Sobre brigas e mortes

Hoje eu escutei um vizinho brigando com a mulher dele do outro lado da rua. Não era a primeira vez; meus pais já me disseram que eles seguem aquela velha sequência do casal que deveria se divorciar, mas não se divorcia: faz barraco público, grita, chama parente, um dos dois sai de casa, depois volta, eles fazem as pazes e o ciclo recomeça. Ainda assim, não me dei por satisfeita e fiquei igual uma comadre meio escondida na minha janela, tentando entender o que estava acontecendo e tentando ver se ele ia bater nela – porque aí, afinal, é caso de polícia.

Depois entrei na internet e me diverti muito com um barraco virtual: o vlogger Felipe Neto postou um vídeo chamado Fiukar, no qual ele falava sobre os fãs exagerados dessa nova onda adolescente colorida que eu não entendo. Até aí tudo bem, seguiu a linha de outros vídeos muito engraçados dele e tal. Só que a grande surpresa foi que o próprio Fiuk respondeu no twitter, e os dois se puseram a discutir! Hahaha. Eu ia do twitter do pseudo-ator pseudo-músico filho do Fábio Jr até a minha timeline (eu sigo o Felipe Neto, ele é divertido) e ria das respostas estereotípicas do estrelinha da Globo. Ri das fãs, ri da briga, fiquei querendo que tivesse mais.

Durante as últimas semanas, qualquer coisa na TV que não seja CQC e A Liga tem sido insuportável por causa dos detalhes exagerados em casos de namoradas/amantes assassinadas. Tá perigoso ser mulher, seja em SP, RJ, ou mesmo BH, que agora está no jornal o dia inteiro. O jornal do almoço da Record, que antes tava uma geral pelas diferentes desgraças ao redor do país, agora foca em duas desgraças: um dia é o goleiro Bruno, outro dia é a tal da Mércia. A discussão está num nível de detalhes absurdo, em todos os jornais, em todas as conversas (devo confessar que a única coisa boa que veio dessa onda do goleiro do Flamengo são as piadas de humor negro, lógico).

homo coloridusNum dos meus rompantes de ódio ao mainstream, enquanto eu exclamava que não aguentava mais esse sensacionalismo dos crimes com requintes de crueldade e investigações elaboradas, percebi que a minha diversão em ver o Fiuk sendo ridículo ao reagir ao Felipe Neto e minha curiosidade diante da briga conjugal dos vizinhos tinham um ponto essencial em comum.

O que nos faz tão interessados nos conflitos alheios? Especialmente, porque cultivar lados, porque ficar observando se um criminoso imbecil vai ser preso ou não? É claro que, como no caso Nardoni e no da Susana von Richtoffen (spelling?) fica bem claro entender que a mídia sensacionalista se diverte mais com crimes familiares envolvendo brancos de classe alta, que não tinham “nenhum motivo” pra entrar no crime e que deixaram apenas um número médio de pistas que vão sendo desvendadas diariamente e distribuídas entre todos os telejornais de todos os canais.

Esse post é basicamente sobre o que nos faz acompanhar detalhes desagradáveis da vida alheia, mas tenho também outros questionamentos. Essa galera que adora ver famílias sofrendo com entes mortos na tv poderia perfeitamente se satisfazer assistindo Law and Order se o caso fosse uma ânsia por justiça, ou por processos criminais cheios de detalhes. Entretando, as pessoas querem o real, o de verdade, o close da câmera na lágrima da mãe, seguido de comentários feitos por “jornalistas” de café da tarde falando sobre como o mundo não tem mais solução, numa conversa sem fim que nunca progride. Isso me leva a pensar que esse prazer não é só catártico, porque desde tempos imemoriais a ficção supriu muito bem a galera do pão e circo. Agora existe um apelo para a realidade. Por quê? Será que alguma parte do pacto da ficção foi quebrada e as pessoas não acreditam mais na possibilidade daquilo trazer algo de real? Será que as pessoas precisam ver as merdas acontecendo em tempo real com pessoas mais ricas e mais importantes para se sentirem melhor com as suas próprias merdas? Pra pensarem que com o dinheiro e a fama vem muita merda e o melhor é continuar pegando cinco conduções pra trabalhar e deixar por isso mesmo?

Esse questionamento sobre histórias reais versus histórias fictícias me leva a lembrar do comentário que o Francis Leech acabou de inserir no seu canal, a respeito da briga Fiuk-Felipe Neto. Talvez os vloggers estejam emergindo pela sua característica de poderem falar o que der na telha, enquanto se limitarem à liberdade de expressão. Talvez a ascenção dos vloggers indique uma mudança nos gostos e uma alternativa às Sandys malditas da TV, sempre dizendo a coisa certa em momentos de crise. Se esses artistas robóticos já estão se sentindo incomodados com esse tipo de expressão, como disse o Francis, talvez isso seja um bom sinal.

Mas ainda não consigo pensar numa resposta adequada: qual é o motivo real da nossa necessidade de se alimentar de conflitos que não nos dizem respeito? O que faz com que a gente se importe? Que tipo de sensação única as pessoas tiram de acompanhar processos sangrentos de assassinato, como esses da TV?

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Nota sobre vazio

Eu twittei assim: Luto: dona Hilda, a velhinha do outro lado da rua. Desses golpes que gritam na cara da gente: “Por que você ainda tá vivo, afinal?”

Depois de alguns meses, acho que aprendi a me expressar bem em 140 caracteres.

A ida da dona Hilda me fez perceber como eu meio que não existo mais pra muita gente, especialmente pros meus pais, por morar tão longe. Eu queria estar lá hoje, e amanhã, mas não vou estar. Assim como não estava quando foi a minha vó.

Ficou com cara de fim de capítulo, esse dia.

Wake up and Smell the Coffee

Tem coisas que acontecem à volta da gente que chamam à atenção pra como é a realidade. Bom, não quero e não vou entrar na metafísica da coisa, questionar o que é realidade nem nada, porque nem tenho cacife pra isso.

Há quase um ano, uma moça se matou na faculdade, da Biblioteconomia. Eu lembro porque estava chegando na Letras, oito e pouco da manhã. Tinha um mundo de gente parado, olhando pra graminha do lado do laguinho da biblio, onde tinham aberto a roupa da moça e uma equipe do SAMU estava tentando reanimar. Tinha uma tensão no ar; ouvi alguém dizendo que ela tinha pulado do quarto andar. Todo mundo estava com a respiração meio suspensa; eu vi o peito dela se encher de ar, depois o meu de esperança; segundos depois a equipe começou a guardar os equipamentos e a cobrir o rosto da moça.

Eu nunca tinha visto antes um último suspiro. Quando a minha vó morreu, eu estava em Diamantina. Não vi morrer, não fui no enterro, nem nada. Eu tinha visto, sim, quando três dias antes, na minha cidade natal, a ambulância veio buscá-la pra internar pela última vez. Por que na hora eu sabia que era a última vez?

As coisas acabam. Morte é uma das coisas que mais faz pensar nesse tema, lógico.

Por que customizar uma janela de banheiro de buteco?

E sei lá… Tem amor, também. Dizem que se morre, não era amor. Mas quem tem, de novo usando a palavra, cacife pra afirmar isso? Eu não sei lidar bem com o tanto que as coisas são passageiras. “Fim” de amor pra mim é uma experiência de quase morte. Ou melhor dizendo, morte parcial. Ao mesmo tempo que cria um buraco negro, fica vagando em algum lugar. Tipo no subconsciente, atormentando seu sono. Não sei se ser feliz em sonho é bom. Na verdade não é que não sei, é que não acho mesmo. Fui feliz em sonho essa noite. Acordei duas vezes mais deprimida, nada daquilo existe. Será que existiu?

Golpes de realidade são dolorosos. Esses aqui são poucos, mas todos os dias eu vejo isso acontecendo na vida das pessoas. Queria fazer algo, como queria que fizessem por mim.