casamento entre espécies – humanos podem se casar com vampiros (crepúsculo, oi???). Curiosamente, não se fosse nem flertar com Sims de idade diferente, a não ser que sejam adultos e velhos.

-Fiz maratonas de Harry Potter e de Senhor dos Anéis. Ridiculamente torci e me emocionei como sempre me emociono. Nos últimos meses, na verdade, eu tenho revisto coisas das quais eu gostava muito há anos. Tipo Digimon. Lembra que tinha aquele filme em três partes, que a do meio tinha os digiescolhidos da velha guarda numa batalha dentro da internet? Pois é, eu achava que era o último registro do Tai e dos outros, mas tem um filme pós segunda temporada, de trinta minutos só, “A vingança de diaboromon”, no qual dá pra ver todos eles!

-Como resultado de rever todas essas histórias cheias de heróis, eu andei pensando demais na minha própria história de fantasia, com título provisório de O Camafeu – até eu pensar em algo melhor – que eu já mencionei neste post e constantemente a Melissa me pergunta se eu escrevi mais, só pra ficar decepcionada comigo. Eu penso nos personagens. Vejo cenas de amizade, de heroísmo, de romance, penso na minha própria história. Se sinto tanta vontade de escrever, por que não sai nada?

-Trabalho. Voltei a garçonetar. Alguns dias são bons, alguns uma merda. Amanhã, por exemplo, vou trabalhar cerca de doze horas, no interior da Inglaterra. Isso significa acordar seis e pouco da manhã, pegar o ônibus 68 até a estação de trem de Waterloo, descobrir como faz pra imprimir minha passagem de trem, descobrir onde é a plataforma do trem, ir pra Ascot, encontrar o tal Royal Ascot Racecourse e ser encaminhada para o lugar onde eu vou ficar trabalhando. Vou ganhar almoço, pelo menos.

-O estranho de trabalhar aqui é que eu me sinto meio que sambando entre duas classes economicas. Quando cai o salário eu tomo cervejas, compro presentes, livros, faço o que bem entendo, super classe média sofre. No dia seguinte eu acordo de madrugada pra passar muito tempo falando ‘yes sir’ de forma tão compulsiva que já chamei altas mulheres de ‘sir’ sem querer. Parei de pintar as unhas porque não pode ter nada que te individualize nesse trabalho. Fui obrigada a perder a fobia de telefone que eu tenho, senão simplesmente não tem trabalho! Enfim, várias coisas.

-Finalmente a temperatura aqui está amena, entre 16º e 25º. Pro meu desespero, quando faz 25º, eu passo um calor do inferno e me preocupo com minha readaptação.

-Ultimamente tenho comprado muito mais livros do que eu devia por questões de malas. Tenho um total de quatro Jane Austens (um deles é presente pra Melissa), o box de His Dark Materials, a edição de aniversário de Harry Potter e a Pedra Filosofal, Frankenstein, um Charles Dickens e minha nova grande descoberta, dois livros do John Green. Se você não conhece John Green, prepare-se pra ver sua vida melhorar instantaneamente:

Pois é. Ele tem esse vlog com o irmão dele, Hank, e é um autor publicado no mundo todo. Comprei dois livros dele até agora, “Looking for Alaska” e “An Abundance of Katherines”. Menos de cinco libras cada! Como resistir? Ele é tão engraçado escrevendo quando falando, o que é dizer muito!

-Eu sei que muitos dos meus amigos detestam o Felipe Neto, o vlogueiro carioca que grita. Pois é, eu entendo. Mas no vídeo mais recente dele – que não vou forçar vocês a assistirem, sejam gratos – ele lançou uma campanha contra o absurdo dos impostos cobrados sobre eletrônicos importados no Brasil. Tá certo que durante a maior parte do vídeo eu dei umas risadinhas egoístas (da série ‘tralalala estou em londres comprei tudo que eu queria sem esses impostos doidões…’), no pior estilo classe média sofre de novo. A verdade é que eu tenho passado muito tempo rindo das reclamações da classe média decadente no Brasil, que está inconformada com os milhões que saíram da miséria – quem é que vai trabalhar dezoito horas por dia por cinco reais agora?), um pensamento muito disseminado num vídeo hilário do Adnet que eu tô com preguiça de publicar agora.

Eu disse tudo isso pra dizer que bom, eu dou risada deles, mas a verdade é que o próximo grande problema a ser resolvido no Brasil é o exagero da carga tributária. Isso não é novidade pra ninguém. Só porque eles não conta (LOL) não quer dizer que eles tenham que pagar impostos muito mais altos do que o necessário. A gente sabe muito bem que a máquina pública precisa de uma enxugada e aí não precisaríamos de tantos impostos. Veja bem, depois de mostrar como os preços dos eletrônicos praticamente quadruplicam nas lojas brasileiras, o Felipe Neto se comprometeu a criar esta página, na qual ele coleta dados de apoiadores para encaminhar ao governo. Eu não sou grande entusiasta de baixo assinados, porque nunca na minha vida vi algum resultado deles. Se vocês puderem assinar e passar pra frente, seria bom. Obrigada!

-Você sabia que dá pra achar todos os episódios de Sai de Baixo no youtube? Entra lá, é só alegria!

-Por último, e mais importante: UM MÊS PRA EU VOLTAR PRO BRASIL! UHUUUUU

Guerra dos Sexos

Desde 2007, quando fui num Seminário de Política e Feminismo pela primeira vez, decidi pra mim mesma que achava o feminismo no século XXI o movimento mais descabido e anacrônico de todos os movimentos de minorias. Quando fiz na Letras uma matéria sobre poesia do século XX – ensinada por uma professora feminista – , peguei verdadeiro ódio do feminismo, primeiro porque toda interpretação de poema era a mesma merda, a representação do falo oprimindo a representação do feminino tralalalalalalalala, e segundo porque eu pensava nas mulheres da segunda metade do século passado queimando sutiã e tocando o terror no meio da rua – e até ali, nos meus dezoito anos, eu dizia a quem quisesse ouvir que não me senti nunca discriminada por ser mulher, e que diferentemente de outras minorias, eu tinha voz e podia bater de frente caso eu me sentisse discriminada.

Eu mudei de opinião bastante desde então, mas estava parcialmente certa com relação a uma coisa: entre todas as minorias, acho que nós mulheres temos mais espaço pra armar o barraco quando somos discriminadas. Não digo que acontece menos, mas eu sinto que mulheres são muito mais ouvidas do que gays ou negros, pelo grande público. Mas duas coisas devem ser levadas em consideração: primeiro, traços que causam discriminação não são exclusivos: você não é só gay, ou só mulher, ou só negro. E outra, como agora, de acordo com a idéia do politicamente correto não se pode – ou não se poderia – discriminar alguém pelo gênero, acaba que muitas mulheres acabam se vendo encarceradas no estereótipo do feminino. Muita gente já tem blogs a respeito, então só vou resumir o assunto colocando que as feministas contemporâneas acabam sofrendo preconceito por serem mulheres E por serem feministas, como se estivessem reclamando de boca cheia.

Quando eu estava indo pro metrô hoje peguei um jornal. A maior manchete tinha esta notícia.

Poucas coisas me deixam mais irada do que um boçal que chega dizendo: “ai, mas e o preconceito contra homens, brancos e heterossexuais?”. Dá vontade de sair correndo com uma serra elétrica atrás da pessoa. Eu não acho que alguém que diz isso entende o que quer dizer discriminação. A grosso modo, meus caros, é quando você é tratado como inferior por não ser de uma determinada forma que por acaso detém todo o poder político, ou econômico ou social, geralmente os três. Ou seja, ser tratado como inferior por não ser homem branco heterossexual! Não consigo explicar com mais simplicidade que isso. Sem mencionar quando o infeliz diz que homens não se sentem atraídos por mulheres que são mais bem sucedidas do que eles próprios. Não sei quem fica mais ofendido com essa, se a mulher dele, se a síndrome de pau pequeno do cidadão.

Sabe o que é mais preocupante? Isso foi dito por um membro do Parlamento Inglês. Não é o Zé do buteco. Não é nem um deputado estadual analfabeto funcional dalgum cantinho do Brasil que tem uma mulher e quinze crianças. Isso veio de um homem que provavelmente teve a melhor educação que o dinheiro pode fornecer, que teoricamente leu todos os livros que se deve ler, que representa os cidadãos do Reino Unido. Não há limites para a resistência da ignorância, é só o que eu penso. Deu tristeza.

Pois muito bem. Eu viro uma página, e o que vejo? Essa outra notícia.

Esses caras que falaram que acham um absurdo uma mulher trabalhar como lateral são tipo o Galvão Bueno e o Casa Grande daqui. Faz vinte anos que eles comentam todos os jogos principais daqui. Quando um comentário descaradamente machista como esse vem desse tipo de gente, só dá vontade de sentar no chão e chorar, porque é como se o mundo estivesse acontecendo à volta deles – e sabe-se lá de quem mais, que insiste em ignorar coisas tão simples? – e… e nada. E eles acham que não tem problema alimentar em rede nacional o estereótipo da mulher que é burra demais pra entender o que é um impedimento.

Eu normalmente não postaria sobre feminismo, apesar de ler alguns blogs e ser até simpatizante. Mas meio que me senti no dever de mostrar que esses pensamentos imbecis não estão confinados a países como o Brasil, muito pelo contrário. Foi da Europa que saiu boa parte dos preconceitos dos quais ainda tentamos nos livrar, mas não deixa de chocar como eles insistem.

 

 

Do que nós somos feitos

Hoje eu saí na rua, dei uns passos, não senti frio. Fiquei confortável. Depois de cinco minutos, eu tava positivamente sentindo calor. Calor mesmo, de se abanar. Olhei no celular: a temperatura em Londres estava em 14 graus. Ergui a cabeça pra perceber que uma boa parte das folhas já caiu. Lembrei do Quito comentando que a Europa no outono dá a impressão de que a gente tá pra sempre preso num clipe de Sandy e Júnior.

E veja bem, eu nem tenho pra quem transmitir essa piada. Quem aqui riria se eu falasse isso? Quem aqui riria, mesmo que eu mostrasse pra um gringo aqui o clipe no youtube? Bom, eu não riria no lugar de qualquer dos amigos que eu fiz aqui nesse começo de Inglaterra.

Mesmo antes de sair do Brasil, eu sabia que uma coisa aconteceria: eu aprenderia o que é, de verdade, ser brasileira. Parece irônico à primeira vista. Da mesma maneira, é irônico que eu me gradue em Inglês no Brasil e faça matérias do Português na Inglaterra. Eu faço piada com isso toda hora. Mas uma pergunta sempre martelou na minha cabeça: o que é mesmo ser brasileiro? O que é mesmo ter nascido naquele determinado território, com aquela determinada língua? É fácil imaginar uma realidade alternativa na qual o Brasil não existe, na qual os países são totalmente diferentes… Qual é o resultado das coisas serem como são?

A História do Brasil pra mim sempre pareceu deprimente na escola; nós nunca tivemos grandes guerras pra vencer, fomos essencialmente formados de ladrões e prostitutas expulsos da Europa há pouco menos de quinhentos anos. Na sua origem, o Brasil, como outras terras descobertas na época, tinha um status de paraíso perdido, uma chance de começar a humanidade do zero, uma terra onde os nativos não tinham medo nem vergonha dos seus corpos. Bom, não é mais assim. Nós nos vestimos como os europeus, assistimos os mesmos filmes, estudamos os mesmos filósofos. Eu tendia a acreditar que a nação brasileira era uma mera noção criada pelas mesmas mídias que tentaram com tanto afinco eleger o Serra. Sempre achei que era só uma ilusão. Sempre achei que estavam tentando criar uma sensação de unidade brega numa mistura irreconciliável, igual quando recortaram a África em quadradinhos. Era pessimista igual essa galera que fica falando que as pessoas empolgadas com coisas feito futebol e carnaval era só o povo burro do pão e circo.

Veja bem, todo mundo cita a Canção do Exílio do Gonçalves Dias quando se refere a passar tempo no exterior. Antes de eu sair do Brasil, aquela era toda a realidade que eu conhecia. A minha variedade regional do Português moldava a minha noção de realidade, minhas gírias, até o modo de flertar, o modo de participar numa sala de aula, o tipo de questões que a gente faz por aí. Como eu não conhecia nenhuma outra realidade, nunca consegui bem definir o que é ser brasileira.

Não se iluda de achar que com tão pouco tempo eu já encontrei uma resposta; mas muita coisa me faz refletir.

Antes de mais nada, tenham orgulho aí de terem nascido no sul. Ser brasileiro está na moda! Em todo santo lugar que eu vou, sou muito bem recebida. Muita gente até tenta falar português, e sai um espanhol desengonçado. Tem quem brinque perguntando se eu moro perto da floresta aí, pra consertar em seguida. Tem três reações mais frequentes logo depois de eu dizer que sou brasileira:

1. Nóóóóóóóóóóó! Eu tenho amigos brasileiros/Já fui lá! Foi ótimo, é um lugar do caralho!

2.Mas você é branca!?

3.Você gosta do Lula?

Focando na segunda reação, depois de um tempo eu reforcei outra coisa que já tinha imaginado antes de vir pra cá: não se espera que eu seja brasileira. Afinal, eu não sei dançar, não tenho ritmo, não sou negra, não sou do Rio de Janeiro, não gosto de forró e muito menos de… bem, cultura pop brasileira no que toca à música. E, claro, não sou gostosona de peito e bunda enorme. Not at all. Tento ver isso de forma positiva, pra mim e pros outros. É bom que eles desconfiem que em 180 milhões de pessoas, nem todo mundo é passista do carnaval.

Por outro lado, tem brasileiro aqui em todo lugar. Seria fácil falar português todo dia. Eles estão no banco, no ônibus, tirando foto perto do BigBen. Eles se abraçam, gritam, se misturam. Não andam em grupos fechados e homogêneos, como os asiáticos. Estão aí, onde a gente menos espera.

Brahma não é uma cerveja tão boa; a Globo é decididamente uma merda; fazia mil anos que eu não escutava Los Hermanos. Ainda assim, por que fiquei rindo feito uma besta quando um dia sem querer, assisti cinco minutos de Globo? Por que o primeiro gole da Brahma foi tão fantástico? Por que coloquei Los Hermanos de novo no MP3? É quando a gente volta pro Gonçalves Dias: uma hipótese ser que de repente tudo que é de casa pareça muito melhor porque está muito longe.

Eu sinceramente acho isso muito simplista. Depois de todas aquelas tardes de bar do Cabral, não dá pra ser igualmente receptivo com uma pint de Ale, que parece uma cerveja escura quente em volta desse povo tão exageramente civilizado?

Começo a concluir que, no fim das contas, aquela mentira da nação tem uma boa parte de verdade. Nós compartilhamos muita coisa. Essas coisas estão tão entremeadas com nossa maneira de pensar! Como visualizar a importância de facilitar a mobilidade social quando você sempre morou no centro de Londres, no máximo vendo um documentário sobre a Venezuela na BBC? O Brasil é, afinal de contas, um país muito jovem; tudo nele é novo. História, economia, literatura… Parece que só agora se ergue a cabeça, de uma certa forma.

De uma forma meio retardada, sinto muito orgulho das coisas brasileiras. Fico ensinando pra todo mundo como nossa política funciona, a mecânica das novelas horríveis da TV… E pensando agorinha, nós estamos de certa forma acostumados com um grau de tosqueira na nossa vida, né? Lembro de quando a Melissa me contou duma louca levando uma reprodução em tamanho original do Aécio pra casa. O mundo explode em purpurina antes de alguém, não importa a nacionalidade, fazer isso em Londres. Eu diria que, em termos de socialização, nós temos menos medo de nos abrir. Até mesmo eu! ahahah. A maneira como às vezes só ignoramos as regras parece horrível à primeira vista. Mas aqui existem tantas regras desnecessárias! E que povo calmo! Um trânsito de uma hora e meia e o cara lá, assoviando na frente do volante! O estacionamento do supermercado vazio de madrugada e ele dando a volta pra não passar na CONTRA MÃO! Ter que provar que eu sou maior de dezoito anos pra comprar nem álcool, mas uma TESOURA no supermercado!

Acabou que eu não consegui concluir nada, mas… Já me peguei pensando, esses europeus tem muito a aprender com a gente!

Naked e Nude

Hoje, como boa brasileira, fui ler o texto pra aula de amanhã; vale lembrar que eu tive uma semana inteira pra fazer SÓ isso.

O primeiro era a carta do Pero Vaz de Caminha descrevendo o descobrimento do Brasil, beleza. O segundo era um texto refletindo sobre nuances entre os termos “naked” e “nude”. Acho feio traduzir o “naked” pra “pelado” e “nude” pra “nu”, até porque meio que não cabe no contexto. Eu sei que paráfrases são uma coisa maldita, mas…

O texto coloca que mulheres sempre tiveram dois tipos de visão de si próprias, porque em muitas civilizações, em especial a européia, toda a vida da mulher consistia em obter aprovação e obedecer a um homem (calma, o post não é feminista). Por causa disso, desde muito cedo a mulher era pressionada a saber não só como ela era, mas principalmente como os homens a viam. Dizia-se mesmo que a mulher tinha algum tipo de aura, que “emanava”, ou comunicava, como ela queria ser tratada pelos homens e que tipos de liberdade ela tinha. Essa aura, da perspectiva masculina, era constituída por cada detalhe, desde o temperamento até o modo de se vestir. Já do seu lado, a mulher devia coordenar esses detalhes ciente do impacto que eles tinham sobre a visão que os homens desenvolveriam dela. Pra aparecer pra eles como numa pintura, do jeito que eles gostariam que ela aparecesse. Assim, ela personificaria o conceito do “nude”, no qual o feminino se expõe propositalmente para o masculino, como numa vitrine.

Por outro lado, em dados momentos ela continua sendo ela mesma, e tem que manter consciência do que ela é, mantendo-se ainda do lado de dentro. Essa visão crua do ser próprio é que está ligada ao “naked”, livre das máscaras e das poses, não necessariamente indesejável seja pelo masculino ou pelo feminino, mas mais sendo uma força neutra.

Pra quê eu contei tudo isso? Bom, primeiro porque eu nunca tinha pensado nisso e achei as idéias extremamente interessantes (pedindo perdão por eventuais erros meus, né, já que eu tô mais é passando o que ficou pra mim do texto). Segundo porque no mesmo dia percebi claramente como isso funciona.

A maior parte das noites aqui eu tenho ficado em casa. Com exceção de uma festa horrível pra intercambistas e uma noitada com o povo da Brazilian Society, geralmente vou jantar, onde encontro meus candidatos a amigos e a gente geralmente vai fazer alguma qualquer coisa morna, ficar no FuBar ou no quarto de alguém falando de nada, ou jogando cartas na sala comum (sou um às do pôquer entre os calouros, HA). Mas eu sou um ser que PRECISA sair com uma regularidade meio alta, ainda que seja pra pouca coisa – aquela UMA cerveja no fim do dia. Depois de convidar pessoas aqui e ganhar NÃOs com uma frequência meio abaladora, fiz a independente: saí sozinha.

Foi ótimo. Mandei música e peguei o ônibus que é a coisa mais cute cute do mundo e fui feliz até Strand St. Vaguei por ali, me sentindo a pessoa mais livre do mundo. Passei por um café e tinha um loiro super bonito lá, e ele olhou pra mim, Ê! Tá, é meio lama eu comemorar que finalmente alguém aqui olhou pra mim. Mas enfim. Andei até encontrar um pub do jeito que eu queria, pedi uma pint e fiquei de boa ali observando as pessoas.

Eu cheguei até ali dizendo a mim mesma que adorava o anonimato da cidade grande, pois ele me permite simplesmente ir num bar e observar ingleses bebendo e interagindo. Quando estava na metade da minha bebida, me percebi da minha inocência: oras, eu não sou invisível. Eu não fui lá só pra ver pessoas, fui pra ser vista também. Pra mudar um pouco os ares, sim, mas principalmente, pra ver e ser vista. É nessa hora que a gente percebe que estava de pernas cruzadas quando é mais simples e confortável apoiar os pés no banquinho, e está puxando o cabelo pra cobrir uma espinha. Eu estava ali também tentando me ver aos olhos dos outros, tentando mostrar o que quer que fosse que eles quisessem ver. Se eu fosse de verdade invisível, é evidente que teria me posicionado diferente, agido diferente. Claro que o comportamento não é igual ao da antiguidade, eu não estava tentando me adequar desesperadamente ao “nude”. Só não queria estar totalmente “naked” e desprotegida. Dá pra entender? Não sei. Essas coisas são viajadas mesmo.

Resta dormir, que amanhã tem aula sobre o texto!

Boletim Londres – expectativas indesejáveis

Eu queria falar o mínimo possível do fato de eu agora estar em Londres, mas é meio impossível, né… Muda tudo, assuntos, pensamentos, visões e tal. Mas esse post é especialmente sobre algo que tem me incomodado particularmente desde que eu viajei.

“Aproveita pela gente agora que você tá aí”

“O que você tá fazendo online? Vai viver!”

Eu ouvi essas frases algumas vezes, e as duas causam o mesmo tipo de desconforto. Vamos à primeira.

O problema dela é: tá, que bom que eu estou aqui, que bom que deu tudo certo e estou tendo uma oportunidade foda que muita gente não tem… Mas ow, tem dias SIM que eu não quero sair, e NÃO, eu não vi o museu tralalala de não sei das quantas, e NÃO, não estou fazendo orgias internacionais todas as noites. E quando eu estou num momento desses, me vem um infeliz e fica dizendo que eu tenho a obrigação de aproveitar essa cidade (que sim, é muito doida) por todo mundo que tá lá! POR CENTO E OITENTA FUCKING MILHÕES DE PESSOAS.

O que nos leva à segunda frase. Aqui onde eu moro, tem uma wireless no quarto muito foda. E além do mais, estou quatro horas à frente do horário brasileiro. Ou seja: se estou online agora, oito da noite do sábado no Brasil, aqui são meia noite e tantas, o que quer dizer que eu já saí e já morri de tédio por hoje! Já tive minha fração do que chamam “viver”. Viver também é estar triste, também é atualizar o blog, também é dormir. E pronto! Por favor, por melhor que seja a sua intenção, não me mande “viver”. Vá tomar no cú por antecipação. Fazer coisas emocionantes vinte e quatro horas por dia só porque tem uma galera na minha terra natal esperando que eu faça isso não faz sentido nenhum.

Resultado do bombardeio dessas duas frases: eu fico me sentindo culpada de estar online, de dar notícias, de fazer coisas que eu gosto muito como a internet porque eu tenho que “estar curtindo o tempo todo”. Ow, de verdade, que canseira. Aqui é só um lugar diferente. Tem muita coisa doida e tal, mas ai!

Desculpa a crise. É só que tava pesando mesmo.