Sobre os managers

Quando eu fiz o treinamento, teve muitas poucas coisas que eu não levei a sério. Toda empresa tem, eu imagino, aquele papo besta sobre o tanto que eles são relevantes na atividade que performam, e sobre como têm clientes importantes, tudo pra fazer você se sentir importante no fundinho do seu coração, como parte de alguma coisa importante, mesmo que você não ganhe nem um terço por hora do que aquela pessoa na sua frente. Mesmo que muitas vezes você vai ter que trabalhar usando sapatos cuja sola já descolou (parcialmente pela porcaria do material, parcialmente por tanto andar), mesmo que você muita vezes acabe encalhado em setores de eventos que nem mesmo tem aquecimento – eu sei, parece absurdo, mas aqui é crucial – você se sente parte do funcionamento tranquilo de algo maior. Então, quando no meu treinamento de garçonete, em dezembro, me disseram que eu estaria trabalhando muitas vezes pra pessoas importantes, ou em lugares icônicos e mimimi, eu imaginei que isso não chegaria a acontecer comigo porque só ia trabalhar seis meses.

Acabou que não, e mesmo sendo iniciante, já estive em alguns lugares de certo prestígio, reconhecimento, fama, sei lá, chame o que quiser. Lugares que você não precisa dizer perto de qual estação que é. Tipo Westminster Abbey, é, issaí. Mas por causa de ontem, a figura que mais me intrigou foi a do manager.

Eu não queria usar o termo em inglês, e veja bem, não quero usá-lo aqui por pretensão. É só que, muitas vezes, equivalentes textuais de tradução são carregados de outros significados. Então não dá pra chamar de chefe – porque pelo menos eu quando digo chefe penso no dono da merda toda – e não dá pra chamar de, erm, administrador, porque essa palavra em português tem outra conotação. Pra resumir, quando você está na base da cadeia alimentar da área de hospitalidade, o manager é o cara com quem você fala. Ele é quem vai dizer qual a sua função aquela noite, o que pode e o que não pode. O manager está alto o suficiente pra ter respeito por todas as gradações de organizadores e baixo o suficiente para que a gente possa falar com ele diretamente.

Como quase todo dia que eu trabalho, conheço um manager diferente, em dois meses deu pra perceber os dois extremos. Um extremamente companheiro, raríssimo, procura eliminar a distância hierárquica entre ele e você. Te dá liberdade de fazer piadinhas, enquanto o evento não começa pergunta da sua vida, talvez até de onde você é. No fim do evento come as sobras dos canapés com a gente, passa pra galera as garrafas de vinho que foram abertas e iriam pro ralo de qualquer jeito. Tem um particularmente que abriu uma garrafa de prosecco e adora ficar batendo papo sobre religião – ateu – , ou música – eletrônica – ou sobre diferentes tipos de vinho. Mais importante do que escutar as nossas sugestões, ele se mostra disposto a ouvi-las, o que não acontece com tanta frequência.

Bom, com essa descrição já dá pra imaginar o extremo oposto; quando você chega, ele te olha de cima a baixo, diz que seu sapato não tá brilhando e que você esqueceu de tirar os brincos. Geralmente são a personificação do estresse. Alguns pra mim são tão caricatas que você se percebe espiando eles pelo canto do olho procurando qualquer sinal de humanidade. Essa semana trabalhei pra um que só faltou matar um cara que pediu pra não ficar no caixa, e sim lidando com o estoque num jogo de futebol. Sério. Ele começou a gritar na frente da gente, perguntando por que o cara queria trocar e se ele não desconfiava que muita gente tinha planejado aquilo pra ele sair pedindo pra mudar no último instante. Me considerei feliz por ele ter fingido que eu era invisível, até porque eu era a única mulher ali, e confesso que por isso acabei me extra esforçando – a atmosfera não estava muito positiva. Ah, e esses caras sempre tem um radinho com fone de ouvido, pregado na calça, então do nada faz um RRRR e ele começa a falar sozinho muito rápido.

Ainda entre os estressados, tem os que fingem fazer piadas. Mas piada de manager estressado é sempre variação do mesmo tema. “E esse cabelo mal amarrado, hein?hahahaha brincadeira”. “E essas mãos no bolsos, tá achando que é caubói?hahahah”, com aquela risadinha que ecoa no fundo da sua orelha, te trazendo o verdadeiro significado da piadinha. “Estou te lembrando que mando em você, mas olha só como eu sou bem humorado!”

Algo que todos eles têm em comum, estressados ou não, é que mais de uma vez por dia eu percebo os managers manageando gente sobre a qual eles não têm poder. Acho que é o hábito. Muitas vezes é engraçado, você só ri do estresse da pessoa, ou da mania, mas ontem teve um incidente que me deixou muito envergonhada do meu manager e me fez pensar um pouco mais afundo sobre essa posição intermediária deles na empresa.

O evento no qual eu trabalhei ontem acabou às duas da manhã e era no meio do nada, o que resultou na companhia nos dando um táxi. Seis pessoas moravam bem mais ou menos na mesma área, então fomos colocados no mesmo carro. Ouvimos que a viagem ia ficar 75 libras. O manager, por coincidência geográfica, ficou no meu táxi. Acontece que o motorista era mais perdido que cego em tiroteio, falava um inglês muito ruim e ainda por cima tinha um bafo que eu conseguia sentir do banco de trás. Percebi que aqui em Londres eles podem colocar qualquer um pra dirigir táxi, porque o GPS fala exatamente o que ele tem que fazer pra chegar a todos os lugares, então acabou aquela idéia minha dos taxistas de BH que conhecem a cidade onde estão dirigindo.

Bem, como o cara deu bem umas duas voltas no bairro de Greenwich – estávamos no norte, fomos parar no sul, e quando vimos, tinha placa pro lugar do evento na pista de novo – o manager foi ficando nervoso porque primeiro o taxista tentou convencer a gente de que o táxi ia na verdade custar 80. Já de cara o manager: “eu reservei 75. Vocês taxistas de madrugada tentam sempre se aproveitar. Eu vou ligar na sua agência e dizer pra eles que vou pagar 75. Qual o número da sua agência?”

Eu e meus outros três colegas prendemos a respiração, mas era só o começo; deixamos a primeira em casa, a segunda, a terceira; quando era finalmente a vez do meu endereço ir pro GPS, eis que o manager tem um rompante de ódio: “olha aqui, você vai fazer o que eu tô dizendo. pode colocar o meu cep aí e não fale mais comigo, que eu não aguento mais esse bafo, vê se escova os dentes, pelamor”.

Congelei no meu banco de trás. O meu último colega fez o favor de inventar q morava naquele pedaço pra descer logo e eu fui no trem da alegria até o endereço do manager, chocada com o tratamento que ele estava dando ao taxista, que, apesar de fedido e meio incompetente, estava só tentando fazer o trabalho dele, e em nenhum momento encorajou o manager a falar com ele naquele tom de voz. Se a gente entende o tanto que isso é uma quebra de, sei lá, respeito e costume social, imagina por aqui, onde todo mundo é duro e apegado a essas regras distantes de tratamento pessoal.

Quando o taxista saiu pra abrir a porta pro último dos meus colegas, o manager soltou um “odeio esse cara”. Eu, que já tava cansada daquela atmosfera, respirei fundo, e falei, em português (pois eis que o manager dessa noite era brasileiro): “você acha que isso era realmente necessário?” e fechei o olho, esperando ele me destruir, mas sabe! Tem horas que não dá. Que você tem que correr o risco e se posicionar. Pra minha surpresa, ele não disse nada. O taxista voltou, sentou, continuou dirigindo. Quando chegamos no endereço do manager, ele usou “por favor” e “com licença” pra dizer qual era a casa dele certinha. Não sei se ele tinha usado a última MEIA HORA em silêncio no táxi pra se acalmar ou se eu realmente o chamei à razão, mas pro meu próprio conforto gosto de pensar que ele me ouviu, seja verdade ou não.

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Wikileaks e a informação como instrumento de mudança

Já fazia uns dias que eu ouvia falar disso em alguns lugares, alguns tweets mencionando… Assisti um vídeo do TheAmazingAtheist falando sobre como os americanos frouxos tão querendo chamar o que aconteceu no WikiLeaks como infoterrorismo (‘afinal de contas, terrorismo ainda significa alguma coisa a essa altura do campeonato?’, ele pergunta). Mas eis que ontem um amigo meu aqui me pergunta na mesa assim o que nós achávamos do Wikileaks. Bom, no meu desespero que construir uma opinião, fui ler umas coisas.

Algo que eu recomendo enormemente é a entrevista com o próprio Julian Assange, o dono do site, hospedada em outro site sensacional que tem o objetivo de divulgar opiniões e disseminar um debate maduro sobre diversos assuntos globais. Assistam, é extremamente recomendado!

Entrevista Julian Assange

Depois de ver a entrevista, fiquei positivamente impressionada com o trabalho do homem e comecei a me perguntar por que exatamente as pessoas encaram a atividade dele como uma coisa perigosa para a sociedade. A Folha de São Paulo já divulga notícias nas quais Assange é considerado o inimigo número dois dos Estados Unidos.

Vamos comparar o inimigo número um com o número dois?

Bin Laden é o líder simbólico de uma rede terrorista.

Assange é o dono factual de um website.

Bin Laden tem como objetivo destruir ‘os infiéis’, o que quer basicamente dizer qualquer pessoa que não compartilhe os seus valores.

Assange tem como objetivo disseminar o máximo de informações possível para o maior número possível de pessoas.

Bin Laden enxerga nos Estados Unidos a personificação do mal, e por isso o país seria seu principal alvo.

Assange recentemente focou seus esforços em desmascarar as relações dos Estados Unidos com alguns países do mundo; li que alguns dos primeiros colaboradores abandonaram o projeto porque dizem que ele teria se voltado demais para o ataque aos Estados Unidos e se esquecido dos objetivos originais do projeto.

Bin Laden é procurado por arquitetar o atentado ao World Trade Center de 2001, que matou milhares de pessoas, traumatizou uma nação e marcou tragicamente o começo do século XXI.

Assange é procurado por divulgar informações governamentais que eram sigilosas e comprometem grandemente os governos responsáveis por essas informações. Como dá pra ver na entrevista, isso aconteceu principalmente no Quênia, onde ele na verdade conseguiu virar a balança de uma eleição.

Eu não sei vocês, mas pra mim os Estados Unidos tão com dificuldade em manter uma coerência quando escolhe seus procurados mais procurados.

Antes que você pergunte, não, eu não encontrei nada na WikiLeaks que falasse do Brasil. Não se sabe se porque as informações ainda não foram vazadas, ou (improvável) porque não existam. O mais perto que chega é um medinho americano – de novo! – de existirem facções terroristas escondidas na tríplice fronteira de Brasil, Argentina e Paraguai. ADENDO: Agora que procurei de novo achei coisas sobre o Brasil, mas é tudo uma chatice.

Eu acho justificável, é claro, que o governo americano fique preocupado. Afinal, a merda deles tá no ventilador e a gente sabe que eles são rápidos e diligentes na fabricação de merda. O vídeo dos soldados atirando nos civis em plena rua e achando graça é no mínimo doloroso de ver, e ultrajante; foi como o escândalo começou, afinal. Agora, o que eu não acho nem um pouco justificável é que os cidadãos americanos se sintam ultrajados. Os últimos meses tem sido, hm, delicados lá, a gente já sabe. Tomar umas pegadas nas partes ou passar pelado num scanner pra andar de avião não é seguramente uma atividade relaxante. Mas eu acho que ao invés de se preocuparem com um australiano revelando os tais dos “segredos nacionais”, por que diabos eles não estão focando no conteúdo desses segredos? Acho que poucas coisas são tão vergonhosas quanto ter uma prova assim concreta dos seus soldados agindo como monstros. Tá que soldados já não são seres humanos exemplares, mas vocês entendem que estamos diante dum exemplo extremo.

Como, sei lá, habitante desse planeta, eu fico a princípio bem puta de ver os Estados Unidos mais uma vez agindo como dono da porra toda; emendar as duas Coréias de novo? De boa, caboclo, cuida do seu país! Acho impressionante como eles acham tempo pra dar pitaco na estrutura de uma nação do outro lado do mundo sentado em cima do próprio rabo. E mesmo quando dão pitaco, não é pra derrubar um ditador filho da puta igual o cidadão lá na Coréia do Norte, que fala pra galerê que é filho de deus e que o pai dele criou o mundo e todas as coisas nele. Não é pra desarmar o Irã, como a Arábia Saudita pede desesperadamente. É pra… sei lá. Ser o neto da puta, que é duas vezes filhadaputagem.

Eu coloquei no título do post “informação como instrumento de mudança”. É. A verdade é que a gente sempre soube do modo como os EUA lidam com a sua política externa, isso não foi novidade. A gente sabe que os árabes querem se explodir mutuamente há pelo menos uns 100 anos. Por outro lado, especular é uma coisa, vê-la provada com documentos oficiais é outra. Acho que se isso não motiva um mínimo de consciência a respeito do modo como os governos se relacionam, a gente merece tomar no cú dos Estados Unidos e de outras organizações que só querem nos enrabar. Se pelo menos um projeto de arriscar a vida como WikiLeaks não causa debate, não causa um ínfimo abrir de olhos, a gente está é sendo condescendente.

Não me restam muitas ideologias ultimamente. Tem muita coisa na qual eu deixei de acreditar. Mas eu ainda não tive provas contra o poder de mudança da informação, muito pelo contrário. E uma última vez sobre os dois mais procurados pelos EUA, muitas vezes penso comigo mesma que existem leis e leis. Tem lei contra matar milhares de pessoas, e também tem lei contra vazar informações secretas. Simplesmente não dá pra colocar as duas no mesmo saco, foi mal.

 

Quem é a piada: o Tiririca ou você?

O assunto é recorrente, eu sei. Mas acho que tem merda demais jogada no ventilador pra eu não tentar me orientar escrevendo aqui.

Nas eleições desse ano, vislumbramos de novo o mesmo cenário de basicamente todas as eleições: todos os candidatos, a todos os cargos, são escolhas lamentáveis pra se votar. Os defeitos deles passam pela mais variada gama lexical.

Que os políticos se divertem ganhando votos nossos com atitudes como essas não é novidade:

O que pra mim é novidade, mais do que nos outros anos, é o apoio massivo e inexplicável que esses candidatos acabam ganhando. Eu ouvi uma variedade de comentários acerca, por exemplo, do candidato mais famoso, o Tiririca:

-Vou votar nele pra saber o que faz, afinal, um deputado federal.

MEU FILHO, NA ERA DO GOOGLE VOCÊ VAI VOTAR NUM IMBECIL PRA SABER SOBRE O TRABALHO DELE? EM PLENA ERA DO GOOGLE????

-Vou votar nele pra protestar, pra ver se as pessoas percebem que os humoristas (BURROS) tomam o lugar dos políticos. Revoluçãããããão! *gritos histéricos*

Já que mencionei as eras acima, gostaria de apontar outra característica dessa era nossa: todo mundo quer protestar do jeito mais sedentário possível. A gente faz uma pesquisa de opinião da internet pra dizer depois que a nossa participação motivou uma empresa a plantar não sei quantas árvores. A gente coloca nosso nome e identidade nos abaixo-assinados virtuais da vida, passando por e-mail. E o cúmulo: a gente tuita um tema até ele chegar aos Trending Topics no Twitter. De novo, QUE MERDA É ESSA?

Não tô te dizendo pra protestar com tochas incendiárias, palavras de ordem e pulão do bandejão, esporte favorito dos comunistas retrógrados da UFMG. Quer uma demonstração do que é um protesto organizado, não violento e presente? Olha aqui o movimento Praça BH. Pelo amor, postar #contraacorrupção não manda o Maluf pra cadeia se chegar no Trending Topics Worldwide!

A próxima foi de verdade.

-Meu voto é do Tiririca, pior que tá num fica, e vou votar nulo em tudo o mais, porque ninguém presta e porque eu detesto política.

Esse tipo de frase de mentalidade eu-leio-a-veja-e-daí me faz querer dar um tiro na cabeça e me mudar pra Terra Média, onde as coisas são resolvidas do jeito certo: jornadas por um anel envolvendo magos e anões e hobbits.

Dois vídeos de dois vlogueiros de quem eu gosto já abarcaram os meus principais argumentos: o Felipe Neto e o Francis Leech, ambos já citados aqui no meu post sobre brigas e vida alheia.

O voto só não tem valor se você o trata como um direito sem valor. O voto só não presta se você vota no Tiririca, se vota nulo, se vota em branco. Não pense que você não tem culpa, por exemplo, do Mensalão, (lembra?) só porque VOCÊ não votou naqueles caras. Porque votou em branco, nulo, ou porque votou no Ey-Ey-Eymael, o democrata cristão de zueira. Quem fez a merda foram eles sim, mas a população insistentemente treinada pra não gostar de política continua abrindo mão de um direito secular. A galera da classe média não quer votar porque é revoltizinha. Você que é pai ou mãe de classe média, que trabalhou tanto pra educar o seu filho numa escola particular, deveria pedir o dinheiro de todas as aulas de História de volta. Os modos de governo sofreram drásticas mudanças nos últimos anos pra abarcar a democracia. Não digo que democracia é necessariamente a melhor maneira, mas é a melhor idéia que deu pra concretizar até agora. Não faz nem 60 que mulheres podem votar no Brasil. Desde os velhos tempos nas aulas sobre civilizações antigas, a gente via que quem votava era o HOMEM, maior de 21 anos, dono de terras. Não foi fácil fazer com que qualquer pessoa pudesse votar. É uma arma poderosa demais pra você jogar fora com o Tiririca, o Romário ou a Mulher Pera.

Eu sei, você continua reclamando que não tem em quem votar. Será que não tem mesmo? A cada mil palavras da candidata do PSTU ao governo de Minas, Vanessa Portugal, novecentas são babaquices vermelhas revolucionárias, mas uma coisa é verdade: nós não temos acesso igual a todas as propostas de governo. E imagina só, nem é necessário fazer um movimento bem estruturado e presente. De novo, o Google a seu favor! Toda a informação que você precisa está aí, pra quem busca.

Cuidado com outra armadilha, já apontada pelo Francis: ninguém mais tem pressa em falar do plano de governo. De repente todo mundo nasceu no interior, trabalhou na adolescência, lutou na ditadura, tralalalalalala. Busque informações e opiniões concretas. Algumas perguntas pra mim, pessoalmente, são vitais: como o candidato pretende se movimentar pra auxiliar a educação? E com relação à inclusão das pessoas na universidade, número ou qualidade, como harmonizar os dois? E os direitos gays, e a lei do aborto, cadê?

Votar não dói não.

Só pra concluir: é claro que o voto forçado no Brasil é triste. Mas essa configuração só favorece a vida de quem acha que um trabalho de administração de um fucking PAÍS é brincadeira, veja o que pode acontecer se mesmo depois disso tudo você ainda vê o Tiririca e os amigos dele como opções viáveis de voto: Aqui.

Sobre se expor na internet

Esse post foi idealizado há muito tempo, antes mesmo do Videopost. Sendo eu alguém que passa um tempo preocupantemente alto online, é de se esperar que volta e meia eu tome uns sustos com pessoas sabendo de mim bem mais do que eu gostaria de soubessem.

Por exemplo, não tem coisa mais fácil do que descobrir se eu te bloqueei no msn – o que eu faço sem dó, e provavelmente nunca mais desbloqueio – , porque eu nunca tenho a inteligência de bloquear a pessoa em todas as redes sociais que eu compartilho com a pessoa. Ou seja, se eu não apareço no msn mas apareço no orkut, facebook, pode ver.

Claro que isso não me chateia exatamente, porque o fato de eu bloquear a pessoa é só um jeito de eu dizer que não gosto de conversar com ele ou com ela, e nunca há nada a perder – só a ganhar, na verdade – em alguém com quem você não gosta de conversar saber disso. Afinal, na pior das hipóteses… a pessoa vai parar de falar com você! E não era esse o objetivo quando você a bloqueou? … Eu sei, você tem vergonha de mostrar que não gosta de alguém. Sei que a maioria das pessoas não faz isso. Mas os benefícios desse tipo de pequena honestidade são muito melhores do que a chatice de deixar aquela pessoa forçar presença na sua vida.

De qualquer maneira, o assunto principal não era esse – eu sempre faço isso…

Tenho orkut, formspring (não uso), twitter, facebook, flickr, msn, gmail, youtube, etc, etc etc… E já mais de uma vez, aconteceu de um cara com quem eu posso ter ficado em uma festa descobrir basicamente tudo sobre mim só com meu nome e meu primeiro sobrenome. Assusta um pouco no começo. Dá pra ler toda e qualquer opinião que eu poste aqui, dá pra ver meu rosto no album destrancado do meu orkut, não sei o que dá pra ver no facebook, porque eu nunca aprendi a mexer direito naquilo. Enfim. Isso assusta um pouco? Sim. É um risco que a gente corre quando participa de comunidades virtuais.

Uma vez vi uma entrevista de um cara no Roda Viva sobre isso: sobre a exposição na internet, sobre a ascenção (com sc e cedilha!haha) das redes sociais como uma forma de ter dinheiro. A gente enxergou uma tendência clara no orkut quando ele surgiu, acho que em 2004. Era estupidamente exclusivo, só pra convidados, etc, e ter um convite do orkut era uma grande honra. Isso foi revisitado de leve no começo do novo orkut, mas a certa altura do campeonato, claro, todos já têm acesso (sim, eu me nego a tirar o circunflexo do tem plural). Depois que essas coisas foram escancaradas para o público, tivemos uma correria sem lei pra se mostrar como o mais interessante, o mais isso, o mais aquilo.

Foi quando entraram em cena os filtros de segurança: ninguém vê seu scrapbook, ninguém vê suas fotos, mimimi mimimi mimimi. A gente ainda tá numa fase pra mim faz tão pouco sentido quanto mostrar tudo nos seus perfis sociais: não mostrar nada. Mais de uma vez pra mim foi impossível dizer se eu conhecia a pessoa naquela página, tão poucas eram as informações. Tem gente pra quem eu não consigo mandar scrap de jeito nenhum – o orkut cisma que tudo é spam, por mais que eu digite cuidadosamente a mensagem. Não dou conta de quem tranca tweets, por exemplo, acho besta; o propósito não é justamente divulgar pequenas frases de você, dos seus pensamentos, do seu dia?

É aí que entra o argumento pra um futuro do compatilhamento de informações na internet, de acordo com o cara do Roda Vida cujo nome eu não lembro: uma hora vai chegar em que terá que haver uma troca de informações – você usufrurá de alguns benefícios – músicas, filmes, conteúdos – conforme você permitir que as pessoas e empresas alcancem informações sobre os seus gostos e hábitos online. É muita inocência achar que a internet é só um lugar de retirar. Esses usuários que sugam informações, músicas, contatos, sem nem mesmo serem identificados, tendem a passar por uma maior dificuldade em acessar conteúdo – já que para muitas empresas hoje, as informações disponíveis em redes sociais e coisas parecidas correspondem a uma aproximação muito mais bem sucedida do seu público.

É claro que isso que eu falei é um rascunho bem grosseiro do que ele disse. Aconselho que sigam o link acima e assistam, é muito enriquecedor.

meu gráfico claríssimo.De qualquer maneira, eu já tendo a achar que a exposição na internet só é tão complexa porque ela é uma superevolução da comunicação em massa. Antes você só recebia conteúdo pela tv, depois a gente passou a trocar mensagens pela internet, notícias, etc, por e-mails e outras mensagens diretas simplificadas. Com o surgimento das redes sociais, a coisa fica mais maluca, porque não satisfeita em ser uma via de mão dupla em produção de conteúdo – todo mundo pode fazer – sempre existem terceiros vendo e interagindo silenciosamente com o que você divulga. Um exemplo bem fácil: sua página de scrap. As mensagens ali são pra você, e as que você manda só pra pessoa, mas ali – e em todas as redes sociais – você está também fazendo aquilo pra uma plateía. Tudo que você faz é observado pelos seus outros contatos – isso quando você não interage com a pessoa X e Y só para todos os seus contatos TE VEREM interagindo com essas pessoas. Então toda a interação que é aparentemente bilateral está na realidade enclausurada no crivo de qualquer pessoa aleatória, talvez de nenhum interesse no assunto.

Outro exemplo que povoou as cabecinhas daqueles acompanhando a nova onda do YouTube, o vlog (aliás, agradeço aos mais de 300 inscritos no Videoblog da Belzinha, de verdade!): a comunidade online cresceu com a popularização do PC Siqueira, do Felipe Neto e outros vloggers. De repente todo mundo tem muitos views, todo mundo troca informações e conteúdos maravilhosamente, fizeram parcerias. Estava tudo cor de rosa demais, até o incidente entre dois vloggueiros que costumavam postar no mesmo canal. Pra quem quer a fofoca, leia aqui.

Achei muito surpreendente que tenha demorado esse tempo pra algo acontecer, mas acho compreensível. Exposição no youtube traz algo que as outras redes não trazem: ainda que editado, mixado, aquele na tela falando é você, seu rosto, seus tiques. Você mostra a cara mesmo. E em qualquer ambiente, quando você mostra a cara, está assumindo o risco de ser reprovado ou aprovado – ou solenemente ignorado, claro, o que é mais triste. Outra coisa que se forma é a sua persona pró-internet. Você expectador, não seja inocente em achar que você realmente conhece quem está ali falando no vlog. Não. Aquele é um lado, talvez até uma persona. O contato gerado ali é ilusório. Daí entra a possibilidade de acontecer um perigoso jogo de egos. O ego da sua persona virtual é alimentado pelos inscritos, pelos amigos, pelos comentários, pelo AdSense do Google. Por isso, gente, CUIDADO. Aquele que você assiste é uma parte de alguém que existe. Esses que comentam te adorando não te adoram merda nenhuma. Deu uma opinião? Você também detesta maconha e está de saco cheio de ter que fingir que tá de boa? Pois é, mostre o rosto, não tem nada errado com isso. Mas você assume riscos.

Sobre como eu virei antagonista da maconha

Eu sempre tive um histórico de certa indiferença a drogas ilícitas. Sou asmática, o que exclui a maioria das coisas de fumar, principalmente o cigarro comum. Gosto de beber coisas alcoólicas, especialmente cerveja, que na minha opinião é sinceramente saborosa e estimula conversas em mesas de buteco por aí.

Desde que entrei na faculdade, vi que muitos dos meus amigos fumam/fumavam maconha. E também descobri que ela tem muito mais apelidos e nomes do que é realmente necessário. Vai ser o nome maconha tem alguma carga negativa que faz eles se sentirem culpados. Aí tem jonfa, craw(não sei bem a grafia desse), umzinho, beck, ad infinitum. Pois bem, isso nunca fez muita diferença na minha vida. Não costumava condenar ninguém que fumasse maconha, seguindo o maravilhoso princípio “a vida é sua e com ela você faz o que quiser”. Sempre vi drogas e qualquer outro “desvio” de comportamento como um problema apenas quando isso prejudica a vida das pessoas. Sempre costumei até simpatizar com o cheiro e tal, e ainda na filosofia do se vira, eu sempre apoiei a legalização das drogas.

Bom, essa minha última opinião não mudou. Quer matar seus neurônios? Antes os seus que os meus, sabe? Pois é.

Fato é que acabou que eu nunca formei opinião sobre a mais popular droga entre os universitários, porque ela nunca tinha me afetado, até o dia em que me afetou. Começou no dia em que eu finalmente me dispus a provar a coisa, porque acho que certas experiências são que nem 3D: não dá pra falar mal de você não deu a cara a tapa, foi lá no cinema e colocou os óculos. Foi numa festa aí, os detalhes pra onde eu quero chegar aqui são irrelevantes. Problema que surgiu: falta de memória. EU NÃO CURTO PERDER MEMÓRIA. Não curto ficar no piloto automático. Gosto muito das minhas sinapses pra abrir mão delas só pra sentir minhas pernas mais leves, sentir o mundo mais engraçado quando ele não é. Não porque eu não confie nas coisas que eu posso fazer quando eu estou no piloto automático, mas porque eu NÃO gosto mesmo. Como é que a gente fala o motivo de um gosto? Não curto e ponto, eu libero endorfinas quando estou no controle – e estar no controle das ações do meu próprio corpo é legal e eu gosto. Resolvi que não provaria mais e no fim do estágio um achei que já tinha minha linda opinião meia boca formada sobre maconha.

Eu estava enganada. O meu sentimento se tornou antagonismo declarado num dia em que eu ia sair com uns amigos. Eles disseram assim: nós vamos ali fumar um e depois a gente vai lá. E eu: beleza, espero aqui, porque não gosto de ficar junto com vocês fumando. OK, lá foram eles, eu fiquei vendo bobagens no youtube.

Quarenta minutos se passaram, não tinha mais criatividade que me ajudasse a achar coisas na internet pra ver. Até pro FailBlog eu já tinha apelado. Sendo assim, peguei minha mochilinha, dei uma espiada, e lá estavam eles, ainda com jeito de que o “um” não estava nem perto de acabar. Fui embora. Fiquei puta dum tanto sem tamanho, mas não disse nada – porque o que eu teria pra dizer? Eu detesto DR de amizade ainda mais do que maconha. Mas observei que esse comportamento era na verdade um padrão, eu é que nunca tinha me dado conta. Tinha sempre o “um” antes da aula, no intervalo… e sei lá quantas vezes. Das outras vezes que me chamaram pra sair depois do “beck” eu fui embora e depois só via como no final não virou nada, só a maconha mesmo.

E é por esse motivo totalmente pessoal e não-generalizável que eu detesto maconha. Acho um atraso de vida, sinceramente, e ressalto, como eu gosto muito das minhas sinapses, não gosto da lerdeza subsequente à maconha. É algo que tem ficar sendo feito às escondidas, na graminha; não dá pra tentar na mesa do Cabral e acender um cigarro de maconha. E mesmo que desse, a pessoa estaria ocupada demais pra conversar. Também detesto o modo como os olhos ficam vermelhos. Detesto como o pessoal que fuma age como se tivessem uma visão mais clara do mundo do que quem não fuma, como se a onda trouxesse insights maravilhosos sobre a condição humana. Como se eu fosse quadrada ou reprimida por não gostar.

Esse post é mais difícil de postar do que quase todos os outros, porque esses amigos que eu amo tanto devem ficar chateados. Essa opinião minha tá martelando há muito tempo e eu queria que eles – e qualquer um que fuma maconha – entendam que a ofensa não é pessoal. Não acho meus amigos X, Y e Z mais burros porque fumam maconha. Quero dizer que EU não gosto porque EU tenho essas impressões aqui especificadas. Às vezes, eu acredito que a gente tem que encarar as nossas opiniões. Não adianta se relacionar se for pra fingir que acha tudo bonito. Concordo quando o PC Siqueira fala das pessoas que se ofendem quando você fala mal de alguma coisa, porque elas entendem essa coisa como sua identidade. Galera, isso não existe. Eu amo cada um dos meus amigos pelas pessoas que são. E por mais honesta que eu tente ser comigo mesma e com as pessoas à minha volta, não posso esquecer que posso estar errada, a qualquer momento.

Bom, é isso.

Pra descontrair, esse papo todo me fez lembrar da Punky, A Levada da Breca – cês lembram? Tinha aquele episódio que as Chiqueletes tentam convencer a Punky e a Kátia a fumar maconha, e termina naquela coisa brega de “Aprenda a dizer não”. Hhaahahaha. Momento nostalgia!!!

Nota sobre vazio

Eu twittei assim: Luto: dona Hilda, a velhinha do outro lado da rua. Desses golpes que gritam na cara da gente: “Por que você ainda tá vivo, afinal?”

Depois de alguns meses, acho que aprendi a me expressar bem em 140 caracteres.

A ida da dona Hilda me fez perceber como eu meio que não existo mais pra muita gente, especialmente pros meus pais, por morar tão longe. Eu queria estar lá hoje, e amanhã, mas não vou estar. Assim como não estava quando foi a minha vó.

Ficou com cara de fim de capítulo, esse dia.

Sobre ser mulherzinha

No ano novo, eu fiz uma promessa: escutar as encheções da minha mãe e ser menos relaxada com a minha aparência. A minha pouca vaidade – ou a ausência total dela, como queiram preferir – já tinha feito todas as minhas coleguinhas acharem que eu era lésbica desde a sexta série até… bem, eu ainda não sei se elas hoje acreditam que eu sou hetero.

meu esmalte feliz ^^

Isso não vem ao caso; fato é que eu tenho ÓDIO  de salão de beleza. Ao longo do tempo, aprendi a fazer minhas unhas. Só as minhas unhas, inclusive. Pintar de trás pra frente é quase impossível pra mim.

Ao longo do tempo, desenvolvi um apego ao meu cabelo, apesar de raramente fazer qualquer coisa ousada nele. Maquiagem era quase palavrão na minha vida; sempre usei no máximo uma vez a cada dois meses. A promessa no ano novo fez o mundo mudar: todos os dias – exceto quando estou aqui na roça – passo alguma maquiagem, sombra, base, rímel, etc.

Mas a verdade é uma só: por mais eu faça bons progressos, permaneço macho. A verdade caiu em mim hoje, quando minha mãe e eu resolvemos fazer umas compras. Ir nessas Pernambucanas da vida, farmácia especializada em tintura de cabelo… Concluo, já no fim do dia, que só posso ter uma falha genética.

Sinceramente: quantas cores de verdade existem pra cabelo? Qual é, afinal, a diferença entre o marrom dourado e o chocolate? E qual a diferença do café intenso pro castanho claro? QUANTAS CORES DE CABELO DIFERENTES TEM DE VERDADE NESSA IMAGEM?? ->

Pode rir, mas isso pra mim é sério. Tudo que mulherzinhas fazem, exceto fofocar, pra mim é um eterno sofrimento. Usar salto alto, depilação… Mas o que mais me choca é a abrangência do expectro de cores feminino; é de desafiar qualquer designer. Como elas podem ver 27 tons entre castanho claro e castanho médio?

Depois de derrotada pela minha mãe, escolhi um “tonalizante” loiro escuro – mas o cabelo na caixinha era CASTANHO – sob a alegação de que ele, claro, não vai pegar (porque nenhuma cor pega) mas vai dar um ótimo brilho. ¬¬

Passei então pelos esmaltes, depois pela maquiagem. Fiquei lembrando dum tanto de roupa que eu vi hoje nas lojas de Pirassununga… Sério mesmo, essa variedade é só ilusória. Não é possível! Não estamos escolhendo realmente uma cor de cabelo, e sim um tom com sobretom e outro bilho invisível, todos já pelo ralo em um mês. Eu não sei lidar bem com isso. Fato.

“]meu vestido novo

meu vestido novo =

Roupa, cabelo, unha, maquiagem, sapato, bolsa, acessório. É de enlouquecer qualquer um! É impossível balancear tudo, alguém me ajuda! Quero dizer, até que ponto TANTA personalização é realmente uma espécie de construção de identidade? Como é que o fato de eu usar sempre esmaltes roxos, azuis, laranjas e ocasionalmente vermelhos me define?

E poxa, qual é diabos a diferença entre o marrom dourado e o chocolate????