As brincadeiras de mau gosto, a ditadura gay e a patrulha do politicamente correto

Queria começar este post dando os parabéns à UFMG, que está nas notícias nacionais desde ontem. Que beleza, hein? Meus parabéns.

Eu acho difícil tratar com qualquer coisa além de ironia e sarcasmo essa história do trote da Escola de Direito. Francamente, é uma decepção difícil de exprimir. Não que não existisse trote quando eu entrei – e olha que eu entrei na Letras. Tinha trote sim. No final de uma quarta-feira, depois da aula de Teoria da Literatura I, uns estranhos chegaram colocando barbante na mão da gente e gritando coisas indistintas. Bem, antes de pensar muito no assunto, eu só tirei o barbante da mão e saí andando.

Muita gente diz que o aluno vai parar no trote não por restrições físicas, mas psicológicas. Eu concordo; ninguém quer virar um pária no seu primeiro semestre em um ambiente estranho onde você deve permanecer por cerca de cinco anos. No meu semestre, um menino apelou e saiu correndo, num momento tragicômico, mas o máximo que aconteceu foi levar o apelido de André Rebelde, em homenagem à novela mexicana da época, e foi só. Eu ainda chamo ele assim mais por hábito (e porque na minha geração tem André até demais, francamente, e eu uso pra diferenciar).

Isso é completamente diferente do que acontece nas faculdades dos cursos mais disputados. Quem diria, você estuda igual um maluco pra entrar em um curso dificílimo e é recebido da forma como a gente lê nos jornais. Então, sim, eu sou contra trotes. Nos meus anos de atuação no Diretório Acadêmico, nós apenas incentivamos a recepção de calouros, com pimentinha barata e vinho mais barato ainda; tinha tinta pros desejosos escreverem na testa, e um grupo separado foi pra Antônio Carlos pedir dinheiro pros motoristas.

Vamos contrastar isso com outra história: eu moro no Bairro Ouro Preto, próximo às entradas de Educação Física e Veterinária da UFMG. Um belo dia, estou eu a caminho do ponto de ônibus pra ir trabalhar e de repente me sobe um cheiro inacreditável de merda. Ergo a cabeça pra perceber a presença de uns 5 ou 10 calouros da Veterinária, e eles estavam – SIM – cobertos em merda.

Por princípio, eu já não dou dinheiro pra calouro, talvez por causa da minha mãe, que, quando eu passei, deu rapidamente os parabéns, mas logo acrescentou que eu não fiz “mais do que a obrigação”, já que ela tinha investido no meu ensino durante mais de uma década, além dela e do meu pai terem trabalhado loucamente pra que eu própria não precisasse sacrificar tempo de estudo trabalhando. Ainda menos quando trata-se de um calouro alto, forte, bonito, branquelo e bem alimentado, com corte de cabelo da moda, me dizendo que passou em Medicina.

A UFMG não está sozinha nas práticas medievais de recepção de calouros. Contudo, saber que isso está acontecendo na instituição onde eu me formei é particularmente doloroso; é como se, como ex-aluna, eu tivesse algum tipo de dever de zelar pela “imagem” da universidade. Isso influencia todos os dias o modo como eu exerço minhas profissões; quando dava aula, e agora quando reviso e traduzo, penso sempre em como o nome da UFMG influenciou minha contratação de forma positiva, e tento atuar de modo a atender a essas expectativas e não decepcionar os professores que investiram tempo me preparando e corrigindo meus trabalhos.

Infelizmente, tenho a impressão que essa noção muito simples falta aos alunos, veteranos ou calouros, de muitos cursos da UFMG. Para eles, ser aceito na UFMG é um mérito por si só, que, no imaginário deles, deve corresponder a algum tipo de escalada num sistema de castas antigo, um escravo alforriado que sai comprando escravos.

Uso essa metáfora e não é por acaso: essa visão de entitlement e superioridade não vem separada de um preconceito enraizado de forma tão profunda que nem é reconhecida. A meritocracia instituída pelo vestibular é apenas parcialmente responsável por isso; existe também essa supervalorização do bom desempenho nos estudos, como se notas e nomes fossem as únicas coisas importantes na sociedade e o único caminho para a felicidade.

Por causa de tudo isso, o que aconteceu na Escola de Direto não tem nada a ver com “uma brincadeira de mau gosto”. Tem a ver, sim, com ignorância, com falta de respeito e empatia.

Contrariamente do que circula nos comentários asquerosos e abissais das matérias que li em jornais online, nós não estamos passando por uma “ditadura gay” ou por uma “patrulha do politicamente correto”. Isso não existe. O que existe são pessoas que finalmente se unem para mostrar o seu desconforto com atitudes desrespeitosas, ou, no máximo, que tratam pessoas preconceituosas do modo como são tratadas por elas. É natural que o esforço pela igualdade de voz cause atrito. E, ainda que este atrito me force a ver o pior que existe na cabeça deturpada de gente acostumada a ter a voz e a vez, eu me vejo forçada a achar isso uma coisa boa, porque eu estou aqui argumentando em contrário, pessoas argumentam em contrário nos ônibus, nas ruas, na internet, na mesa do buteco.

Uma ditadura gay significaria que todo mundo seria obrigado a trocar a norma culta pelo bichês; que héteros não poderiam se beijar em público, assumir relações em público, e caso o fizessem, seriam presos e torturados. Uma patrulha do politicamente correto bateria na sua porta tarde da noite para perguntar por que você contou uma piada machista na empresa, na hora do almoço, ao invés de te olhar feio e sair andando. Uma dose amargurada de revanchismo dentro de mim é forçada a desejar apenas um dia de ditadura gay e patrulha do politicamente correto, apenas para que os termos imbecis parassem de ser usados.

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Ao Pé da Letras

Eu tenho poucos leitores regulares aqui, mas esses poucos sabem o quanto eu já me envolvi com movimento estudantil na UFMG. Desde que eu sou caloura, já participei de DCE, de eleição pra Congresso da UNE, de gestão de D.A., de comissão eleitoral pra eleição da diretoria da Letras, de representação estudantil na Câmara de Extensão da FALE e na Congregação. Ou seja, ao longo desses quatro anos de Letras, eu já mexi com bastante coisa.

Principalmente, eu sempre tive uma relação muito pessoal com o D.A. Em 2007, quando me mudei pra cá, naquela salinha laranja com tocador de vinil, eu encontrei amigos que até hoje fazem a minha vida em BH ótima. Lá eu encontrei apoio nos meus momentos mais difíceis. Quando me mudei, quando minha avó morreu, quando me vi sem um real pra ir pra Inglaterra. Por causa disso, sempre me mantive a par das gestões, participei de uma, a Gestão 42, 2007/2008, e mesmo que depois eu tenha perdido a eleição seguinte, nunca consegui deixar de me importar.

Por isso, depois de muitos acontecimentos lamentáveis no D.A. Letras desse ano, algo muito singular aconteceu: devido ao absurdo dos acontecimentos, pessoas com quem eu discordei não uma, mas várias vezes no passado, se juntaram comigo pra construir uma chapa que se preocupe primariamente com o D.A. e com a Letras, ao invés dos favores do seu partido, sem a prolixidade patética do que está lá no momento, e sem as risadas sarcásticas diante das críticas. Quanto você ocupa um cargo público – e a gestão de um simples D.A. se encaixa nessa categoria, você deve satisfações e deve respeito a quem te critica, porque você trabalha pra eles. Eu não quero gastar muito tempo falando da decepção que eu tive com a gestão atual, mas só vou deixar bem claro que ela foi suficiente pra que eu me juntasse com outras pessoas que se sentiram tão ultrajadas quanto eu na chapa que leva o nome desse post.

Nessa terça-feira, teremos dois debates, e eu vou estar lá pra responder a perguntas durante a manhã, mas à noite eu trabalho. Vou colocar aqui a carta-programa, e peço que vocês leiam com calma, me tragam perguntas na terça, e me ajudem a colocar uma chapa no D.A. que não recebe dinheiro de nenhum partido e que é feita de uma miscelânea de pessoas novas e antigas na FALE.

“Olá, estudante de Letras!
É chegada a hora de mais uma eleição para o Diretório Acadêmico Carlos Drummond de Andrade, o DA-Letras. Esse é um momento em que refletimos muito sobre nossa faculdade: qual modelo de educação nós defendemos? Quais problemas sentimos em nossa unidade e quais são seus motivos? Como devem nos representar aqueles que elegemos e o que eles devem defender? Como deve se organizar o movimento estudantil da Letras?
Nós somos uma chapa que defende um novo modelo para o DA: queremos construir uma relação Ao Pé da Letras – aproximar cada estudante na sala de aula, construir um DA com democracia, interesse pelo debate e respeito à diversidade. Somos estudantes de ambos os turnos e diversas habilitações, que achamos necessário ter um DA aberto e democrático para poder responder a todas as demandas que tanto sentimos na Letras.

Qual é a FALE que queremos? 

Estudamos em uma faculdade que é uma referência nacional, numa das maiores Universidades federais do país. Porém, sabemos que nem tudo são rosas na FALE. Todos temos muito orgulho de estar aqui e, por isso, achamos que temos que defender com unhas e dentes o nosso curso. Viemos de um processo de expansão que não veio acompanhado de investimentos adequados. Assim, nossos calouros se deparam com salas lotadas e todos nós vemos os professores sobrecarregados com muitos orientandos e disciplinas para lidar. A oferta de disciplinas se torna pobre e temos filas cada vez maiores para o acerto de matrícula… E nossa cantina, então? Para os alunos do noturno, a situação beira o insustentável: temos 10 minutos de intervalo para comer – tempo que passamos, normalmente, todo na fila. Os preços aumentam a cada semestre – o pão de queijo com café, que antes custava 1,20, teve um reajuste de 25%! Mas e nossas bolsas, foram reajustadas também? 
Ainda há problemas de estrutura como o nosso elevador, que data da década de 80, o CAD que deveria ter ficado pronto em 2009 ainda está em obras, nosso xerox, cujas filas constantemente nos fazem chegar atrasados na aula… Exemplos não faltam! Cada um de nós sabe bem o que passamos em cada habilitação, em cada sala. 
A Chapa Ao Pé da Letras defende um DA que aponte alternativas e soluções pra esses problemas. Temos que reivindicar mais contratação de professores, a presença de todas as habilitações para os dois turnos, um novo modelo de acerto de matrículas, uma nova grade que respeite a realidade dos estudantes que chegam à Letras… Mas que, principalmente, esteja presente no dia a dia de cada estudante para saber as demandas de cada habilitação. E é com um DA de todos que podemos nos organizar para poder conquistar as melhorias de que tanto precisamos em nossa faculdade.

Cultura e Lazer: o estudante quer seu espaço!
A Letras é famosa por sua pluralidade de ideias, produções e manifestações: temos músicos, poetas, artistas plásticos, esportistas, produtores culturais, editores… Cada vez mais, nossos colegas avançam em esforços de auto-organização para poder se manifestar na faculdade: temos saraus independentes puxados por estudantes, o Drummônios, nosso time de futebol, a proposta de algumas estudantes de conformar o time feminino, estudantes de graduação que organizam mesas de debates acadêmicos sozinhos… Achamos essas iniciativas essenciais; cada vez mais nosso espaço de expressão é tolhido na faculdade. Nossas festas foram proibidas, muito pouco fala-se sobre a produção literária de nossos alunos, o Drummônios se articula praticamente sozinho… A nossa chapa acha que essas iniciativas têm que ter todo o apoio político, financeiro ou organizacional do DA. Queremos que nosso Diretório Acadêmico ajude na construção de Saraus mensais na faculdade, acompanhe e apoie mais de perto o trabalho do Drummônios, impulsione a formação do time feminino… O estudante de Letras deve ocupar o espaço da faculdade para sua livre expressão e desenvolvimento, e achamos que o DA deve ser um grande ator nesse processo!

Damos um viva à diversidade na FALE!
Nossa faculdade foi palco, neste ano, de dois casos lamentáveis de agressão contra homossexuais: no primeiro semestre, numa festa promovida pelo DA-Letras, um casal de lésbicas foi alvo de insultos e agressões verbais por parte de uma pessoa que foi ao evento. Já no segundo semestre, um outro casal foi constrangido pela segurança da faculdade, a pedido da diretoria da Letras, por se beijarem em público dentro da FALE. Sabemos que casos de homofobia como esses acontecem o tempo todo.
Também sabemos que estudantes não raramente dentro e fora da Universidade são alvo de situações constrangedoras pelo simples fato de serem negros. O racismo, por mais que as elites e a mídia digam que está superado, ainda é sentido muito fortemente pelos negros do nosso país. Nosso curso reflete isso: apesar de haver uma lei federal determinando o ensino de literatura afro nas escolas de ensino fundamental e médio, nós, futuros professores, até hoje não temos disciplinas em nossa faculdade voltadas para a herança cultural do povo negro. 
Outra ideologia vastamente difundida na sociedade é o machismo. As mulheres são tratadas como objetos seja nos veículos de comunicação ou em situações bastante comuns nas universidades, como nos trotes machistas em que quase sempre estudantes são expostas a situações opressoras e humilhantes. O machismo se reproduz também na FALE: a nossa graduação é majoritariamente composta por mulheres, mas nossos professores são em sua maioria homens. Muitas de nossas alunas são mães e não têm uma assistência estudantil diferenciada que as permita conciliar seus estudos com a maternidade e por isso muitas abandonam o curso.
Precisamos de um DA que combata cotidianamente as opressões em nossa faculdade. Nós da chapa Ao Pé da Letras nos propomos a atuar no sentido de promover eventos e debates sobre os temas relativos às questões de gênero, raça e sexualidade. Apoiaremos iniciativas acadêmicas, culturais e políticas de combate ao preconceito e desenvolveremos campanhas em defesa dos direitos dos negros, mulheres e LGBTs.

A Educação no Brasil vai mal
Por que temos de estudar em salas lotadas? Por quer sofremos com falta de professores, ofertas de disciplinas ruins, um elevador que sempre estraga e um CAD que nunca fica pronto? A verdade é que falta investimento em nossa faculdade. Porém o problema não se restringe ao curso de Letras: todos sabemos que a educação no Brasil não é prioridade. Acompanhamos esse ano em nosso estado a heroica luta dos professores Estaduais em greve, reivindicando o simples cumprimento de uma lei nacional que determinava o piso salarial; greve esta que foi duramente reprimida pelo governador Anastasia, mas que, ainda assim, durou 112 dias, sendo a maior greve de professores da história de Minas. Mas por que não se investe em educação? Se olharmos os dados do orçamento da União de 2010, vemos que apenas 2,89% foram destinados à educação, enquanto 44,93% são destinados aos juros e amortização da dívida, além dos bilhões de reais de dinheiro público que são perdidos todos os anos em escândalos de corrupção. A Chapa Ao Pé da Letras acha necessário defender a educação como prioridade, e por isso escolhemos construir a campanha e o plebiscito nacional em defesa do investimento de 10% do PIB para a Educação Pública Já! A Educação não pode esperar!

Democracia e abertura para construir um novo DA Letras
Só é possível construir um movimento estudantil na Letras que represente e inclua os estudantes se tivermos democracia interna e abertura ao debate. 
Infelizmente, não foi o que vimos nesses últimos dois anos de gestão Travessia. Não podemos tomar as principais decisões em reuniões secretas e de portas fechadas. Não podemos decidir sozinhos para onde vai todo o dinheiro e não prestar contas aos estudantes! Para estar ao pé da Letras, nós defendemos:
– Que TODAS as reuniões sejam abertas e divulgadas, para que qualquer estudante possa participar e opinar no cotidiano do D.A.
– Gestão democrática e horizontal, na qual a divisão de cargos não determine nenhum poder maior. 
– Boletins periódicos (impressos ou virtuais) para criar um ambiente de comunicação e troca
– Conselho de representantes de cada habilitação, para fortalecer a representação estudantil
– Eleição aberta para nossos representantes nos órgãos colegiados para que qualquer um possa se candidatar e para que todos conheçam quem nos representa 
– Prestação de contas periódicas para que todo estudante saiba para onde vai o dinheiro
– Revisão do estatuto do D.A., por meio de uma assembleia estudantil. 

Enfim, somos uma chapa que defende abertura e democracia no nosso DA-Letras para conseguirmos as mudanças que defendemos e conquistarmos a FALE que queremos!

Estão ao Pé da Letras:
Aline Sobreira, Amanda Barbosa, Amanda Bruno, Amanda Pavani, Ana Beatriz Fonseca, Bruno Reis, Carolina Arantes, Cristiano Vieira, Daniela França Chagas, Daniel Dalsecco, Érico Colen, Fábio Castro, Francisco Danilo (Chicão), Franz Galvão, Gabriel Gil, Gabriel Prado, George Vallestero, Isadora Manna, Lais Alves, Lívia de Melo, Mara Silva, Mariah Mello, Melina Rocha, Moisés Borges, Paula Tamiris, Rayana Almeida, Rebeca Buarque, Ricardo Malagoli, Stela Ferreira, Tavos Mata Machado”

Essa é a versão mais recente. Uma mais afinada deve sair amanhã, ou antes dos debates de qualquer forma. Peço que vocês analisem nossas propostas, conversem com a gente e façam todas as perguntas que desejarem, e também que, por favor, divulguem pra todos os colegas letreros.

Eu disse que a chapa é apartidária, mas quero lembrar que nela tem pessoas pertencentes a partidos. Isso não significa que os interesses partidários serão em qualquer momento colocados acima dos interesses dos alunos da FALE e da UFMG em geral. Peço apoio e ajuda para que a representação dos alunos seja de fato representativa, o que quase nunca acontece, já que todo ano é o mesmo sofrimento para atingir o número mínimo de votos.

Não temos também a intenção de cortar quaisquer que sejam as práticas que foram acertadas da gestão atual, e não queremos animosidade. Só cuidar do D.A. e fazer com que ele volte a ser um lugar receptivo como já foi, sem puritanismo e sem julgamentos, aberto ao diálogo.

A Vergonha Hetero

Apesar desse assunto me dar bastante raiva, hoje eu quero fazer um post bastante didático, porque se eu não escrever vou acabar tendo que ir dormir e tal.

Desde que o mais novo absurdo da sociedade brasileira veio à tona, muita gente tenta defender o tal projeto sobre o dia do “orgulho hetero”, os trolls da internet ganharam mais esse alimento para atacarem blogs de esquerda e de minorias sociais. Por mais que os trolls ocasionalmente me intriguem, eu quero começar falando da forma mais simplista que eu puder sobre datas comemorativas.

Há vários motivos para os diferentes feriados ao longo do calendário brasileiro. O mais comum é o motivo religioso; mais especificamente, os feriados da igreja católica, que ainda que perca fiéis todos os dias para o ateísmo, o espiritismo e as seitas pentecostais, continua sendo a maior força religiosa do país. Esses feriados não são votados em lei; meio que estiveram sempre lá e nem quem não é religioso reclama porque, afinal de contas, é um final de semana prolongado. A mídia sempre aborda esses feriados, ano após ano, da mesma forma: passam todos os filmes de Jesus já feitos, colocam decorações nos seus programas para donas de casa, e no fim do ano a Globo liga pro Roberto Carlos.

Existem outros feriados, os comerciais: dia dos pais, das mães, das crianças, dos namorados – claro que dá pra colocar a Páscoa e o Natal nessa conta, mas vocês sabem do que eu estou falando: dias sem nenhum motivo relevante pra sociedade atual, que dificilmente podem ser chamados de celebrações, porque quando chegam só se ouve uma reclamação enlouquecida sobre dinheiro gasto com presentes (e com motel, no caso do dia dos namorados). Nesses feriados, a mídia cai em cima mais com propaganda. Perfumes, brinquedos, roupas, jóias, etc, etc.

Na terceira categoria que vou marcar aqui vou colocar os feriados novos, nos quais não tem nenhuma paralisação em trabalho ou mesmo na programação de filmes da tv. Temos aí o dia do índio, dia da consciência negra, dia de combate à aids, dia da mulher (que é explorado pelo mercado, também), etc. etc. A disseminação desses feriados tem dois mecanismos: nas agendas escolares, e na matéria de fundo do jornal local sobre a minoria representada naquele dia.

Essa terceira categoria não envolve presentes, não envolve nem mesmo algo alegre. Essas datas estão aí pra nos lembrar de coisas ruins. Pra nos lembrar da situação encurralada dos índios no Brasil, pro constante tratamento diferente que negros recebem na nossa sociedade, etc. etc. São feriados criados para tentar preservar a memória da população e para causar reflexão sobre alguns temas. Essa reflexão, por sua vez, teria mais dificuldade de ser internalizada se não fosse revisitada todos os anos – porque envolve as dificuldades ou a tragédia de um grupo ou indivíduo que de alguma forma represente uma minoria na sociedade.

Vale lembrar que quando falamos em minoria, não estamos falando de números absolutos. Afinal, os negros e pardos são mais numerosos no Brasil, assim como (se não me engano) temos mais mulheres do que homens. Essa disparidade que permite que chamemos grupos como negros e mulheres de minorias está relacionada ao seu alcance político, econômico e social.

Não existe motivo para que separemos datas no nosso ano já bem apertado para os segmentos que já tem seus interesses representados em 95% dos telejornais. Não existe motivo racional para um dia da consciência heterossexual simplesmente porque todas as instituições possíveis e imagináveis pensam primeiro no hetero. Ele é maioria. Ele tem todos os dias do ano já de começo.

Aqui eu vou inserir um pequeno causo. A certa altura do meu intercâmbio eu comprei uma bandeira do Brasil e deixei no meu quarto. Contei o caso animada, e uma espanhola me contou sobre como eles tem pouco ou nenhum apego à bandeira da Espanha, pelo que aconteceu durante a era Franco e também porque não existia, na opinião dela, uma identidade nacional espanhola. O mesmo valia para o hino. Um inglês me disse que eles tinham sérios problemas pra se afirmarem como nação, não porque não tivessem um sentimento de unidade, mas porque muitos achavam difícil se orgulhar de um país que massacrou e dominou tantos outros povos no desespero cego de continuar sendo uma hegemonia. Quando tanta gente foi assassinada sob uma determinada bandeira, fica difícil ter orgulho dela.

Agora vamos transferir esse raciocínio do inglês. Digamos que você olhe no espelho e diga pra si mesmo: eu sou branco/a. Sinceramente, que tipo de pensamentos vêm à sua cabeça? Vou aqui fazer um brainstorm pessoal, já que pros nossos padrões, eu tenho pele branca (lembrando que essas tonalidades são relativas dependendo do lugar).

Quando penso que sou branca, imediatamente me lembro que o mundo me trata melhor do que muita gente. Claro que isso faz a minha vida boa, mas como pensar que sou tratada “melhor” sem me lembrar de que existe alguém na outra ponta dessa comparação? Como sentir orgulho de ser branca sendo que pessoas com a mesma identidade racial minha durante milênios escravizaram e assassinaram pessoas que tinham outras opções de vida? A atitude dos brancos através da história com outras etnias pra mim é resumível na carta de Pero Vaz de Caminha. Ele fala algo parecido com “mas acredito que os selvagens sejam dóceis e completamente vazios. Não parecem ter nenhum conhecimento de deus e nenhuma cultura. Não teremos problemas para catequisá-los.” Os brancos sempre partiram do pressuposto que, porque outras etnias não tinham a mesma cultura, isso era sinal de que não tinham nenhuma.

Isso sem nem mencionar o evento histórico mais citado da vida: o nazismo. Como ter orgulho de ser branco? Não dá. No máximo a gente consegue concluir que não teve nenhum poder de escolha sobre o fato de ter nascido branco.

Assim como ninguém escolhe nascer negro, gay, mulher, índio, pobre… Mas mesmo sem ninguém ter feito nenhuma escolha, o branco tem inúmeras vantagens procurando emprego, tendo acesso à educação, só pra não dar exemplos demais.

Fica a lição de casa. É só dizer em voz alta: “eu sou heterossexual”. O que te passa pela cabeça?

Hoje em dia, eu sinto vergonha.

Maratona: A Ordem da Fênix

You are a fool, Harry. And you will lose everything.

Um pouco antes do quinto livro ser lançado, eu já escrevia fanfics e ocasionalmente publicava colunas na Edwiges Homepage. Numa dessas colunas, eu me fazia a pergunta que nenhum livro ainda tinha respondido: por que, afinal de contas, Voldemort queria tanto matar Harry?

Quer dizer, o moleque tinha um ano, nem tinha tido chance de fazer alguma coisa que aborrecesse Voldemort. E não dá também pra dizer que Voldemort queria destruir toda a família. Desde o começo da série, J.K. tinha deixado bem claro que Voldemort dissera a Lily Potter pra sair da frente, e que ela não precisava morrer – o que ele queria era o menino. Uma vez morto, ele parecia ser indiferente ao destino de Lily. Ainda assim, ela não saiu da frente do filho, e enfrentou Voldemort sozinha e desarmada – por culpa da teimosia e da coragem da mãe de Harry, nós tivemos essa história toda. Sabemos que ele foi protegido pelo sacrifício de Lily, mas não sabemos por que ele foi necessário. Depois de ponderar todas essas coisas, acabei chegando à conclusão de que a única explicação era que Harry fosse alguma espécie de “predestinado”, como eu argumentei na época.

Desnecessário dizer que eu me orgulho muito dessa coluna, porque eu estava certa.

Harry Potter e a Ordem da Fênix, lançado em 2007 (quase que ao mesmo tempo do sétimo livro – 2007 foi um ano e tanto) é minha segunda adaptação favorita. Digo segunda porque até agora a parte um do sétimo livro continua sendo a melhor… Veremos como será domingo. Dirigido por David Yates, que ficou na mesma posição durante os filmes seis, sete parte um e parte dois, A Ordem da Fênix tem uma vantagem astronômica sobre todos os outros filmes da franquia: seu roteiro não foi escrito por Steve Kloves. Isso significa que Hermione voltou a falar apenas o que lhe cabia, que as informações mais importantes foram passadas. Inclusive, Michael Goldenberg até consertou erros do Kloves: lembram-se que ontem eu reclamei que Cálice de Fogo não menciona o fato dos pais de Neville serem heróis que resistiram à tortura? Pois é; no meio do quinto filme ele coloca Neville pra confessar a história a Harry, num momento muito oportuno, visto que Bellatrix Lestrange, a mulher que torturara seus pais, tinha acabado de escapar de Azkaban.  Esse roteiro, claro, é forçado a cortar fatos, mas diferente de Kloves, sempre tenta explicar as coisas de uma forma ou outra.

Outro exemplo mais claro desse bom amarramento é que duas cenas fantásticas do livro são misturadas em uma só no filme: ao mesmo tempo que Fred e Jorge Weasley fazem a façanha de envergonhar Umbridge e fazer o maior espetáculo de quebra de regras que Hogwarts já viu, Harry tem a visão de Sirius sendo torturado por Voldemort, durante os exames.

As visões que Harry passa o ano todo tendo das atividades de Voldemort o atormentam, culminando no momento em que Arthur Weasley é quase morto e de forma meio irracional, ele se sente culpado por ter visto a coisa toda. Aqui o filme podia ter mantido uma das poucas cenas boas de Gina Weasley: quando ela diz que Harry não podia estar sendo controlado por Voldemort simplesmente porque não tinha nenhum dos sintomas. E acrescenta que se ele não ficasse se martirizando e fugindo de todo mundo, se ele simplesmente tivesse ido até ela, a única pessoa que ele conhecia que já fora controlada por Voldemort, e perguntado, ele saberia logo a resposta e não ficaria naquele sofrimento. Essa cena poderia ter ajudado o expectador a ver melhor a Gina, ao invés de só focar nela quando ela faz algum feitiço poderoso ou quando ela faz uma cara de ciúme de Cho Chang. Assim quem sabe a gente não acharia TÃO esquisito o súbito aumento de importância dela no filme seguinte.

Uma vez estabelecido que Harry não pode ser assim tão vulnerável à mente de Voldemort, ele começa a ter aulas de Oclumência com Snape. Isso é particularmente problemático, porque Harry é em essência uma pessoa muito aberta e óbvia com seus sentimentos. Isso é uma das coisas mais bonitas em Harry e é algo que eu, Amanda, gosto muito nas pessoas: quando você sabe o que aquela pessoa está sentindo, quando ela é incapaz de jogar com os sentimentos ou com as impressões dos outros. Sendo assim, Harry enfrenta longas horas de Snape fuçando em suas memórias mais valiosas, até que finalmente ele revida.

E há! Toda a imagem de Tiago/James Potter como um santo virtuoso que Harry tinha cai por terra. Seu pai era na verdade um valentão imbecil. Não só isso, como ele humilhava Snape em Hogwarts exatamente como Draco ou Duda humilhavam Harry. Ele se sente profundamente traído – essa, como todas as consequências psicológicas nos filmes, não é muito explorada, mas pelo menos é mostrada. Aquela cena é importantíssima não só para a inversão de papéis de James e Sirius, mas também de Snape. Infelizmente a cena não foi completamente adaptada, não temos Lily impedindo James ou Snape a chamando em seguida de Sangue-Ruim, mas ao menos temos dessa vez a idéia geral.

As duas personagens de hoje são muito bem construídas.

Luna Lovegood é uma excluída. Todos em Hogwarts estão convencidos de que ela é meio maluca, então desde sua entrada em Hogwarts um ano depois de Harry, as outras crianças se divertem às custas dela, escondendo seus objetos. A única amiga que Luna parece ter na altura em que Harry a conhece é Gina. O comportamento de Luna frente à adversidade não é só chocante para Harry, mas como também o faz ter vergonha de si mesmo: Luna não reage. Não briga, não revida. Ela apenas trata as pessoas bem e age com uma sinceridade muita vezes pouco benéfica à socialização. Ela explica a Harry o que são os novos animais mágicos, os testrálios, visíveis apenas para quem conhece a morte – para aqueles que já viram alguém morrer. Devido à morte de Cedric, Harry agora podia vê-los.

Não é segredo pra ninguém que no fim Harry acaba namorando Gina, eles até se casam e têm filhos, mas desde a primeira vez em que Luna aparece, eu quis sinceramente que Harry acabasse ficando com ela. Nem tanto por Harry ser um dos meus personagens favoritos, ele não é. Acho que eu queria que a série fosse Harry/Luna porque eu queria que pelo menos na ficção o herói ficasse com a esquisita no final. E, aparentemente, Goldenberg compartilha dos meus sentimentos: Luna tem muito mais falas no filme do que no livro, ao fim do filme até segura a mão de Harry de um modo neutro – mal interpretado por mentes poluídas como a minha. Ela se torna um dos principais membros da Armada de Dumbledore; do círculo mais importante, ela é a personagem mais recente.

A Armada de Dumbledore é o símbolo do teor político de Ordem da Fênix, que é outro elemento que me faz adorar essa parte da série. Parece loucura que o governo não admitisse o retorno de Voldemort, não é? Mas ainda assim, o Ministro da Magia se nega terminantemente a admitir que a sociedade bruxa está de novo em risco, porque isso o prejudicaria politicamente; assim, segue com uma campanha para desacreditar Harry e Dumbledore, vistos então como loucos ou mentirosos. Sinceramente? Eu acho esse tema do livro/filme quase educativo. J.K. está mostrando a pessoas como o poder cega e como a política pode facilmente distorcer a verdade através dos meios de comunicação. Qualquer pessoa com dois neurônios no mundo mágico sabe que o Profeta Diário está sendo manipulado, assim como qualquer pessoa com dois neurônios sabe que a Folha de São Paulo exerce uma manipulação descarada sobre a veiculação das notícias – e é aí que cheamos à triste percepção de que muito menos gente do que nós imaginamos tem mais de dois neurônios.

It’s revolution, baby!

Frustrados com a censura e com a injustiça, o trio resolve criar um grupo para praticar mágica secretamente, afim de se prepararem para lutar contra as Artes das Trevas. O filme mostra isso magnificamente: as sequências de feitiços praticados, Filch tentando encurralá-los, Ron perdendo feio pra Hermione, Luna conjurando um patrono, Gina reduzindo a pedaços o que quer que fosse aquele objeto antes, todas essas coisas são lindamente representadas no filme.

A Armada de Dumbledore é a versão mirim da Ordem da Fênix, que batiza o livro/filme, pouco mencionada até aqui porque é só o renascimento do grupo de resistência da guerra, antes da morte dos Potter. A Armada é estendida, no livro sete, à própria personificação da resistência, o que eu acho muito bonito.

Com uma exposição tão heróica, não é de surpreender que Harry finalmente dê seu primeiro beijo, com Cho Chang, a tal apanhadora bonitinha da Corvinal. No filme a coisa não vai pra frente porque ela supostamente trai a Ordem da Fênix, mas no livro nós sabemos que foi a amiga dela, e que eles terminam porque – pasmem! – Cho tinha muitos ciúmes de Hermione. Louca.

A segunda personagem (não paro nunca mais de escrever, socorro) é Umbridge. Apontada pelo Ministério para manipular ensinar Defesa Contra as Artes das Trevas, Umbridge proíbe o uso de varinhas, a afirmação da verdade, o contato entre meninos e meninas, as agremiações, os professores esquisitos, a respiração, até a lei da gravidade ela tenta proibir. O modo dissimulado de punir, o seu desespero por controle, seu preconceito e, mais horrível do que tudo, sua preferência doentia pelo rosa fazem com que ela sem dúvida seja a personagem mais odiosa de toda a série. Pouca coisa traz mais satisfação do que a despedida dos gêmeos de Hogwarts, ou do que ver os centauros arrastando a louca Miriam Rios Umbridge floresta adentro. Ela retornará no sétimo filme parte um, como veremos sábado.

Finalmente, temos a primeira grande morte da série. Enganado por Voldemort, Harry sai pra salvar um Sirius que estava em segurança dentro da Mansão Black. Tudo se desenrola horrivelmente, com Bellatrix matando Sirius. Nesse momento do filme eu precisei acalmar o meu desespero que sempre se repete nessa parte pra perceber como o silêncio é usado muito bem nessa adaptação como trilha sonora. Silêncio como trilha sonora? É. Yates entendeu que certas dores são tão horríveis, tão inexplicáveis e tão injustas, que nada transmite o sentimento melhor do que o silêncio. Harry entra em desespero (numa ótima atuação de Daniel Radcliffe, que continua melhorando desde o quarto filme) e Lupin imediatamente o segura, impedindo que ele tente seguir o padrinho. A única pessoa que significava uma família para Harry agora está morta, simples assim, e seu sonho está mais uma vez arruinado.

Talvez por isso o efeito da conclusão seja tão grandioso. Voldemort, depois de duelar com Dumbledore, tenta explorar esse ódio em Harry possuindo-o. Pouco tempo depois fica claro que ele seria incapaz de controlar Harry, justamente pelo motivo que não o deixa aprender Oclumência: ele se importa demais. Ele ama demais – e Voldemort é incapaz de entender esse tipo de laço. Nesse ponto o filme fica muito clichê, com Harry dizendo que sente pena de Voldemort, mas eu perdôo; todos temos direito a um bom clichê de vez em quando.

O Ministério da Magia é então forçado a admitir o retorno de Voldemort, porque todo esse faroeste que descrevi nos últimos parágrafos foi dentro do próprio ministério. O filme termina com muita tristeza, e com aquela sensação que a gente as vezes sente na vida, resumível em uma simples palavra:

fudeu!

Ah, e sabendo que hoje era o dia do filme cinco, eis o que fiquei cantando o dia inteiro:

WE’RE DUMBLEDORE’S ARMY!

E amanhã *suspirando* o filme seis, Half Blood Prince, ou aquele-que-não-deve-ser-assistido.

O Campo Minado dos Comentários

Noite passada eu tive um sonho muito interessante.

Pra resumir, eu sonhei que estava brigando com o Bolsonaro!

Ele estava em algum tipo de entrevista coletiva, e eu por algum motivo estava na primeira fileira de pessoas, bebendo alguma coisa. Em determinado momento ele falava alguma coisa e eu cuspi – isso mesmo, cuspi! Nele, e passei uns bons cinco minutos falando uns impropérios pra ele, começando com “você me enoja” e afins. No sonho, eu nem estava brigando com ele por causa do desespero diário dele de tirar todos os direitos humanos dos homossexuais, mulheres, negros, mulheres negras homossexuais, não. Acho que ele estava sendo acusado de algum tipo de crueldade com animais.

Enfim, o que é mais maluco, pouco depois de ter falado umas poucas e boas pra ele, eu descobri – ou sempre soube – que a tal coletiva estava sendo transmitida ao vivo – e, claro, estava recebendo comentários ao vivo. Eu me lembro até de ler os comentários no meu computador em tempo real, dizendo que “aquela amanda” só podia ser “uma lésbica mal amada, ignorante, baixa, vulgar, vagabunda, e que o excelentíssimo deputado Bolsonaro estava tratando o caso com dignidade” (ele tinha escutado em silêncio todo o meu xingamento, com aquela cara de bunda fedida dele, porque, claro, não tinha resposta e porque eu sempre ganho os argumentos no meu sonho).

Depois que eu acordei e pensei no que tinha sonhado, fiquei impressionada com o grau de base na realidade que o meu sonho tinha tido – isto é, se você esquecer a parte em que eu conheço o Bolsonaro pessoalmente e ele sai com vida.

Uma atitude nova na leitura de posts em blogs e notícias é procurar ver o teor dos comentários. Vocês também têm sentido essa mudança? Especialmente na Falha de São Paulo. Você lê aquela manchete, nada tendenciosa, que diz por exemplo, que a Dilma tá passando um tremendo aperto pra colocar alguém no Ministério dos Transportes. Quem já conhece a Falha sabe que ela vai construir o texto de forma que a Dilma apareça como incompetente e fraca. Então a nova do verão é ir direto pros comentários, que são moderados num estilo que me lembra muito a liberdade de expressão praticada na República Popular da China (que não é república e tampouco popular), escritos por cidadãos de bem da classe média alta brasileira (cofpaulistanacof).

“os PTralhas dominam o nosso país”

“e a copa está chegando, vai ser uma vergonha”

“volta FHC!”, que pode ser lido “quebra meu país de novo, por favooooor”

“nada contra os homossexuais, mas eu acho que eles não têm decência, espalham doenças sexualmente transmissíveis, cometem pedofilia com crianças a cada oportunidade”

“deus fez adão e eva, ALELUIA!”

“se fosse nos eua esses ptralhas já estariam todos na cadeia, lá é que as coisas funcionam”.

Eu não sei se vocês compartilham a minha impressão, mas tem dias que eu me próíbo de ler caixas de comentários, pra poupar a minha beleza. A sensação é que existe algum tipo de Esquadrão da Ignorância que passa 24hrs por dia online, comentando em todas as notícias a mando do pastor da pentecostal, com ordens explícitas de defender o direito de discriminação do homem branco católico heterossexual e tratar como doente e criminoso todo e qualquer outro estilo de vida alternativo.

Lembram da época em que o Bolsonaro estourou como hit da ignorância do verão passado? Na época eu fiz um vídeo, que pelo menos eu e as pessoas que eu conheço na vida real julgaram óbvio, no qual eu discorria com certa irritação sobre os limites (tão simples!) entre liberdade de expressão e incitação ao ódio. Lembram de como a gente ficou puto e depois pensou “não, esse é só um palhaço sem nenhuma representação”? Eu recebi alguns comentários argumentativos, outros discordando, mas ainda com cordialidade. Mas a maioria maciça dos comentários, depois de um tempo, consistiam invariavelmente de gente especulando sobre a minha sexualidade, dizendo que eu sou feia, estúpida, burra. Bem, a minha feiúra não faz o meu argumento ser menos consistente, eu sinto muito. Tentar me chamar de lésbica numa tentativa de me ofender é no mínimo estranho, porque é o mesmo que eu chegar pra alguém que gosta muito de Harry Potter e falar “Seu… seu… seu fã de Senhor dos Anéis!

Não é que existe toda uma camada da sociedade, com quem nós dividimos ar, espaço e banco no ônibus que pensa igualzinho a ele?

As perguntas que ficam na cabeça, pelo menos pra mim, são: até que ponto esses trolls das caixas de comentários pelo mundo são apenas um número limitado de pessoas infelizes e tristes, que parecem numerosos na internet mas na vida real não são? Como agir quando você conta pra alguém muito próximo o absurdo que a lamentável ex-esposa do Roberto Carlos, ex-atriz, ex-modelo e ex-humana disse a respeito de homossexuais e pedofilia, pra ver a pessoa querida parar, pensar e dizer: “ah, ela tá certa nisso, eu não sou obrigada a contratar um gay!” COMO VOCÊ REAGE?

Sad Keanu está desapontado com os bolsonarianos.

Dá vontade de chorar, não dá? Desde que TUDO virou liberdade de expressão, atitude defendida pelo Bolsonaro, pela Miriam Rios, pelo Rafinha Bastos, pelo Silas Malafaia e outras pessoas memoravelmente ignorantes, não exite mais nenhum freio para o preconceito. Junto com a homofobia, de repente tudo é permitido: mulheres deveriam voltar pra cozinha (visão essa militada por um blog de “humor” que eu não vou linkar), negros deveriam voltar pra África (de acordo com um PROFESSOR UNIVERSITÁRIO), nordestinos aumentam a criminalidade (ao invés de aquecer a economia, expandir cidades, arrumar trabalhos difíceis e mal pagos que os magnânimos comentaristas nunca fariam). Eles se julgam protegidos pela liberdade de expressão e se sentem profundamente ameaçados por medidas como a PL 122.

Por que essa medida que criminaliza homofobia tanto quando discriminação racial é uma grande ameaça? Bom, porque ela é o epitáfio de um direito que tem sido exclusivo da casta dos comentaristas há séculos: o direito de discriminar. Imagina só se uma seleção de emprego for só baseada na competência?? Os céus vão se abrir em chamas e tudo volta ao pó.

O gay da novela da Globo

Faz dias, semanas, meses, que eu ouço os homofóbicos bradarem, na defensiva: “A tv quer que todo mundo seja gay!”

Vamos conversar sobre isso. Eu costumo ilustrar minhas opiniões com histórias da minha vida real, né? Pois é. Eu nasci e cresci numa cidade pequena, com menos de dez gays assumidos. Nenhum deles cruzou meu caminho nos dezoito anos que passei aqui, então cheguei verde na cidade grande. Em 2007, não tinha gay nem no Big Brother, que dirá em novela.  Hoje eu me considero outra pessoa em termos de atitude, opiniões, etc. Mas às vezes alguém daqui conhece algum dos meus amigos gays em Belo Horizonte, e a conversa quando meu amigo se afasta é quase sempre a mesma.

“Amanda, aquela pessoa é… é… GAY?”

“Aham…”

“Nossa, mas nem parece. Ele é tão sério! Nem dá pra dizer de olhar pra ele”.

Quem só assiste tv e vive em ambientes estritamente heterossexuais acaba tendo uma dificuldade quase engraçada de contemplar quando conhece um gay “discreto”. Mas me faltava entendimento dos motivos até voltar pra roça e assistir um pouco de tv.

De fato, os gays estão na tv o tempo todo. Tem gay em todas as novelas (menos nas de época, claro, porque gay é uma invenção do século XXI), no TV Fama, nos programas de comédia, no, han, “programa” da Luciana Gimenez. Os gays de televisão, percebo eu, tem uma função muito parecida com as mulheres ornamentais de cenário: o entretenimento, lógico. Todo e qualquer homossexual mostrado é sempre um pavão, alguém batendo cabelo, alguém fazendo em geral o papel de bobo da corte. É claro que essa exposição tem um lado benéfico, porque as pessoas têm sim que se acostumar a ver travestis, drag queens e etc. na rua sem gritar insultos. O problema é quando essa representação nunca ultrapassa a caricatura.

O gay nunca é representado como uma pessoa, simplesmente. Nunca é alguém que trabalha, que estuda. É sempre uma loca-loca-loca que faria qualquer coisa pra, sei lá, “pegar um bofe” (oi, gíria dos anos 90?), só usa rosa nas novelas, é cabelereiro, etc. Aí a gente vai assistir e observa os apresentadores, jornalistas, analistas (todos o quê? ah, hetero, né?) abordando questões como a Marcha da Liberdade, a Marcha das Vagabundas, a Parada Gay, como se fossem apenas festas em que todo mundo se joga na putaria, fuma maconha e vai pra casa. O expectador concorda, porque só o que ele sabe se homossexualidade é aquele carnaval.

O expectador não está com o amigo gay quando você está andando na rua e o carros passam gritando insultos, ou quando puxam briga numa festa. Não está lá pra ver toda a merda que eles passam diariamente, pra realmente entender porque as manifestações são em forma de festa. Porque é crucial pra eles comemorar a sua causa, pra afirmar a sua própria existência, como quem diz “você não quer, mas eu estou aqui, estou vivo e tenho que ter tantos direitos quanto você”.

Como a mídia – não só a Globo, quem dera se fosse só uma emissora! – mostra os homossexuais e o seu movimento como atividade de quem não tem o que fazer além de procurar alguém pra fazer sexo, o expectador está anestesiado com relação à verdadeira desigualdade. Como ele vê o Christian Pior o tempo todo, ele não pensa que gostar de gente do mesmo sexo possa ser um traço que vem sem a parte de “causar”, e portanto não entende como os homossexuais podem continuar reclamando de falta de espaço quando estão na mídia o tempo todo! Certamente a mídia do mal só quer que todo mundo seja gay!

Não, meu amigo, muito pelo contrário. Esse gay sem variável que lhe é apresentado via novela das sete (que é geralmente a que tem o marcos pasquim sem camisa fazendo o macho alfa, também) é um bobo da corte, que só serve pra te fazer rir, nunca pra realmente marcar presença e ser aceito com a mesma seriedade de um heterossexual. É igual colocar mulher negra em novela, mas sempre no papel de empregada. É sempre aquele personagem com uma função, fazer rir, servir, inspirar pena.

Você não vê o Jean Wyllys, por exemplo, que é um dos deputados mais importantes na causa homossexual. Você não vê a Marta Suplicy, hoje milhões de vezes mais importante politicamente do que o ex marido, militando pelas mulheres e pelos homossexuais. Não vê jornalistas, professores, nem mesmo recebendo  espaço pra falar num jornal. É sempre a imagem deles e um voice over do apresentador.

Tem gente, que, quando me ouve reclamar dessas coisas, só diz: então não assista televisão, é uma merda, não tem jeito. De fato, a tv é horrível, mas desligá-la não vai fazer com que ela pare de propagar preconceitos.

Pílulas de abril

Na minha ausência (indolência) dos últimos dias, diversos temas pra postagens passaram pela minha cabeça. Abril foi um daqueles meses em que praticamente nada aconteceu. Resolvi apenas falar brevemente sobre diversos assuntos ao invés de me aprofundar em um só. Caso você tenha sentido falta da brilhante escrita do grande talento do futuro, Amanda Pavani, você pode matar a saudade dos meus sons literários. E eu falo um pouco mais sozinha pra manter a sanidade.

– Sempre adorei jogar The Sims, desde pequena, quando só tinha a opção de ter adulto ou criança e vc selecionava só uma cabeça e um corpo na hora de criar. Desde o lançamento da terceira versão eu fiquei deprimida achando que nunca poderia jogar, mas eis que com o advento do meu computador inglês, batizado em dezembro de Matrix II, um download de proporções históricas foi efetuado e assim eu consegui sobreviver às horas infinitas de tédio. Fico feliz em anunciar que o casamento gay já foi aprovado no mundo dos Sims; não só o casamento gay, mas o casamento entre espécies – humanos podem se casar com vampiros (crepúsculo, oi???). Curiosamente, não se fosse nem flertar com Sims de idade diferente, a não ser que sejam adultos e velhos.

-Fiz maratonas de Harry Potter e de Senhor dos Anéis. Ridiculamente torci e me emocionei como sempre me emociono. Nos últimos meses, na verdade, eu tenho revisto coisas das quais eu gostava muito há anos. Tipo Digimon. Lembra que tinha aquele filme em três partes, que a do meio tinha os digiescolhidos da velha guarda numa batalha dentro da internet? Pois é, eu achava que era o último registro do Tai e dos outros, mas tem um filme pós segunda temporada, de trinta minutos só, “A vingança de diaboromon”, no qual dá pra ver todos eles!

-Como resultado de rever todas essas histórias cheias de heróis, eu andei pensando demais na minha própria história de fantasia, com título provisório de O Camafeu – até eu pensar em algo melhor – que eu já mencionei neste post e constantemente a Melissa me pergunta se eu escrevi mais, só pra ficar decepcionada comigo. Eu penso nos personagens. Vejo cenas de amizade, de heroísmo, de romance, penso na minha própria história. Se sinto tanta vontade de escrever, por que não sai nada?

-Trabalho. Voltei a garçonetar. Alguns dias são bons, alguns uma merda. Amanhã, por exemplo, vou trabalhar cerca de doze horas, no interior da Inglaterra. Isso significa acordar seis e pouco da manhã, pegar o ônibus 68 até a estação de trem de Waterloo, descobrir como faz pra imprimir minha passagem de trem, descobrir onde é a plataforma do trem, ir pra Ascot, encontrar o tal Royal Ascot Racecourse e ser encaminhada para o lugar onde eu vou ficar trabalhando. Vou ganhar almoço, pelo menos.

-O estranho de trabalhar aqui é que eu me sinto meio que sambando entre duas classes economicas. Quando cai o salário eu tomo cervejas, compro presentes, livros, faço o que bem entendo, super classe média sofre. No dia seguinte eu acordo de madrugada pra passar muito tempo falando ‘yes sir’ de forma tão compulsiva que já chamei altas mulheres de ‘sir’ sem querer. Parei de pintar as unhas porque não pode ter nada que te individualize nesse trabalho. Fui obrigada a perder a fobia de telefone que eu tenho, senão simplesmente não tem trabalho! Enfim, várias coisas.

-Finalmente a temperatura aqui está amena, entre 16º e 25º. Pro meu desespero, quando faz 25º, eu passo um calor do inferno e me preocupo com minha readaptação.

-Ultimamente tenho comprado muito mais livros do que eu devia por questões de malas. Tenho um total de quatro Jane Austens (um deles é presente pra Melissa), o box de His Dark Materials, a edição de aniversário de Harry Potter e a Pedra Filosofal, Frankenstein, um Charles Dickens e minha nova grande descoberta, dois livros do John Green. Se você não conhece John Green, prepare-se pra ver sua vida melhorar instantaneamente:

Pois é. Ele tem esse vlog com o irmão dele, Hank, e é um autor publicado no mundo todo. Comprei dois livros dele até agora, “Looking for Alaska” e “An Abundance of Katherines”. Menos de cinco libras cada! Como resistir? Ele é tão engraçado escrevendo quando falando, o que é dizer muito!

-Eu sei que muitos dos meus amigos detestam o Felipe Neto, o vlogueiro carioca que grita. Pois é, eu entendo. Mas no vídeo mais recente dele – que não vou forçar vocês a assistirem, sejam gratos – ele lançou uma campanha contra o absurdo dos impostos cobrados sobre eletrônicos importados no Brasil. Tá certo que durante a maior parte do vídeo eu dei umas risadinhas egoístas (da série ‘tralalala estou em londres comprei tudo que eu queria sem esses impostos doidões…’), no pior estilo classe média sofre de novo. A verdade é que eu tenho passado muito tempo rindo das reclamações da classe média decadente no Brasil, que está inconformada com os milhões que saíram da miséria – quem é que vai trabalhar dezoito horas por dia por cinco reais agora?), um pensamento muito disseminado num vídeo hilário do Adnet que eu tô com preguiça de publicar agora.

Eu disse tudo isso pra dizer que bom, eu dou risada deles, mas a verdade é que o próximo grande problema a ser resolvido no Brasil é o exagero da carga tributária. Isso não é novidade pra ninguém. Só porque eles não conta (LOL) não quer dizer que eles tenham que pagar impostos muito mais altos do que o necessário. A gente sabe muito bem que a máquina pública precisa de uma enxugada e aí não precisaríamos de tantos impostos. Veja bem, depois de mostrar como os preços dos eletrônicos praticamente quadruplicam nas lojas brasileiras, o Felipe Neto se comprometeu a criar esta página, na qual ele coleta dados de apoiadores para encaminhar ao governo. Eu não sou grande entusiasta de baixo assinados, porque nunca na minha vida vi algum resultado deles. Se vocês puderem assinar e passar pra frente, seria bom. Obrigada!

-Você sabia que dá pra achar todos os episódios de Sai de Baixo no youtube? Entra lá, é só alegria!

-Por último, e mais importante: UM MÊS PRA EU VOLTAR PRO BRASIL! UHUUUUU